Quebrando o silêncio ou vidraças

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos

 

Depois de quase dois meses sem me comunicar com vocês, meus caros leitores, eis-me que retorno a essas paragens reflexivas, ou não, já que tudo dependerá daqueles, ou melhor seria grafar no singular mesmo, que me lê ou talvez leem, contudo, tanto faz, entretanto, te confesso que ainda não sei ao certo se é singular ou plural, bem como se é uma crônica, artigo ou coisa que o valha. Existem aqueles que podem dizer ou, até afiançar com convicção, se tratar de um desabafo, mas vamos lá, já que a leitura é um ato solitário, então fiquemos na singularidade mesmo e passemos, eu e tu, caro amigo, ao que mais interessa neste momento.

Já que o hábito de ler é uma ação individual mediada pelo texto que faz a mediação entre o narratário e o narrador, espero sinceramente que as linhas que se seguem, bem como o vácuo deixado pelo pequeno enredo possa ser preenchido pelo experiente leitor ou nem tanto assim, mas me parece que o semiólogo italiano Umberto Eco (1932-2016) tinha razão ao dizer que a enunciação, qualquer que seja ela, principalmente a ficcional, não tem condições de dizer tudo, por se tratar de uma máquina preguiçosa, precisando que o sujeito para além da escrita, faça a sua parte. Sendo assim, é o que pretendo a partir de agora, após quase dois meses em silêncio. Não coloque caraminholas na cabeça, meu caro leitor, tentando adivinhar os motivos, pois se eu não os fornecer, tudo passará de conjecturas de sua rica imaginação, principalmente agora em tempos bicudos, para não dizer temerosos em que o medo reina e aqueles que não são dados aos diálogos querem “resolver tudo na bala”, para usar uma expressão popular.

Eu do meu lado, como tenho aversão a toda forma de violência, seja ela simbólica, física, sexual ou de gênero motivada pelas mais diversas fobias, optarei sempre pelo diálogo, mesmo que seja num monólogo como parece ser os que acontecem nestes tempos para lá de modernos, em que os sujeitos sociais rejeitam tudo que objetiva um mundo melhor, reagindo de forma agressiva as novidades e ainda têm os arroubos de dizer que são conservadores, todavia, são mais reacionários, agressivos, e de péssimos hábitos, do que realmente conservadores. Não vou avançar nessa seara porque, de fato, não é o meu escopo aqui, já que as minhas pretensões são apenas de tentar estabelecer uma conversa amistosa com aquele que se encontra do outro lado dessa narrativa, objetivando sempre tentar fazer com que todos nós possamos contemplar as estrelas no firmamento e ser mais tolerantes com os nossos semelhantes, tentando empreender ações, segundo as quais, gostaríamos que fizessem conosco – olha ai meu caro leitor novamente estou deixando o campo da singularidade e me enveredando pelo universo da pluralidade, principalmente agora em que ninguém quer ouvir, apenas esbravejar, desejando que o interlocutor diga “amém” e ai daquele que se opuser: cancelamento, para não dizer outras situações, conforme apontou a jornalista Patrícia Campos Mello em seu belíssimo livro A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre Fake News e violência digital (São Paulo: Companhia das Letras, 2020). Leitura assaz interessante em tempos de mentiras avassaladoras espalhadas pelas redes sociais por indivíduos inescrupulosos, ávidos pelo poder a qualquer preço e um quantum significativo de dízimos coletados através de diversas ferramentas alienantes.

Mas não era sobre isso que gostaria de escrever hoje, mas enfim, vá lá meu caro leitor, não precisa concordar comigo, até porque sou um ser plural e não favorável às ruas de mão única. Desta forma, lhe afianço que não compactuo com líderes totalitários, autocratas e outros ditadores e seus bajuladores que, para governarem a massa amorfa conta com a anuência daquele segmento que se locupleta com as migalhas que caem do alto do trono, engordando a plutocracia que se enriquece através dos tributos, taxas e impostos pagos pela população. É interessante, amigo leitor, que não estou sozinho nessa reflexão. Se quiseres saber um pouco mais, baste recorrer aos textos políticos do escritor José Martiniano de Alencar (1829-1877), mais especificamente ao livro Cartas de Erasmo ao Imperador, disponível gratuitamente no site da Academia Brasileira de Letras, fundada pelo escritor do realismo brasileiro, o imortal Joaquim Machado de Assis (1839-1908) que a propósito faz uma provocação interessante aos seus leitores do Brasil oitocentista e destas primeiras décadas do Terceiro Milênio. No capítulo IV: Ideia fixa, do romance Memórias póstumas de Brás Cubas (São Paulo: Ática, 1998, p.20-21), o narrador discorre sobre essas bandeiras que lançam migalhas aos que ficam ao sopé do mastro, bem como daqueles parasitas que grudaram nas paredes do Estado brasileiro, primeiramente monárquico e posteriormente republicano, e engordam diariamente às expensas dos cofres públicos. Um exemplo são as malas encontradas num determinado apartamento contendo mais de R$ 50 milhões.

Mas deixemos de conjecturas e vamos ao que interessa: entender os processos que envolvem as esferas públicas e privadas no mundo globalizado. Será tarefa fácil ou não? Tudo dependerá daquele que continuou comigo até a esse derradeiro parágrafo. Desta forma, entendo que não é sufocando quem pensa diferente que chegaremos a algum lugar. Não é usando armas de fogo ou de qualquer outra natureza, que não seja apenas o diálogo e a devida audição do outro, como está num dos verbetes da Enciclopédia: o interlocutor pode até não concordar com o que está sendo dito, mas deverá defender eternamente o direito do outro assim se pronunciar. Todavia, o que se assiste no momento é o desejo atroz de se manter no poder, diante dos fatos e da ausência de um projeto para a Nação, mas apenas a querência de se conservar onde está para proteger determinados núcleos. Mas vamos lá, mudemos de temática, pois não há necessidade de apedrejar a janela vizinha quando todos podem dialogar calmamente sem precisar ludibriar, inventar, caluniar ou até mesmo destruir biografias para tentar ser o paladino dos bons costumes ou ter a pecha de “cidadão de bem”. Em minha singela reflexão, aquele que se pensa ser do “bem” não necessita compactuar com sujeitos políticos e sociais que desejam vilipendiar o outro ou até mesmo armar a população enquanto endeusa torturadores, enquanto no outro lado, tem um desejo atroz de aumentar tributos sobre os livros numa economia já combalida por erros pretéritos de uma sociedade escravagista. Acho que é isso para o retorno, quem sabe, quase que diário de minhas reflexões.

 

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis.

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