Olhar Crítico

Novos ares

Nesses primeiros aforismas críticos deste no novo ano, penso em destacar algumas coisas, não para cuspir em cima de cadáver, mas para que possamos todos nós, repensarmos sobre que país queremos. Nos últimos 48 meses o Brasil esteve dividido entre duas facções: de um lado, aqueles que ainda sonhava com a volta dos coturnos através de um autocrata que, por puro despeito, não passou a faixa presidencial ao seu sucessor que conquistou o direito de administrar esse país nos próximos quatro anos. Isso é fato e pronto: as urnas são soberanas e não adianta ficar esperando baionetas para defender interesses não democráticos de pessoas que tem aporofobia – para quem não sabe é horror a pobre. De outro lado, havia e continuará existindo aqueles que defenderão a democracia e os direitos constitucionais. Venceu o segundo e o mundo respira aliviado.

 

Análise

Recentemente uma escritora brasileira publicou um texto significativo no qual elenca os fatores que levam parcelas consideráveis da sociedade a se inclinar para os lados de uma visão de mundo que propõe a eliminação do outro, ainda mais se este pensar diferente de ti. Toda essa conversa ficou bem clara nos últimos anos e por diversas razões, fazendo vítimas diversas pessoas que, até onde se sabe, queriam apenas fazer o seu trabalho, mas enfim, numa sociedade em que poucos são dados a leitura de obras expressivas da literatura brasileira e entende a educação dos filhos como custo e não investimento, a postura de tais pessoas é compreensível, contudo inaceitável. E, em virtude disso, parafraseando o escritor francês Victor-Marie Hugo (1802-1885), reflexões como essas e outras tantas que tenho lido há mais de 40 anos, serão necessárias por muito tempo.

 

Paciente

Como o título do primeiro aforisma dominical diz, os novos ares não são porque vieram dos céus um jato de luz trazendo bonanças a toda a sociedade como pode ser encontrado em diversas escatologias, mas sim porque, do meu ponto de vista, a democracia deixou a UTI e respira sem ajuda de aparelhos e já está no quarto a espera de que o médico, no caso aqui, o governante eleito democraticamente, de alta para o mais ilustre paciente do hospital político brasileiro. Todavia, isso só será possível, conforme disse recentemente a uma amiga: se cada um de nós fizermos a nossa parte e os cientistas sociais explicarem porque fenômenos, que achávamos sepultado e relegado aos livros de histórias, ressuscitaram para ojeriza dos democráticos.

 

Fissuras

Gosto sempre de referenciar as obras que costumo ler, não somente os romances e obras literárias, como crônicas, contos e outras enunciações, mas sobretudo, o material que diz respeito ao universo sociológico, político e filosófico, incluindo aí a antropologia, sem se esquecer da economia e da teologia, inclusive do seu braço designado como teologia da prosperidade. Penso que o grande elemento ausente nos últimos quatro anos foi o diálogo, seguido da falta de leitura. Muitos começaram a defender pontos de vistas desconhecidos, mas o faziam porque o tema foi colocado de forma jocosa no grupo de amigos das redes sociais e por isso era tido como verdade absoluta e a partir daí quem pensava diferente era inimigo, precisando ser eliminado. Quantas famílias se dividiram por conta desse tipo de situação esdruxula.

 

História

Não há escopo algum aqui em dizer quem está certo ou errado, mas tão somente compreender que é preciso prudência quando for defender determinada postura ou costura ideológica. Se faz necessário entender não somente aquele pequeno quantum, mas sobretudo, o quadro em sua totalidade. Na maior parte da vida republicana nacional, os militares sempre estiveram presentes e talvez em virtude d’eles terem derrubado o Império, mas me parece que a questão é outra agora e lugar de fardado é no quartel. Isso não significa que não devam se manifestar de alguma forma sobre algumas questões, e aqui lembro a Questão Militar e o coronel Cunha Matos. Naquele momento, isto é, final dos anos 80 do século XIX, os fazendeiros ligados à cafeicultura queriam que o Exército fosse colocado à disposição deles para capturarem os escravos fugitivos.

 

Repetição

De acordo com um teórico, muito satanizado nos últimos 48 meses, contudo pouco lido pelos seus críticos destrutivos, dizia que a história se repete: uma vez como farsa e outra como tragédia. Segundo essa toada de Karl Marx (1818-1883) é que faço uma perguntinha aqui: será que os acampados defrontes aos QGs desejavam a democracia ou o direito de continuarem a explorar seus semelhantes, pagando míseros salários, enquanto gastavam fortunas em disputas idiotas, seguindo exemplo de muitos jogadores de futebol? Vejam bem, meus caros leitores, efetuei aqui apenas uma pergunta e interpelar ainda não leva ninguém ao cadafalso ou a rasgar a constituição. Desta forma, penso que o momento é alvissareiro para que todos que desejam um Brasil diferente, realmente trabalhem para que isso aconteça e não fiquem defendendo líderes que não sabem nada sobre democracia, mas muito sobre autocracia e egocratismo.

 

Localismos

Se nos seis aforismas acima, os tópicos enfocaram um pouco o Brasil dos últimos quatro anos, Penápolis deve estar incutido aí, pois vivemos nas cidades, onde trabalhamos, quiçá algumas desventuras e outros entraves que, muitos, dizem não existir, mas todos veem o quanto o preconceito étnico-racial reina, mas aí é uma outra história que posso retratá-la num momento propício, pois no presente desejo entender como a Princesa da Noroeste se posicionou no último pleito e os dados dizem que o candidato derrotado ao Palácio do Planalto venceu aqui nessas paragens. Seria interessante entender a mentalidade do seu eleitorado, bem como as razões por escolherem um político, conforme bem noticiado pela mídia nacional, foi contra todas as medidas adotadas para combater a pandemia do coronavírus. Creio que cada um pode escolher a mercadoria que lhe aprouver, mas é interessante ouvir as justificativas diante de tanto negacionismos e desejo de armar a sociedade. Fico por aqui, prometendo voltar no próximo domingo respirando um oxigênio mais democrático a partir de agora.  E-mail: gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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