Educação e trabalho

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Mesmo que muitos digam que o assunto é batido, portanto, nada a ser acrescentado nessa temática, é preciso se atentar para algumas coisas, porém, se isso for correto, então, é melhor parar o Planeta e descer, como dizia Raul Seixas no refrão duma canção específica. Agora, caro leitor, se resolveu não pedir mais para a Terra dar uma paradinha naquele ponto para que você apeie da locomotiva planetária, que tal verificar como a nossa máquina econômica está se preparando para os novos tempos? Se começar o passeio pelo orbe terrestre a partir do fenômeno, ou melhor, padrão globalizante, como deveria ser o trabalho do cientista social, conforme Peter L. Berger (1929-2017) aponta em seu livro Perspectivas sociológicas: uma visão humanística? Debater-se- ia a partir da globalização que internacionalizou tudo na sociedade, de acordo com o sociólogo brasileiro Octavio Ianni (1926-2004).

E já que a temática de hoje se enveredará pelos campos das ciências sociais, me parece interessante, mesmo que de forma lacônica, esmiuçar aqui o que Berger pensa do ofício do sociológico. “O sociólogo é uma pessoa, um profissional que se ocupa em compreender a sociedade de uma maneira disciplinada. Isto significa que aquilo que o sociólogo descobre e afirma a respeito dos fenômenos sociais que estuda ocorre dentro de um certo quadro de referência de limites rigorosos. Como cientista, o sociólogo tenta ser objetivo, controlar suas preferências e preconceitos pessoais, perceber claramente ao invés de julgar normativamente”. Claro que muitos cientistas humanos concordam, em partes com as observações do sociólogo norte-americano acrescentando algumas coisas vindas de outras áreas como a Linguística; Literatura; Direito e a Filosofia; há aqueles que discordam veementemente, entretanto, penso que aqui não é o fórum apropriado para tratar dessas discordâncias ou concordâncias, entretanto, elas me permitem fazer pequenos comentários sobre a realidade global e local, principalmente no que diz respeito ao universo educacional e o trabalho – duas categorias fundamentais que forjam o indivíduo individualizado e o coletivizado.

Parece-me que o maior desafio hoje, para todos educadores, é saber para onde direcionar seus esforços pedagógicos. Responder sobre o que o amanhã exigirá dos homens que hoje são crianças e adolescentes passa a ser uma tarefa das mais complexas, justamente pela dinamização que o mundo contemporâneo impõe às vidas sociais e individuais. Desta forma, as instruções que devem ser ministradas dentro das salas de aulas, laboratórios, bibliotecas ou outras ferramentas pedagógicas, precisam estar concatenadas com o momento que o orbe vem passando, tendo sempre em mente que aquilo que se aprendeu hoje, ou o resultado de uma manipulação laboratorial, pode já estar ultrapassado no amanhecer do dia seguinte. Até ai nada de mais ou de menos, exceto quando se observa as condições que são dadas aos docentes para exercerem seus ofícios. Na sequência, podem ser encontradas séries infindáveis de respostas, projetos, propostas, mas em alguns casos, pífias ou de pouca eficácia, tendo em vista que o braço principal de apoio ao professor não está na escola e sim nas casas e no seio familiar de todos os estudantes.

Muitos podem dizer que somente os lares desestabilizados e desfeitos são produtores de indivíduos desconectados com o universo educacional e por uma quantidade infindável de fatores e ações atrozes, entretanto, o desinteresse pode advir de alunos que existem em lares disfuncionais, ou seja, naqueles em que as normas, éticas e padrões morais não funcionam de acordo com o ordenamento social do resto da sociedade ou estão descolados da realidade dos cidadãos com cidadania. Resultado: crianças, adolescentes e jovens que não conhecem limites e acham que podem fazer o que bem entendem no momento em que quiserem, não compreendendo que estão em ambientes nos quais a maioria está ali com objetivo claro e definido. Aqui é possível encontrar vozes dissonantes, justamente porque talvez seja prematuro afirmar que uma criança, adolescente ou até mesmo os jovens já tenham objetivos traçados em suas existências. Pode ser que as pessoas que se afinam com tais observâncias estejam com a razão, no entanto, é preciso ter claro que a família tem papel preponderante nas metas que o homem virá traçar para si e para os seus entes queridos.

Quando são interpelados de forma pedagógica, crianças, adolescentes e jovens têm respostas prontas: superar a condição social em que convivem com seus pais e pares. Até ai tudo normal, porém, o desafio passa a serem os caminhos que devem ser percorridos para que os objetivos sejam alcançados em tempo hábil para se prestar auxílio àqueles que lhes deram o que há de mais sagrado em suas existências: a vida. Neste sentido, compreende-se que viver é uma coisa, existir é outra completamente diferente, pois diz respeito às condições em que se constrói o existir. Para aqueles que já vêm de lares abastados, me parece que a tarefa não é difícil, entretanto, sem a devida instrução para lidar com os pertences herdados, em pouco tempo tudo estará arruinado ou a beira da falência, portanto, até manter recursos materiais dá trabalho e exige conhecimento. Sendo assim, há a necessidade de se passar um determinado tempo nos bancos escolares.

Se se retornei ao campo educacional, isso significa que é lá que se encontram as devidas preparações dos sujeitos para a vida moderna que pulsa constantemente na sociedade. A máquina de escrever foi aposentada já faz tempinho; o computador, cada vez mais veloz, faz coisas que a mente humana levaria uma quantidade infindável de horas para concluir; o presente é digital e virtual e o amanhã será maior ainda com as mídias se interagindo com as transmissões de dados e imagens através de fibras ópticas cada vez mais potentes. A tecnologia avança com velocidades inimagináveis lá pela década de 80 do século XX, e o homem, será que está avançando em questões éticas e morais? Uma rápida passadinha no existir social responderá essa indagação com um significativo Não! Sendo assim, 13 milhões de desempregados registrados no Brasil é uma imoralidade ou uma percepção de que o país não tem ética? Nenhuma coisa e nem outra, pelo menos é o que me parece no momento, porque o desemprego é endêmico na medida em que a máquina substitui o homem e o ganho dos capitalistas, ao longo da escala produtiva, tende a amortizar o custo dos novos equipamentos que reduzem o tempo de trabalho gasto na confecção de mercadorias, bem como a quantidade de homens na sua elaboração, conforme Karl Marx (1818-1883) já dizia no clássico O Capital (Das Kapital). Enfim, como é possível observar, se a geração de estudantes dos ciclos iniciais até o ensino médio, não acordarem para a realidade que bate em suas portas, no amanhã poderá engrossar essa fileira de subempregados e soldados que formam o miserável Exercito Industrial de Reserva.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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