Gilberto de Assis Barbosa dos Santos
Pensei, repensei e ainda cá refletindo sobre o Brasil de hoje ser semelhante ao do passado, indicando que não se aprendeu nada analisando o ontem ou até mesmo a História e seus profissionais, bem como os cientistas sociais vêm sendo vilipendiados diariamente por uma turba que se recusa a se instruir com os erros cometidos pelos antepassados, resolvi tratar de uma problemática que há muito vem me incomodando: o crescimento do contingente de pessoas que não consegue viver em paz com a democracia. Ganhar, perder e empatar faz parte do jogo – parafraseando aqui um futebolista. Vamos lá, meus caros leitores, o que leva um cidadão que se intitula ser de “bem” atentar contra os Três Poderes duma nação republicana? Poderia responder de diversas formas, usando uma miríade de nuanças para tentar compreender tamanha insensatez daqueles que acreditam que há no mundo civilizado espaço para golpes e ditaduras militares, a exemplo da que aconteceu aqui entre 1964 e 1985 e não adianta haver discursos disso e daquilo tentando dissuadir, distorcendo os fatos históricos, para caber em seu pequeno mundo ditatorial.
Sendo assim, começaria, já que o título de minha reflexão hoje diz respeito ao universo dos livros, trazendo aqui um olhar encontrado no livro Sobre a leitura [Campinas, SP: Pontes Editores, 2011], do escritor francês Marcel Proust (1871-1922). Em determinado trecho de sua enunciação, o autor diz que a leitura e, respectivamente os livros, abrem portas, sem os quais não seriam possíveis serem franqueadas aos indivíduos néscios. Interessante essa abordagem, justamente em tempos de redes sociais e comunicações para lá de instantâneas, nas quais as pessoas estão dialogando em tempo real, entretanto, em alguns casos, se recusam a ler, estudar, refletir, preferindo, como disse recentemente um general da reserva quatro estrelas do Exército Brasileiro, buscarem um super-herói por meio dos aplicativos, se tornando presa fase de disseminadores de mentiras e divulgadores de ódios e ressentimentos, ressuscitando velhos inimigos do passado. Entretanto é preciso ter claro que, se isso foi possível, é porque existe comércio para tais aleivosias e distorções para não dizer agressões às reputações, daí a observação de Proust sobre o ato da leitura.
Outro dia estava lendo um romance francês “Água fresca para as flores” [Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022] da escritora Valérie Perrin. Ela abre o capítulo nove de sua enunciação com o seguinte aforisma: “Sua beleza e sua juventude sorriam/para o mundo onde ele teria vivido./Mas, de suas mãos, caiu o livro/do qual ele nada havia lido” [2022, p.37]. Há um lirismo nesses versos que não o destacaria aqui, pois o escopo dessa reflexão é enfatizar a ausência de leitura, de análises de obras literárias e científicas que buscam dentro de suas limitações explicar o ontem na tentativa de evitar que teatros mortíferos como o do último domingo na capital federal acontecessem. Todavia, por mais avisado que a sociedade fosse, foi impossível evitar um ataque às hostes da democracia brasileira e a Constituição Federal. Claro que não podemos apenas acusar as autoridades de leniência, pois todos que lá estavam naquela baderna e tentativa de golpe, tinham plena consciência do que faziam, então não adianta alegar desconhecimento e que foram ludibriados. Lá estiveram porque assim almejaram e seus “espíritos” belicosos buscaram.
Ações daquela envergadura só podem acontecer quando há uma massa conduzida ao matadouro e por mentes perversas que adoram robotizar os incautos e néscios, se bem que são mesmo teleguiados pelo desejo de ódio, vingança e ressentimento. Resta saber quais são os elementos que temperam essa horda de pequenos tiranos e portadores de uma doença simbiótica chamada síndrome do pequeno poder. Essa moléstia pode ter atacado pessoas que fariam parte da chamada classe média baixa que sonhava em atingir degraus superiores, como a da classe média, entretanto, lhes faltam certos requisitos, não apenas o poder de comprar, mas sobretudo um quantum de conhecimento até para se apropriar do consumo conspícuo, como nos apresenta o economista Thorstein Veblen (1857-1929) em seu livro “O impacto econômico da classe ociosa” [São Paulo: Faro Editorial, 2012], mais especificamente no capítulo 4 Consumo conspícuo [p. 61-84]. Desta forma, um grupo desprovido do seu sentido de existir, ou seja, não para si, mas para o outro e o que ele vai lhe dizer sobre os penduricalhos que adquire, mesmo que seja em suaves mil prestações que cabem no bolso, nunca na renda que acaba sendo forjada a partir de créditos e outros tantos financiamentos, se torna presa fácil de sujeitos sem escrúpulos que pregam a quebra das regras do jogo, caso ele saia derrotado na partida democrática.
Há uma gama de obras literárias, sociológicas, filosóficas, antropológicas e psicológicas que nos auxiliam a entender esse espírito de manada que, de tempos em tempos, afeta a humanidade e, tristemente, se apropriou da vida ativa de muitos brasileiros que estão agindo mais como integrantes de seitas religiosas do que propriamente cidadãos com cidadania e aí entendo que é preciso compreender bem os direitos sociais, civis e políticos, muito deturpados nos últimos quatro anos por um presidente que, hábil em usar a máquina de propaganda – não é a primeira vez na história da humanidade que um grupo de pessoas faz isso – passou 48 meses incitando a turba contra o regime democrático de direito, crendo que seria possível se declarar o mais novo autocrata brasileiro. Para tanto, se espelhou em alguns líderes políticos de algumas paragens, sejam elas ocidentais, orientais ou no oriente médio. Cito de chofre, como exemplo, Benito Mussolini (1883-1945) e seus Camisas pretas –há várias narrativas sobre como o romance Cronache di poveri amanti (História de pobres amantes), do escritor Vasco Pratolini (1913-1991). Este é o resultado de questões não resolvidas a partir do lado racional da vida, mas por outro lado, se faz necessário ter claro que o homem vive o hoje ou continua, a exemplo de Prometeu, acorrentado num passado de quase glórias. Desta forma, somente através da educação e, principalmente da agregação de valores éticos e morais – não aqueles apregoados pelos coturnos – adquiridos durante a socialização primária, é que o quadro de hoje possa, num futuro não muito distante, fazer parte de um passado horrível e que deve ser compreendido no presente para que no amanhã não seja recorrente.
Destaco aqui ainda outras mazelas e agressões ao mundo do conhecimento, sendo defenestrado por informações mentirosas e outras aleivosias: um ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, tinha objetivo de aplicar mais tributos ao livro, afirmando que era artigo de luxo porque ninguém lia. Absurda observação que, muitos podem ter se esquecido, mas quem se ocupa em analisar o movimento da sociedade brasileira entenderá que as cenas de domingo na capital federal é consequência de mentes obtusas como a do economista que tinha carta branca no governo anterior – não sou eu quem estou dizendo, mas os fatos. Basta rebobinar as campanhas eleitorais pretéritas, meus caros leitores, e poderão avaliar racionalmente meus olhares aqui nas linhas acima e nas que por ventura surgirão com o andar da carruagem democrática. Enfim, um país que não valoriza professores, educadores, poetas, escritores e as artes de um modo geral, se vê obrigado a assistir cenas de selvageria como as propagadas pelo chamado bolsonarismo, que agora quer criar uma nova vertente: os radicais e os moderados.
Em artigo publicado na edição do dia 10 de janeiro do jornal Folha de S. Paulo, o economista e mestre em Filosofia pela USP, Joel Pinheiro da Fonseca, de forma bem sintética compartilha com os seus leitores uma significativa observação do que se convencionou chamar de bolsonarismo. “É preciso reconhecer: nunca houve nada de patriótico ou admirável no bolsonarismo. Sempre foi uma mistura doentia de alucinação coletiva e desejos autoritários”. Vamos ver até onde a ignorância política pode levá-los. Ditadura e governo militar nunca mais, bem como a defesa de governantes autocratas. A democracia virá sempre em primeiro lugar e vamos todos estudar um pouquinho mais e usarmos as redes sociais de maneira mais objetiva e com menos ódio e ressentimento.
Gilberto de Assis Barbosa dos Santos, licenciado, bacharel e mestre em Ciências Sociais, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis. E-mail: gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com. www.criticapontual.com.br.