Máscaras, espelhos e outras corroídas facetas

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Num livro dedicado a analisar a classe social que define enquanto “ralé”, o cientista social Jessé Souza faz algumas observações no que tange às discussões em torno dessa categoria social. Segundo ele, “o atual estágio do debate intelectual e público brasileiro apenas contribui para o desconhecimento sistemático do grande drama histórico da sociedade brasileira desde o início de seu processo de modernização: a continuação da escravidão sob novas máscaras, reproduzindo uma sociedade que ‘naturaliza’ a desigualdade e aceita produzir ‘gente’ de um lado e ‘sub-gente’ de outro. Isso não é culpa apenas de governos. São os consensos sociais vigentes, dos quais todos nós participamos, que elegem os temas dignos de debate na esfera pública assim como elegem a forma de (não) compreendê-los. No nosso caso, ‘escolhemos’ debatê-los superficialmente e torná-los invisíveis. […]. Essa ‘classe social’ nunca percebida até então enquanto ‘classe’, ou seja, nunca percebida como possuindo uma gênese social e um destino comum, sempre foi (in)visível entre nós, e percebidas apenas como ‘conjuntos de indivíduos’ carentes ou perigosos” [A ralé brasileira: quem é e como vive. 3.ed. São Paulo: Editora Contracorrente, 2018, p. 30].

O que é possível aferir desse conteúdo, vos pergunto, meus caros leitores. Creio que seja interessante apresentar aqui mais um pequeno subsídio para auxiliar na reflexão, ou quase isso, nesse exato momento em que a sociedade caminha para o futuro, contudo, permanecendo no passado. Digo isso porque acredito que 2022, pelo menos do ponto de vista do discurso dos postulantes ao cargo máximo da Nação, será pautado por 2018 e não sobre 2023 e os anos vindouros. Sem desejar adentrar no campo do simples manifesto ideológico, pois creio que não seja esse o papel do intelectual e é claro que esse meu posicionamento não é contrário ao do cientista social Florestan Fernandes (1920-1995) quando este diz que se tivermos que nos posicionar, sempre será em prol dos desafortunados e é justamente neste ponto que se encontra minha visão de mundo: permanecer do lado daqueles que estão no sopé da pirâmide social, mas isso não significa ser conivente com algumas situações pretéritas sobre as quais não tratarei nas linhas que se seguirão. Neste sentido, me parece salutar continuar aqui com uma pequena observação feita por Jessé Souza na obra em que se escuda o começo dessas interpelações.

“Ao invés da oposição clássica entre trabalhadores e burgueses, o que temos aqui, numa sociedade perifericamente moderna como a brasileira, como nosso ‘conflito central’, tanto social quanto político e que subordina em importância todos os demais, é a oposição entre uma classe excluída de todas as oportunidades materiais e simbólicas de reconhecimento social e as demais classes sociais que são, ainda que diferencialmente, incluídas. Enquanto a sociedade brasileira não se conscientizar deste desafio, seremos sempre ‘modernos para inglês ver’, uma modernidade capenga, injusta e mesquinha” [A ralé brasileira: quem é e como vive. 3.ed. São Paulo: Editora Contracorrente, 2018, p. 30]. Diante do exposto, o autor afirma que “a percepção dessa classe ‘enquanto classe’ implica uma percepção radicalmente nova dos problemas centrais que desafiam o Brasil enquanto sociedade. Na melhor das hipóteses, poderemos deixar de nos avaliar como ‘economia’, pelo tamanho do nosso PIB [Produto Interno Bruto], e começarmos a nos avaliar como ‘sociedade’, pela forma como nos tratamos uns aos outros” [p. 30].

Posto isso, vou direto ao que interessa: na segunda-feira, o país comemorou 132 anos da Proclamação de sua República e fiquei com a sensação de que é preciso republicanizar a república. Parece doido essa ideia, todavia, quando o novo regime surgiu na madrugada do 15 de novembro de 1889, um sábado, a família Imperial se encontrava em Petrópolis e o chefe dos republicanos encastelados no interior do Exército brasileiro, Marechal Deodoro da Fonseca estava preocupado com o destino do monarca, tendo em vista por exemplo o destino do rei francês e de sua esposa depois da queda da Bastilha no dia 14 de julho de 1789. É interessante tentar anotar aqui quais eram as bases que escudavam a nobreza luso-brasileira, pois se à nobiliarquia seguia a concessão de terras, com o fim da monarquia, essas áreas deveriam ser expropriadas de seus duques, marqueses, viscondes, condes, e se, apropriadas pela República, esta poderia fazer uso mais adequado das mesmas evitando a permanência da concentração fundiária nos quadrantes brasileiros que vinha desde os primeiros anos da Colônia lá na longínqua época quinhentista. Mas como todos sabem, a distribuição de terras aos ex-escravos nunca aconteceu, bem como uma indenização adequada e a Lei n.º 3.353, a chamada “Lei Áurea” não trouxe nada sobre isso, pois se limitou a dois artigos: um eliminando a escravidão e o outro dizia apenas “revogam-se as disposições em contrário”. Desta forma, os outros dois direitos fundamentais para que o elemento africano se emancipasse, não foram concedidos, como por exemplo, o direito a educação e participação na geração da riqueza deste país e a salário justo. O resto todos já sabem e não é necessário ficar aqui repisando, entretanto, não se pode fingir que não há problemas em relação a isso, já que as feridas abertas pelos açoites, desferidos por uma elite empedernida, covarde e seus capatazes sanguinários, permanecem abertas até agora e ao que tudo indica, pelo andar da carruagem, como se diz no jargão popular, permanecerá assim, pois há um discurso desenfreado que deseja não vislumbrar nas próximas décadas o fim da desigualdade social por intermédio da educação.

Em determinado momento dessa conversa contigo, meu caro leitor, disse que 2022 será pautado por 2018 o que, em minha compreensão, significa um retrocesso ou melhor, a manutenção no mesmo ponto do pretérito recente deste país, pautada pelo desejo de se manter os benefícios que uma categoria social carrega desde os primórdios desta Nação a partir do “consumo conspícuo”, conforme nos aponta o economista Thorstein Veblen (1857-1929) em vários de seus escritos sobre o consumo que tem como escopo apenas ostentar luxo diante duma patuleia ávida por pão e disposta a beijar a mão do primeiro político que lhe garantir migalhas distribuídas aos borbotões em períodos eleitorais. Creio que esteja aí a dificuldade em conseguir unificar os pleitos presidenciais, governamentais e parlamentais nos três níveis de governanças que formam esse país: instâncias federal, estaduais e municipais. Olhando assim de chofre essa minha enunciação, pode vos parecer, meus caros leitores, que não há saída e que as categorias sociais subalternas desta Nação devem se contentar, resignada assoprando a rolha que as elites tentam colocar na garrafa em que engarrafaram, há mais de quatro séculos, os desprovidos de qualquer forma de proventos e alimentos obrigados  a esmolar um quantum dos farelos que caem do alto do trono, ou melhor, deixam as portas dos palácios espalhados pelos mais de cinco mil municípios brasileiros. Por essas e outras coisas é que considero o escritor Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) importantíssimo para se compreender o Brasil e, talvez por isso, não seja tão apreciado pelos governantes.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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