Abreviando filas

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Ao percorrer as páginas do livro Capitalismo e escravidão [São Paulo: Companhia das Letras, 2020], de Eric Eustáquio Williams (1911-1981), revistei alguns acontecimentos dos meus tempos de universitário e a leitura da obra se escuda justamente no desejo de compreender um momento crucial da vida brasileira, mais especificamente nos tempos coloniais e, se é possível, entender o presente estampado no passado, conforme dizia Karl Marx (1818-1883) em seu livro O 18 Brumário [Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986]: o tio pelo sobrinho. Foram interessantíssimas as recordações, muitas das quais caminham comigo nesse presente, contudo, não me deterei a elas, optando por outras abordagens nessa reflexão, principalmente porque o mundo está boquiaberto por conta da pandemia que não arrefece e a cada dia que passa, aumenta o número de casos no orbe, não ficando nenhum recôndito do planeta sem ser afetado por esse vírus. Se não reportarei aqui às minhas reminiscências, nem à globalização do Covid-19, bem como da política nacional, estadual e local, então qual será a minha temática, deve estar-se perguntando o meu caro leitor nessas primeiras semanas de um novo ano que chega cheio de esperanças e expectativas, contudo, se esbarrando nas velhas práticas e condutas humanas observadas a partir do desdém para com o outro, conforme John Donne (1572-1631) indica nos versos” “para quem os sinos dobram.

Diante de minhas incertezas textuais e de conteúdo, acho que seria interessante parar por aqui mesmo, deixando o resto do espaço em branco. Bom! Enquanto decido aqui comigo e com minhas memórias um assunto apropriado para as linhas que seguem, retorno com vocês, meus caros leitores, à questão inicial do livro de Williams sobre a escravidão e os motivos que levaram a colônia brasileira a substituir o elemento indígena pelo africano e porque, a Inglaterra Oitocentista pensava diferente do mundo britânico Setecentista. De chofre é possível afirmar que foi tudo por conta do capitalismo, não muito diferente deste que conhecemos hoje em sua fase financista no qual o dinheiro, enquanto mercadoria física, está desaparecendo para se manifestar apenas no âmbito abstrato usando a tecnologia. Esse processo veio para ficar e o dinheiro de plástico, como o designei certa vez durante uma conversa com meu filho, cujo enfoque foi o real funcionamento da sociedade, não deixará de existir tão cedo. Basta olharmos como a juventude lida com tudo isso e os mais antigos, ou cinquentões, tentam acompanhar essas mudanças avassaladoras. Com a tecnologia, tudo se abrevia, exceto a vida e o desejo de continuarmos aqui brindando com as gerações futuras, essas belíssimas alterações e não adianta ficar se perguntando onde tudo isso vai parar, porque a resposta é um simplesmente viva a vida e procure ser feliz sem provocar a infelicidade do semelhante. Desta forma, não se pode dizer que existe justiça ou que o mundo é justo quando uns morrem de fome e outros se esbaldam de comida, ou ainda fazem regime para se adaptar ao mundo estético, como dizia Friedrich Nietzsche (1844-1900) em seu clássico Origem da tragédia: helenismo ou pessimismo [São Paulo: Companhia das Letras, 1992].

Será que, a exemplo da doceira, achei aqui o ponto de um assunto que possa, tanto me agradar quanto ao meu leitor? De qualquer forma, vou tateando aqui e ali com as letras tartamudeando em busca de um prumo, dum rumo, em suma, duma direção que possa nos levar até as estrelas e de lá olharmos para a sociedade, como preconizava alguns preceitos do universo mítico dos persas, daí o ente Zaratustra dizer que todos deviam deixar o local em que habitava, subindo a montanha mais próxima, analisando com fecundidade o mundo de onde saiu. Neste sentido, entendo que o escritor alemão, meio brasileiro, Thomas Mann (8175-1956), tentou fazer essa viagem por meio da ficção presente em seu romance A montanha mágica [São Paulo: Companhia das Letras, 2019]. Deixando a antiga Pérsia de lado – para quem não sabe a região em que ficava essa comunidade é a mesma em que está o Irã hoje, por sinal, riquíssima em petróleo -, penso em me enveredar por outros caminhos que não estejam atrelados à tentativa de caminhar refletindo não sobre os passos pretéritos, mas os que a humanidade pensa em dar levando em conta o passado não muito distante, tendo sob as costas mais de dois anos de pandemia.

E já que estou tratando do universo tecnológico e o mundo que se dissolve logo depois de ser criado numa espécie desejo atroz de Prometeu – aquele titã condenado pelos deuses a ter seu fígado devorado por uma ave de rapina durante 12 horas e nas outras 12 horas ser regenerado para ser novamente engolido -, entendo ser interessante abordar aqui a questão das filas que se formam em diversos departamentos da vida ativa na sociedade. Existem aqueles que preferem enfiar a cara no celular, como se diz no linguajar popular, enquanto dá pequenos passos até chegar à sua vez de ser atendido. Existem outros tantos que adoram alugar o ouvido alheio e também há sujeitos que ficam fora do ar e distante de tudo, sabendo que aquilo ali é passageiro e efêmero, não precisando, portanto se enervar em demasia. Entretanto, em momentos pandêmicos como estes, de isolamento e distanciamento social, é necessário que todos compreendam que não se pode ficar muito próximo um do outro, além de usar as máscaras e álcool gel. Por esses tempos se comemorou o dia do leitor. Então fiquei cá com meus pensamentos, tentando achar a enunciação ideal para essas épocas de filas intermináveis em vários locais do orbe. Como a leitura, conforme nos conta o escritor francês Marcel Proust (1871-1922) nos abre diversas portas, eu vos pergunto, meus caros leitores, quais os escritores que gostariam que abrissem as portas de vossas consciências?

Poderia aqui sugerir aqui uma lista que seria maior do que as filas das lotéricas perto do dia 10 de cada mês, mas não farei isso, principalmente por questões de espaço, já que me aproximo do final dessa reflexão, ainda assim, penso que seja interessante tratar de alguns escritores para essas horas, como por exemplo os textos do cronista Fernando Sabino (1924-2004). Tenho me ocupado, nesse interregno entre um ano letivo e outro, das crônicas que recheiam o livro A mulher do vizinho [Rio de Janeiro: Record, 2008]. Também quem preferir pode acompanhar as enunciações de Jean-Pierre Vernant [chamado de Jipé pelo seu neto] (1914-2007), presente no livro O universo, os deuses, os homens [São Paulo: Companhia das Letras, 2003]. Ainda assim, caso os meus leitores preferirem podem levar dentro da algibeira quando forem enfrentar as filas homéricas, além da Odisseia, o romance Cafeína [São Paulo: LeYa, 2020], do escritor Maurício Torres Assumpção. Quereria eu aqui, do outro lado dessa escrita que tu tens em mãos, meu caro, te recomendar uma biblioteca para esses dias em que muitos de nós olhamos para a tecnologia como um Teseu, desavisado, querendo enfrentar um Minotauro, sem ao menos ter uma bussola para nos guiar no labirinto tecnológico, contudo, diante da impossibilidade, indico o romance O verso do cartão de embarque [Rio de Janeiro: Record, 2011], de Felipe Pena. Se ainda assim, antes de sair de casa, você se esqueceu de colocar na algibeira um ou outro desses livros, não pode deixar de levar consigo um quantum significativo de paciência, pois, para além das filas, costuma-se enxergar muitas coisas que faz com que haja um meneio de cabeça em sinal de discordância.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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