Assertivas sobre o vir a ser do homem

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Numa entrevista que concedi ao blog do escritor Luciano Lanzillotti, afirmei que todos têm histórias para contar e as mesmas podem ser narradas das mais diversas maneiras, importando mais o comunicar do que a forma em si. Lógico que a estrutura do dito diz muito sobre o universo simbólico, semiótico relativo ao que se vai propalar e como se busca o sentido ao que se grafa em forma de enunciado. Desta forma, começo as linhas que se seguem escudando-as em duas observações que, por intermédio de uma leitura rápida, pode indicar não haver sentido algum, entretanto na medida em que as palavras vão se juntando, quem sabe eu consiga atingir o meu escopo aqui: auxiliar aqueles que me leem a olharem o mundo a partir de uma perspectiva diferente. Caso não alcance, meus caros leitores, creio que terá valido a pena, num intervalo entre um café e outro, vocês se ocuparem delas.

O primeiro argumento, empresto do livro da roteirista e cronista Tati Bernardi: Você nunca mais vai ficar sozinha, lançado pela Companhia das Letras em 2020. Num determinado ponto da narrativa, mais especificamente na página 38, o leitor deparar-se-á com a seguinte assertiva: “para onde irá o amor eterno e insuportável que eu sinto? Para onde vai o amor quando fujo das suas visitas e críticas e olhares? Mãezinha querida, eu não aguento ficar muito tempo perto de você. Você procurando as feições do meu pai em mim e dizendo que não suporta meu pai. Você me pedindo para endireitar o corpo desleixado, cansado, pouco empinado e voltar na designer de sobrancelha porque a minha é muito clara e sem desenho e eu poderia ser mais bonita se eu de fato quisesse”.

O fragmento apresenta questões paradoxais como é próprio da humanidade, portanto, não apenas da enunciadora, o que leva o ser que se pretende humano a uma significativa reflexão, justamente por conta do âmbito binário da assertiva: odeia, mas não para de falar no ente execrado. Por que será que os indivíduos continuam a cultivar aquilo que detestam? Creio que ninguém não gosta do não conhecido, mas apenas cria aversão ao que já se sabe certo, portanto, se deseja distância daquilo que não correspondeu com as expectativas dos pronomes possessivos. Recordo-me que há algumas décadas publiquei aqui nessas páginas uma pequena reflexão a partir da leitura de um livro do pensador alemão Martin Heidegger (1869-1976) na qual ele propunha uma reflexão a partir do sentido do ser, isto é, se o homem seria um ser voltado para a morte. Interessante que, quiçá sua contribuição na questão alusiva ao entendimento do que é o homem em si, se somando ao que nos traz também o pensador dinamarquês Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855) em seu texto O conceito de angústia [Petrópolis, Vozes: 2015]. Naquela ocasião trabalhei também com argumentos do professor de Filosofia, do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), o croata Zeljko Loparic, de quem fui aluno. Segundo ele, no livro Heidegger réu: um ensaio sobre a periculosidade na filosofia [Campinas: Papirus, 1990], o único organismo capaz de analisar uma obra da envergadura do pensador alemão, seria um tribunal kantiano.

Pois bem, usando essas recordações, creio que seja possível tentar entender as interpelações que constam no excerto que ilustra as linhas acima. Sendo assim, como é possível cultivar aversão àquilo que se quer distante? Para responder essa minha pequena interpelação, creio que seja interessante olhar com a devida acuidade a seguinte ponderação: quando não se gosta de uma coisa, não se fala nela, não se deseja ter ela perto, portanto, almeja-se distanciamento. Desta forma, não há que se alimentar ódio àquilo que se almeja longe. Mas quando se sustenta o não gostar, reconstrói-se cotidianamente não o ser odiado, mas o fato em que se configura o desejo de desgostar do ente ao qual se direciona o que se detesta. Dito de outra forma: gostar e não gostar são sentimentos fortíssimos que o homem só nutre por aquilo que conhece, portanto, não é possível ter ojeriza daquilo que não se sabe o que é. Por isso é interessante a abordagem que a narradora traz ao seu leitor: sua mãe odeia o pai, mas procura no filho as características dele. Paradoxal, contudo, contradições que faz o ser humano que se pretende viajar ao seu interior, refletir sobre o que se sente e porque se se nutre tais sentimentos. Desta forma, é possível externar até o campo do racismo, outras fobias e xenofobias.

Posto isto, creio que o momento é para um segundo argumento, desta vez colhido do livro Introdução ao pensamento filosófico [São Paulo: Cultrix, 2011], de autoria do psiquiatra e filósofo alemão Karl Jaspers (1883-1969). Segundo ele, “somos testemunhas de um tempo em que o conhecimento do universo e da vida conseguiu surpreendente progresso: somos testemunhas também de acontecimentos que impedem o homem de ignorar as conquistas alcançadas” (p. 15). Se na questão anterior, o meu escopo era entender uma problemática individual, aqui me parece que a situação se universaliza, já que, indistintamente, afeta a todos, pois o progresso impulsiona a humanidade à um amanhã totalmente diferente, e por que não, incerto. Desta forma, diante do futuro inadiável, porém, sem que se saiba algo concreto dele, o ser humano se apega ao passado, no caso aqui do pensamento medievalista que era contrário ao progresso, seguindo dogmas de uma entidade que permanece até o momento, quiçá, a tecnologia nos permitir dialogar com quem quer que seja que esteja do outro lado do planeta em tempo real.

Sendo assim, a exemplo do que costumeiramente busco aqui nas linhas que confecciono semanalmente, almejo saber por qual motivo o homem, diante do imponderável futuro, se apega ao passado? Claro que essa interpelação tem a ver com o primeiro fragmento utilizado neste texto, ou seja, é preferível odiar o conhecido do que buscar o novo, mesmo sabendo que ele é incerto, contudo que pode indicar algo que deveria ter sido superado no pretérito. É como naquela história da tachinha no sapato. Ao invés de parar a caminhada e arrancar o pequeno prego, opta-se por continuar a jornada reclamando do incomodo no calçado. Mudar requer de cada um, não força, mas a capacidade de se conhecer e se recriar diante das adversidades da vida. O novo que a tecnologia nos proporcionar exige de cada um dos humanos, o desapego daquilo que se foi um dia no longínquo pretérito, isto é, de seus adjetivos que não tem mais sentido no presente. Mas para que isso possa acontecer, se faz necessária uma dose de conhecimento metafísico, isto é, para além da expressão física. Sendo assim, te faço uma interpelação, meu caro leitor: como é possível se desapegar de algo que ainda não se sabe o que é? Questionado de outra forma: como deixar o futuro vir, se ainda não se entende completamente o passado que ainda insiste em se fazer presente? Enfim, espero que as linhas acima possam, de alguma forma, contribuir para uma profícua reflexão sobre o vir a ser do homem aqui no mundo. Mas caso não tem alcançado esse escopo, espero que tenha valido a pena chegar, meu caro leitor, até esse momento final de minha tentativa de equacionar períodos nevrálgicos do indivíduo contemporâneo: desapegar-se do trágico passado medievalista e diluir esse medo do amanhã no agir do presente.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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