Entre o real e o imaginado

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Confesso-te meu caro leitor que hoje estou um tanto quanto macambuzio e, por mais que tente entender as causas, ainda não consegui compreender os motivos que me levam a esta atroz letargia. Mas vá lá! Quem sabe até o final dessa reflexão este que vos escreve pode chegar a uma conclusão, ou também não, mas tanto faz, já que o mundo caminha acelerado para as próximas revoluções tecnológicas enquanto a mente humana, temerosa do imenso vazio que o amanhã lhe apresenta por falta das certezas que se tinha num pretérito preenchido em sua maior parte por egoísmos e disputas materiais. Se por um lado chegaremos ao final dessa década bem diferente do que começamos os anos 20 do século XXI, por outro, sinto ainda um cheiro de terra alagada que me faz reportar aos tempos medievais, bem antes das diligências que ganharam vida no velho oeste, para não dizer, oeste americano e sua corrida pelo ouro.

Poderia aqui, no começo desse segundo parágrafo já lançar um “enfim”, indicando uma interrupção abrupta na prosa que pretendo ter contigo nessa manhã gelada de maio e olha que não estamos no inverno, mas apenas no outono e com muito frio, fazendo com que os velhos casacos de outrora deixem seus guarda-roupas e passem a desfilar entre nós, cobrindo corpos, sejam eles modernos ou de modelos que muitos almejam ter, mas há sempre aquele, porém que afasta os desejos do corpo ideal de atingi-los. Não adentrarei nessa seara, já que me falta subsídios para tecer qualquer comentário que seja, me restando apenas apreciar os desfiles de casacos, botas, chapéus, ternos, cachecóis bem ao estilo dos anos 20 do século passado. Mas será que cabe hoje desfilar roupas que nos reportam a um tempo em que o lúdico, o pueril era interessante pois nos indicava que, um futuro estava por vir e não já pronto como é o presente. Mas será que o amanhã já está realizado no aqui e agora enquanto tu, oh meu caro leitor, está lendo essas linhas?

Tentando transpirar pelo futuro respirando ares do passado, optei por ficar no aqui e no agora aguardando que as baixas temperaturas desapareçam do nosso front. Há aqueles que gostam de frio, sonhando em ter um pouquinho de neve em seus quintais ao amanhecer e existem outros tantos que aguardam que o sol outonal volte a reinar, expulsando de vez de nossas cercanias essas baixas temperaturas que parecem congelar a alma, como diziam os antigos. Outro dia escutei alguém dizer, aludindo ao forte calor que fazia na ocasião: “esse Sol não é Deus não!” Assim que a sonoridade com tais palavras avançava pelos meus ouvidos, meu cérebro me transportou para um tempo não muito distante em que as ancestralidades diziam coisas semelhantes. Logo me vi com saudades daqueles tempos em que tudo parecia ser mais fácil ou apenas o relógio que andava mais devagar e tínhamos tempo de apreciar o canto dos pássaros ou ficar à beira de um riacho acompanhando o leito do rio, enquanto o barquinho, feito às pressas e de papel, descia córrego abaixo, serpenteando o caminho como fazia as pequenas ondas que compunham aquele trajeto cavado pela pressão e pelo tempo num solo que permitia o bailado das águas que brotaram num local não muito longe dali para logo adiante se transformar num caudaloso rio em direção ao imenso oceano.

Não sei se era bem essa a intenção daquele filete de água que singrava a terra em busca de novas jornadas, tendo o Sol como testemunha e as estrelas quando resolvia viajar na outra parte do relógio que indicava noite no Ocidente e dia no Oriente. Assim como não posso afirmar quais eram os objetivos daquelas águas, me parece que também não posso vos dizer qual será a minha no término dessa quase que crônica, uma ode a alguma coisa que ainda está lá naquela que anima o ser, como nos diz Platão, isto é, a alma. Contudo, acredito que o imaginado ainda continua percorrendo o caminho entre o pensado e o realizado. Se conseguir dar conta do imaginado, pode ser que alcance o objetivo em sua concretização, mas, como afirmei no começo dessa reflexão, se não conseguir, tudo bem, pois de qualquer forma já terá valido a reflexão, para não dizer imaginação. Esta, por sinal, caminha comigo todos os dias, seja no momento em que me desloco para o trabalho, quando vou abrir as páginas de um livro que me permite estar bem no meio de uma floresta tropical dialogando com um descendente do povo maia que me explica, sem a menor pressa, seguindo apenas o ritmo do canto do Uirapuru, que o homem está chegando ao precipício de sua própria existência, toda ela conduzia pela ganância e pelo ego desvairado e descontrolado.

Enquanto me preparo para mais uma noite de sono, fico pensando como seria uma sociedade justa, um pouco parecida com aquele que Platão tentou nos expor em seu livro A República. Antes de ser visitado pelo sono que me acompanhará nas próximas 12 horas – isso mesmo meu caro leitor, uma noite de sono, para ser saudável, precisa durar metade de um dia – tento entender porque todos querem uma sociedade justa, entretanto poucos estão dispostos a praticá-la, optando sempre por culpar o semelhante por lhe sabotar o projeto de rápido enriquecimento, no qual não consta nenhuma leitura que se comparece com o livro O critério, de autoria de Jaime Luciano Antônio Bales (1810-1848). Mas vá lá, meu caro leitor, não tratemos do conteúdo dessa singular obra para uma significativa reflexão, até porque lê-la requer, daquele que se predispõe a fazê-lo, um desejo não de fortuna imediata, como a almejada por Midas, aquele personagem da mitologia grega vidrado em ouro que, de tanto amar o tal metal, solicita aos deuses que lhe conceda a graça de tê-los muito em sua companhia. Como o desejado nunca é negado, lhe foi ofertado o dom de transformar tudo em ouro. Dos resultados, todos já sabem, entretanto, poucos raciocinam de forma correta sobre a moral dessa narrativa antiga.

Já que está manhã está um tanto quanto fria, pelo menos essa era a previsão das empresas que cuidam da presciência do tempo, creio que é interessante mudar o foco de nossa prosa, como se pudesse conversar contigo, meu caro leitor ou leitora, não sei ao certo mais perto daquele fogão a lenha enquanto a madeira trepida no meio da brasa e do fogo que tem como escopo preparar um café, um almoço, um jantar ou uma simples refeição de meio de tarde. Sendo assim fico cá com a singela pergunta, o que poderia esquentar um coração angustiado, apressado e apavorado com os rumos da vida humana na polis? É preciso acrescentar que a polis aqui não se refere apenas a essa localidade em que eu e tu estamos nesse exato momento, mas sim no interior do orbe. Posto isso, me parece que refletir sobre o estar aqui no mundo nesse presente requer de cada um de nós um pensamento livre, principalmente das peias ideológicas e teologais que aprisionam os seres humanos em dogmas, muitos deles já ultrapassados. Todavia, a interpelação é: como escapar da camisa de força dos fatos sociais, como dizia o sociólogo francês Emile Durkheim (1858-1917) em sua obra As regras do método sociológico. É interessante notar que, ao tomar consciência de tais elementos, o homem pode entender que suas ações são analisadas como fenômenos sociais, justamente porque se repetem, produzindo certas realidades que deveriam ser questionadas, não objetivando suas eliminações, mas para serem melhoradas. Eis o desafio, meu caro leitor nesse final de texto em que não se pretendeu ser longevo ou demasiado cansativo. Espero sinceramente não o ter agastado com as minhas reflexões.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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