Sobras de um amor – parte III …

30.

 

Angélica e Márcio fizeram o caminho entre o barzinho e o apartamento dela completamente incendiados pelo prazer, pela paixão e pelo amor. Todo esse sentimento era saboreado silenciosamente por cada um dos nubentes ao seu modo. A esposa, que conduzia o veículo, apenas segurava na mão do marido que, quieto, mentalmente já fazia amor com a empresária. Ela, de soslaio não desgrudava os olhos do editor. Prestava atenção no trânsito, mas pela temperatura e pelo pulsar do sangue nas mãos de Márcio, a esposa sentia o quanto Marzinho a desejava, aumentando ainda mais o desejo dela por ele.

“Meu Deus me ajude a não sair mais do prumo. Não posso ficar sem esse homem. Sei de sua não perfeição, mas sempre me deixa firme nesse mundo. Por que quando fico fora de foco, desconto tudo nele”, pensava Angélica quando sentiu a pressão da mão dele na sua e ao olhá-lo foi surpreendida por um beijo que ele lhe lançava dizendo baixinho que a amava de corpo e alma.

Ao chegarem ao prédio e livres da atenção redobrada com o trânsito, Angélica avançou sobre o editor e, em lágrimas, fazia juras de amor ao marido agradecendo aos céus pelo esposo não ter cometido suicídio. “- Amor! Não se culpe tanto. Tenho comigo uma série de culpas e preciso ter maturidade para te deixar serena diante do amor que lhe tenho”, disse Márcio a beijando profundamente, desejando fundir sua alma a dela através daquela demonstração de afeto transmitida pelas duas bocas que se encontravam cheias de tesão.

Já dentro do elevador, o casal procurou se manter comportado, contudo, assim que a porta do compartimento se abriu dentro do apartamento de Angélica, Márcio a pegou no colo, sem se importar com o que ela lhe dizia por conta do seu restabelecimento. “- Estou pronto para dormir em seus braços, minha Rainha diaba. Minha dinamite dos olhos esverdeados”, disse o esposo que tentava devorar a boca da empresária num beijo correspondido por Angélica.

Enquanto ele a encostava na mesma parede que divisava os cômodos da casa, a esposa abria o zíper da calça em busca do falo do editor. Quando o encontrou, Márcio urrou apenas com o toque da mão da empresária. “- Ainda tem dúvidas quanto ao amor que eu lhe tenho”, perguntou o marido à esposa.

“- Ainda não sei! Não experimentei esse pau gostoso. Então só direi depois de gozar muito com ele dentro dessa buceta que é louca por ti, meu amor”, confessou Angélica, mordendo os lábios de Márcio enquanto lhe arrancava a camisa, abaixando em seguida para ter o membro dele em sua boca. Ao sentir os lábios da esposa lhe sugando o membro, Márcio berrou de prazer, deixando que a empresária saboreasse todo o seu pênis.

Assim que Angélica ficou em pé novamente, o editor a levantou em seus braços, enquanto ela passava as pernas pela cintura dele, facilitando a penetração, o que a deixou doida de prazer. Tendo o seu pênis completamente sendo devorado pela vagina da esposa, Marzinho atravessou toda a extensão da sala e, lentamente se senta no sofá. Angélica se ajusta ao membro do esposo, fazendo movimentos de vai e vem e, entre lágrimas e pequenos orgasmos, diz baixinho no ouvido dele que este a fazia ser a pessoa mais feliz do mundo. “- Por favor, meu amor, me perdoe por, às vezes, te trazer transtornos”.

– Te amo minha galega e eu que quero desculpas de seu coração por, às vezes, não te entender corretamente.

Ao dizer isso, Márcio sentiu que poderia ejacular a qualquer momento, porém, querendo prolongar mais o prazer, saiu de dentro da esposa e. ajustando o corpo de Angélica no sofá, tomou o sexo dela em sua boca, fazendo-a gozar de imediato. Quando a empresária caminhava para a calmaria do coração, após chegar ao êxtase, sentiu o falo do marido a invadindo novamente, provocando um novo e intenso orgasmo que a fez se agarrar ao corpo de Márcio com toda a força e, entre espasmos e contrações, dizia, entre lágrimas e sussurros, que não podia viver sem ele.

O editor bem que tentou postergar o seu gozo, mas com os movimentos da esposa, foi impossível postergar mais aquela sensação, explodindo num gozo intenso provocando berros e urros em Márcio que dizia palavras desconexas, mas que faziam sentido para um coração apaixonado como o seu.

Após intenso prazer, os dois se deixaram ficar no sofá por cerca de meia-hora, período no qual cada um se ocupava em escutar a respiração do outro até que elas se serenaram. Em seguida, o editor convidou a empresária para se higienizarem e dormirem, já que o dia seguinte seria cheio, já que se aproximava a data da inauguração da editora.

Plena de si e completamente apaixonada pelo marido, Angélica precisava, como uma garota mimada, ouvir da boca de Márcio o quanto ele a amava. Lembrando-se de que a esposa vivia dizendo que era muito filosófico e digressivo, o editor procurou ser breve em suas observações. “- Primeiro te olhei, depois te admirei e em seguida te desejei e procurei te esquecer até aquela manhã de domingo em que apareceu em minha vida como um trator querendo me destruir e na segunda-feira te observei na redação do jornal. Naquele momento compreendi o que significava ter um coração eletrocutado, contudo continuar a pulsar como um quasar”, explicou o esposo.

“- Você está me dizendo que desconfia que me amou desde aquela tarde de domingo que me viu entrando no bar da Net, Marzinho”, perguntou a empresária toda dengosa.

Puxando a esposa para o seu corpo e a aconchegando num abraço apertado, Márcio confirmou, dizendo baixinho a ela. “- Agora vamos dormir minha paixão, pois nossas almas com certeza se encontrarão no firmamento para continuar o amor que nutrimos um pelo outro em matéria”.

Angélica deu um beijo no peito do marido, permanecendo em silêncio esperando o sono que não demorou a chegar, a levando para passear junto às estrelas. Ela foi conduzida por uma carruagem em companhia do marido que estava mais encantador do que em matéria, a convidando para um passeio pela galáxia.

Enquanto no apartamento de Angélica, ela e o marido pareciam que, definitivamente selaram a paz, desejando acordar no dia seguinte mais fortalecidos do que quando foram dormir, na cama de Fernanda, a gerente e seu futuro marido se tornavam um único ser quando ambos chegaram ao orgasmo juntos, contudo desta vez um elemento de surpresa apareceu durante o deleite da noiva.

Sem saber explicar como aquilo aconteceu, Fê abraçada ao noivo pensava em Marzinho e se perturbava por isso. Enquanto escutava a respiração de Ricardo, se perguntava mentalmente por que aquilo estava acontecendo. Teve todas as oportunidades de ter o amigo como amante, namorado, mas nunca o vira como homem e agora não parava de pensar nele. “- Porra! Agora que encontrei alguém que possa me fazer feliz, esse merda do Marzinho aparece em meus pensamentos, sugerindo fazer amor comigo”, disse para si mesmo a gerente.

O noivo se mexeu ao seu lado e ela aproveitou o momento para deixá-lo dormindo, se dirigindo ao banheiro para se higienizar, tentando compreender o que lhe ia n’alma. Enquanto sentia a água do chuveiro a lhe escorrer pelo corpo, Fernanda decidiu que no dia seguinte almoçaria com Márcio, lhe falando sobre tudo isso, sobretudo o que estava acontecendo. Em sua concepção, não havia nada de estranho em se sentir atraída pelo amigo de mais de cinco anos.

Entre um pensamento e outro, juntados com a água do chuveiro, Fernanda divagava quando se sentiu abraçada pelo noivo que exibia uma enorme ereção. Aquela sensação foi o suficiente para trazê-la novamente à Terra, dissipando os pensamentos direcionados a Marzinho. Enquanto se entregava à paixão do noivo, ela decidiu que conversaria francamente com o amigo no dia seguinte.

Enquanto os noivos chegavam a mais um orgasmo naquela noite, Beatriz conversava animadamente com a mãe e o pai, querendo deles uma resposta quando à possibilidade de ficar noiva com Esdras. “- Minha filha! Se está pensando em ficar noiva apenas para transar com ele, creio que pode fazer isso, sem precisar colocar uma aliança na mão direita, mesmo que seja por indicar que está compromissada”, lhe disse a mãe, quebrando o gelo e surpreendendo o pai da futura arquiteta.

“- Não estou nem aí para essa coisa de virgindade ou coisa parecida, minha filha”, sentenciou Romualdo, acrescentando em suas observações o desejo em saber se o namorado da filha era homem para estar com ela até o fim da vida. “Trepar e dizer que ama é fácil. Quero ver ter um projeto junto com a pessoa que se diz amar e isso não tem nada a ver com enriquecerem juntos, pois o dinheiro será uma consequência da harmonia que existirá entre o casal”, completou o pai de Débora.

“- O que você acha minha filha”, perguntou Adélia.

– Eu sinto que podemos caminhar juntos. Por exemplo, ele não tem falado com o irmão. Parece que há algo entre os dois e eu não digo absolutamente nada. Sei que há respeito entre os dois.

“- Minha filha, Márcio é diferente deles todos. Parece ser mais culto, mais bunda-mole e demora uma semana para tomar decisões. Olha só. Se fosse uma pessoa de pulso firme, já teria mandado aquela esposa dele passear. Ela é piradaça e não tem cristão que aguente aquelas doideiras dela e você mesmo sabe disso”, disse Romualdo, caindo na gargalhada.

– Pai! Angélica é uma ótima pessoa, contudo, sei que esconde um segredo que somente o marido sabe e talvez por conta disso é que segura a onda dela. E por outro lado, ela atravessou o estado atrás dele. Eu acho que essa é razão suficiente para ele jamais abandoná-la. Mas sei também que é um contemporizador e não um bunda-mole, contudo, não me serve como homem.

“- Filha! Os pais do Esdras virão esse final de semana para a inauguração da editora do Márcio. Fernanda anunciará que se casará com Ricardo no domingo, o que é bom para ele, pois aquela maluca tem o sangue quente e vai colocar seu irmão no prumo. Então podemos falar sobre o seu noivado com os pais do seu namorado”, orientou Adélia.

– Pode ser mãe. Falarei com ele amanhã e já podemos iniciar o projeto para a nossa casa naquele terreno que compramos no mesmo bairro em que ficará a casa de Ricardo.

Após o aceno do pai com a cabeça, Débora se dirige ao seu quarto para dormir e no trajeto passa pela porta do cômodo que o irmão usava como dormitório e pensou que Esdras poderia ocupar aquele espaço depois que ficassem noivos. “Sei que não é apropriado e encontraremos barreiras, caso propomos isso, principalmente daquele retardado do Marzinho”, pensou a secretária de Angélica.

Na manhã de sexta-feira, portanto, faltando três dias para Márcio dar sequência ao seu projeto e sonho de se tornar editor de uma importante editora do país, este acordou e não sentiu, como de costume, o corpo da esposa do seu lado. Estranhou, mas o seu despertar o fez recordar os sonhos que teve durante a noite em que Angélica estava lindamente vestida como no dia do casamento, reiterando seus votos nupciais. Tendo essas imagens em pensamento e com a ereção matinal, que muitos diziam ser o famoso tesão de urina, o proprietário da Jardim da Leitura entra no chuveiro e, por estar de costas para a porta, não viu quando a empresária entrou, contudo, seu coração sentiu sua presença.

“- Oi amor! Por que não estava do meu lado quando acordei”, perguntou Márcio a Angélica.

– Por uma razão muito óbvia. Estava preparando o seu café e não quis te acordar. Além de desejar pensar um pouco sobre nós dois e o que fiz nessa semana, atrapalhando o seu projeto de inaugurar a editora na segunda-feira.

“- Acho que Tarsila e Ricardo cuidaram de tudo, mas claro que precisam de meu aval, então hoje vai ser aquela loucura. Não sei se terei tempo de almoçar”, explicou o editor.

– Pois bem! Já avisei o pessoal lá nas empresas e no meu escritório de arquitetura que não trabalhei com eles hoje. Ficarei contigo na Editora. Preciso te ajudar a organizar tudo e não venha me dizer não que eu não aceito negativa nenhuma. Vou contigo e pronto.

Ao virar-se para a esposa, Márcio a viu completamente vestida e ela observou o tamanho da ereção do esposo, sem poder desviar o olhar, afirmou: “- Tudo isso é desejo pela minha buceta ou pelo meu ser como um todo”, exclamou a empresária.

O esposo tentou esconder o que tinha chamado a atenção de Angélica, mas foi em vão, provocando uma enorme gargalhada nela que disse em seguida: “-Segure todo esse tesão para a noite, pois quero ele todinho dentro de meu ser gozando abundantemente para o meu coração em nome do nosso amor”, disse rindo a esposa.

Ao terminar de dizer isso, ela pediu ao esposo para se apressar no banho, se não o café esfriaria. Assim que terminou de se higienizar, Márcio começava a se preparar para aquela sexta-feira e, ao olhar para a cama viu que havia algumas roupas, incluindo cueca e um par de meias. Camisa, calça. Respirou fundo, pensando em não usar nada, mas ao mesmo tempo sentiu um enorme carinho por parte da mulher ao preparar-lhe tudo aquilo.

Sem questionar, se arrumou do jeito que ela imaginou que ele ficaria e chegou à sala para fazer a primeira refeição do dia. A esposa não estava vestida da mesma forma como quando foi falar com ele no banheiro. Olhou suas vestimentas e percebeu que seus olhos estavam mais esverdeados. Antes de se sentar, chegou perto da empresária e meio que soprando disse ao ouvido dela: “- Te amo incondicionalmente, minha rainha diaba, minha dinamite atômica”.

– Amor! Obrigado por ser esse homem singular em minha vida e por me aceitar em sua existência. Pretendo começar uma nova etapa em nosso casamento com mais harmonia, confiança e equilíbrio. Sei que sua alma e seu coração precisam dessa calmaria para que a felicidade seja plena em seu mundo material.

Márcio que levava à boca a xícara de café, ficou surpreso com as declarações da esposa que perguntou: “- Por que a surpresa, meu amado”. O esposo sorveu um gole do líquido, dizendo à empresária que estava do jeito que ele gostava. “- É a primeira vez que me faz café e ainda por cima do jeito que eu gosto”.

– Essa foi uma dica dada pela minha sogra, numa de nossas longas conversas sobre o meu marido. Aliás, ela me disse muitas coisas sobre você e o mundo que mantém secretamente aí dentro do coração, regado diariamente pela sua alma.

O esposo pensou em fazer uma pergunta, mas achou melhor não dizer nada, pois recordou que Angélica vivia reclamando que toda a conversa entre eles parecia uma conferência filosófica. Optou por piscar para a esposa e em seguida jogando um beijo a ela, ao mesmo tempo em que untava com margarina um pedaço de pão.

Enquanto Márcio terminava seu café, a empresária sorvia uma quantidade enorme de leite de soja que foi oferecido ao editor. Este pensou em recusar a bebida, mas algo dentro dele fez com que aceitasse a oferta dela que desejava mudar o hábito alimentar do marido, mas sabia que não podia forçá-lo a nada, até porque ele vivia cercado por pessoas que adoram produtos à base de proteína animal.

Com uma das mãos, o casal levava suas respectivas xícaras às respectivas bocas, com a outra trocavam carícias por cima da mesa e de forma silenciosa terminou o café, se encaminhando ao banheiro para a higiene bucal. Assim que os dois concluíram, Márcio resolveu lavar a louça. “- Deixe isso para depois amor”, disse Angélica.

– Não! É melhor limpar agora do que para quando voltarmos a noite e já cansados e sem forças para arrumar tudo.

“- Podemos até estar cansados, mas não um do outro. Hoje passarei o dia todo contigo e não aceito não como resposta”, disse Angélica como querendo reforçar o que já havia dito, mas dando agora um caráter impositivo.

Concluída a atividade, Márcio e Angélica deixaram o apartamento e já dentro do elevador conferiram as mensagens contidas em seus respectivos celulares. O editor viu que havia uma gravação de Fernanda seguida de um breve texto. O amigo se recordou que quando ela fazia isso, havia algo de errado e o assunto era particular dos dois.

Ao ver o casal chegando de mãos dadas na sede da Jardim da Leitura, Tarsila abriu um imenso sorriso para os dois. Ela amava aquela dupla de malucos, mais ainda Márcio por considera-lo responsável pela felicidade dela e de Amadeu. O sócio suportou todo tipo de humilhação, desconfiança, chegando a beira da morte por conta do sentimento que nutria por aquela desvairada da cunhada.

“- Estou imensamente feliz em ver os dois juntos. A última vez que vi Márcio aqui estava completamente desolado como se o mundo fosse acabar no instante seguinte”, disse Tarsila enxugando uma lágrima que lhe caia do olho esquerdo.

– É minha cunhada! Esse homem é para lá de especial e eu sempre tentada a jogá-lo nos braços das outras.

“- Duvido que Márcio tenha olhos para outras mulheres. Elas até podem querer alguma coisa, mas sei que este meu sócio aqui não dará um passo adiante sem a dinamite dos olhos esverdeados que tanto bagunça a sua cabeça”, disse Tarsila esboçando um sorriso.

– Eu sei disso tudo, Tarsila, mas vai dizer isso ao coração e para o cérebro! Minha alma sabe o quanto esse meu amor tem me pregado peças. Mas parei de prometer a ele dias melhores, resolvi viver o dia a dia e o hoje será aqui com ele na editora. Então me coloco a disposição de vocês na organização da inauguração na segunda-feira.

“- Tudo bem Angélica. Daqui meia-hora haverá uma reunião com o pessoal que fará o cerimonial. Como não conseguia falar com Márcio, tomei a iniciativa juntamente com Ricardo. Providenciamos tudo e nesse encontro vamos fechar todos os detalhes. Ah! Márcio tem um romance novo que eu já li e mandei para o seu e-mail. A escritora usou pseudônimo e prefere ficar assim. Disse que não deseja que saibam quem ela é. Só disse que se o livro foi publicado, os direitos autorais devem ir para a fundação que você está criando. Ela parece saber bem quem és tu e Angélica”, informou a sócia de Marzinho.

“- Tudo bem Tarsila, depois da reunião eu o lerei. Depois podemos providenciar sua publicação, se a temática for interessante”, explicou Márcio.

– Agora tem uma outra obra que ainda não te mandei por conta da autora. Ela se identificou, além de informar sobre o seu relacionamento com ela. Então achei melhor não te enviar.

“- Quem é”, perguntou Angélica, de maneira enfática. Depois percebeu que tinha se comportado como a esposa que prometia não ser mais. “- Desculpe-me Márcio. Sei que o assunto não me diz respeito”, justificou-se a empresária.

“- É daquela professora que você espancou no banheiro do restaurante do shopping”, respondeu Tarsila.

“- Pode deletar então. Márcio não lerá nada e nem publicará nada dessa sirigaita”, disse Angélica entre os dentes.

“- Tarsila, mande para o meu terminal. Vou ler e se for digno de publicação, com certeza o colocaremos em circulação. Do que se trata? É uma tese, trabalho acadêmico ou coisa parecida”, inquiriu o editor.

– É um romance cuja temática diz respeito ao relacionamento de uma professora universitária com um estudante da instituição onde ela dá aulas. Ele esconde dela a sua condição financeira e consegue manter essa farsa até que a namorada descobre, quando o surpreende lavando louça num restaurante da cidade. Depois de uma discussão homérica, o rapaz tranca o curso e desaparece sem deixar sinal algum de seu paradeiro. Eles se reencontram quase dez anos depois num encontro sobre etnologia, arqueologia e semiologia numa universidade em Ouro Preto. Ele, de universitário carente se torna num dos maiores especialistas nos assuntos tratados naquele congresso.

“- Gostei do enredo. Com certeza, se o enredo for como tu me fala, publicaremos na segunda leva da Jardim da Leitura”, observou o editor.

“- Acho tecnicamente perfeito, Márcio”, explicou Tarsila.

“- Pode ser o que for, mas não será publicado, já que a autora sabemos bem quem é, e, em quem ela se inspirou para criar as personagens”, disse Angélica fechando a cara.

Márcio, enquanto caminhava para a sua mesa, pisca para Tarsila indicando que não dá a mínima para a opinião da esposa. Angélica se senta diante dele e começa a falar sem parar, fazendo ameaças e outras verborragias que só tem fim quando o esposo sentencia: “- Você disse que ficaria o dia todo aqui comigo para me auxiliar nos preparativos da inauguração da editora. Então faça isso! Vou ler o romance e se for como Tarsila disse que é, será publicado e pronto. Agora, se for para ficar me bisbilhotando, acho melhor voltar para as suas empresas ou para o seu escritório de arquitetura”.

Ao término de sua fala, o editor levanta e vai em direção à mesa em que está Ricardo para saber como ele organizou as panfletagens que serão postadas nas redes sociais e nas páginas que a editora mantém na internet. “- Márcio! Estou falando contigo”, disse Angélica, ficando visivelmente irritada porque o marido fingiu que nem a escutou, contudo, antes mesmo que o esposo falasse alguma coisa, Tarsila puxou a empresária pelo braço.

“- Angélica! O que está fazendo? Não observou que seu marido ficou quase a semana inteira fora, pensando em cometer suicídio por sua causa e agora tu fica aqui dando chilique por conta de uma birra com a ex-namorada dele. Cresça mulher, do contrário, eu mesmo foi recomendar a separação dos dois e ainda direi a essa professora que ele está livre, esperando-a de braços abertos”, disse Tarsila, de maneira bem firme.

Ao ouvir Tarsila falando assim, foi como se a empresária recebesse uma descarga de 220v a trazendo de volta à vida. “- Por que faria isso”, perguntou a cunhada. “- Por uma razão muito obvia: você não deixa o seu marido trabalhar em paz e não se esqueça que sou sócia dele e estou batalhando muito para essa editora der certo. Então não atrapalhe. Se vai ficar aqui que seja para somar e não para dividir, como tenta fazer. Agora vem comigo e vamos organizar o evento”.

Ao se sentar diante da cunhada, Angélica abaixou a cabeça toda envergonhada. “- O que eu faço Tarsila! Eu tento me segurar, mas esse ciúme que tenho do Márcio parece ser do tamanho das muralhas da China e é difícil de lidar com ele”.

– Só tem um jeito de você fazer isso. Ajudando-o em seu empreendimento. Que tu pensas para a segunda à noite? Uma recepção simples, ou uma espécie de coquetel com a presença dos autores que estão sendo lançados, além dos projetos sociais que realizaremos incentivando a leitura? Márcio me falou do concurso de contos com premiação em dinheiro. Anunciaremos tudo isso na segunda-feira?

“- Está vendo Tarsila! Eu não entendo nada disso e inventei de ficar aqui com hoje, mas parece que só atrapalho”, disse Angélica em tom de desabafo.

– Estou pensando em fazer uma recepção sem muita suntuosidade com uísque, cervejas importadas, vinhos e uns dois autores presentes. O Amadeu e aquela amiga de infância do Márcio. Podemos também anunciar que estamos tratando da publicação do livro-reportagem do general, e desses dois novos livros que chegaram. Todos deverão estar no comércio livresco dentro de um mês.

“- Achei ótimo Tarsila. O que posso fazer para ajudar vocês”, perguntou a cunhada.

– Começando por deixar o seu amor trabalhar.

Assim que Tarsila terminou de falar, recebeu uma ligação confirmando a chegada da equipe que organizaria o evento de segunda-feira. Os colaboradores chegariam dentro de meia-hora. Márcio se dirigiu à sua mesa, recebendo um e-mail de Fernanda. “- Querido! Preciso conversar contigo hoje. Podemos almoçar no mesmo restaurante de sempre? Se a resposta for sim, por favor não leve Angélica. A conversa é entre eu e tu. Beijos. Fê”

Antes de responder à mensagem, Márcio ficou pensando no que a amiga queria com ele. Sempre que enviava comunicação daquela maneira, o tema girava em torno do coração dela. Mas agora que as coisas andavam tudo bem entre ela e Ricardo, o assunto não poderia ser esse. “Tudo bem Fê! Ao meio-dia. Tenho uma reunião agora, mas neste horário estarei lá. Beijos. Do sempre Marzinho”. O editor finalizou a mensagem e a encaminhou para o correio eletrônico da gerente de finanças das Organizações Oliveira.

Em seguida, Márcio abriu o romance que Tarsila tinha lhe enviado e começou a ler e de chofre gostou do que lia, já que a sua ex-namorada dos tempos de universidade, havia usado um narrador que navegava da primeira para a terceira pessoa do singular e a transposição de uma para outra arrastava consigo o leitor, o provocando através de perguntas cujo conteúdo dizia respeito aos valores éticos e morais de uma sociedade que tinha um pé no universo judaico-cristão e outro na racionalidade greco-romana. A leitura estava tão empolgante que foi arrancado dela por Tarsila que o chamava para a reunião com o pessoal que responsável pela recepção do evento na segunda-feira.

O encontro terminou por volta das onze e meia. Tarsila, antes que Angélica pudesse dizer alguma coisa, a convidou para almoçar com Amadeu. “- Deixe Márcio um pouco lá com as coisas dele. Vem comigo e seu irmão”, afirmou a cunhada, enquanto o editor afirmava ter um encontro com Fernanda.

“- O que ela quer contigo”, perguntou a esposa.

– Ainda não sei ao certo, mas pediu para eu ir só.

“- De jeito nenhum. Não te quero sozinho com ela”, disse Angélica, de maneira impositiva.

– Quer parar com isso Angélica! Ela está praticamente casada com Ricardo. Então tirei essas minhocas de sua cabeça.

“- Tudo bem! Depois quero saber dessa história, do fio ao pavio”, disse a empresária em tom de cobrança.

Ricardo não participou da conversa do trio porque já se encaminhava para o seu automóvel. Almoçaria com a mãe que praticamente lhe ordenou a presença durante aquela comensalidade no meio do dia.

Enquanto o trio fazia os últimos ajustes, Fabrícia, que desempenha as funções de vendedora, ficava na editora quando os sócios não estavam, havia chegado com o marido, liberando a saída para Márcio, Angélica e Tarsila. Os três foram no carro da esposa de Amadeu que deixou o sócio bem próximo do local em que iria se encontrar com a amiga, levando Angélica, que ainda protestava, para o almoço com o irmão.

– Porra Angélica! Você não dá uma folga ao seu marido! Qual é o grilo? Esse homem esteve duas vezes perto da sepultura por conta do amor que ele lhe tem e ainda assim tu ficavas de marcação. Pense bem. Ele vivia no mundo dele! Uma vida medíocre, por certo, mas era do jeito dele. Fugiu quando descobriu que te amava, diante da impossibilidade de viver esse amor, resolveu sumir no mundo. Você foi atrás dele porque também o amava. Largou tudo, inclusive os sete anos de convivência com a minha irmã para ficar com ele, inclusive se casando numa cerimônia belíssima. O que queres mais? Esse homem não quer o seu dinheiro, apenas o seu amor. Então veja se acorda e não o entregue de bandeja à outra mulher.

Angélica escutou tudo em silêncio enquanto o automóvel chegava na nova casa de Tarsila e Amadeu. Do outro lado da cidade, Márcio se encontrava com Fernanda que estava aflita e ansiosa para conversar com ele. A amiga pediu uma garrafa de vodca, o que chamou a atenção do editor que optou por ficar em silêncio por perceber o nervosismo da amiga. Para ele, o garçom trouxe uma cerveja sem álcool e depois se afastou.

“- Márcio! O que está acontecendo comigo? Estou transando com Ricardo, mas desejando estar contigo. Por favor me explique isso! Será que estou apaixonada por ti e não sabia e, somente agora que encontrei o homem que me fará feliz é que percebi o quanto tu és importante em minha vida”, perguntou a amiga um tanto quanto desesperada.

Ao ouvir a revelação da amiga, Márcio quase engasgou com a cerveja. “- O que está me dizendo Fernanda”, perguntou assustado o editor.

– É isso mesmo que ouviu! Já vinha percebendo algo estranho, mas ontem quando transei com Roberto, dentro de mim brotou uma vontade de que o corpo dele fosse o seu. Estou apavorada e por vários fatores. Primeiro porque tu és casado com uma dinamite atômica e é capaz de me arrancar os olhos se me ouvir fazendo essa revelação. Segundo, a Débora disse aos pais dela que no domingo me casarei com Ricardo, mas como fazer isso, se quando estou com ele, o desejo é de estar contigo. Terceiro, somos amigos há mais de cinco anos e essa querença nunca tinha me visitado.

Márcio encheu o seu copo novamente e bebeu todo o conteúdo numa golada só, enquanto Fernanda virava a segunda dose de vodca. Em seguida, o editor soltou uma sonora gargalhada e, fixando bem os olhos em Fernanda, lhe disse: “- Não é desejo! É medo! De certa forma, o único homem que te conhece de dentro para fora sou eu e Ricardo o contrário e é lógico que agora com o relaxamento do seu centro de vigília, a situação tem aparecido para ti desta forma”, explicou o amigo.

– Me explique melhor, pois quero entender tudo isso. Não desejo ir para cama com Ricardo querendo que ele sejas tu.

“- Querida! Um dos medos de Ricardo é que tu desejasses que ele fosse eu e, de certa forma, os temores dele não eram fantasias de sua cabeça, pois está se consumando agora”, explicou Marzinho, calmamente.

“- Como assim”, inquiriu Fernanda.

– Quando transamos desprendemos poderosas energias criativas, daí a gravidez surgir de um ato sexual. Talvez no seu inconsciente, tu desejavas que sua contribuição energética fosse comigo, o único homem que lhe conhece a alma, mas que na expressão material não seja o que você deseja, e por vários fatores, como tu mesma me disse várias vezes: faltava-me pegada.

“- Está querendo me dizer que provavelmente você seja a minha alma gêmea, porém, a matéria rejeita isso”, disse Fernanda, indicando estar assustada com as revelações do amigo.

– Não! Que tu precisas definir qual é o meu espaço em sua vida. Recordo que disseste para Angélica que não iria estragar a nossa amizade por uma transa atoa. Pois bem! Agora tens o Ricardo e tudo parece ficar embaralhado dentro ti. Talvez quando esteja com ele o que vem à tona é de fato aquele desejo que escondestes atrás da ideia de uma transa atoa.

“- Se eu falar isso com ele, será como transformar o nosso relacionamento num verdadeiro inferno e completa desconfiança por parte dele. Sei que o amo, mas tem essas coisas que ainda mexem comigo e vou te confessar uma coisa: eu só pude perceber que tu me perturbas muito mais do que eu imaginava, agora. No fundo eu desejava que seu casamento não desse certo para, quem sabe, essa transa atoa acontecesse”, revelou ao amigo a gerente de finanças das Organizações Oliveira.

– Fê! Já falamos disso várias vezes, inclusive já dormiu várias vezes em meu apartamento e eu em sua casa e nada rolou.

“- Por tua culpa. Sempre querendo ser o senhor certinho. Desejando o amor antes do sexo. Quando poderíamos ter nos experimentado e aí sim depois poderíamos dizer que não daria certo”, disse Fernanda de maneira exasperada.

“- E por que não atravessou o sinal vermelho”, perguntou Márcio

“- E o medo de levar um fora! Tu não sabes o que é levar um fora de um homem espetacular como você. É pior do que acordar pela manhã e descobrir que a trepada da noite anterior foi horrível e disso eu posso falar com propriedade”, vociferou a amiga.

O garçom chegou e o casal de amigos fez o pedido. Como ambos sabiam o gosto um do outro, a solicitação foi a mesma: costela no bafo para dois. Fernanda estava no meio da garrafa de vodca e Márcio pediu outra cerveja. O editor notara que não havia nenhuma alteração no comportamento de Fernanda por conta da quantidade de bebida que havia ingerido.

– Márcio! Se falar que me deseja, largo tudo para ficar contigo. Podemos sumir no mundo e ninguém terá notícias nossas.

Ao ouvir esse disparate da boca da amiga, Márcio dá uma gargalhada, mas de puro nervosismo, pois não podia perder o fio condutor da conversa. Compreendia que o álcool não havia provocado efeito deletério na amiga por conta do nervosismo em que estava.

– Fê! Você prestou bem atenção no que falou? Observe que o conteúdo não condiz com a realidade. Como lhe disse no início: tudo isso é fruto do medo que está sentindo no momento. Seu casamento com Ricardo, bem como foi o meu com Angélica, é um salto no escuro e muitas vezes optamos por ficar com o escuro conhecido. Quando eu fugi do amor que descobri sentir por ela, foi uma tentativa de ficar com o meu mundo conhecido.

“- Então não sentes atração por mim”, inquiriu a amiga.

– O que lhe disse não tem nada a ver com atração, mas com coisas mais complexas, como por exemplo, você saber de fato o que sente por Ricardo e por que, de repente, surge esse tesão por mim. Talvez o tesão esteja se confundindo com a segurança que sempre sentiu quando está comigo. Por outro lado, és encantadora, uma belíssima mulher que me deixa à vontade a partir da alma que tens.

“- Jeito filosófico esse seu de me dar um fora Marzinho. Acho que és um tremendo filho da puta e cagão”, vociferou Fernanda, indicando alteração no seu estado biológico por conta do álcool.

– Não! Não é nada disso. Eu te adoro, mas não desejo embarcar numa jornada contigo só porque quando está transando com seu noivo pensa em mim. E não farei isso por saber que tudo não passa de medo de começar uma vida nova com o homem que amaa. Lógico que não poderá transformá-lo num Márcio, mesmo eu lhe dizendo que estarei sempre contigo. Agora se tem dúvidas quanto ao que sente por ele, é só adiar a realização desse casamento no domingo.

Assim que terminou de falar, o garçom trouxe os pratos solicitados e ambos passaram a comer em silêncio. Do nada, Márcio diz a amiga: “- Se eu não tivesse…”, mas não conseguiu terminar porque Fernanda jogou o resto de vodca em seu rosto.

“- Se falar o que estou pensando, quebro essa garrafa em sua cabeça”, falou Fernanda completamente alterada.

Márcio olhou assustado para sua acompanhante, achando melhor terminar a refeição e cada um seguir o seu caminho. Após colocar uma quantidade considerável de carne na boca, o editor pegou um guardanapo de papel e fez menção de limpar a boca, mas acabou secando o líquido que lhe escorria pela face.

Terminaram o almoço e Márcio pediu outra cerveja sem álcool, enquanto o garçom limpava a mesa. Fernanda se levantou dizendo que ia ao banheiro. Ficou um tempo que, para Márcio, pareceu uma eternidade. Durante esse período ficou pensando no que a amiga havia lhe revelado. Nesse ponto todas as vezes que ficou na casa dela ou ela dormiu em seu apartamento vieram à tona e ele compreendeu o que Fernanda havia lhe dito, mas agora era tarde, até porque a amiga não havia despertado nele a paixão que sentia por Angélica.

Aparentando ter chorado, Fernanda voltou e se sentou ao lado do amigo, o abraçando, pedindo mil perdões por ter jogado vodca em seu rosto. Segundo ela, foi uma reação por não se achar desejada pelo amigo. Entendia bem o que ele lhe dizia, se colocando no lugar dele e se fosse ele a lhe confessar um amor adormecido ou que não fosse isso, mas uma declaração movida pelo medo do novo.

“- Querida é preciso calma para equacionarmos tudo isso”, disse Marzinho tentando amenizar o clima entre os dois.

– Porra Márcio! Não precisa dizer nada! Parece que transforma tudo numa conferência filosófica ou numa consulta psicológica. Só desejava expor o que vai dentro do meu coração e que o corpo começa a refletir, mas você consegue me deixar pior do que eu estava. Então, antes que eu me esqueça: vai tomar no olho do seu cu e volte aos braços daquela doida que quase te levou à sepultura por duas vezes, além de quase o deixar brocha. Acho que brocha tu já é.

Ao terminar de ofender o amigo, Fernanda tentou ingerir mais um pouco de vodca, mas foi impedida por Márcio que disse de forma enfática: “- Chega! Vamos para casa! Eu te levo”, disse o editor de forma enfática.

– E vai me comer? Por que se não for, pode deixar que eu sei o caminho de casa e do inferno.

Em silêncio, o editor pediu a conta e ficou prestando atenção em Fernanda que começava a ampliar os sinais em consequência da quantidade de vodca que ingeriu. Assim que pagou a despesa, Márcio se levantou e quando Fê foi fazer o mesmo, sentiu tudo rodando e perguntando ao acompanhante o que estava acontecendo.

– Acho que bebeu um pouco além da conta. Vem que eu te ajudo a caminhar.

Assim que se agarrou ao corpo de Márcio, Fernanda começou a chorar e o amigo, usando o celular pediu um transporte. Levou a amiga para o apartamento que um dia foi dele. Quando chegou defronte ao prédio, viu Angélica que avistou Fernanda debruçada no ombro do marido.

Assim que os amigos deixaram o automóvel, a empresária desferiu um tapa no rosto do esposo, lhe lançando diversos impropérios, o chamando de traidor e vociferando que Fernanda seria demitida de suas empresas.

– Caralho Angélica! Será que não pode ver as coisas para além do próprio umbigo. Não está vendo o estado em que Fernanda está? Vamos colocá-la na cama e depois pode falar o que quiseres, inclusive enfiar essa aliança aqui em seu cu. Cansei dos seus shows e baixarias provocados por esse seu egoísmo tosco.

Já dentro do apartamento, depois de ajustar Fernanda na cama, Márcio ligou para Roberto pedindo a ele que deixasse Danisa passar a tarde no apartamento, pois Fernanda estava completamente alcoolizada e não queria acionar Ricardo porque a situação era complicada.

“- Tudo bem Márcio. Falarei com Danisa e aguarde aí até eu chegar com ela. O que aconteceu”, perguntou o amigo.

– Ela me mandou uma mensagem dizendo que precisava conversar comigo, mas era para eu ir sozinho, porém, durante o almoço bebeu quase que uma garrafa inteira de vodca.

“- E qual foi o motivo”, quis saber Roberto.

– Não dá para falar por telefone. Uma outra hora eu te conto. Angélica me viu chegando com ela e a coisa se complicou, inclusive ameaçou demitir Fernanda. Então imaginas o balaio de gatos em que a coisa está.

“- Marzinho! Acho que Fê descobriu que te deseja mais como homem do que amigo, e segurou isso durante muito tempo, pois tinha certeza de que você estaria sempre por perto. Agora com o noivado com Ricardo tudo explodiu de uma vez dentro da cabeça dela e do coração”, tentou explicar o diretor de comunicação das Organizações Oliveira.

– É mais ou menos isso, meu amigo, mas falaremos disso um outro momento. Fico te esperando aqui.

Ao deixar o quarto de Fernanda, Márcio recebeu um soco no rosto desferido por Angélica que partiu para briga. Estava cega de ciúmes e nem percebeu que o nariz de Márcio sangrava em virtude do murro que levou. Ele tentava segurar a esposa que parecia ter a força de dez homens.

Quando Roberto chegou com Danisa, o editor estava sentado numa das poltronas desolado e com a camisa em tiras e toda ensanguentada e Angélica aos prantos na cozinha. A esposa de Roberto ficou ligeiramente assustada, mas como conhecia aquele dois, sabia que a sala do apartamento tinha se transformado num ringe de luta livre.

Ao entrar no quarto, Danisa se deparou com Fernanda delirando dizendo que o amigo tinha chutado ela e que não a desejava como mulher e isso era porque Marzinho era um bunda mole.

“- O que aconteceu aqui, meu amigo”, perguntou Roberto.

– As mesmas coisas de sempre e com um agravante, Fernanda cismou que me deseja e pediu para que largássemos tudo e fossemos embora, além de beber quase um livro de vodca. Por conta disso eu a trouxe em casa e Angélica viu ela debruçada em meu ombro dentro do carro que nos transportou para cá. O resto você já sabe.

Roberto deixou o amigo na sala com aparência de quem tinha enfrentado um furacão e, ao chegar na cozinha, surpreendeu a patroa aos prantos. “- Angélica, você não acha que já abusou das agressões ao Marzinho por conta desse seu amor desmedido? Esse homem já quase foi a óbito duas vezes por sua culpa. O ar que ele respira chama-se Angélica e tu ainda duvida do que ele lhe sente? Sinceramente não achava que fosse tão desequilibrada assim. Ele está prestes a inaugurar a editora dele, um sonho que acalenta desde a universidade e parece que tudo vai para os ares por conta desse seu desequilíbrio”.

Sem dizer nada, ela corre para os braços do seu diretor de comunicação pedindo desesperadamente para não deixar o seu Marzinho sair de sua vida. “- Roberto! Eu sei que estou errada e sou insuportável, mas só de pensa-lo com outra, eu fico sem chão e ainda acabei de vê-lo chegar com Fernanda e ela estava com a cabeça no ombro dele”.

– Claro! Ela estava completamente alcoolizada e provavelmente por ter medos semelhantes aos seus e o Márcio tem que segurar a sua onda, a dela e quem segura a dele? Fernanda está passando mal no quarto e ele não pode lhe fazer companhia, já que tem que cuidar da inauguração da editora. O que você foi fazer lá? Já não tinham acertado para não misturarem seus campos profissionais”, perguntou Roberto, de forma exasperada.

– Eu queria ajudá-lo a organizar tudo, mas aí aquela ex-namorada dos tempos de universidade mandou um livro dela para ser publicado e com uma história parecida com a que eles viveram. Daí para frente, perdi o juízo.

“- E espancou novamente o Márcio que está todo arrebentado na sala e sei que está daquele jeito porque não quer revidar, tamanho o amor que ele lhe tem”, disse Roberto entre os dentes.

“- Eu sei Roberto, mas o que eu posso fazer”, disse a empresária já sentada numa cadeira e com os cotovelos sobre a mesa.

Sem dizer nada, o diretor foi em direção à sala, afirmando a Márcio que não deixaria Danisa ali e que era para ele arrumar outra pessoa para ficar cuidando da Fernanda ou então ficasse ele mesmo, afinal de contas em todas as confusões em que Angélica se metia, ele era a causa.

“- Tudo bem Roberto! Só me de uns minutos que consigo alguém para ficar com ela”, disse o editor, pegando o celular e conversando com Tarsila pedindo-a que levasse Fabrícia até o apartamento. “- Pronto! Daqui a pouco Tarsila chega e tu podes levar Danisa embora e também poderá partir. Por mais que eu tente não envolvê-los nos meus problemas com Angélica, mais e mais arrasto vocês. Me desculpe, meu amigo. Já não sei mais o que dizer”.

“- O que foi que conversou com Fernanda que a fez beber desse jeito”, inquiriu o amigo.

– Eu não disse nada além do que deveria ser dito. Ela apenas cismou que me deseja, mas falei que era por conta da insegurança que sentia em virtude de a partir do domingo oficializar o casamento com Ricardo. Aí ela se descontrolou, jogou vodca no meu rosto e ficou completamente alcoolizada. Tive que trazê-la para casa e, chegando aqui Angélica estava na calçada e completamente alterada começou a falar alto e me desferiu um tabefe no rosto e aqui dentro do apartamento me desferiu um soco no nariz e partiu para porradaria.

“- Eu não queria estar na sua pele, meu amigo. Como vai explicar isso ao noivo dela? Ele já estava desconfiado de ti e se tu contar isso, o caldo entorna tudo e pode esquecer a inauguração de sua editora segunda-feira. Lembre-se que tua mãe deve estar estourando por aí para a inauguração. Ah! Débora está pensando em ficar noiva do seu irmão esse final de semana”, informou Roberto.

Assim que o amigo terminou de falar, Tarsila entrou no apartamento e sem dizer nada, levou Fabrícia para o quarto onde Fernanda dormia e delirava ao mesmo tempo. “- Não leve em conta nada do que ouvir ela dizer. Você ficará aqui até o final do dia quando eu e Márcio voltarmos. Qualquer coisa me ligue ou para o Marzinho”, recomendou Tarsila.

Ao chegar na sala, a sócia do editor quis saber o que foi aquilo e ele respondeu que excesso de ciúme da esposa. Roberto deixou o ambiente com Danisa que comentou que enquanto a empresária não matasse Márcio, ela não sossegaria.

Na volta para casa, a esposa de Roberto quis saber mais daquela peleja, pois ouviu Fernanda dizer que Márcio não queria comê-la. “- É uma longa história e tem a ver com o fato do Marzinho vê-la apenas como amiga e ela estar insegura com relação ao seu relacionamento com Ricardo”, disse o marido querendo colocar fim àquele assunto.

Dentro do apartamento, Tarsila pediu ao sócio que fosse se banhar e trocar de roupas. “- Eu sei que ainda tem roupas aqui. Então se higienize que temos trabalho a tarde toda, enquanto eu converso com Angélica. Depois vou levá-la ao apartamento dela e pedirei ao Amadeu para ficar lá com ela até você chegar a noite”, explicou a cunhada.

Quando chegou a cozinha, Tarsila surpreendeu a cunhada estando com a cabeça entre os braços e apenas soluçando. “- De novo Angélica!? Você atrapalhando a vida do seu esposo e por puro ciúme”, falou entre os dentes Tarsila. “- Já sei que extrapolei e me penalizei aqui não sei quantas vezes. Também compreendi que não deveria ter ficado na editora com ele e que meu lugar não é lá. Mas estava tão feliz com ele, que desejava ajudar no que fosse preciso para inaugurar a editora na segunda-feira”.

– E quase coloca tudo a perder. Olha como deixou o Márcio! Tu tens sorte desse homem te amar e nunca revidar as suas agressões verbais ou físicas. Vê se coloca juízo nessa sua cabeça. Tua sogra deve chegar no final da tarde e com certeza quererá saber como anda o relacionamento de vocês. Já imaginou se ela souber que o filhinho amado dela desejou cometer suicídio no começo da semana?

“- O que quer que eu faça”, pergunta desesperadamente Angélica.

– Eu bem que disse para ele ficar longe de ti, mas fazer o quê? O cara é maluco por você! Então apenas o ame e encerre essas cenas todas de ciúmes. Não vê que ele e Fernanda são amigos e isso nem tem amor e ciúme que mude? O romance que a ex-namorada dele escreveu tem potencial de vendas importantes e todo poeta escreve a partir daquilo que vivenciou ou sonhou. Aquela professora usou o romance para equilibrar o que havia dentro dela. Não há perigo algum dela roubar o Márcio de ti.

“- Eu sei disso tudo, mas fico cega quando penso que isso possa acontecer”, vociferou a empresária.

– Espere aqui que falarei com o seu irmão. Ele ficará contigo no seu apartamento até o Márcio chegar a noite. Temos que preparar tudo para segunda-feira. Faremos um almoço na editora amanhã para os pais dele. E é lógico, ele está preocupado com Fernanda que bebeu além da conta.

Enquanto conversava com Angélica, Tarsila percebeu a chegada de Márcio que, já higienizado disse a sócia que poderiam voltar para a editora. A cunhada pegou o telefone, conversou com o esposo e, em seguida todos deixaram o apartamento em direção às Organizações Oliveira, onde pegariam Amadeu.

“- O que aconteceu”, perguntou o poeta quando o trio apareceu para apanhá-lo.

– Sua irmã que deu novo show, espancando o marido que é um boboca e não revida. Quase quebrou nariz dele, lhe rasgou toda a camisa. Vamos deixa-la em seu apartamento e tu fica lá com ela e não a deixe sair. Márcio precisa trabalhar para inaugurarmos a editora na segunda-feira e para complicar a situação, Fernanda tomou um porre desgraçado durante o almoço com esse bunda mole do meu sócio.

– É mosquito! Tu és para-raios de malucos, ou melhor, de malucas. Eu te avisei naquela noite que não queria conversar com ninguém, mas insististes tanto que acabou dentro do caldeirão da rainha diaba. Acho que escreverei uma crônica erótica sobre isso. Um negão e duas dinamites atômicas ávidas pelo seu pau, ou melhor, pavio.

“- Amadeu! Vai tomar no cu! O assunto é sério”, disse Márcio querendo ficar sério, mas não conseguiu por muito tempo.

– Tarsilinha, a treta dessas duas não vai acabar nunca. A Fê precisa casar logo com o negão dela para que a Keka tenha um pouco de paz e não desconfie dela o tempo todo. Do contrário, enquanto a Fernanda continuar gravitando em torno do Marzinho, minha irmã perderá o juízo sempre.

Angélica escutava tudo em silêncio, pois sabia que tinha passado da conta com o marido, justamente na semana em que ele quase cometeu suicídio por conta de mais uma insensatez dela.

Chegaram ao apartamento da empresária e o casal de irmãos desceu, recebendo todas as recomendações de Tarsila que parecia ser a mais sóbria de todos eles. No caminho de volta à editora, ela tentava colocar juízo na cabeça do sócio, mas não conseguiu, pedindo a Márcio que se abrisse com ela. “- Tarsila! Não sei mais o que fazer com esse ciúme que Angélica sente”.

– Simples! Trepe com ela todos os dias! Não seja tão filosófico. Seja direto. Por exemplo, o que a fez se apaixonar por ti, com certeza não foi toda essa sua erudição, mas justamente não fazer o que ela quer. Então não deixe ela governar a sua vida. Tu tá deixando que o amor que sentes por ela, estrague o casamento. Se imponha. Por que ela foi parar na editora hoje? Porque não se opôs e olha a confusão toda que ela arrumou.

Diante do silêncio de Márcio, a sócia completou: “- Angélica é rica e mimada, por isso acha que todos têm que fazer os seus caprichos, e no começo você se opôs a tudo isso. Daqui a pouco, ela pode se enjoar de ti como aconteceu com a minha irmã quando as duas eram casadas. Mas, por outro lado e, ao contrário de Rosângela, de ti Angélica gosta e é doida pelo seu coração, mas ainda não se sente adulta para viver esse amor”.

“- Obrigado Tarsila”, disse Márcio voltando a ficar em silêncio, contrariando o desejo da tradutora que queria saber qual a ligação da nova crise do casal com Fernanda, a gerente das Organizações Oliveira e amicíssima do seu sócio. “- É só isso que vai me dizer, meu amigo”, perguntou a cunhada.

“- É”, disse Márcio rindo.

– Eu sei que aí tem mais coisa e diz respeito a Fernanda. Angélica morre de ciúmes dela e como a vi deitada na sua antiga cama, deduzi que a briga teve um motivo mais: a sua amiga Fê.

“- Tarsila, podemos mudar de assunto”, perguntou o editor.

“- Tudo bem, mas me responde uma última pergunta: já comeu a Fernanda ou coisa parecida”, quis saber a sócia.

Márcio não respondeu e fechou a cara, confirmando aquilo que Tarsila imaginava. Ali tinha coisa e Ricardo não podia saber, mas devia ficar de orelha em pé, pois sentia que entre ele e Márcio, o seu sócio levaria a melhor sempre.

Já na editora, Tarsila pediu a Ricardo para buscar na gráfica um material que estava impresso, devendo ser disponibilizado antes mesmo do lançamento oficial do empreendimento na segunda-feira. Assim que o noivo de Fernanda saiu, Tarsila voltou à carga querendo saber o que tinha acontecido. “- Nada! Fernanda exagerou na bebida na hora do almoço. Foi só isso”, tentou explicar Márcio.

– Meu amigo não precisa temer nada. Eu e todos nós que o rodeamos sabemos o quanto és discreto, mas esse almoço com a Fê tem muito mais do que está me dizendo, além do mais, uma mulher para beber como ela bebeu, além do que falou à Danisa, tem tudo a ver com um fora. Você se recusou a transar com ela?

“- Tarsila por que insiste em temas que eu não quero falar”, perguntou Márcio de maneira exasperada.

– Porque eu te conheço o suficiente para saber que está entre a cruz e a espada e Fernanda deseja mais do que ser a sua amiga e pode ter se sentido rejeitada.

“- Não é nada disso”, disse o editor tentando mudar o rumo da conversa.

– Márcio, ela descobriu que te ama quando o relacionamento dela com Ricardo começou a se tornar mais sério e agora está tentando uma última cartada contigo.

“- Eu amo a Angélica e pronto e acho que isso basta e agora vamos mudar de assunto”, falou Márcio de maneira imperativa.

– Está tudo bem, mas acho que Ricardo, por mais complicado que seja não merece isso nem de ti e nem dela. Entendo que deva conversar com ele. Lembre-se que sempre cobrou franqueza de Angélica com relação à Rosângela. Então não esconda nada dele, pois pode vir a saber por conta de outra pessoa e aí a coisa pode se complicar.

Assim que Tarsila terminou de falar, Ricardo chegou, desferindo um violento soco no rosto de Márcio, querendo explicações porque havia embriagado a noiva. “- Seu filho de uma puta! Fica dizendo que você e a Fê são apenas amigo, mas almoçam juntos e ainda por cima a embriagou. Por que fez isso? Queria comê-la e ela se recusou e aí achou que a embebedando, ela cederia mais fácil”.

Antes que Márcio pudesse dizer alguma coisa ou revidasse a agressão, Tarsila ficou entre os dois, querendo saber de onde Ricardo havia tirado aquela história. “- Antes de me perguntar de onde eu tirei essa narrativa, deveria perguntar ao teu sócio o que ele queria com Fernanda. Já não basta ter a mais gostosa de todas, ainda quer a minha como reserva”.

– Ricardo! Acho melhor se acalmar. Já fez besteiras o suficiente por hoje. E te digo que não se resolve nada com base na violência. Márcio conte tudo a ele, antes que a coisa fique pior.

– Não precisa me contar nada. O garçom do restaurante, que é meu amigo, me disse que tu e minha, sei lá o quê, estavam feitos um casal almoçando e conversando descontraidamente enquanto, você seu hipócrita, a embebedava com intenções de levá-la ao motel.

Márcio já firme e com o nariz sangrando, apenas lhe informou que Fernanda estava no apartamento sob os cuidados da esposa de Pedro porque tinha passado dos limites com o álcool e foi ela quem marcou o encontro com ele.

– Mas por que ela faria isso? Vocês sempre foram grudados: ela vestia sua cueca e tu a calcinha dela, feito uma maricona.

Ao ouvir essa adjetivação, o editor partiu para cima de Ricardo, mas foi impedido pela sócia. “- Por que ao invés de desforrar a ofensa, não diz logo o que está acontecendo”, afirmou Tarsila.

Quando Márcio estava prestes a iniciar as explicações, Fernanda entra pela porta, ainda atordoada pela bebida. Vendo o sangue escorrendo do nariz do amigo quis saber o que estava acontecendo. “- Consequência do seu porre da hora do almoço. E para variar, seu noivo continua escutando conversa mole daqueles amigos retardados dele”, informou Tarsila.

Depois de um silêncio sepulcral, entra no prédio a funcionária da editora dizendo que não conseguiu manter Fernanda no apartamento. Ela havia acordado chamando pelo editor. “- Não tive como contê-la no quarto, senhor Márcio”, disse Fabrícia, tentando se justificar.

Márcio assentiu com a cabeça, enquanto Ricardo se ajustava numa das cadeiras e colocando o rosto entre as mãos dizia que foi por isso que todos o queriam por perto para encobrir as safadezas de Fernanda com Márcio. Desta vez foi a noiva que deu uma bofetada no noivo, pedindo para ele parar de dizer besteiras. “- Seu idiota! Eu e Marzinho almoçamos juntos porque desejava conversar com ele sobre umas coisas que estavam acontecendo comigo e eu, por fraqueza bebi quase uma garrafa de vodca e ele me levou embora. Mas tu não podes aguardar as pessoas, que realmente interessam, te informar. É preciso sair dando porrada, se achando o machão”, vociferou Fernanda.

– Não preciso de homem briguento, como meu pai que vivia surrando minha mãe que, de tanto sofrimento, não aguentou e tirou a própria vida e aquele que deveria ser meu guardião caiu no mundo.

Naquela sala apenas duas pessoas sabiam daquela história: a própria protagonista e Márcio que havia prometido não contar isso a ninguém. Com a revelação, Fernanda acabou vomitando o resto de bebida e almoço que ainda tinha no estômago e em seguida correu até os braços do editor pedindo desculpas por ter tornada a vida dele um tormento, por não saber lidar com os seus sentimentos.

Sentindo-a desfalecer em seus braços, Márcio pediu ajuda para Ricardo. “- Me ajude aqui seu merda! Tua noiva não está bem”. Ao perceber toda a movimentação, a funcionário fechou as portas e olhando para Tarsila que, grávida, poderia apresentar algum desconforto por conta daquela situação toda. “- Tudo bem. Não há nenhum problema comigo. Vamos acudir a Fê”, explicou a sócia de Márcio.

Enquanto a faxineira buscava os produtos para limpar o vômito de Fernanda, Ricardo e Márcio a colocava deitada no sofá. “Fique com ela enquanto eu busco um médico”, afirmou Ricardo. “- Não precisa de médico. Ela está com uma imensa ressaca, Ricardo”, disse Márcio pedindo para a empregada preparar um chá bem forte para a amiga e assim que ela apresentasse uma melhora, o noivo podia levá-la embora.

Uma hora depois de todo o ocorrido, Fernanda se recompunha e olhando para Ricardo e Márcio pediu para o noivo levá-la embora. Ambos tinham muito o que conversar. “- Depois se quiser terminar tudo, eu aceitarei. Mas quero que me escute sem questionar nada”.

O noivo levou a gerente para casa, enquanto o editor ficava sem saber ao certo o que dizer até que escutou Tarsila lhe pedir desculpas por forçá-lo a dizer algo achando que sabia do que se tratava. “- Não tem problemas, minha cara. Sei que entende essas coisas. Todos nós temos algo no passado complicado que ainda não sabemos lidar suportar direito. Por isso devemos ter tato ao lidar com as dores alheias”.

“- Você acha que Ricardo dará uma chance a ela ou vai abandoná-la”, perguntou a sócia ao editor.

– Sinceramente, espero que ele compreenda que a Fê está precisando do amigo e não do homem. Quero acreditar que Ricardo vá finalmente entender o que a Fernanda significa para ele e ela também saberá que tipo de homem, o noivo é.

Quando o casal de sócios olhou para o relógio, percebeu que as horas já iam adiantada e Amadeu já ligava para a esposa querendo saber dela. “- Espero que meu amigo mosquito não esteja te cantando, pois se fizer, eu deixo ele sem o pau que tanto encanta Angélica”, disse o esposo rindo ás gargalhadas.

– Deixa de ser bobo meu poeta amado. Tu bem sabes que tenho olhos somente para ti e que a alma de Márcio foi aprisionada pelo coração de Angélica. Portanto, não há menor chance de nós dois nos entendermos como homem e mulher. Aguarde aí que já estou chegando com o seu cunhado e para te resgatar das teias da Rainha Diaba.

Em questão de meia-hora, Márcio e Tarsila estavam no apartamento de Angélica que notou uma parte arroxeada do nariz do esposo e quis saber o que havia acontecido. “- Seu marido hoje foi saco de pancadas de ti e do noivo de Fernanda. Ricardo o socou porque ouviu na rua que Márcio tinha embebedado a Fê com a intenção de levá-la ao motel, como se o meu sócio fosse um crápula”, explicou Tarsila que, diante dos acontecimentos, parecia ser a mais sóbria de todos eles, incluindo o próprio marido.

Sem esperar que Angélica dissesse alguma, a tradutora Amadeu para irem embora, pois o dia dela foi tenso e assistindo muita briga, cena de ciúmes e pugilismo. “- Vocês resolveram colocar esse homem nas cordas e socá-lo sem dó nem piedade. Agora eu entendo seus silêncios, meu amigo”, disse Tarsila beijando Márcio numa das faces, acrescentando que dariam o destaque que a Jardim da Leitura merecia.

Assim que se viu a sós com a esposa, silenciosamente o editor caminhou para o banheiro para se higienizar, mas desejava um banho que começasse pela alma, chegando ao coração, e enfim, ao corpo físico que foi duramente espancando naquela tarde. Primeiro, pela ciumenta da esposa e depois pelo seu funcionário que acreditava que ele estava tentando transar com a noiva.

Depois que pareceram horas debaixo do chuveiro em que as águas se confundiram com as lágrimas de Márcio, o filho de Judith sentiu seu corpo ser abraçado pela esposa, que o observou silenciosamente por vários minutos sem que ele notasse. Durante esse tempo, Angélica se perguntava de onde vinha tanto ciúme e medo de perdê-lo.

– Amor eu te juro que não desejo ser esse furacão em sua vida, mas, por mais que eu tente me equilibrar, ainda tenho medo de não tê-lo aqui comigo ao amanhecer de um novo dia.

Virando-se para a esposa, o editor se limitou a dizer que ela deveria continuar tentando, pois somente assim é que atingiria um dia a tão sonhada harmonia. “- Estarei todos os dias contigo durante essas tentativas, te amando incondicionalmente. Se fosse o contrário, não teria tentado fugir deste amor que lhe tenho e não retornei dos confins do Estado para vê-la pelo retrovisor”, disse Márcio, recebendo um confortável abraço da esposa que silenciosamente o beijou novamente.

Quando o casal se enxugada na divisória que ficava entre o banheiro e o quarto, os dois escutaram conversas que vinham da sala. Identificaram as vozes como sendo Judith, Eleanora, Alexandre e do sogro de Angélica. A empresária e o editor não entenderam direito o que os pais diziam, mas a esposa sabia que deveria ter uma conversa franca com Judith e com Eleanora.

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