O sentido de estar no ser

Gilberto Barbosa dos Santos

 

“Nego-me a aceitar o fim do homem. Eu acredito que o homem não apenas resistirá, como prevalecerá … Ele é imortal, não porque apenas dentre as criaturas seja dotado de uma voz inexaurível, mas por possuir uma alma, um espírito capaz de compaixão, de sacrifício, de suportar o sofrimento… A voz do poeta não deve servir apenas de testemunho do homem: ela deverá ser também uma das estacas, um dos pilares que o ajudarão a resistir e a vencer” [William Faulkner]. Essa epígrafe, cujo o autor é o mesmo do romance Absalão, Absalão! [São Paulo: Companhia das Letras, 2019], abre o romance GO, escrito por Nick Farewell [São Paulo: Via Lettera, 2007] serve de base para uma tentativa reflexiva no que diz respeito, não somente ao homem, a sua finitude e o seu etéreo, mas sobretudo sobre o estar aqui no mundo e seus sentidos e ressignificações.

Interessante notar que todos nós sabemos um pouco sobre o outro que está ocupando o manequim alheio e diferente do nosso, entretanto, será que conhecemos o mesmo quantum de nós mesmos? Creio que a viagem pelas linhas que se seguem pode auxiliar-nos – será pretensão minha achar que os meus leitores caminharão comigo até o fim desta enunciação? Parece-me que se tiver essa preocupação em demasia, não conseguirei grafar nenhum verbo que se quer, mas vá lá, vai que alcanço o intento para alegria daqueles que se predispuseram a me acompanhar nas abordagens seguintes. Sendo assim e sem mais delongas, seguimos enfrente com o enredo que se pretende impactante ou coisa parecida para aquele que tirou uma pequena quantidade do seu tempo para percorrer os marcos intermediários desses meus ditos sobre o homem que objetiva continuar sua jornada pelo orbe. Posto isto, creio que seja interessante interpelar-me sobre o destino do ser que deseja ser um humano de fato e de direito.

Acredito que o primeiro passo nessa travessia seja ter consciência de quem se é, mas não somente a partir de uma ancestralidade, seja ela comum a todos, por exemplo, homo sapiens sapiens ou particulares, como pertencente a uma etnia específica. Nessa toada é muito comum, antes mesmo de saber de si, o indivíduo, este ente indivisível personificado no sujeito social, tentar se esconder na massa, principalmente quando sua escolha apresentar problemas. Entendo que, ao escolher uma mercadoria específica para a sua sala de jantar, o homem assume completamente o risco deste objeto não funcionar adequadamente, entretanto, essa lógica acaba não sendo seguida quando o objeto a ser escolhido for um político que, ao longo de sua gestão à frente da res pública apresenta problemas de fabricação, principalmente no que diz respeito aos valores éticos e morais, inclusive defendendo outros semelhantes dados à prática de violência sistêmica usando para justificar o seu sadismo uma questão ideológica. Todavia, meus caros leitores, para não vos agastar com essas querelas e minúcias que, para alguns não passam de distorções históricas, no entanto, a verdade sempre aparecerá e virá à tona pela voz daqueles que sofreram tais sevícias. Neste sentido é que sempre primarei pela democracia e nunca pela autocracia e outros totalitarismos, seja de que lado for, se é que há uma margem do rio para aqueles que não sabem tolerar a liberdade, por mínima que seja, daí o desejo de fazer de sua vontade pessoal uma prática coletiva por intermédio de uma tosca teocracia.

Continuando nessa seara da democracia, sempre afirmarei que a Constituição Federal estará acima de interesses de sujeitos que, desde os primeiros passos no cenário da política nacional, nunca foram afeitos à divergência e tolerância com pensamentos contrários aos seus. Desta forma, vos pergunto, meus caros leitores, qual é o sentido em se comprazer com violentadores, agressores, torturadores? A resposta me parece um tanto quanto obvia, entretanto não me deterei nela e nem na temática que dá início a esse parágrafo. Sendo assim, optarei por percorrer outros caminhos que, nos dizeres de Guimarães Rosa (1908-1967), poderá me levar, ou melhor, nos transportar, caso meus leitores ainda estejam aí do outro lado dessa escrita. É interessante notar que Friedrich Nietzsche (1844-1900), aquele pensador alemão que analisou o sentido da obra de arte para os gregos, afirmou, numa de suas enunciações, que o poeta quando confecciona seus versos o faz a partir da matéria bruta que o meio social lhe fornece. Como tendo a concordar com ele, fico cá com uma ideia encafifada diariamente no cérebro: como um significativo enunciador, por exemplo, Machado de Assis (1839-1908), retrataria o Brasil nestas duas décadas do século XXI? Vou mais longe ainda, meus caros leitores: será que Lima Barreto (1881-1922) escreveria Claro dos Anjos da mesma forma? Não é possível saber, entretanto, dá para se perceber como o ontem narrado continua presente nas atualidades enunciadas nas narrativas presentes nos romances A idade de ouro do Brasil [Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019] escrito por João Silvério Trevisan e no já enigmático e traduzido para vários países Marrom e Amarelo [Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019], de Paulo Scott.

Mas se ainda assim, aqueles que ousaram percorrer as linhas acima até esse ponto de minha narrativa não estiverem satisfeitos, entendo que pode ser interessante ler o romance Senhora, do escritor José Martiniano de Alencar (1829-1877) e pertencente a corrente literária designada como romantismo. Claro que ninguém pode se sentir na obrigação de ler qualquer coisa que seja, entretanto, não pode também desejar que as pessoas aceitem mentiras divulgadas por meio de postagens cujos conteúdos são de origem duvidosa. Talvez tudo isso esteja acontecendo pelo fato de os seres que desejam ser humanos, ainda não conseguem fazer uma conexão de sentido de forma clara e objetiva. Por que será que um político mentiria aos seus eleitores? Perguntado de outra maneira, por que um eleitor deixaria ser enganado por sua mercadoria política? Parece-me que a resposta à essa interpelação não é tão complicada assim, entretanto, como a humanidade ainda se encontra engalfinhada nos pronomes possessivos e, a exemplo do que desejou Midas, aquele icônico elemento da mitologia grega que adorava ouro, almeja também ter várias coisas e de preferência repetidas para, quem sabe, se sentir mais humano que os seus semelhantes.

Creio que aqui nesse ponto de minha reflexão seja significativo retornar ao escopo desse texto: entender se o homem compreende o seu estar aqui no mundo e pode deixar o caráter imperativo de suas ações, isto é, o que ele faz deve funcionar como uma ordem para os demais pares sociais. Desta forma, quando o sujeito social aponta para o próprio tronco e vocifera a pergunta, mais em tom de ordenamento do que propriamente um questionamento: “você sabe com quem está falando”, é possível analisar, sob o ponto de vista da razão, quem são as suas mercadorias políticas de logo mais outubro. Será que suas escolhas recairão sobre seres que coadunam com comportamentos abjetos em que homens e mulheres, que clamavam por liberdade e democracia, foram massacrados, torturados e violentados em suas condições humanas? Confesso-te meu caro leitor que não tenho aqui, para pronta-entrega, uma resposta plausível, mas te prometo tentar encontrá-la.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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