Correnteza

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos

            Não sei para onde o rio corre! Só sei que suas águas percorrem um caminho há muito definido. Também não sei ao certo quem foi o autor dessa demarcação. Talvez seja o tempo e a natureza, já que a onomatopeia do relógio é dada pelo homem e, mesmo que este, isto é, o indivíduo, tente delimitar as margens do rio em proveito próprio, não conseguirá realizar tal procedimento por muito tempo, pois enquanto a pessoa demarca a sua existência entre o nascer e o morrer, o orbe é eterno. Isso se for comparado à vida de um ser humano. Disso os povos originários já sabiam!

            Mas, vamos lá, caro leitor amigo, como já dizia um dos narradores mais emblemáticos do célebre escritor carioca Machado de Assis, mudemos, eu e tu, o foco desta nossa prosa ou pequena enunciação ou coisa parecida. Tomei a liberdade de torná-la real a partir desta escrita porque não devemos nos ocupar do destino da correnteza, quando o melhor a se fazer é compreender a jornada que a água se prontifica a realizar dentro das margens de um determinado traçado não humano. Embora, tenho por hábito a interpelação, o questionamento ficará para depois, quando tentarmos responder ou ampliar a quantidade de perguntas feitas durante o percurso da vida. Creio que aqui não cabe tal inquirição. Todavia, se porventura, durante essa pequena narrativa, aparecerem algumas admoestações, penso que seja possível encontrarmos as respostas ou não. Quem disse que tudo precisar seguir um fluxo humano?

            Já que a temática é a água e o sentido do seu percurso e, porque não o seu curso, me parece ser salutar voltarmos à Grécia Antiga, mais especificamente no que se convencionou chamar de período pré-socrático, no campo filosófico. É de lá que vem a tese, segundo a qual um homem não se banha duas vezes no mesmo rio. Isso se deve ao fato de que nem o ser humano e nem o rio são os mesmos no instante seguinte do viver. Quem afirmou isso, caso a minha memória não me fuja neste exato momento, foi Heráclito de Éfeso. Se o começo dessa enunciação teve como foco a água, creio que a partir de agora podemos mudar os rumos da conversa e enveredar pelos campos que nos levará ao ser que deseja ardentemente se tornar humano, isto é, pessoa.

            Embora esse ente físico, bípede, tenha disposição e condição de ser um ser racional e, desta forma, pelo menos, equilibrar as duas partes da balança existencial, ou seja, o lado emocional e o racional, ainda há muita água para passar debaixo da ponte, como diz um velho adágio. Não sei quem inventou essa observação, mas só sei que ela tem espaço aqui dentro das linhas que se seguem, justamente porque meu escopo e creio que seja o seu também, leitor amigo que me lê nesse exato momento, é o de entender a correnteza e não onde as águas, sejam bravias ou serena como sono de bebê recém-nascido, desaguarão. Se bem que o sentido da vida, para muitos de nós é sempre a preocupação com a própria finitude e, em virtude dessa constatação, busca-se sempre fugir dessa magna certeza, fazendo uso, de forma exacerbada, de elementos distintivos que, em sua maioria, está no campo do concreto dentro da materialização da vida por intermédio de penduricalhos e outras mercadorias que não têm como escopo a emancipação daqueles que a consomem.  

            Não desejo entrar nesse campo do concreto, do abstrato, do sublime, do existir a partir do ponto de vista de quem faz uso em demasia de tais materialidades. Meu escopo é tão somente levar-te, oh meu caro leitor, linhas com as quais possa passar horas agradáveis em sua companhia e fotografar o seu sorriso, enquanto caminha para o final dessa simples enunciação. Será que alcançarei o meu objetivo? Com a palavra, ou melhor, o pensamento, tu querido amigo que está comigo desde o início até esse quinto parágrafo e, quem sabe, permaneça em minha companhia mais algumas dezenas de linhas. O projeto para esse pequeno enredo era trazer uma pequena mensagem semelhante àquela que o náufrago coloca dentro duma garrafa, entretanto, sinto que estou me perdendo, sem achar um propósito coerente para te conduzir pelas mãos, enquanto o farol ameaça ficar verde para os automóveis e vermelho para nós, mortais bípedes que teimam em andar a pé, dispensando automóveis e outros veículos, inclusive aqueles de tração animal.

            Bom! Se cheguei até aqui, me parece que posso ir além, quem sabe umas duas ou três léguas, ou para ser mais moderno, uma trinca de quilômetros quadrados. Não faço a menor ideia do tamanho que seja isso, mas pouco importa, quando o mais interessante é observar a água enquanto ela corre para o seu destino natural: encontrar espaços maiores onde possa desaguar, isto é, o Oceano quando a chamada água doce se depara com a água do mar, transformando essa junção num imenso soro para pessoas desidratadas. O que tu achas, meu caro leitor, sobre o sabor das águas do oceano e do riacho se encontrando na grande epopeia chamada vida? Não vale dizer “não sei”; é preciso ousar, mesmo que seja um “não” seguido duma singela explicação: “- É só perguntar para a dupla que está se convergindo numa só unidade nessa grande viagem aquática, para não dizer oceânica.

            Se a água não é a mesma, como afirmou há muito tempo aquele pensador e prosador grego, e desta forma, o homem também, cabe aqui uma perguntinha básica: por quê? Se a interpelação for direcionada à água as chances de ficarmos sem resposta são grandes, ou quem sabe, ouvir dizer que isso é da natureza dela, portanto, é da sua condição não ser estática, mas sim dinâmica, mesmo que essa movimentação, possa ser, por vezes, barulhenta ou silenciosa. E o ser humano? O que o modifica ao longo da vida? Vontade de fazer isso ou é de sua condição não ficar parado feito postes de iluminação pública? A água se sabe suja, imprópria para o consumo humano, bem como se perder o seu oxigênio, se tornará apenas um corrimento de detritos e desejos humanos? Posto isto, meu caro leitor, quais são as qualidades inatas do ser bípede que não apenas repete, mas diz coisas com determinados sentidos a partir dos signos linguísticos utilizados pelo ser falante. Água emite sons, cujos significados são criados e compreendidos por nós e não por ela. Mas será que ela nos ouve ao ponto de mudar de rota apenas com o nosso brado? Não sei ao certo, mas duma coisa eu tenho bem claro, para entender tudo isso, eu e tu, caro amigo, deveríamos ser água, apesar de grande parte do nosso corpo ser composto por essa substância e, ainda assim, não sabemos direito sobre a sua movimentação, talvez porque estejamos todos preocupados com a chegada e não com o percurso. Fiquemos nós aqui com essas inquirições, na expectativa de que, num futuro próximo, encontremos as respostas, por hora, apreciemos, feitos os filósofos, as interpelações.

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos, licenciado, bacharel e mestre em Ciências Sociais, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Professor no ensino médio em Penápolis. e-mail:   gilcriticapontual@gmail.comd.gilberto20@yahoo.comwww.criticapontual.com

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