Sobras de um amor – parte III

 

Ao deixarem a sede da editora, mãe e filha entraram no automóvel de Angélica que começou a falar sem parar, mais especificamente reclamando porque Eleanora a retirou de perto do esposo. Na cabeça da empresária, aquilo não era justo, pois desejaria passar aquela segunda-feira na companhia do marido por ser um dia especial para ele. “- Quer fechar essa boca e me escutar”, sentenciou a presidente de honra das Organizações Oliveira.

“- Desculpe-me mãe. É que só de pensar …”, disse Angélica, sem conseguir concluir o raciocínio.

“- Deixa de ser tonta. Aquele homem comeria uma tonelada de merda, se fosse preciso para tê-la em seus braços”, disse Eleanora entre gargalhadas.

– Mas eu queria…

“- Você não quer nada. Além do mais preciso de ti comigo hoje. Quero preparar a minha viagem com Alexandre para Resende e preciso conversar contigo sobre umas coisas que vem acontecendo aqui dentro desse coração que já não sabia mais amar”, revelou a mãe.

A filha apenas assentiu com a cabeça, enquanto dirigia pelas ruas da cidade em direção ao apartamento da mãe, tendo a mente recheada pela presença do marido. O oxigênio que ela respirava atendia pelo nome de Márcio. A empresária foi tirada de seus devaneios por uma pergunta que Eleanora lhe dirigiu.

– Filha, o que você sente quando transa com o Marzinho?

Angélica ficou surpresa com a pergunta, mas não queria deixar a mãe sem resposta. “- Não é a transa, a penetração em si, mas tudo o que vem antes e o que aquele homem significa em minha vida. Quando ele me come e é comido pela minha buceta, parece que somos uma coisa só, única. É como se eu estivesse vendo todas as cores ao mesmo tempo. É algo que imagino ser semelhante a uma explosão atômica, para em seguida todos os meus átomos se juntarem ao dele. Quando gozamos juntos e sempre fazemos isso, pois Marzinho se dedica integralmente ao meu prazer. Nunca senti isso antes com ninguém e olha que já sai com vários homens e mulheres em busca do que o meu marido me proporciona. Acho que é isso. Sinto que não há palavras para descrever o momento em que estamos juntos. É um antes, um durante e um depois. Não sei se a senhora me entende”, segredou a filha.

Eleanora, que escutava tudo atentamente, revelou à filha que pensava que o amor que sentia por Jô era incondicional, mas que, observando a relação dela com o editor, pode constatar que não. “- Tinha inveja do amor que circunda vocês dois. Nunca vi nada igual, minha filha”, confessou a mãe.

Antes que Angélica pudesse dizer alguma coisa, Eleanora continuou. “- Naquela noite em seu apartamento em que descobri o quanto ama o seu marido e, através desse sentimento, pude me reconciliar contigo, com o seu irmão e com o mundo. Entendi o quanto fui ignorante durante todo esse tempo. No hospital vi um Márcio com olhares que lhe queimavam a orbita. Um homem que ama tanto que é capaz de renunciar ao próprio sentimento se tivesse que implorar por um sorriso seu”, falou a presidente de honra das Organizações Oliveira.

“- Por que está me dizendo tudo isso, mãe”, quis saber a empresária.

– Porque vejo como Amadeu ama Tarsila e o quanto sofreu longe dela. Também entendi porque, para seu pai, era impossível me amar. Ele ficou paraplégico estando alucinado vendo Lourdes pela casa. Jô era todo poderoso, mandava e desmandava, comprava isso e aquilo, aumentava nosso patrimônio, mas desde o assassinato de sua amada, jamais foi capaz de dormir em paz. Aquele amor que poderia fazer o mundo dele ficar em cores, na medida em que não podia ser realizado, foi o tornando endurecido, distante do mundo sensível.

“- Você ainda o ama, mãe”, perguntou Angélica.

– Não sei se fui capaz de amá-lo como ele merecia, pois Lourdes foi tudo em sua vida. E eu, uma egoísta que só pensava no meu próprio umbigo. Queria sempre mais, mas nunca fui capaz de atravessar as trincheiras que seu pai abria entre nós. Só comecei a perceber isso no dia em que seu pai faleceu e eu vi como Márcio te observava. Era e continua sendo um olhar que envolve a sua alma, o seu ser.

“- Mãe! A senhora tem razão! Quando busco meu passado, antes dele aparecer, não consigo enxergar nada, apenas um vazio enorme que eu tentava preencher com dinheiro, coisas materiais e muitas futilidades. Meu neguinho é uma pessoa que sabe ser flexível como a taboa, mas é tão firme quanto um carvalho”, revelou a filha.

– Ele é o seu primeiro amor?

“- Não! Márcio é o único amor que eu conheci nesses meus mais de 30 anos. Ele faz eu me ver de dentro para fora, como sou em minha essência. É turrão, não abre mão de seus princípios. Ficou afastado da família por muito tempo e tinha convicção de que foi o maior responsável por tudo o que havia provocado o distanciamento”, explicou Angélica.

Assim que Angélica terminou de falar, mãe e filha chegaram ao prédio em que Eleanora morava. “- Filha! Você almoça comigo? Preciso muito de ti hoje”, exclamou a presidente de honra das Organizações Oliveira.

– Sim mãe! Também estou precisando do seu colo, do seu carinho e compreensão.

Eleanora colocou a bolsa sobre o sofá, indo até a cozinha, pegando uma garrafa de vinho na geladeira. “- Mãe! Não está muito cedo para bebermos”, perguntou Angélica.

“- E quem disse que há hora para mãe e filha comemorarem as descobertas de seus amores”, indagou Eleanora.

Brindam e a matriarca pediu à filha para falar mais do relacionamento dela com Marzinho. “- Por que a senhora quer saber tanto sobre a minha vida amorosa? Sempre foi contra o meu casamento com Rosângela. Não gostava de pretos e isso e aquilo. O que mudou aí dentro do seu coração, dona Eleanora”, quis saber Angélica.

– Tudo, inclusive uma vontade enorme de querer voltar no tempo e fazer tudo diferente, mas não é possível. Então quero fazer daqui para a frente, pois o ontem não pode ser modificado, mas apenas nos ensinar como será o nosso devir.

As duas deram um gole enorme do líquido em suas taças, reabasteceram e continuaram conversando como duas velhas amigas. Restava saber quem aprendia com quem: mãe ensinava a filha ou vice-versa. Do nada, Angélica pergunta para Eleanora por que tanta inquirição sobre a vida amorosa dela. “- Porque acho que estou perdidamente apaixonada pelo Alexandre e queria saber se é isso mesmo. Quando estou com ele me sinto como um átomo prestes a explodir e tenho medo de não saber controlar isso e perdê-lo”, revelou a mãe.

Angélica colocou a sua taça sobre a mesa de centro da sala e pegando as duas mãos da mãe, lhe disse: “- Quando Márcio desceu daquele carro no meio da estrada e desapareceu como um andarilho, me deixando sem saber o que fazer, a primeira coisa que pensei foi em te perguntar qual era o próximo passo”.

Ao perceber que a mãe lhe dava toda atenção, empresária continuou. “- Quando o achei tentando se esconder naquela cidade, depois de tê-lo encontrado um dia antes, pude notar que não conseguiria dar um passo a mais sem ele. Mas ainda assim, tinha um medo terrível de não conseguir fazê-lo feliz por conta das violências sexuais que sofri e praticadas por Jô”.

– Eu peço perdão a ti todos os dias, filha. Não sei como reparar isso.

“- Apenas me ame e me ajude a não perder o homem que me deixará fora da Terra”, pediu Angélica, acrescentando que não se pode mudar o passado, apenas aprender a conviver com as dores sem transformá-las em sofrimento.

“- Foi Marzinho quem me mostrou isso, mãe. E o fez de diversas formas. Entre elas, quando bebeu até quase morrer porque sabia que o seu mundo seria cinza se eu não estivesse com ele. Roberto e Fernanda querendo devorar meu fígado porque sabiam o quanto Márcio me amava. Ele não é de externar muito os sentimentos, mas diz muito com os olhos e os amigos sabem disso”, explicou a empresária.

“- Naqueles dias enquanto ele brigava com a morte naquela UTI, eu repassava constantemente tudo o que tínhamos vivenciado. O calor que havia em suas mãos quando pegava nas minhas e me conduzia. Quando ria feliz do meu lado, me olhando com devoção, carinho, desejo. Nossa mãe, como foram terríveis aqueles dias, mas me fazendo entender o martírio que Amadeu passou longe de Tarsila. Eu pedia aos céus uma segunda chance com ele”, revelou a filha toda emocionada ao recordar daqueles momentos.

Eleanora escutava tudo atentamente, pois estava passando pelo mesmo processo e temia que, ao voltar de Resende, tendo a presença da irmã do general entre eles, o namorado mudasse com ela, a colocando em segundo plano. Não queria ficar entre os irmãos, mas sabia muito bem que isso poderia acontecer e não queria vivenciar situação semelhante ao que havia passado com o seu marido.

Ao revelar à filha o que a incomodava n’alma, Eleanora ouviu Angélica perguntando se a mãe já tinha conversado isso com o namorado. “- Ainda não e nem quero trazer esse assunto à tona, pois é coisa minha e se falar com ele, posso passar insegurança e desconfiança. Você sabe como ele é”.

– Se fosse comigo, o que você me diria dona Eleanora?

Diante da inquirição de Angélica, a mãe entendeu onde ela queria chegar. Sabia da insegurança da filha em relação à Fernanda e por mais que o mundo lhe dissesse o contrário, ela sempre ficaria com um pé atrás com relação à sua executiva. Não só ela, mas também Ricardo que, além de ser esposo da melhor amiga de Márcio, era funcionário dele e conviveria diariamente com ele, mesmo sabendo do fantasma que assombra o casamento dele com Fê.

Mãe e filha consumiram o restante do vinho que havia na garrafa e continuaram na conversa e o assunto era um só: o amor de Eleanora por Alexandre não ser nada comparado ao que havia sentido por Jô. “- Isso ocorre mãe, por que a senhora sempre quis conquistar meu pai, mesmo sabendo da impossibilidade. O general é um homem pronto e acabado, mas ainda assim, disposto a aprender contigo. Creio que a irmã dele não ficará entre vocês dois, principalmente se ela perceber o verdadeiro sentimento que tu tens por ele. Por exemplo, não tenho restrições ao relacionamento de Tarsila com Amadeu porque sei o quanto ela o ama e entendi o seu afastamento: por que o ama e não queria ter o mesmo fim que a ex-namorada de Jô. Mesmo de longe, ela cuidava do meu irmão e só aceitou a reaparecer depois que Márcio lhe deu garantias”, explicou a filha à mãe que se sentiu mais aliviada.

“- Bom. O que vamos comer”, quis saber Eleanora.

– Não sei ao certo, minha mãe. O que sugere?

“- Tem um restaurante muito bom aqui perto e podemos ir a pé”, informou a matriarca.

Eleanora olhou para o relógio e viu que os ponteiros passavam do meio-dia. “- Então vamos”, disse chamando a filha que afirmou desejar saber como estavam indo as coisas na editora com Marzinho. “- Esquece! Deixa ele lá com as coisas dele. Se precisar de ti, com certeza te chamará. Agora vamos que a minha barriga já começou a roncar”, completou a mãe, puxando Angélica pelo braço que ao se levantar não percebeu que o seu celular caiu, ficando ali solitário no sofá da sala de Eleanora.

O caminho entre o apartamento e o restaurante foi feito em pouco mais de vinte minutos e assim que mãe e filha entraram no estabelecimento se depararam com uma cena que poderia ter terminado em grande tragédia se Eleanora, usando o instinto materno, não tivesse segurado firme no braço da filha. Elas viram Márcio sentado em uma mesa conversando descontraidamente com uma loira que, na visão da sogra e da esposa, era estonteante.

– Mãe! Me solta que vou lá partir a cara daqueles dois. A senhora está vendo porque não posso desgrudar dele um segundo? Já está jogando charme para aquela loira dos infernos. Acabarei com os dois em dois segundos.

“- Acalme-se Angélica. Eu coloco minha mão no fogo por ele”, disse Eleanora tentando colocar água na fervura apresentada pela filha.

– Então pode ir junto com aqueles dois para fogueira e arder nos infernos.

Quando mãe e filha se aproximaram da mesa em que o editor estava, perceberam que a conversa entre eles era em alemão. Eleanora e Angélica não entendiam nada do que falavam, mas a esposa do editor tentava se controlar para não sair no tapa com os dois. Marzinho notou a presença das duas e calmamente pediu, em alemão, licença para a sua acompanhante.

“- Oi amor. Recebeu o meu recado? Mas por que não me retornou”, quis saber o marido.

– Que porra de recado? Quem é essa vagabunda que está contigo e você fala todo arrastado com ela? Está gastando o seu alemão para se exibir ou para que ninguém saiba que está marcando de comê-la depois da inauguração de sua quase editora.

“- Do que você está falando Angélica”, quis saber o marido.

– Não se faça de desentendido. Você e minha mãe são cúmplices. Ela me tirou da editora para que você pudesse ficar de paqueira com essa daí.

Eleanora, vendo que a coisa poderia descambar para a briga, quis saber de Márcio qual era o recado que ele tinha enviado. “- Que eu estaria aqui neste restaurante com a dona de uma editora da Alemanha que negociará comigo a tradução de várias obras de seu catálogo”.

“- Márcio, me desculpe, mas não vimos nada. Aliás, Angélica cadê o seu celular”, perguntou a sogra à filha.

Antes mesmo que a empresária respondesse, o marido percebeu um movimento abrupto que a esposa fazia e conseguiu se antecipar, evitando que ela atacasse a livreira alemã. “- Amor! Você não quer se sentar e almoçar conosco”, perguntou o editor sem saber direito como se posicionar.

“- Pegue essa comida e enfia no seu cu e dessa desgraçada que quer me roubar você”, disse Angélica saindo apressada do restaurante e em prantos.

– Márcio! Continue aí e trabalhe. Deixe sua esposa que eu converso com ela. Agora ficou bem claro que foi providencial eu tê-la levado para casa. Depois você me liga e conversaremos.

– Obrigado Eleanora. Estou aqui fechando esse negócio para ser anunciado hoje a noite durante a inauguração da editora.

A sogra deixou o restaurante, enquanto Márcio voltava a se sentar e conversava calmamente com a sua acompanhante, mas antes pediu desculpas a ela pelo ocorrido, informando que era para a esposa e a sogra participarem do almoço, mas não sabia como elas não tinha recebido a mensagem que ele enviou.

“- Tudo bem senhor Márcio. O mais importante é alinhavarmos o nosso acordo. O senhor acha que a sua editora dá conta de verter cinco de nossas obras nos próximos dois anos e meio”, perguntou Mary.

– Com certeza. Temos uma significativa equipe de tradutores e eu administrarei pessoalmente o trabalho realizado nesses cinco romances e, quem sabe, poderemos fazer negócios com outras obras do seu catálogo.

“- É o que desejamos. Observamos que o mercado livresco no Brasil está crescendo e nada melhor do que começar com uma editora nova, sem vícios de origem”, explicou a livreira.

Enquanto o almoço entre Márcio e Mary progredia, Angélica se desesperava entre o trajeto do restaurante e o apartamento de Eleanora. A mãe apertava o passo para alcançá-la e quando conseguiu, a puxou pelo braço, tentando acalmá-la, mas a filha só chorava e dizia que havia perdido o marido para aquela loira aguada da Alemanha. “- Ele já foi para lá comigo de caso pensado. Já tinha contato com ela. Por isso que ficou brigando comigo a todo momento. Queria era correr para os braços dela”, dizia Angélica entre lágrimas e soluços.

A mãe tentava confortá-la, mas ela só dizia que mataria os dois. Só não o fez ali naquele momento porque a mãe impediu. “- Quer parar de dizer besteiras. Você não escutou seu marido dizendo que te mandou mensagem informando onde estava”, perguntou a mãe.

– Eu não escutei nada. Só via os dois sorrindo e vendo Márcio combinando de ir para o motel com ela depois do almoço. Tomaram que morram de congestão.

“- Porra Angélica! Cadê o seu celular”, perguntou Eleanora.

– Não sei! Acho que ficou no apartamento.

“- Então vamos lá e se realmente tiver a mensagem que Márcio disse que te mandou. Você vai ligar para ele e pedir desculpas. Você muito indelicada no restaurante”, ordenou Eleanora.

“- E se não tiver nada de mensagem”, duvidou a empresária.

– Primeiro vamos checar e depois pensaremos no que fazer.

Tentando se controlar, Angélica entra quase que correndo dentro do apartamento da mãe, procurando o celular feito uma desesperada e o encontra caído em cima do sofá. Quando acessa o banco de dados, a primeira coisa que viu foi a mensagem do marido lhe dizendo onde se encontrava e com quem estava, chamando-a e a sogra para participarem daquele almoço de negócios.

A empresária retorna em prantos a ligação para o marido que pareceu um tanto quanto frio do outro lado da linha. “- Ainda estou aqui, mas já estou saindo. Novamente fizestes um papelão, feito criança mimada”, sentenciou Márcio, desligando em seguida.

Sem pensar duas vezes, Angélica deixa o prédio tendo a mãe atrás que lhe tentava acompanhar na correria. Eleanora sabia que se deixasse os dois sozinhos, a situação seria complicada e o genro estava coberto de razão. Assim que a filha entra no restaurante deparou com o esposo sentado no American-bar com um copo de uísque na mão. “- Por que está bebendo a essa hora do dia”, quis saber a esposa.

– Porque me deu vontade e não tenho que lhe dar satisfação. Nem a você e nem a quem quer que seja.

“- Márcio…”, a esposa tentou falar mas foi contida pelo marido.

– Esquece Angélica. Você não tem jeito mesmo. Quase perdi um bom contrato comercial para a editora por conta de suas inseguranças. Faça uma coisa para nós dois: fique você com a sua ciumeira porque estou farto e saindo de sua vida.

Sem esperar uma reação da mulher que tanto amava, o editor deixou o copo em cima do balcão, saindo do restaurante sem dizer uma palavra. Angélica ficou sem reação, contudo, seu coração entrou em desespero junto com a sua alma. A sorte dela é que a mãe havia acabado de cruzar com o genro na porta giratória do estabelecimento.

“- Por que Márcio saiu daquele jeito, filha”, desejou saber a sogra.

– Ele me deixou mãe. O que eu faço agora?

“- Ele pelo menos te explicou os motivos”, perguntou Eleanora.

– O mesmo de sempre. Meus exageros. Ele quase perdeu o negócio que estava tratando com aquela alemã por conta de minha maneira intempestiva com que falei com ele agora a pouco. Vou atrás dele mãe. Não consigo pensar o meu amanhã sem ter meu marido do meu lado.

“- Deveria ter pensado nisso antes. Mas agora não te quero mais rastejando atrás dele. Sou sua mãe, mas também compreendo o lado dele. Deixa ele pensar um pouco enquanto organiza a inauguração da editora dele”, explicou a mãe.

– E se tudo não passou de pretexto para ele comer aquela alemã filha de uma puta.

“- Se ele estiver indo para um motel com ela. Tomara que seja verídico e ela o faça um homem imensamente feliz, já que a esposa só lhe mete em confusão e outras trapalhadas”, troçou Eleanora por conta das loucuras da filha.

Depois de caminhar uns cem metros, o editor desligou o seu celular, pegando um taxi, solicitando que o levasse para uma região afastada da cidade, acostumada com uma clientela de caráter duvidoso. Ao avistar o primeiro hotel, pediu que o chofer parasse ali. Pagou pelo transporte, entrando no estabelecimento, pediu um quarto, pagando adiantado, inclusive com um valor a mais para que não fosse incomodado por ninguém.

Dentro do restaurante, Angélica se alimentava de forma impaciente e ligando a todo momento para o marido, contudo, só dava caixa postal. Ela ligou na editora e foi informada de que Marzinho não estava lá. Havia saído para almoçar com uma importante livreira alemã, e tratar da compra de alguns direitos autorais e ainda não havia retornado.

Já no quarto do hotel, Marzinho, tirava a roupa, se banhando em seguida e se jogando completamente nu na cama e, entre prantos, acabou dormindo. Não se conformava com a infantilidade da esposa, ainda mais porque tinha deixado recado dizendo onde estava, pedindo que ela e a sogra fossem almoçar com ele. “Foi a gota d’água”. Esse foi o último pensamento do editor, antes de mergulhar num profundo sono que durou pouco mais de uma hora e meia.

Enquanto Márcio se encontrava em seu milésimo sonho, Angélica estava em choque, sem condições de pensar com um mínimo de razão. Não sabia por onde começar e não desejava acionar ninguém, mas respirava com dificuldades a cada pensamento que tinha sobre o fim do casamento. Eleanora tentava acalmar a filha, mas sem sucesso. Em virtude disso, resolveu acionar o namorado que, pelas conexões com o Exército, poderia ajudar. “- Largue o que está fazendo e vem para cá. Assim que chegar te conto. Angélica está passada com o desaparecimento do marido”.

“- Estou chegando”, disse Alexandre.

Já dentro do apartamento de Eleanora, o general ficou sabendo do ocorrido e pensando consigo mesmo dizia que Márcio deveria ter chegado ao seu limite diante das sandices da esposa. “- O que dá para fazer amor”, quis saber a namorada.

– Acho que quase nada. Se ele desligou o celular é porque não deseja ser encontrado.

“- E o que faço com a minha filha que está lá no quarto em ponto de ter um treco”, quis saber a namorada.

– Deixe-a se virar. Trate-a como adulta e não como uma criança que, ao ver o brinquedo despedaço, pede aos pais que arrumem ou comprem outro.

“- Alexandre! Você não entendeu nada. Tenho medo da reação de Angélica. Ela pode colocar tudo a perder hoje à noite e arrumar a maior confusão durante a inauguração dessa editora, inclusive se essa alemã aparecer lá. Conheço minha filha e sei do que ela é capaz. Então vamos evitar escândalos”, desabafou Eleanora.

– Está bem! Verificarei o que é possível fazer. Qual foi a última vez que tentaram falar com ele? Me passe o número do celular e quem sabe eu consigo alguma coisa.

Assim que recebeu o número do telefone e o horário que tinha perdido o contato com o editor, Alexandre tirou do bolso um aparelho que Eleanora nunca tinha visto antes com ele. Ela pensou em dizer algo, mas optou por falar sobre isso depois de resolver o problema de Angélica. A namorada só percebeu o militar se afastando em direção ao banheiro, onde permaneceu por cerca de meia hora. Ao retornar falava com alguém ao telefone e olhando para a sogra de Márcio perguntou que roupa ele usava.

“- Obrigado pela informação. Me encontre dentro de uns 20 minutos na praça do Bosque”, informou o militar.

Eleanora fez menção de querer saber do que se tratava, mas Alexandre disse que era para ficar ali com a filha que ele voltaria dentro de uma hora. “- Acho que localizei o seu genro. Torce para eu conseguir trazê-lo de volta”.

“- Onde ele está, posso saber”, perguntou a sogra.

– Não! Sei que vai falar com a sua filha e a coisa pode sair do controle.

Assim que o general terminou de falar, Angélica saiu do quarto da mãe com cara de quem derramou dezenas de baldes de lágrimas. “- Alexandre! Você promete me trazer Márcio de volta”, quis saber a esposa do editor.

“- Não prometo nada. Sei bem o quanto seu marido é torrão e também se agiu assim é porque está no seu limite”, afirmou o militar com cara de poucos amigos.

“- Sei que passei dos limites, mas não consigo me controlar, general”, tentou se explicar Angélica.

– Não é a mim que deves dizer isso, mas sim ao seu marido que só pensa em ti o tempo todo. Começo a achar que vocês dois devem dar um tempo. Do contrário, podem destruir isso de belo que estão construindo.

“- Dar tempo para quê? Para ele se assanhar com outra mulher? Ou você acha que ele não está em um motel com aquela mulherzinha que veio com essa desculpa de vender direitos autorais para tirá-lo de mim’, inquiriu a empresária em tom irônico.

– Bom! Eu não sei de nada! Agora me deixe ir e vamos ver o que consigo.

Assim que o general deixou o apartamento de Eleanora, Angélica desabou no colo da mãe, chorando novamente e se perguntando porque Márcio fazia isso com o coração dela.

– Acho que a pergunta não tem que ser feita a ele, mas a ti mesma, pois foi você quem arruinou tudo.

“- Está certo mãe. Depois eu vejo isso, agora só quero meu marido de volta”, disse a empresária toda chorona.

Alexandre se encontrou com o taxista que transportou Márcio até o hotel. Pela informação, foi bem remunerado. “- Obrigado! Essa conversa nunca existiu. Espero contar com a sua discrição”.

– Tudo bem general. O senhor pode ficar tranquilo. Só espero que solicite sempre os meus serviços quando precisar de um táxi.

“- Com certeza, meu caro”, tranquilizou-o o militar.

Em pouco mais de dez minutos, Alexandre bateu à porta do quarto em que Márcio dormia. O editor acordou assustado ao ouvir a voz do militar. “- Um momento”.

Assim que se vestiu, Márcio perguntou se ele estava sozinho. “- Estou sim, meu amigo. Agora me deixe entrar. Precisamos conversar”. Já dentro do cubículo, o militar foi direto ao assunto, como era próprio dele. “- O que está acontecendo? Por que se escondeu aqui nessa pocilga”, quis saber o general.

“- Primeiro, como me achou aqui”, quis saber o editor.

– Se esqueceu que sou general do Exército.

Assim que Alexandre terminou, Márcio percebeu que não tinha como se esconder daquele pessoal naquela cidade. Se peidasse e desaparecesse inalando o gás metano, o achariam.

“- Estou farto. Amo muito Angélica, mas ela está me tirando o oxigênio. O ciúme dela está me asfixiando”, desabafou o editor.

– E você acha que fugindo, se escondendo, conseguirá alguma coisa? Enfrente tudo de cabeça erguida, sem precisar de subterfúgios. Hoje é o dia da inauguração de sua editora. Pretendia abandonar essa realização a muito tempo desejada? Acha mesmo que sua mulher não aparecerá a noite e a situação ficará pior? Ela acredita que você está num motel com uma alemã ou coisa parecida.

“- Ela sempre acha que estou comendo alguém. É muito insegura. Já fiz de tudo para provar a ela que a amo e não consigo pensar em outra pessoa, mas tudo parece que bate na parede e volta”, revelou Márcio.

– Nem mesmo em Fernanda?

“- O que a Fernanda tem a ver com isso”, inquiriu Marzinho.

– Todos desconfiam que vocês têm um caso.

“- Caralho! Não tenho nada com a Fê. Aliás estou casado com a patroa dela”, disse Márcio, meio que exasperado.

“- Então volte e se resolva com Angélica. Posso sugerir uma coisa: vá e fique na editora enquanto tento ajustar as coisas por lá e depois da inauguração da sua editora tenham uma conversa definitiva”, orientou Alexandre.

– Você tem razão, meu amigo.

Meia-hora depois dessa conversa, Márcio entrava na editora em companhia de Alexandre e os dois se fecharam na sala de reuniões por cerca de 20 minutos. Assim que deixou o prédio da Jardim da Leitura, o militar ligou para a namorada dizendo que estava tudo resolvido, mas que era para aguardar a sua chegada até o apartamento dela.

Enquanto o general se deslocava até o apartamento de Eleanora, o genro dela, mais tranquilo, se deixou ficar numa das poltronas que havia instalado na sala de reunião. Sua mente e corações foram preenchidos pelas imagens da esposa com o sorriso de imensa felicidade e os olhos brilhando feito duas esmeraldas imensamente verdes. O editor não sabe ao certo quanto tempo ficou nessa silenciosa contemplação, mas foi despertado dela ao ouvir a voz do cunhado o chamando para fechar uns detalhes da inauguração naquela noite.

“- Mosquito. Onde está com a cabeça”, quis saber Amadeu que, antes mesmo de receber a resposta, já foi dizendo: “- Já sei! Nas curvas belíssimas de minha irmã que te deixam fora de orbita”.

“- Errou”, disse Márcio esboçando um pequeno sorriso que o cunhado, desde que o conhecera, nunca tinha visto. Era tudo mágico, então o poeta que vivia guardado dentro do coração de Amadeu apareceu. “- Esse seu pequeno sorriso vale uns versos e, mesmo que sejam direcionados à minha irmã, todo o universo está contido nele. Agora entendo o que Keka viu em você. Ou melhor, ela enxergou sua alma e tu a dela, principalmente naquela manhã em que ela usava roupa transparente”.

Márcio até que tentou dizer o contrário, mas seu coração já havia se encontrado com a alma e umas memórias vieram à tona, fazendo com que todo o seu ser se rejuvenescesse juntamente com uma vontade louca de rever a mulher, cair de joelho diante dela e pedir mil perdões por não ter entendido direito a intensidade dos ciúmes que ela sentia dele.

De chofre, abraçou o cunhado e deixaram a sala de reuniões para tratar dos detalhes da inauguração da Jardim da Leitura. O pessoal da empresa recomendada por Alexandre, trabalhava a todo vapor para deixar tudo do jeito que o proprietário desejava. Claro que a maior parte da decoração foi decidida por Tarsila que entendeu que o seu sócio podia ser bom em muitas coisas, principalmente para o coração e a cabeça da esposa, Angélica, mas para deixar a editora com um ambiente convidativo à leitura e não uma empresa que apenas visasse lucro, com certeza era uma negação.

Já passava das cinco da tarde quando Angélica entra como um furacão na editora à procura do marido. A mãe e o general bem que tentaram segurá-la no apartamento, mas lhe dizer não era a mesma coisa que dizer sim. Ao vê-la, o marido tentou disfarçar, mas estava surpreso com a chegada dela e aliviado. Amava loucamente aquela mulher, que possuía os olhos mais belos que já tinha visto na vida. Eles o devoravam e ao mesmo tempo afagava com muito carinho, paixão, a alma do marido.

Sem dizer nada, Angélica abraça o marido e não conseguiu conter as lágrimas, pediu perdão e perguntando ao mesmo tempo se ela a amava e por que tinha sumido depois que deixou o restaurante. Antes que o editor pudesse responder, Amadeu soprou no ouvido dele que a levasse para a sala de reunião e conversassem.

Seguindo o conselho do amigo-irmã0-cunhado, Marzinho pega a esposa pela mão e a conduz até o cômodo, trancando a porta em seguida. “- Claro que eu te amo, mas te confesso que ainda não sei lidar com o tamanho do seu ciúme e só vejo uma saída: fugir, me esconder e tentar encontrar uma resposta aqui dentro do meu coração, mas só vejo a ti e o seu amor”, informou o editor para delírio de sua esposa que se joga em seus braços.

“- Ainda bem que mamãe tem o general que conseguiu te localizar”, informou Angélica, deixando o marido intrigado, querendo saber como o militar o achou, mas de qualquer forma, pelo posto que ocupou no Exército, antes de se aposentar, poderia sim localizá-lo com facilidade e foi o que aconteceu.

A empresária não parava de beijá-lo. “- Vem! Vamos para casa! Deixe meu irmão cuidar do resto. O Alexandre está vindo para cá e auxiliará no que for preciso. Estou precisando de uma banheira cheia de espumas e meu marido delicioso dentro dela”, completou Angélica, massageando o membro de Márcio que respondeu ao primeiro toque das mãos dela.

Antes mesmo que o editor dissesse alguma coisa, praticamente foi arrastado do prédio da sua editora até o automóvel de sua esposa e já dentro do veículo os carinhos se intensificaram, passando para carícias repletas de tesão com o casal se incendiando como recém-casados na noite de núpcias. Os dois voltaram ao mundo dos mortais ao ouvirem uma batida no vidro do carro. Era a mãe da empresária que, ao ser atendida, passou um corretivo na filha. “- Vão para casa e se acabem um nos braços do outro. Ninguém precisa saber o tamanho do tesão que sentem um pelo outro”.

– Desculpe-me mãe. É que Marzinho me faz perder o juízo.

“- Está bem! Agora desapareçam daqui e só retorne momentos antes do descerramento da placa de inauguração”, ordenou Eleanora.

Enquanto Angélica e Márcio se dirigiam à torre da rainha diaba, Amadeu fazia disparos pelas redes sociais sobre a editora Jardim da Leitura que seria oficialmente inaugurada naquela noite. Ao contrário do cunhado, ele desejava que o mundo inteiro soubesse da chegada de uma casa publicadora que prometia ser grande em pouco tempo. Nos últimos dias, enquanto Marzinho conversava com editores franceses e alemães, Amadeu costurava contratos com editoras dos Estados Unidos e Inglaterra. O desejo era apostar em autores iniciantes e pouco conhecidos dos leitores em geral, principalmente do Brasil.

No restante da tarde, Angélica perdeu o juízo, fôlego e outros sentidos enquanto era penetrada pelo marido que a fazia ter vários orgasmos múltiplos, fruto da paixão, do amor e da devoção que tinha por Márcio. Afinal, ele foi o único a fazer com que o mundo dela parasse de girar o contrário. Quem conhecia o casal sabia que a empresária provocava o mesmo efeito no esposo que, até bem pouco tempo atrás, vivia perambulando pelos bares da cidade feito moscas que pousavam na beirada dos copos repletos de cachaça barata.

Do outro lado da cidade, Amadeu conversava, por intermédio de uma chamada de vídeo com Tarsila que se preparava para a inauguração da sua editora. Ela tinha claro que ficaria afastada por muito tempo da empresa, justamente por conta do filho que esperava e em virtude disso sabia que o motivo era significativamente importante para o poeta e marido, que tentou, mas não conseguiu seguir em frente na vida empresarial.

“- Estarei pronta assim que você chegar aqui meu amor. Tua roupa estará em cima da cama. Não se apresse aí, quero te curtir um montão antes de chegarmos na sede da editora”, disse Tarsila enquanto procurava algo em seu guarda-roupa. Desejava vestir algo bem sexy para o esposo, sem, no entanto, cair na vulgaridade em função do seu adiantado estado de gravidez.

No apartamento de Alexandre, Eleanora falava sem parar enquanto o namorado preparava sua mala. Ela desejava viajar na manhã seguinte. Estava ansiosa para conhecer a pessoa mais importante na vida de seu amado. Acreditava que seria um passo significativo em seu relacionamento com o general que não conseguia se concentrar no que estava fazendo. “- Amor! Será que dá para ficar em silêncio um pouquinho? Não estou conseguindo pensar nas coisas que preciso levar para Resende”, disse o militar.

“- Não precisa transportar nada, apenas leve contigo o meu amor”, disse Eleanora tentando desvencilhar de uma pequena decepção consigo mesma.

– Dona! Fique serena! Estou te levando para um momento significativo de minha existência. Você será a primeira mulher que apresento para a minha irmã, portanto, só isso a fará entender o que o seu coração significa em minha vida.

Com os olhos brilhando de paixão e desejo, Eleanora se dirigiu ao namorado, beijando-o ternamente, apenas agradeceu pelo amor que ele lhe tinha. “- Me desculpe! É que pela primeira vez não preciso me esforçar para fazer alguém gostar de mim. Sei que me entende, pois passei a vida toda tentando agradar Jô e não consegui alcançar o objetivo”.

– Não quero me colocar no lugar de ninguém, principalmente do seu falecido marido. Desejo apenas te fazer feliz e isso se você deixar e quiser.

“- Por favor! Não me deixe mais insegura que já estou. Nem pense em me deixar um instante se quer do seu eterno futuro. Te amo muito, meu general de mil estrelas, o homem que enche meu mundo de estrelas e outros cometas”.

Assim que terminou de falar, Eleanora se afastou do militar dizendo que ia para casa se preparar para o evento da noite. “- Vê se não atrasa hein! Estou te aguardando em casa daqui a uma hora e eu que desconfie que o senhor esteja com outra ou se distraindo com essas sirigaitas pelas ruas da cidade. Não se esqueça que sei muito bem como esses seus olhos passeiam por bundas alheias”, disse a namorada rindo, mas tentando manter a severidade em suas observações.

Num dos quartos de um dos mais tradicionais hotéis da cidade, a ex-namorada de Márcio, a professora universitária, esbaforida de tanto gozar nos braços de seu namorado e orientando dizia a ele que deixasse tudo com ela. “- Durante a solenidade, conversarei com Márcio e te apresentarei, falando um pouco do seu trabalho e aí te darei um sinal e você se aproximará, completando o serviço. Quero apenas que fique de olho na esposa dele. Aquela doida tem um ciúme dos infernos do Márcio e poderá colocar tudo a perder se desconfiar que estou dando em cima do marido”, explicou a psicóloga.

– Tudo bem amor, ficarei atento a tudo, inclusive em você e se ela tentar alguma coisa farei o que for possível para que entenda que estou enciumado.

Já passavam das sete da noite quando o celular de Márcio disparou o alarme acordando o casal que havia dormido depois de uma tarde torrencial de amor. Enquanto o editor se banhava, Angélica deixava tudo organizado, inclusive a roupa que ambos usariam naquela noite memorável e importante para os dois. Trajariam as peças que escolheram no dia anterior.

Assim que viu a esposa pronta, o editor não conseguiu evitar a ereção que surgiu no meio de suas pernas, o que valeu um comentário da empresária. “- Meu deus do céu amor! Será que não pode aguardar até o final do cerimonial de hoje. Acabamos de nos acabar nos braços um do outro e já queres mais? Espero que esse desejo todo não seja apenas sexual, mas também de amor e uma paixão que vem lá de sua alma”.

Márcio apenas olhou para esposa que disse apenas que o aguardava na sala, portanto, não deveria demorar muito, pois já estavam atrasados para a festa da Jardim da Leitura.  “- Afinal, trata-se da realização de seu sonho, meu amor”, sentenciou a esposa.

Márcio se arrumou o mais rápido que pode e quando chegou à sala foi a sua vez de perceber o que havia provocado em sua esposa. Ele não sabia se prestava atenção no brilho que emanava dos olhos dela ou para os seus seios que indicavam haver ali um interesse pelo que ele portava no meio das pernas. Pensou em lhe dizer algo, mas ficou em silêncio, crendo que o seu mutismo diria muito mais do que qualquer palavra naquele começo de prometedora noite.

Quando casal chegou à sede da Jardim da Leitura, a primeira pessoa que entrou no radar de Angélica foi a professora universitária e ex-namorada de Márcio nos tempos em que Márcio fazia graduação. Sua esposa fez menção de se dirigir até ela, mas foi contida por um suave apertão de mão desferido pelo seu esposo indicando que era para ser polida.

Assim que viu o casal, a psicóloga foi em direção aos dois praticamente arrastando o jovem que seria apresentado como seu namorado e promissor pesquisador e escritor, portanto, um excelente nome para a editora de Marzinho.

“- Parabéns Márcio! Conseguiu realizar o seu sonho. Me recordo de quando estávamos juntos você me dizia que desejava ter uma casa publicadora”, disse a docente universitária.

– Recordo-me de tê-la ouvido, não uma, mas várias vezes, me dizendo que tudo não passava de um sonho tolo. Desta forma, como podes ver, não havia nenhuma tolice naqueles meus anseios que se concretizam hoje.

“- Márcio vamos, precisamos dar atenção aos seus outros convidados e a presença desta professora aqui me parece ser um insulto à concretização de algo que tu vinhas acalentando há muito tempo”, disse Angélica, tentando puxar o marido pela mão, mas foi contida por um gesto sublime do esposo.

– Quero lhe apresentar o meu namorado …. É meu orientando desde o mestrado e o trouxe até aqui para, quem sabe, não fazer parte da lista de seus autores. Além de um significativo pesquisador, é também um ótimo poeta, contista e como vocês chamam mesmo: cronista.

“- Antes de mais nada preciso conhecer o material que ele produz e depois minha equipe de editorialistas dirá se é viável ou não”, respondeu Márcio.

O jovem amante da docente, tirou do bolso do seu casado um breve resumo de um romance que já havia encaminhado ao correio eletrônico da editora e o entregou ao editor. Márcio pode observar que ele trazia consigo uma outra cópia que desejava ler para ele.

Sem contar com a anuência do ex-namorado de sua orientadora e namorada, começou a ler o trecho que trazia consigo, fazendo com que Márcio prestasse atenção na breve enunciação, intitulada Brincando de brincar de amar: “Ela estava entediada de olhar as ondas do mar todos os dias, então resolveu construir para si um novo brinquedo que começava a ser elaborado pelas redes sociais: brincar de se apaixonar por alguém distante que poderia estar com ela a todo momento, mas quando não desejasse mais, era um simples apagar, como se diziam: estar off ou simplesmente cancelar e assim se fez quando Moisés disse que era para o Mar Vermelho se abrir para que ele e sua comitiva passasse fugindo do cativeiro no Egito”.

“- Gostei! Me parece interessante. Lerei com toda a atenção possível o seu romance e depois de uma avaliação da equipe técnica da editora, entrarei em contato com o senhor. Agora se me der licença, preciso estar com os demais convidados da noite”, apressou-se em dizer Márcio.

Assim que o editor e sua esposa se afastaram, o postulante a escritor quis saber mais sobre eles, contudo, ouviu apenas que só o fato de Márcio ter ouvido atenciosamente o trecho que ele leu, já poderia considerar meio caminho andando.

– Qual é a sua com essa cara? Você me disse que é alguém do seu passado, mas pela forma como tu olhou para ele, indica que deseja trazê-lo para o presente.

“- De fato, ele é um homem interessante, entretanto, inacessível. Você reparou bem na mulher dele? Que pessoa intragável. Nós já nos estranhamos um dia desse aí e, se você se demora mais um pouco na sua leitura ou, se hoje não fosse a inauguração da editora do marido, ela teria me voado no pescoço”, esclareceu a professora.

Enquanto a psicóloga conversava com seu namora, Márcio e Angélica chegava próximo aos pais dele e este lhe perguntou onde estava o restante. A mãe lhe foi franca, diante da tentativa do pai procurar desculpas. “- Não quiseram vir filho! Disseram que é um evento para ti e eles não tem nada a ver com editora, livros, optaram por ficar lá com as coisas deles”.

“-E Débora”, perguntou Angélica

“- Esdras a convenceu não vir. Sabe como é”, disse o pai de Marzinho.

Por mais que tentasse, Angélica procurou esconder a sua decepção com a sua futura sócia, mas não foi possível. “- Espero que não misture as estações, Angélica. Você e a minha outra futura nora atuam no ramo de arquitetura e tu está aqui por conta desse empreendimento do seu marido”, explicou Judith,

– E fiz bem em vir. Do contrário, teria outras concorrentes dando em cima do meu marido e aí a coisa não ia ficar bem.

Judith apenas se limitou a olhar para a nora e esboçar um sorriso, já que não havia nada no mundo que fizesse com que ela diminuísse o ciúme doentio que sentia do marido. Também pudera, os dois pareciam ser idênticos e se encontraram em momentos complicados de suas vidas.

Assim que avistou a mãe e o namorado, a empresária pediu licença aos sogros e foi ter com Eleanora. “- Oi mãe! Que bom que vieram. Obrigado general por ter conseguido fazer Marzinho voltar para casa”, disse Angélica parecido uma criança.

“- Agora vê se não estraga tudo. Esse homem é doido por ti e não consegue nem peidar sem o seu consentimento. Então controle esse seu ciúme doentio”, esclareceu a mãe.

“- Como fazer isso se aquela ex-namorada dele dos tempos de faculdade está aqui”, questionou Angélica.

“- É só perguntar para o seu marido se ele prefere tua buceta ou a daquela professora”, respondeu Eleanora, sentindo o apertão dado em sua mão por Alexandre como reprimenda.

Quando Angélica se virava para os lados em que estava o marido, o surpreendeu sendo abraçado por Fernanda. “- Olha lá o abraço daqueles dois. Preciso ir lá, antes que a minha diretora roube meu marido”, disse de forma exasperada a empresária.

– Não! Fique aqui conosco. Marzinho está com os pais e Fê é a melhor amiga dele.

Ao tentar dar o primeiro passo, Angélica foi contida pelo general. “- Olha lá! Não vá me fazer de idiota. Eu o trouxe de volta e essa noite é dele. Depois tu podes se acabar nos braços dele”, disse o militar, gargalhando em seguida.

Fingindo não ter escudado nada sobre as recomendações do namorado de sua mãe, a empresária saiu em direção ao marido, entretanto, no meio de caminho parou e ficou pensando por questões de segundo, se dirigindo ao púlpito montado para o momento em que o marido falaria com todos os convidados. Pegou o microfone pedindo a atenção de todos os presentes, no que foi atendida para espanto do esposo. Assim que percebeu que ele a olhava com devoção, se declarou de forma bem improvisada, enquanto havia uma bela melodia de fundo.

“Antes de sua chegada, sentia o chão por onde passava. Tudo era muito opaco, cinza, sem vida, um completo breu, mas bastou um olhar seu para que tudo se transformasse em nuvens de algodão e aquele chão, sem vida, duro, insensível, se transformasse em belas hostes celestiais coloridas. Depois que seu coração encontrou o meu, nunca mais consegui caminhar como dantes, pois agora eu só flutuo e os caminhos que percorro são repletos de flores e múltiplos aromas. Daí a sua editora se chamar Jardim da Leitura. Obrigado por me amar e me presentear todos os dias com o Sol que é sua alma em minha vida. TE AMO, meu Marzinho”.

Assim que terminou de falar, Angélica escutou assovios e uma enorme salva de palmas, enquanto o esposo era suavemente empurrado para o palco pela sua mãe e sua melhor amiga. Lá chegando, beijou-a de forma apaixonada e em seguida disse apenas: “- Eis a minha adorável esposa. Aquela que faz o Sol brilhar à meia-noite em minha vida. TAMBÉM TE AMO MUITO, Angélica”.

Assim que a esposa desceu do palco indo em direção à Eleanora e Alexandre, Márcio disse aos presentes que a solenidade havia começado. “Tinha preparado discursos e outras coisas, mas o amor atropelou tudo, como fez comigo naquela manhã de domingo em que meus olhos ficaram aprisionados no globo ocular dessa pessoa que tornou tudo possível a partir daquele dia”.

Fernanda, que estava de mãos dadas com Ricardo, se desvencilhou correndo até o amigo que descia do palco para parabenizá-lo. “- Eu bem que desconfiei naquele dia que entrou na loja com essa loira doida que ela morria de amores por ti e agora não tenho dúvida alguma. Parabéns meu amigo. Não sei se conseguiria te amar do jeito que ela faz”.

Ao terminar de falar, Fernanda tinha do seu lado o marido que não escutou absolutamente nada do que ela disse ao amigo, mas ficou desconfiado, contudo, resolveu deixar de lado qualquer dúvida que lhe aventasse o coração, pois sabia que não mudaria em nada a sua vida com a esposa.

Quando Fernanda e o marido se afastaram do editor, ele foi cercado por Amadeu e Tarsila. O amigo foi logo fazendo suas conhecidas troças desde quando se conheceram naquele começo de noite chuvosa de segunda-feira. “– E aí mosquito, meu grande amigo e cunhado? Já achou a mulher no fundo do copo”, quis saber o poeta, gargalhando em seguida.

– Achei uma fábrica inteira de copos e em todos eles há uma estrela brilhando eternamente.

Assim que Márcio terminou de falar, sua esposa se aproxima querendo saber quem era a estrela da vez. “- Espero que não seja nenhuma outra sirigaita e nem a minha diretora, porque se for, vai se preparando para o pior”.

O irmão e a cunhada caíram na gargalhada, compartilhada pelo editor que apenas indicou com o olhar quem era a luz de sua vida. Tarsila perguntou ao seu sócio o que faltava em sua vida. “- Poesia, minha cara sócia e cunhada. Posso lhe dizer que tinha tudo, mas faltava alguém para colocar todos os versos, rimas, verbos e signos nos devidos lugares, encorpando uma bela melodia e isso aconteceu depois de conhecer o seu marido e a irmã dele”, expôs Márcio, indicando haver ternura em sua fala.

A sócia, olhando bem para o seu marido, agradeceu muito ao editor por tê-la feito feliz ao trazer aos seus braços o grande amor de sua vida. “- Sei que fui rude contigo no começo, mas, te confesso que não conhecia o teor de seu coração”.

“- Não se preocupe, minha cunhada. Eu também não conhecia o coração deste homem aqui, até que tive que buscá-lo do outro lado do estado, inclusive quase fiquei nua num terminal rodoviário para forçá-lo a voltar comigo”, declarou Angélica, completamente envolvida pelos olhares de Márcio.

Neste instante Fernanda e Ricardo se aproximaram do quarteto. Foi a diretora quem primeiro falou. “- Angélica, durante a sua declaração me lembrei da primeira vez que te vi na loja em que trabalhava. O jeito que olhava para o Marzinho naquele dia, entendi logo que o seu coração batia descompassadamente dentro de ti e o responsável por isso era esse homem tímido, cuja alma é gigantesca”, relatou Fê.

Tentando mudar de assunto, já que não queria conversar sobre seus sentimentos em relação à Marzinho com a melhor amiga dele, Angélica puxou conversa com Tarsila sobre a gravidez. O marido percebendo as pretensões da esposa, chamou Fernanda de lado para conversarem sobre um romance que vinha lendo, enquanto Amadeu falava com Ricardo sobre questões alusivas à editora.

“- Estou muito interessado nesse romance que me enviaram faz umas duas semanas. É sobre uma personagem que idealiza uma página fake nas redes sociais para conversar com ele mesmo. O criador deseja muito ser idêntico à sua página falsa, então lhe atribui vários valores éticos e morais e quando conversa com outras pessoas pela sua plataforma sempre faz referência ao seu amigo-imaginário dizendo que ele é fantástico e que se pudesse seria igual a ele. Daí pensei que o título pode ser EU”.

– Nossa Marzinho, já comecei a gostar antes mesmo de sua editora publicá-lo. Então pode me colocar na lista de esperas para adquirir um exemplar e ainda vou fazer propaganda ao pessoal lá da faculdade.

“- Na verdade queria falar outra coisa contigo e não tem nada a ver com esse romance ou a editora, mas tem a ver muito contigo e conosco. Te quero inteira nesse seu casamento, do mesmo jeito que vem sendo com a nossa amizade. Compreendo também que não posso te pedir nada, até porque declarou o seu amor”, disse Marzinho.

– Querido! Ao declarar meus sentimentos para contigo, percebi que precisava fazer isso, pois foi uma descoberta tardia, entretanto, compreendi que você é aquela joia que sempre passaremos defronte a vitrine da joalheria, mas tendo a certeza de que não existe dinheiro no mundo que a compre para nós.

Quando Márcio ia dizer algo, a amiga interrompeu. “- Não precisa dizer nada, até porque não existe som que possa fazer a minha alma feliz que não seja aquele que diga que sentes a mesma coisa por mim. Então, como sei que isso nunca acontecerá porque entendi que você, que é o meu Marzinho, é homem de apenas um amor e Angélica chegou primeiro, mesmo eu passando boa parte dos meus últimos seis anos do seu lado”, desabafou Fê.

Assim que terminou de falar, Fernanda deitou sua cabeça no ombro do amigo, pegando suavemente em sua mão. Movimento este que não passou despercebido por Angélica e Ricardo. Eles tentaram caminhar em direção ao editor e a amiga que estavam de costas para o quarteto, mas foram contidos por Tarsila e Amadeu. “- Por favor! Deixe-os… O momento é dos dois. Fernanda não vai te deixar Ricardo e nem o mosquito abandonará minha irmã. Eles estão repactuando a amizade, prometendo que um cuidará do outro”, disse Tarsila.

– Keka! Marzinho é homem de um único amor. Ele andou muito para encontrar o seu coração e não vai trocá-lo por nenhum outro e Fernanda descobriu isso quando percebeu como era o ser do mosquito. De certa forma, desconfio que ela sempre soube, mas ele era intocável, como a alma de um poeta que sempre buscou a rima perfeita, e eu tenho certeza de que ela se chama Angélica”, explicou Amadeu que amava em demasia o editor, afinal, os dois procuravam os versos para uma poesia perfeita. “- Os meus versos andavam por aí com muito medo, mas sempre por perto. Os do mosquito nem sabia que ele existia, mas o procurava da mesma forma”, completou Amadeu no exato momento em que Márcio e Fernanda voltavam para junto do quarteto.

Antes que fossem interpelados sobre o que falavam em segredo, tanto Marzinho quanto Fernanda parabenizou todos pelas pessoas que tinham ao seu lado como nubente. “- Pensei que você desejasse roubar meu marido”, perguntou Angélica, entre um leve e irônico sorriso.

“- Minha cara patroa, poderia até ficar com o corpo dele, mas a senhora tem a melhor parte do meu amigo aqui: sua alma. Você foi a única capaz de fazer com que as duas coisas existissem no mesmo homem”, devolveu Fernanda, de forma polida.

No momento em que a diretora de finanças das Organizações Oliveira terminava de falar, Eleanora chamou Amadeu e a filha para conversar e fazendo recomendações para a nora se sentasse para descansar. “- Não quero que aconteça nada de ruim com meu neto e com a minha nora”, esclareceu a matriarca.

Márcio se encaminhou para o sentido contrário do pessoal, se dirigindo ao bar. Desejava tomar uma cerveja e pensar nas palavras de Fernanda, Amadeu e nos últimos acontecimentos. De quase mendigo à proprietário de uma editora que prometia ser disputada pelos melhores autores do Brasil. Pediu a bebida e saindo de cena, escolhendo uma penumbra no salão da editora que permitisse ver quase tudo e não ser observado por ninguém.

Ao dar o segundo gole na cerveja, percebeu que alguém se aproximava. Era a professora e sua ex-namorada ou ficante dos tempos de graduação. De imediato ela disse que o estudante era apenas seu orientando e amigo. “- Apenas transamos. Só isso”, explicou a docente. “- Não é porque você está casado, trepando, que isso possa dizer que há amor entre os dois corpos”, completou a interlocutora.

Diante do silêncio do editor, continuou a falar como se precisasse dessa catarse, já que Marzinho se transformou no homem que ela nunca imaginou que se tornaria. Enquanto o olhava, pensava sobre os motivos que o levaram a esconder aquele ser de todo mundo e apenas Angélica foi capaz de conhecer.

“- Então você acha que que o que senti por ti naquela época não era amor”, perguntou Marzinho, expressando curiosidade e desejo de saber qual era a avaliação da professora que era psicóloga.

– Não era amor! Disso eu tenho certeza absoluta! Naquele momento você queria mais um ombro e se desse para transar, ótimo.

“- Mas por que está me dizendo isso agora”, Marzinho quis saber.

– Por que essa sua esposa é o seu primeiro amor e você o dela. Basta olhar para os dois e observar com a devida acuidade que o analista enxergará como se consomem no amor, na paixão e amor é isso: devoção, portanto, um ato de fé que se retroalimentam. Por isso que o amor é algo raro e não está nos livros e nem em poemas, mas na vivência. A ficção tenta apresentar isso, mas apenas hoje eu sei o que é amor. Basta olharmos para você e sua mulher. Obrigado por me ensinar mais um pouquinho e ter a certeza de que fui extremamente apressada em te julgar e te afastar do meu convívio.

“- Aquilo tudo ficou no passado. O que importa é daqui para a frente. Quero que saiba que coloco minha editora à disposição de seus trabalhos acadêmicos, científicos e ficcionais”, disse de forma serena o editor, tentando encurtar o assunto relativo ao passado dos dois.

Neste exato momento, Angélica se aproximou dos dois e já foi perguntando o que estavam fazendo naquele canto escuro do salão. Foi a ex-namorada de Márcio quem explicou que havia ido ao local apenas para agradecer pelo editor ter colocado a editora à disposição da universidade em que ela trabalha.

“- Pelo que eu sei sua universidade tem editora própria, portanto, desnecessário você e sua trupe quererem publicar agora na Jardim da Leitura. Por isso acho que o meu esposo, se me ouvir, não dará nenhum espaço para gente de sua laia”, sentenciou Angélica já apresentando um quadro de insatisfação com aquela conversa.

– Espere um pouco amor! Não vou misturar coisas pessoais com o trabalho de minha editora e além do mais, o que ela te informou é a veracidade. Já gritei para todo mundo ouvir que encontrei a pessoa com quem desejo passar o resto da minha eternidade. Por isso não tem espaço para aventuras, beijos ou qualquer outra coisa que não seja com você.

“- Esse homem é louco por ti e você foi a única a passar pela linha imaginária que ele colocou, chegando à alma dele. Será que ainda não percebeu isso, Angélica”, perguntou a psicóloga. “Se ele sair da sua vida, saiba que não ficará um dia sequer sozinho”, completou a ex-namorada de Marzinho.

A ex-namorada de Márcio disse isso e foi saindo, sob a observação de Angélica que não percebeu quando o marido começou a lhe acariciar a bunda. Ao voltar a face para o esposo, a empresária notou um brilho todo especial em seus olhos. Por mais que conhecesse a maneira como Marzinho lhe dava atenção, nunca tinha percebido o brilho dos olhos nas sombras. “- Meu deus do céu! É impressão minha ou tudo em ti está aceso, meu amado esposo”, quis saber Angélica.

– Não sei do que está falando, amor. A única coisa que sei é que te amo desesperadamente e, talvez por isso, me disseram essa noite que tu és o meu primeiro amor e que só se ama uma única vez por toda a eternidade. Ouvi dizer que a minha esposa foi a única que conseguiu alinhar minha alma com a minha matéria. Não sei bem o que é isso, mas só sei é que se ficar um dia sem tê-la do meu lado, a minha existência não terá sentido algum. Te amo minha paixão.

Ao proferir essas últimas palavras, Márcio sentiu todo a temperatura que emanava do corpo de Angélica que, mesmo estando todo coberto, emitia imensas rajadas de calor ao coração do marido que deu uma mordiscada na ponta da orelha de Angélica lhe dizendo que a queria toda nua naquela noite toda. “- Te quero em meus braços para que sintamos juntos os primeiros raios de um novo dia. Quero-te desnuda como a lua que, ao surgir no começo da noite, encanta até o mais duro coração”.

Angélica abraça o marido lhe dando um profundo beijo que foi interrompido por Judith e Rogério. Queriam se despedir, pois haviam marcado de jantar com os dois irmãos e as respectivas esposa e noiva. “- Por que não vão para casa e terminem tudo lá? Aqui é a sua empresa e não pega bem para ti ficar pelos cantos escuros se agarrando com mulheres”, disse a mãe em tom de reprova.

Antes de o esposo falar alguma coisa diante da reprimenda da mãe, Angélica tentou justificar, mas foi em vão. “- O universo inteiro sabe do amor louco que os une, mas guardem isso para as quatro paredes da casa de vocês. Bom, eu e teu pai vamos embora. Seus irmãos nos esperam para o jantar. Você sabia que eles não viriam”, informou Judith.

– Sei disso mãe e não tem nenhum problema. Já fiquei aqui na cidade por mais de cinco anos sozinho e nenhum deles veio me visitar, então a ausência deles na inauguração de minha editora era quase certa.

“- Mas quero uma loja sua no novo prédio do nosso supermercado, hein Marzinho”, pediu Rogério.

– Pode ficar tranquilo pai. Não retrocederei diante do acordado. Até porque eles querendo ou não continuamos sendo irmãos e uma família e agora eu tenho alguém que zelará pelo meu coração: essa pessoa maravilhosa com quem briguei no primeiro dia que nos conhecemos.

“- É! Para te dobrar, somente uma dinamite dos olhos esverdeados. Obrigado filha por cuidar do coração e da alma desse meu filho turrão”, disse a sogra olhando carinhosamente para a nora.

Judith e Rogério deixam o casal, sem antes fazer toda aquela recomendação, inclusive para Márcio cuidar bem da esposa. “- Não se esqueça que antes deu ser sua mãe, sou mulher e nós sempre seremos unidas, principalmente se vocês homens estiverem errados, o que na maioria das vezes estão”, disse a mãe rindo junto com Angélica.

Já passavam das dez da noite e os convidados já começavam a partir e os futuros escritores ou candidatos, alguns posaram para fotos ao lado dos editores, caminhavam para seus redutos com as devidas recomendações, Angélica pegou o marido pela mão e o arrastou até a pista de dança, o tirou para dançar uma balada romântica. “- Minha sogra disse que você escutava essa música quase que todos os dias e percebia que o filhinho dela se desligava do mundo. Será que estava a minha procura? Se foi, estou aqui para viver a eternidade contigo”, disse a esposa se debruçando sobre o ombro do marido, notando o quanto ele tinha ficado emocionado com a surpresa.

O casal foi seguido por todos os que ainda restavam ali. Primeiro, Amadeu e Tarsila, Roberto e Danisa, Fernanda e Ricardo, Eleanora e Alexandre. Pedro e Fabrícia ameaçaram iniciar a arrumação do salão, mas foram contidos e chamados para a pista de dança. Tentando segurar as lágrimas, Marzinho começou a traduzir, à sua moda, a canção em italiano que tanto gostava. A letra combinava bem com a melodia e dizia respeito a uma pessoa que se encontrava numa floresta, para onde se retirara para ler um livro, mas acaba descobrindo um anjo.

“- Amor! Obrigado por permitir que eu continue não apenas sonhando, mas devotando a ti o sentimento que sempre trouxe aqui dentro comigo, mas que estava represado até aquela manhã de domingo”, disse Márcio.

– Não precisa dizer nada mais, meu amor. Apenas me ame e me deixe te amar do jeito que és. Sei que sou complicada e tu também, mas juntos vamos descomplicando tudo, construindo a nossa felicidade.

Uma segunda música começou e Marzinho ficou surpreso, pois nunca tinha dito a ninguém que adorava aquele som, exceto Judith que o conhecia bem. Afinal foi ela que, escondida do marido, conseguiu mantê-lo ali até conhecer a dinamita dos olhos esmeraldinos. Desta vez a melodia e a letra era em alemão e o esposo traduziu todo o significado para a esposa.

O que Márcio e Angélica não haviam percebido é que os outros casais tinham deixado a pista e observavam os dois. Tarsila, a sua sócia, disse a todos. “- Esses dois são responsáveis pela existência de nós três”. Ao fazer essa indagação, olhou para o marido e para a barriga indicando a chegada em breve do primeiro filho do casal.

Quando notaram que estavam sozinhos no meio do salão, marido e mulher param de dançar, e se dirigindo aos outros casais, dizem que não precisam de plateia e que vão embora. Na casa deles, o espaço é mais aconchegante e os dois podem subir até as estrelas e conversar com os raios que iniciavam seus bailados no céu.

“- Pedro e Fabrícia, fecham tudo e amanhã vamos conversar”, disse Márcio.

Foi o cozinheiro quem deu a notícia. “- Faremos tudo certinho, Marzinho, mas a partir de amanhã a Bia trabalhará comigo no restaurante. Acabei de arrendá-lo do general, mas fique tranquilo que vamos arrumar outra para ti”, explicou o cozinheiro.

O general se antecipou, informando que já tinha o nome. “- Prometi para mulher daquele garçom que tentou me humilhar e me matar, que arrumaria um trabalho para ela. Se você não se importar, penso que ela pode ocupar o lugar de Fabrícia”, informou Alexandre.

– Tudo bem general! Peça a ela para vir falar comigo, mas até lá, gostaria que a Fabrícia nos desse uma mão por aqui.

“- Tudo bem Marzinho”, disse a esposa de Pedro.

“- Bom pessoal! Agora vou, minha esposa está ansiosa”, informou o livreiro.

“- Ansiosa para quê”, interrogou Eleanora.

“- Para ficar a sós comigo e eu com ela”, respondeu o marido.

O casal deixa a editora em direção ao apartamento, mas depois de andar duas quadras, Angélica começou a sentir os primeiros sintomas de um enjoo que ela desconhecia, mas que já desconfiava, pois sua menstruação estava atrasada, mas não quis dizer nada ao marido. Ela tinha certeza de que Marzinho ficaria encantado quando se confirmasse que seria pai.

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