Frango espanado

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos

 

Segundo aqueles que vivem da escrita, o momento crucial para se produzir um bom texto não é o ato da escrita em si, mas o que antecipa a enunciação, isto é, antes mesmo do enredo existir no cérebro do cronista, e é justamente nesse vir a ser, de acordo com Kant, que surge uma narrativa que pode dizer tudo ou não, já que o objetivo do autor, meu caro leitor, é o de encantá-lo de forma breve, sem perder a ideia de profundidade conforme nos diz Julio Cortázar quando tenta definir o que entende por conto. Mas vamos lá, deixemos o literato argentino para outro momento e adentremos, eu e tu, no universo que nomeia a minha tentativa de comunicação contigo neste exato momento em que pretendes dar sequência à leitura das linhas que se seguem.

Outro dia um amigo que é professor de literatura e poeta, tendo publicado uns livros em que os verbos se transformam em versos, me perguntou como seria o meu processo de escrita. Para não me alongar muito e não o agastar, bem como a ti, meu caro leitor, respondi de chofre: é ter algo a dizer e escrever sobre isso: simplesmente simples assim e foi justamente nessa simplicidade dominical que fiquei com a pulga atrás da orelha quando, num preparativo para almoço familiar, o pessoal responsável por preparar os pratos para a comensalidade do primeiro dia da semana, soltou a famosa pérola que a transfiro para o título dos escritos de hoje. Confesso-te meu caro amigo que conhecia a expressão frango empanado, mas frango espanado, nunca tinha ouvido falar. Sendo assim fiquei refletindo sobre como seria esse processo de ingerir uma carne branca espanada.

Antes de adentrar no segundo ponto, ou seja, espanado, pensei no primeiro, empanado. Parece-me que a coisa se dá desta forma, porém, antes de explicar te peço, caro leitor, que me corrija se eu caso estiver equivocando, porém, sem querer me esquivar da responsabilidade em afirmar que sou uma negação na cozinha, cujo ofício maior consiste, desde os tempos da universidade, em descongelar um amontado de comidas processadas e aplacar a fome que invade diariamente o meu estômago. Mas deixemos de delongas e vamos lá, eu e tu tratar das maravilhosas degustações que existem quando se ingere um pedaço de frango empanado. A primeiro a coisa ser feita é adquirir as iguarias definidas como filés de peito de frango. Depois, alguns ovos que serão usados para ajudar na fixação da farinha, seja de rosca, isto é, derivada de pães ou o famoso composto feito a partir da mandioca. É isso, meus caros leitores? Creio que o passo seguinte seja levar os pedaços à frigideira os lançando sobre o óleo escaldante para que tudo seja cozido, assado ou sei lá como é o processo que ocorre durante a fritura.

Acho que é isso. Então, agora quem sabe conseguimos compreender como se dá o procedimento quando se deseja degustar um frango espanado. Penso que aqui seja interessante pensar no parente bem distante do galináceo, o tal do parafuso, forjado em pressas e outras tornearias, que perde a função quando a rosca, foi feita pela mesma máquina, perde a função e aí a porca, aquela arruela, anilha, que serve para dar sustentação a um pneu de carro, entre outras tantas coisas, fica bailando aqui e ali como se estivesse ouvindo uma bela música dos anos 80 ou coisa que o valha.

Transpondo o parafuso espanado para o frango, te confesso meu caro leitor que ainda não entendi direito, como é que ocorre com uma peça do galináceo ao ficar espanada. Sendo assim, durante a comilança dominical, todos pediam a quem estava mais perto da travessa com os tais pedaços: “- Me passe um naco do frango espanado”. E assim se passou aquela tarde quase noite em que todos conversaram alegremente, evidenciando aquilo que me disse certa vez um amigo religioso: “- Pelo menos uma vez no dia, os membros de uma família, precisam partilhar suas vivencias, durante uma singela refeição”. É isso, então, vamos de frango empanado ou mesmo espanado, tudo dependerá de quem fizer o alimento, contudo, sem perder a graça pelo viver hoje e nos dias vindouros.

 

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos, licenciado, bacharel e mestre em Ciências Sociais, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com. www.criticapontual.com.br.

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