Sim, não, talvez… quem sabe …

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos

 

         Sai hoje de casa resolvido! Coloco fim a toda essa confusão. Não sabia ao certo do que se tratava, mas entendia que durante a caminhada pelas ruas e as depois bordas desta cidade, com certeza chegaria ao final da jornada com tudo solucionado ou pelo menos bem encaminhado. Feito trabalhador das zonas rurais deste país, peguei a minha garrafa térmica repleta de água até a boca, calçando tênis confortável, pois andar com o sapato apertando o pé é a mesma coisa que reclamar de político corrupto, mas no dia da votação, escolher o mesmo sujeito que dias atrás, de forma bem preconceituosa, como lhe é característico, se dirigiu de maneira etnocêntrica, não somente a tu, meu caro amigo, mas a todos aqueles que, de acordo com um compositor cearense, desceu do Norte e do Nordeste, vindo para o Sul e Sudeste em busca de melhores condições de vida. Sendo assim ele não mente só mente a tu, mas à própria mentira.

Pois bem! No meu périplo, passei por uma construção e, fitando a sua imponência, fiquei pensando porque um determinado compositor sempre usava em suas letras o termo oitavo andar. Melhor não ficar ali parado olhando, melhor é seguir em frente com as minhas confabulações no afã de equacionar todas as minhas querelas, como se isso fosse possível, num país em que o eleitor se torna presa fácil de políticos malandros, espertalhões e velhacos. A isca é a comida e a miséria estomacal é a situação mais vexatória que um sujeito pode passar. Com fome, a razão não tem espaço e é assim que o postulante a político observa a sua vítima eleitoral. Mas deixemos essas questões políticas para outro momento, meu caro leitor, pois agora quero que tu me acompanhes durante esta caminhada até o ponto das soluções de minhas querelas.

Enquanto observava aquela construção imponente, um operário perguntou se o que havia dentro de minha garrafa era água. Ao ouvir a resposta afirmativa, me pediu um gole. Eu, tentando parecer ser um ser de coração bom, não apenas parecer, mas sê-lo de fato – não sei se consigo algum dia -, lhe disse que podia ficar com o recipiente e o seu conteúdo. Sai em direção ao local em que deveria equacionar as minhas querelas. Mas no trajeto, resolvi entrar num café que sempre tive a curiosidade de conhecer, mas o dinheiro nunca alcançava a minha curiosidade, ou seja, o “bolso” e o desejo nunca andavam juntos, porém, naquele momento houve uma sinergia interessante, quase que como um milagre, mas como não sou lá crente em multiplicação de pães, sem que por trás do mesmo haja muito trabalho, passei a mão pelo volume que a carteira fazia no bolso traseiro da calça e avancei o sinal, sabendo que não seria multado pelos minhas finanças.

Ao me sentar, a atendente chegou e soltou logo, de chofre, a pergunta: “- O de sempre senhor”. Como o de sempre, coloquei-me a pensar. Nunca entrei naquele espaço, apenas ficava olhando pela vitrine enquanto passava pela calçada.

– Como assim, o de sempre? Nunca entrei aqui antes. Creio que a senhorita está me confundindo com alguém. E olha que eu tenho certeza de que sou o único nessa galáxia. Você pode me procurar em qualquer outro canto deste mundo e só irá me encontrar aqui e agora.

A garçonete apresentando certo desconforto, pediu as tradicionais desculpas de praxe, reformulando a interpelação: “- O que deseja para essa certa ensolarada”. Fiquei mais feliz com toda a presteza da atendente. “- Um café duplo sem açúcar e uma água em temperatura ambiente”.

Pela cara que a moça fez, ficou evidente que ela achou que eu devia ter descido ainda a pouco de minha nave espacial. “Como assim, café sem açúcar e água em temperatura ambienta”, pode ter pensado ou não, mas também tanto faz, pois sei que ela não me perguntou isso, contudo seus neurônios ficaram trombando um com os outros em busca da resposta.

Enquanto a garçonete se apressava em atender o meu pedido e lógico confabular com a colega de trabalho sobre o ser para lá de estranho que havia adentrado ao estabelecimento, bem como a confusão que fez achando-me outra pessoa que não eu mesmo, abri um livro que sempre trago dentro da algibeira. Não é um objeto grande, mas aqueles que chamam de bolso para facilitar o traslado das palavras por aqueles que pretendem conhecer as manias dos escritores, como por exemplo, aqueles que sempre começarem a frase usando o mesmo artigo, como num vício de linguagem, uma marca d’água de quem escreve. “Será que tenho esse TOC linguístico também, meus caros leitores”, perguntei mentalmente. Entretanto, como sei que quem é não sabe nada do que se é, pois, o ato de ser reflete sempre no outro, de modo que nunca nos vemos por completo, apenas o reflexo refletido no espelho e na sociedade, de modo que o filósofo alemão Kant tinha razão ao afirmar que o homem nunca é, será sempre um vir a ser estampado na ideia do café sem açúcar que eu pedi.

Provavelmente a garçonete nunca tomou café sem açúcar e se o fez foi de maneira desavisada e sentiu o amargor do líquido e entendeu que ele era mais forte do que seus insucessos materiais e emocionais. Não vi na mão dela nenhuma aliança, me fazendo presumir que ainda sonha com o homem ou pessoa perfeita e uma vida também, porém, cheia de glamour e nada de simplicidade.

Meu pedido chegou e com ele os olhares de soslaio, talvez para saber se o meu paladar era assim mesmo ou queria fazer tipo. Sorvi um gole grande do café e estava do jeito que gosto: forte e amargo. Despejei meia garrafa de água num copo e devorei o líquido, assim como as palavras que desfilavam pelas páginas do livro.

Como estava sentado em minha mesa de costume, fiquei olhando pelo vidro a vida passando rapidamente no exterior do estabelecimento, momento em que entra um casal que conversava. Não sou dado a ouvir conversa alheia, mas uma coisa me chamou a atenção na dupla, principalmente quando a mulher disse ao homem: “- Todos os dias você quer ter razão”.

Ele não disse absolutamente nada ou pelo menos meus ouvidos não escutaram coisa alguma, mas a minha cabeça, ou melhor, meu cérebro sentou-se junto deles à cata da informação que motivou a mulher a sentenciar aquilo, isto é, que o homem queria ter razão todos os dias. Claro que no meu canto ali, enquanto encerrava o meu café e minha água, pensei que a discussão não era nova. O fato motivador sim, mas o sentido não. Então, fiquei lá e a curiosidade me fez pedir outro café, para espanto da garçonete. “Quem beberia dois cafés fortes e sem açúcar numa tarde quente como aquela”, deveria estar pensando a atendente, enquanto eu ficava tentando compreender a fala, ou melhor, sentença da moça que, ao contrário da garçonete que me atendia, trazia na mão esquerda uma aliança, indicando ser esposa do seu ouvinte.

Para não parecer indiscreto, meti a cara no livro, ou melhor, nos versos do poeta alemão Goethe, enquanto os nubentes continuavam suas conversas e eu, entre uma rima e outra desejava entender, porque em minha estante o primeiro r0mance do escritor francês Marcel Proust estava lá, fazia 15 anos para a sua leitura ser sequenciada e nada d’eu conseguir enfrentar o primeiro volume de Em busca do tempo perdido.

“Deve ser isso”, pensei, entre uma golada e outra do café. “O que me aborrece não é o passado, mas sim o futuro. Entendo que não somente eu, mas o resto da humanidade”, imaginei lá com os meus neurônios já bem despertos pela quantidade de cafeína existente nas duas xícaras grande da bebida que havia ingerido naquela tarde primaveril.

Deixei o meu assento, caminhando em direção ao caixa quando escutei o homem dizendo a mulher que não era desejo dele estar sempre com a razão, mas era o hábito que a sociedade lhe impunha. “- E quem disse que é a sociedade que faz isso”, perguntou a esposa, respondendo antes mesmo que o marido disse alguma: “- Ou você tem autonomia ou não merece se quer um quantum significativo do meu coração. Então, ou você me apresente a pessoa que eu sei existir ainda dentro de ti ou pode pegar essa aliança e enfiar no rabo”.

Paguei a conta e fui me embora pensando como o esposo faria para colocar a aliança no cu. Será que derreteria o objeto, fazendo um piercing e instalando no orifício traseiro e aí ninguém poderia vê-lo ou tentaria achar no fundo do seu íntimo aquela pessoa que a esposa esperava que ele fosse. Não sei ao certo, meus caros leitores, mas valeu ouvir a conversa dos dois. “Será que agora tenho coragem de continuar lendo Proust ou devo pulá-lo para consumir as linhas do romance Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister”, me interrogava. A resposta pode ser um sim, um não ou quem sabe um talvez, mas vá lá, tomei o caminho de volta para casa.

Gilberto de Barbosa dos Santos, licenciado, bacharel e mestre em Ciências Sociais, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com. www.criticapontual.com.br.

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