Sobras de um amor – parte III

28.

 

            Ao ouvir essa revelação, Alexandre deixou a cama, indicando à Eleanora que teria que falar ou poderia ir embora. O movimento silencioso dele a petrificou, contudo, a presidente de honra das Organizações Oliveira compreendeu que o momento havia chegado e era melhor dizer logo, antes que alguém pudesse lhe contar ou o militar descobrir sozinho.

De pé encostado no guarda-roupa, sem, no entanto, fazer peso no móvel, o general aguardava que a namorada começasse. “- Amor, me olhando assim você me intimida e fico mais receosa e com medo”, desabafou Eleanora, se sentando na beira da cama. “- Acabou de me dizer que sua filha é insegura, mas acho que ela tem para quem puxar”, disse Alexandre.

– É que o que tenho para te contar é muito grave e é quase certo que me expulsará, não só desta casa, mas também de sua vida. Por isso estou assim, temendo tudo e todos. Quando estou contigo, não preciso usar armadura nenhuma e nunca havia me sentido assim, como se fosse obrigada a ser alguém para te agradar.

– Então se tu se sentes assim, continue e deixe eu saber o que é e depois veremos como a situação se ajusta.

“- Deixe para amanhã, quem sabe eu não tenha mais coragem”, disse Eleanora tentando adiar a revelação.

“- Eu sempre digo que quando saímos para uma batalha, devemos derrubar a ponte que acabamos de passar. Então, se começou a me contar o que lhe incomoda a alma, penso que deves ir até o final. Portanto, nada de deixar para o dia seguinte: pode dizer agora”, sentenciou o general como se estivesse comandando uma batalha militar.

Com essa fala, o namorado colocou a baioneta no pescoço da namorada e não havia mais como ela retroceder para ganhar tempo. Por isso, Eleanora compreendeu que deveria falar tudo de uma vez e sair do apartamento. Ficou de pé, enquanto se vestia, pensando num jeito de dizer aquilo que lhe apertava a garganta e lhe amargurava o coração.

– Angélica é do jeito que é porque durante boa parte da adolescência foi abusada sexualmente pelo meu marido e eu sabia, mas não podia fazer nada porque era ameaçada de morte e, por estar iludida com todo o luxo que ele me dava. O meu filho ficou cinco anos como um louco andando pelas ruas da cidade, porque amava Tarsila e, por ela ser negra, o pai dele, meu esposo ameaçou matá-la. Por conta disso, Tarsila desapareceu e só ressurgiu com o apoio do Márcio. Jô tinha ojeriza de negros porque foi apaixonada por uma negra que trabalhava com o pai dele e foi brutalmente assassinada a mando do meu sogro.

Ao dizer isso, Eleanora estava completamente vestida, de cabeça baixa, com a bolsa a tiracolo, pronta para ir embora e já com a mão na maçaneta da porta do quarto e ao girá-la, ouviu a voz do general. “- Onde pensa que vai? Solta uma bomba dessas e quer ir embora? Posso saber por quê”, perguntou o militar.

– Por uma razão muito obvia: você está pensando que sou uma péssima mãe. Minha filha foi violentada várias vezes pelo meu marido e não fiz nada. Meu filho ficou como um louco por essa cidade e eu não fui capaz de ajudá-lo. Então, acho que não sou digna de receber o amor que diz me ter.

“- Eu não disse nada! Então não entendo de onde tirou todas essas conclusões”, falou Alexandre.

– Do meu medo de te perder. Tenho muito dinheiro e achava que tinha tudo, mas quando conheci Márcio e a família dele, percebi o quanto minha pobreza era grande e o quão miserável era a minha vida e aí você apareceu confirmando que eu, de fato, não sabia o que era amor, nem mesmo pelos meus filhos que gerei.

Alexandre que havia vestido o seu pijama de dormir, chegou perto da namorada, abraçando-a, lhe dizendo que poderia ter sido uma mãe ausente, alienada, mas não que não amasse os filhos, pois eles estavam ali com ela e ele, havia presenciado muitas confusões em que Angélica se metia por conta desses traumas e Márcio era um homem gigante por saber de tudo e não deixá-la. “- Meio covardão, mas também sabendo disso tudo, sem poder conversar com ninguém, pode ter fraquejado algumas vezes”.

Ao dizer isso, Alexandre tira a bolsa do ombro de Eleanora e a leva para a cozinha, dizendo que ia fazer um café para os dois, enquanto ela lhe contaria tudo. “- Me conte tudo e vamos passar essa tormenta juntos. Sei que Márcio não dirá nada a ninguém, mas sabendo que eu sei, vamos trabalhar para minimizar esses estragos e deixar seus filhos mais serenos. Todos nós temos lá nossos motivos para agirmos assim ou de modo diferente”, disse Alexandre puxando Eleanora pela mão até a cozinha.

A sogra de Márcio tentava ser durona, pois acreditava que o general terminaria tudo, mas ele agiu diferente, fazendo ela desabar e chorar nos braços dele que, encostado na pia esperava a água aquecer. “- Por que esse choro, meu amor”, perguntou Alexandre à Eleanora.

Ainda entre lágrimas e soluções, a namorada respondeu que o motivo era a reação dele quando soube da verdade, inclusive que ela foi uma mãe omissa e alienada no que diz respeito à educação e a criação dos filhos, sendo que os dois foram violentados de formas diferentes pelo marido enquanto ela nada fazia.

“- Ninguém chega a cadeia de comando de qualquer organização, empresa ou coisa semelhante, reagindo. Só podemos atingir a harmonia quando pensamos antes de agirmos. Quem reage já perdeu e agrava mais a situação, o problema. Não sou perfeito, embora todos imaginam que para chegar a general o ser humano tenha que estar perto da perfeição, portanto, não é apontando o dedo para ti, te sentenciando que equacionaremos os problemas”, afirmou o namorado, tentando acalmar Eleanora.

Como querendo se segurar no militar, Eleanora o abraçou mais forte lhe dizendo que o genro havia dito algo semelhante no dia em que Jovelino morreu e aquela observação fez com que ela começasse a enxergar o mundo de forma diferente. “- Tenho tanto que mudar, redimir, reparar meus erros que até seis meses atrás eu cometia, que nem sem por onde começar”, disse a namorada de Alexandre.

– Por que não começa se tranquilizando agora que me contastes tudo. Primeiro passo para reparar as mazelas e prejuízos que causamos aos outros é admitindo que estávamos errados e eu tenho certeza de que não houve um dia, desde que decidiu se reformular, que tudo o que você assistiu, ficou sabendo não lhe atormenta a consciência. Então, se me contou tudo isso é porque confia em mim e em nosso amor e é por isso que te disse: vamos passar essa tormenta juntos. Não estou contigo porque és uma excelente foda, uma trepada sensacional, mas porque me faz imensamente feliz”, completou Alexandre para delírio do coração da namorada.

O militar preparou o café e os dois ficaram sentados à mesa conversando e ela contando tudo, sem esconder nada, inclusive que sabia que Jô não a amava, embora tenha sido um bom companheiro de jornada e quando descobriu isso, desistiu de tentar fazer com que o marido a amasse, passando a usufruir dos benefícios que ele lhe concedia, na tentativa de a compensá-la pela falta de amor. “‘- Eu não consigo esquecer a Lourdes! Está além de minhas forças’, me dizia Jovelino, revelou Eleanora ao seu namorado.

A conversa varou a madrugada e consumiu toda a garrafa de café que o general havia preparado juntamente com uma grande porção de torradas. Durante o diálogo que, muitas vezes, parecia ser um monólogo, pois só Eleanora falava enquanto Alexandre a escutava atentamente. Quando os ponteiros marcavam quase quatro horas, o general se levantou indo em direção a namorada, estendeu a mão, a chamando para dormir.

– Vem! Vamos dormir e partir de hoje ficará aqui comigo até arrumar um apartamento para ti ou outra casa. Não te quero mais naquela mansão que tantas dores lhe causou. Mas é um segredo meu e seu e de ninguém mais.

– Amor. Eu não quero apartamento e sim uma casa, pois quando os netos chegarem desejo que tenham bastante espaço para correrem e saberem que a residência da avó é onde o paraíso existe.

“- Você deseja construir outra”, perguntou o general.

– Não! Dá muito trabalho. Amanhã vamos procurar uma. Ou o senhor está pensando que vou morar lá sozinha?

“- Vamos devagar amor. Primeiro, precisamos conversar essas coisas com seus filhos. Eu, você, Amadeu, Angélica, Márcio e Tarsila, pois o assunto diz respeito a todos nós e se estarei presente na vida de seus familiares, preciso saber como é isso lá com eles. Agora vem. Vamos dormir e nos desligarmos desse mundo que tantas dores provocou em ti”, ponderou Alexandre.

Alexandre e Eleanora adormeceram abraçados como se estivessem dormindo juntos pela primeira vez. A matriarca dos Oliveira, se sentia mais leve do que nunca. Havia tirado um peso enorme das costas ao contar ao namorado um dos segredos mais complicados que envolvia seus familiares e o militar, que poderia rechaçá-la, optou por ficar do lado dela e caminharem juntos. “Realmente eu fazia uma ideia errada das pessoas. Estava lendo o mundo a partir das lentes rancorosas e ressentidas do Jô. Ele nunca conseguiu ser feliz e fazia com que tudo ao seu entorno ficasse cinza”, pensou Eleanora se ajustando mais ao corpo do general como querendo procurar proteção contra os fantasmas que há mais de 35 anos a assombravam.

*          Ao despertarem no dia seguinte, logo depois de se higienizarem, a primeira coisa que Alexandre disse foi para a namorada marcar um jantar com os filhos e respectivos cônjuges para aquela noite de terça-feira. “- Mas para que tanta pressa assim, meu amor”, perguntou a namorada que obteve como resposta: “- Quanto mais cedo iniciarmos essa nova vida, melhor. Não quero apenas o seu corpo, pois o seu dinheiro não me interessa nenhum pouco e não tem pretensões alguma de ter outro status do que esse que tenho, então, quero conversar com Amadeu e Angélica ainda hoje. Pode ser”, inquiriu o general.

Assim que chegou ao escritório de arquitetura, Angélica percebeu Débora um pouco tensa e desejou saber qual era o motivo. Ao ser informada que o desconforto residia na conversa que tiveram no dia anterior. “- Acho que fui intolerante contigo e pensei somente no meu bem-estar e do meu irmão. Por isso, estou ressabiada contigo e temendo que não sejamos amigas daqui para a frente”, relatou a secretária.

– Querida! Amigos não existem apenas para nos dizer aquilo que queremos. Para isso temos os espelhos, portanto, se dissestes o que falou ontem é porque o conteúdo ia em sua alma. Agora cabe a mim observar se tu tinhas ou não razão. Mas o que posso te dizer é que daqui para frente, tenho certeza de que nem eu e nem Marzinho estaremos no caminho da realização sentimental de seu irmão com Fernanda, entretanto, se ele não a fizer feliz, aí não tem como eu evitar a zanga do meu marido, que tem em sua futura cunhada, uma irmã e os três sempre se cuidaram e nós chegamos depois”, disse a arquiteta.

Antes mesmo que Débora falasse alguma coisa, Angélica completou o raciocínio: “-Levei tempo para perceber isso. Danisa notou a mais tempo do que nós, por conhece-los primeiro, mas não é Fernanda que ficará entre eu e o meu marido, mas sim a minha insegurança que creio seja a do seu irmão também. Quando Ricardo não der conta de segurar a onda, Fernanda ou estará com Roberto ou Márcio e isso nenhuma de nós poderá impedir. Eles se amam como amigos. Um amor que todos nós desconhecemos por estarmos afogados até o pescoço em nossos egoísmos. Então, fique serena, minha cara, nada mudou entre nós por conta da conversa de ontem”, disse Angélica, entrando em sua sala no exato momento em que seu telefone toca.

– Alô mãe?! Me ligando logo cedo! Aconteceu alguma coisa?

– Contei para o general que tu foi estuprada pelo seu pai durante a adolescência e que Amadeu ficou como um doidivanas por cinco anos por causa do racismo dele e as ameaças que fez e as ofensas dirigidas a Tarsila.

– Sei! E ele agora quer distância da senhora e de todos nós? É por isso que me ligou?

– Não filha! Me surpreendeu até, pois achei que me expulsaria da vida dele, contudo, disse que devemos conversar todos: eu, você, Márcio, seu irmão e Tarsila. Disse que vamos caminhar juntos nessa jornada. Mas te confesso que ainda estou temerária, pois acho que vocês não concordarão com isso.

– Mãe! Não posso falar pelo Marzinho, pelo meu irmão e nem por Tarsila, mas eu acho que tem que ficar tudo às claras. Alexandre precisa saber que, assim como todas as famílias, a nossa é problemática. Já temos que esconder muitas coisas da família do Márcio que, se souber de muitas coisas do nosso passado, tenho certeza de que criará uma série de problemas para nós dois.

“- Então posso marcar um jantar hoje à noite no apartamento dele”, inquiriu Eleanora.

– Pode sim! Tenho certeza de que eu e Márcio lá estaremos.

“- E você é ele como estão”, quis saber a mãe da empresária.

– Decidimos nos fechar entre nós. Conversamos muito ontem à tarde e noite e resolvemos não deixar mais ninguém se envolver em nosso relacionamento. Precisamos encarar nossos problemas juntos. Assim como ele não interfere nas minhas empresas e no meu escritório de arquitetura, também devo deixá-lo trabalhando tranquilamente em sua editora.

“- Isso é bom filha. Acho que tudo caminhará bem”, assentiu Eleanora.

– A Débora ontem me falou um monte de coisas, dizendo que Marzinho deixa o irmão intranquilo por conta da Fernanda. Fiquei pensando muito nisso e tenho certeza de que ela, Roberto e Márcio se amam como pessoas e nutrem uma afeição uns pelo outro que desconhecemos por estarmos fechados no nosso egoísmo. Então disse a Débora que Ricardo deve fazê-la feliz, do contrário, ela procurará os dois amigos e ninguém poderá impedir de se fecharem.

“- E o que ela lhe disse”, interpelou a presidente de honra das Organizações Oliveira.

– Mãe! Não é Fernanda ou outra mulher que ficará entre eu e meu marido, e sim o meu medo, minha insegurança. Márcio é um homem maravilhoso, ranheta, inseguro, mimado, mas é a pessoa que faz meu mundo ficar em ordem para que eu possa seguir em frente. Demorei a entender isso, mas agora que compreendi, quero ser e fazê-lo feliz todos os dias e sei que isso não é um conto de fadas, pois teremos que olhar em nossos espelhos individuais cotidianamente.

“- Que bom, filha! Fico feliz por ti. Agora deixe-me conversar com o teu irmão. O jantar será lá pelas oito horas. Não se atrasem, vocês conhecem o general”, disse a namorada do militar.

– Tudo bem mãe. Falarei com Marzinho agora. Sei que está todo atarantado com a inauguração da editora. Ele quer oficializar tudo na segunda-feira e eu desejo estar junto dele nessa empreitada. Depois vamos cuidar da finalização da fundação e colocá-la em funcionamento.

Assim que desligou o telefone, Angélica ficou pensando nas revelações que a mãe fez ao general e os motivos que a levaram a fazer isso. “Deve ser por conta do que está sentindo por ele e a receptividade junto do namorado”, pensou a arquiteta enquanto Débora batia na porta pedindo para entrar. Tendo a entrada franqueada, a secretária que também era sócia, ingressou no cômodo e conversaram por cerca de uma hora sobre os projetos que estavam em execução, inclusive o que previa a transformação da mansão de Eleanora em sede social da Fundação que ainda não tinha nome.

Débora aproveitou a ocasião para tocar novamente no assunto que a incomodava: o casamento de seu irmão com Fernanda. “- Débora, eu já lhe disse que não haverá nenhum empecilho de minha parte e também do meu marido. Agora, acho que seu irmão tem que estar à altura de Fernanda. Quero dizer, ter maturidade para segurar as pontas com ela. Fernanda tem um gênio do cão e não vai aceitar em hipótese alguma que seu irmão se sinta dono dela. Agora vamos mudar de assunto, pois não desejo trazer mais para o nosso trabalho questões de nossas vidas pessoais. Pode ser”, inquiriu a arquiteta no que foi seguida pela secretária que anuiu com a cabeça.

Deixando a sala, a futura arquiteta pensou em falar com o irmão para saber como estava sendo o primeiro dia de trabalho com Márcio. Todos aguardavam que o editor o convidasse para se fixar na editora, contudo, era melhor não forçar a situação. Na conversa que manteve com Angélica compreendeu bem que ela estava delimitando espaços. O processo seria feito de maneira educada, o que poderia dificultar um pedido de Fernanda junto ao amigo para que este efetivasse o noivo na Jardim da Leitura.

Sem pensar muito na conversa que manteve com a secretária, Angélica estava mais ocupada com as revelações que Eleanora fez ao militar, sem tê-la consultado antes, pois a situação era gravíssima e Márcio sempre optou pelo sigilo, pois sabia que é um problema de família e o militar era apenas o namorado de sua sogra. Ela ligou para o marido e ao ouvir a voz dele do outro lado da linha foi como se recebesse autorização para desabar e chorar copiosamente. “- Quer me dizer o que está acontecendo amor”, pediu o editor. “- Não diga nada a ninguém. Só venha me buscar”, pediu Angélica.

“- Estou indo, mas não deixe ninguém perceber o que está acontecendo contigo”, disse Márcio.

Em menos de meia-hora, ele entra no escritório, dizendo à secretária que precisava falar com a esposa e que não era para serem incomodados. “- Amor, me desculpe por ter te incomodado no trabalho, mas é que não sei lidar com essas coisas todas. Minha mãe contou ao general que eu fui abusada pelo meu pai durante a adolescência e agora o Alexandre quer que jantemos com ele hoje à noite. Eu sinceramente não sei o que fazer. Acho que Eleanora se precipitou e não devia ter dito nada, sem antes falar comigo e contigo”, desabafou Angélica.

– Acalme-se amor. Não sentenciamos nada, antes de conhecermos os fatos. Jantemos com eles a noite e a partir daí tomaremos as decisões juntos. Eu e ti, conforme combinamos ontem à noite. Não desejo ninguém mais interferindo em nossa vida.

“- E ainda por cima tem a Débora que fica me cobrando que o irmão não fica em paz com a Fernanda por conta de sua relação com ela. Eu não aguento mais tudo isso”, desabafou Angélica.

– Vamos por partes. Primeiro, resolveremos isso com a sua mãe e o Alexandre. Depois da inauguração da editora, tiraremos uma semana de férias. Não precisaremos deixar o Brasil, pois acho que tem umas cidades pequenas no interior de Minas Gerais que podem nos abrigar por uma semana. Quanto a Fernanda e o Ricardo, penso que não é problema meu ou seu e sim dos dois. Ele que trate de ser homem o suficiente para ela e me deixe de lado. Eu já encontrei a pessoa que desejei encontrar nas duas últimas décadas e ela está bem aqui na minha frente.

Sentaram-se no sofá que ficava entre a mesa de trabalho e a prancheta que a arquiteta usava na elaboração dos projetos e desenhos. “- Está vendo amor, porque tenho medo de te perder? Combinamos uma coisa ontem e hoje já estou aqui toda destemperada com medo da conversa que minha mãe teve com o namorado dela sobre eu ter sido violentada e meu irmão escorraçado de casa por conta do amor que sente pela Tarsila”, desabafou Angélica.

“- E com que mais você poderia contar nesse momento”, perguntou o editor abraçando a esposa a confortando, tentando evitar que algum gatilho fosse detonado e ela entrasse em crise. Márcio olhou no relógio e viu que os ponteiros se aproximavam do meio-dia, aproveitou para convidá-la para almoçarem e conversarem mais tranquilamente sobre tudo isso.

– Espere um pouco, amor. Preciso me recompor, retocar a maquiagem e aí sim sairemos.

Enquanto aguardava a arquiteta se preparar, o editor escutou barulho do chuveiro ligado, mas optou por ficar onde estava. Sabia que a esposa sempre deixava roupas no escritório e, às vezes, se banhava lá mesmo, entre uma reunião e outra. Ao sair do compartimento, a esposa afirmou que precisava daquele banho. “- Não queria voltar àquela mansão mesmo, onde tudo de ruim aconteceu comigo e com meu irmão”, explicou Angélica.

Márcio estranhou esse comentário, mas optou pelo silêncio, saindo da sala de mãos dadas com a esposa. A empresária, ao passar por Débora, apenas informou que estava indo almoçar com o marido e que passaria a parte da tarde nas empresas. “- Qualquer coisa me ligue”.

Dentro do carro, enquanto a esposa ligava o automóvel, o editor ligou para a psicóloga de Angélica querendo saber se podia atendê-la naquele momento. Diante da anuência, Márcio disse a esposa que antes de almoçarem, ela conversaria com a sua terapeuta. “- Pode ser amor”, perguntou o marido.

– Pode sim! Até porque não sei se conseguirei segurar a onda até a noite no horário de nosso jantar.

A atitude de Márcio foi acertada, pois compreendeu que Angélica poderia surtar a qualquer momento. Falar das coisas do passado sem uma conversa prévia, só complicaria as coisas e a ação de Eleanora demonstrou que ela ainda não sabia lidar com os problemas dos filhos, pensando somente nela. “Por que falar dessas coisas com o general, sem antes consultar Angélica e Amadeu”, se perguntava Márcio enquanto a motorista parava o carro defronte à clínica psicológica onde ela fazia acompanhamento.

Quando entraram, os dois se depararam com a funcionária que tiveram entrevero tempos atrás e a psicóloga apenas olhou, abrindo a porta para que a empresária entrasse. Enquanto Angélica se ajustava, ela pediu desculpas ao esposo por conta de tudo aquilo. “- Não se preocupe. Entendemos a situação e todos somos adultos e o mais importante é o seu trabalho junto à minha mulher”, explicou Márcio que se sentou em seguida, aguardando o desenrolar da consulta.

Enquanto Angélica dialogava com sua terapeuta, o marido, do lado de fora ficou pensando como agiria no jantar a noite. Não deixaria aquela história se alongar e nem permitiria que a sogra, ou quem quer que seja, tocasse no assunto ou buscasse recuperar aqueles momentos sórdidos em que a esposa era refém da insensatez, para não dizer, mente doentia, do todo poderoso Jô.

Se por um lado Márcio pensava numa forma de evitar expor a esposa a novas conversas sobre os abusos sofridos há mais de vinte anos, por outro lado, Amadeu, seu cunhado conversava com Tarsila sobre o jantar e ela, a exemplo do cunhado, ficou preocupada com a iniciativa, inclusive tentando, silenciosamente, entender quais foram os motivos que levaram a sogra a revelar um segredo desses sem antes consultar os envolvidos.

– Olha Amadeu! Não sei quanto ao Márcio, mas eu não quero ouvir nada dessa história e não desejaria estar na pele de sua irmã. Então, podemos até comparecer a esse jantar, mas só se você me garantir que não deixará Angélica falar nada sobre o passado, pois será como se ela estivesse vivendo aquelas violências novamente. Não é justo para com sua irmã e nem com o marido que está segurando um problemão daquele e sua mãe, ao invés de ajudá-lo, coloca mais lenha na fogueira.

– Você está certa amor! Falarei com o mosquito e desenvolveremos uma estratégia para evitar que minha irmã ou eu falemos alguma coisa sobre o passado. Afinal, Eleanora já disse, então ela que segure as perguntas do general e se ele não quiser entender, que volte para dentro da embolorada farda e fique com o cu na mão segurando aquelas estrelas de líder militar todo certinho.

Para mudar de assunto, por considerá-lo inoportuno para o momento em que viviam, Amadeu e Tarsila conversaram sobre a gravidez dela e o motivo por não quererem saber o sexo do bebê. “- Amor, se não se importar, não tenho nenhum interesse em saber se será homem, mulher, até mesmo porque a opção sexual será sempre dele”, disse a tradutora.

“- A única coisa que desejo é que chegue bem a esse mundo e seja portador de energias que nos transmitam paz, como seu coração tem me legado desde que te conheci aquela manhã no supermercado e toquei de leve esse lindo par de seios que tem”, disse Amadeu.

“- Você se recorda do dia em que nós nos conhecemos”, perguntou Tarsila.

– Sei exatamente a roupa que tu estavas usando. Foi o dia em que minha vida as tempestades cessaram. Naquela manhã se eu pudesse roubaria o sol para lhe dar. A partir dali se transformastes na senhora do baile de minha existência. Você, minha Tarsilinha, é o meu encanto, a razão de minha vida e agora nos presenteia com um filho.

“- Não se esqueça que ele é parte de nós dois. Tem um quantum meu, uma parte sua e a terceira unidade que o forma, é o nosso amor. Acho que isso é tudo de mais importante que tenho. Moraria contigo num palácio ou numa palafita, mas não suportaria ser uma bilionária sem tê-lo comigo”, confessou a tradutora.

Ao dizer isso, Tarsila se sentou no colo do esposo que tinha os olhos mais verdes que antes. E fitando-o bem no fundo do olho, perguntou a ele se gostaria de ver uma coisa, antes de voltarem para o trabalho. Amadeu, sabendo-se que a esposa mandava em seu coração, apenas anuiu com a cabeça. Diante da confirmação, a esposa foi até o quarto, demorando-se um pouco, retornou com uma caixa fechada e, entregando ao marido, pediu para ele abrir.

Quando desfez o pacote, o vice-presidente das Organizações Oliveira, não se conteve e começou a chorar. Era a roupa que Tarsila usava naquele dia que o vira pela primeira vez no supermercado quando o marido, tentando passar por desconhecido, trabalhava como repositor. “- Esses seus olhos esmeraldinos me encantaram desde o primeiro momento e eu decidi guardar essa roupa. Depois que fui obrigada ou, sei lá, acuada a me afastar, nunca mais usei essas peças e as guardei, pois elas significam o dia em que encontrei o ser que me levaria, mesmo que em pensamento, a passear pelas galáxias”.

Enxugando as lágrimas do rosto, Amadeu abraçou a esposa prometendo amor eterno. “- Não dá para usar agora por conta da gravidez meu amor, mas assim que for possível, a colocarei em homenagem ao nosso amor. Te amo muito, com paixão, com desejo, com louvor, com tudo o que tenho direito nessa vida, pois tu és a razão deu estar aqui respirando esse ar”, disse Tarsila, sem conseguir conter as lágrimas.

Amadeu guardou tudo novamente com o esmero cuidado, convidando a esposa para voltarem para o mundo dos homens que andava muito conturbado. “- Ainda bem que estamos juntos e nos protegendo da insensatez humana que só pensa em poder e desejo de comprar mais e mais pessoas. Ah! E não precisa me dizer nada, sobre o fato deu pensar assim porque tenho dinheiro, pois se fizer questão abro mão de tudo e viveremos apenas dos meus versos”, disse Amadeu rindo de um jeito todo especial.

“- Ter dinheiro não faz de você uma pessoa alienada. Muito pelo contrário: tens consciência da máquina empresarial que você e sua irmã dirigem e quantas pessoas dependem do trabalho que realizam lá. Também compreendo que quanto mais em silêncio todos nós ficarmos, melhor para cada um de nós”, disse Tarsila, puxando o marido pela mão para fazerem a higiene bucal.

Quando o casal estava chegando à sede das empresas, o vice-presidente desceu do automóvel para ir ter com Ricardo que se despedia de Fernanda. “- Olá! Tudo bem Ricardo”, perguntou Amadeu, emendando outra inquirição desta vez para saber se o noivo da gerente tinha entendido que Márcio e Fernanda eram apenas excelentes amigos e que todos deveriam aprender com eles.

“- Márcio é um grande homem. Muitas vezes parece ser um bunda mole, mas tem um caráter gigante e merece todo o nosso crédito. Ele, assim como todos nós desejamos que tu faças essa mulher feliz. Fernanda merece ter esses olhos brilhando com muita paz, como está agora, para todo o sempre. Então, moleque, só te peço: ame-a”, afirmou o vice-presidente das Organizações Oliveira.

Ao se afastar do carro de Ricardo, Amadeu chamou a gerente para o trabalho. “- Vamos moça! As Organizações Oliveira não podem parar e seu noivo tem muito trabalho até a inauguração da editora do meu amigo mosquito”, pediu Amadeu.

Fernanda se limitou a beijar o noivo lhe dizendo que conversariam a noite. “- Minha cama espera esse seu corpo belíssimo a noite toda me aquecendo”, disse a gerente, indicando que dificilmente Ricardo voltaria para a casa dos pais. Quando o tecnólogo ia dizer alguma coisa, a noiva colocou o dedo na boca dele: “- Não diga nada, apenas me ame. É o que preciso hoje: que sou coração não deixe o meu solitário durante a noite toda”.

Ao deixar Ricardo, Fernanda se dirigiu ao prédio onde trabalhava abraçado ao vice-presidente, enquanto Tarsila olhava para ele fazendo um gesto com a cabeça e todos seguiram para a editora. Chegando lá, Ricardo quis saber porque a sócia de Márcio não se alterou quando viu Amadeu abraçando Fernanda e entrando para dentro das empresas. “- Por uma razão muito simples, meu caro Ricardo: formamos uma família. O abraço que meu marido deu em sua noiva, foi para tranquilizá-la, indicando que estaremos todos juntos, independentemente da condição climática e quem ensinou isso a ele, foi o Marzinho. Então, sua única ocupação, além da editora, é fazê-la feliz. Lembre-se que Fernanda cresceu sozinha, sem ter ninguém e agora tem uma família que a ama do jeito que ela é”.

Ricardo, entre feliz e envergonhado, pois todos sabiam como se comportar entre todos, apenas ele que ainda ficava com aquela coisa de ciúmes de Fernanda, achando que poderia perdê-la. Desta vez, a pancada veio de alguém que não tinha falado nada a respeito das paranoias dele em relação a Márcio. Percebeu que Amadeu, por adorar o Márcio, abraçou de propósito a gerente, lhe indicando que entre os amigos e ele, caso não fizesse a noiva feliz, Fernanda estaria protegida por todos os amigos.

Uma hora depois dessa conversa, enquanto Tarsila lia um livro que acabara de chegar por e-mail, cuja autora usou um pseudônimo, pois pretendia esconder a verdadeira identidade muito comum no mundo das artes, Ricardo trabalhava no planejamento do banner em que constava os livros que a editora Jardim da Leitura lançaria na noite da próxima segunda-feira.

A tradutora parou de ler o texto para atender duas ligações. A primeira foi do marido que conversou rapidamente com ela e, ao ser inquirido sobre a opinião do sócio, ela ouviu apenas: “-Deixe o mosquito comigo. Pode confirmar isso com o rapaz aí. Está na hora de fecharmos o cerco em torno dele e ver qual é realmente as intenções dele com Fernanda. Te amo minha Tarsilinha”.

Como não costumava tomar decisão alguma sem falar com Márcio, Tarsila ligou para ele que estava na antessala do consultório da psicóloga que atendia Angélica. “- Está certo, Tarsila. Depois eu me entendo com seu marido. Agora estou aqui com a Angélica na terapeuta dela”.

– O Amadeu me falou. Que coisa de louco o que Eleanora fez sem consultar os filhos!

– Não entrarei no mérito, mas posso te afiançar que ela não dirá nenhuma palavra sobre isso. Encostarei o general na parede. Se ele quiser continuar com Eleanora que permaneça, mas não colocará a baioneta no pescoço de minha mulher e nem do meu cunhado. Eles já sofreram em demasia com as arbitrariedades de Jô e o silêncio cúmplice da mãe.

“- Concordo com você Márcio”, disse Tarsila.

Assim que desligou o telefone, Tarsila se dirigiu a Ricardo para informar-lhe que seria contratado em definitivo pela editora e que seus salários seriam, inicialmente, parelhos ao que recebia na outra empresa. Isso aconteceria durante o período de experiência e depois teria aumentos anuais de 20%, mais a participação nos lucros da editora.

Ricardo não sabia o que fazer, pois foi pego de surpresa, contudo, desejaria não voltar mais ao seu antigo posto na empresa de tecnologia, já que no dia anterior tinha se envolvido numa discussão que só não terminou em coisa pior porque o seu colega deixou o ambiente. “- Mas por enquanto, não faça nada. Não peça demissão do seu trabalho. Espere o Márcio voltar e aí tu conversa mais com ele. Só não sei se ele retorna hoje, mas amanhã tenho certeza que sim”, explicou a tradutora.

Como não podia falar com ninguém, já que o trabalho exigia concentração, Ricardo mandou mensagem para Fernanda contando a novidade, recebendo de volta um imenso coração e uma foto dela sorrindo e, em seguida, uma mensagem de voz dizendo que tinham muito o que comemorar a noite. O tecnólogo enviou outro texto para irmã que o felicitou. Débora pediu a ele que fosse falar com os pais, mas foi informado que Fernanda o queria lá a noite no apartamento dela.

– Está bem irmão. Mas como ficará lá? Não tem roupa nenhuma. Não vem me dizer que está usando as roupas do Márcio?

– Não! Esta que estou está no limite, então será que pode me trazer aqui até o final do dia, uma bolsa com algumas calças, camisas e cuecas”, perguntou Ricardo.

Débora sabia que isso aconteceria, pois tinha combinado com Fernanda e a mala estava pronta e Romualdo a levaria até a sede da editora. Só estava esperando um sinal verde dele. “- Obrigado, irmã. Diga à mãe que amanhã eu apareço por lá”.

“- E como está tudo com Fernanda”, inquiriu a irmã.

– Melhor impossível. O pessoal tem cuidado bem de nós. Eles ficam de longe, mas sei que se preocupam com ela. Tarsila acabou de me dizer que eles funcionam como uma família na qual todos cuidam de todos e estão fazendo isso com a Fê.

“- Então agora relaxe para viver o amor que você sempre sonhou. Pelo menos era o que me dizia”, afirmou Débora.

– Sim Deb. Daqui para frene a situação será outra. Finalmente encontrei a mulher que me deixará em paz e viver harmonicamente.

“- Entendeu pq o pessoal dela detesta aparecer e ficar contando vantagem”, perguntou a irmã, acrescentando que ninguém gosta de ficar dizendo que é isso e aquilo. “- Só pessoas dúbias e com medo de si mesmas é que se atentam a essas peculiaridades frívolas da vida”.

– Também entendi porque me querem aqui na editora. É como se fosse um certo controle. Querem todos por perto para que ninguém saia da linha e diga aquilo que não deve.

“- Não é nada disso seu imbecil. É para que tu compreendas o mundo em que Fernanda está e você possa crescer junto com a Jardim da Leitura. Sabes muito bem que por mais que tua noiva te ame, se pisar no tomate, ela ficará com os amigos e te mandará pastar. Vocês estão construindo uma belíssima casa; Marzinho deixou a amiga morar de graça no apartamento dele até que tudo seja concluído no imóvel em que vão morar. Então vê se não estraga tudo com sua infantilidade e machismo caquético. Agora preciso ir e fique tranquilo que até a noite receberás suas roupas”, finalizou Débora.

Uma hora depois que Ricardo falou com a irmã, recebeu uma chamada de Fernanda querendo saber como ele estava indo. “- Estou com saudades de ti, meu amor”, respondeu o noivo obtendo a mesma observação feita pela gerente das Organizações Oliveira.

Quando os ponteiros do relógio se aproximavam das cinco horas, Romualdo apareceu na editora com uma pequena bolsa a tiracolo. “- Pai! O que o senhor faz aqui”, perguntou Ricardo achando que tinha acontecido alguma coisa com Adélia.

– Aconteceu sim, seu filho desnaturado. Sua mãe está lá toda acabrunhada com o seu desaparecimento. Lembre-se: tu és apenas noivo e ainda não se casou com Fernanda. Então veja se não some.

Quando tentou responder alguma coisa, o pai abraçou o filho dizendo que estava muito feliz por ele e que tinha sido incumbido pela irmã e pela mãe para levar aquela pequena troucha de roupas e outros pertences dele. “- Tô de sacanagem contigo moleque. Como está indo com aquela sua noiva? Ela tem um gênio do cão e ainda se aliou a sua mãe e irmã. Estamos ferrados: agora são três contra nós dois. Então veja se fica amigo do Marzinho para equilibrarmos essa batalha”, disse Romualdo gargalhando.

– Pai, estou me sentindo no paraíso. Fernanda é um espetáculo de mulher e tem sangue quente. Então sei que estou pisando em brasa e ainda não é noite de São João. Fui convidado para trabalhar aqui na editora e o pessoal cobrirá o meu salário, equiparando inicialmente com o que eu recebo lá na empresa.

“- Então terá muito o que comemorar nos próximos dias e por favor, amanhã à noite apareça lá em casa com Fernanda, senão tua mãe vem te buscar aqui de chinelo e aí não quero estar na sua pele e nem na de sua noiva”, disse Romualdo, acrescentando que havia acabado de falar com o empreiteiro e a casa que o filho moraria com a nora deveria ficar pronto dentro de uns dois ou três meses.

Naquela mesma tarde, depois de não conseguir almoçar por conta das sessões emergenciais a que se submeteu a esposa, Márcio e Angélica voltaram ao apartamento. Ela havia perdido a fome e sabia que o encontro da noite não seria nada agradável, mas não queria impor uma recusa à mãe que estava toda feliz com o namorado e daí pode ter advindo a empolgação que motivou a revelação de informações que deveriam ficar fechada entre eles.

Já dentro do imóvel, Márcio estava sentando num dos sofás com ares de cansaço. “- Márcio, se não quiser continuar o caminho comigo, pode dizer. Eu entenderei. Eu te disse que a situação não seria de festas, sexos, sexualidades diárias, mas que eu poderia sair do eixo em qualquer momento. Então não se sinta obrigado em estar comigo o tempo todo”.

“- Por que está me dizendo isso Angélica”, perguntou o editor que deveria estar na sua empresa cuidando do lançamento que aconteceria na próxima semana. Mas como fazer isso, sabendo que a mulher estava prestes a se desestabilizar caso não estivesse ali com ela?

– Pelo seu rosto e a maneira como está sentado ai e não aqui do meu lado, além de não ter falado muita coisa durante o trajeto da clínica até aqui em casa e normalmente és mais conversador do que eu.

“- Não tem nada disso de te deixar agora ou em algum momento do futuro. Mas às vezes gosto de pensar, analisar tudo antes de dizer algo, até porque não quero que minha fala seja uma reação a tudo isso que está lhe acontecendo, pois sabemos quem são os culpados e ficar falando disso não vai te ajudar em nada”, explicou o marido a Angélica.

A empresária processou o que ouviu, deixando Márcio sozinho na sala. Era o melhor a fazer naquele momento. Nenhum dos dois tinha o que falar ao outro. A situação era complicada, pois a noite ainda tinha aquele jantar na casa do general que desejaria ouvir a história novamente e Angélica não estava nenhum pouco a fim de retomar tudo aquilo. Já tinha suportado demais aquela situação no passado e gostaria de se ver longe daquelas sevicias, mas parecia que quanto mais fugia, mais tinha que falar sobre aqueles atos abjetos praticados contra ela pelo próprio pai.

Ao entrar no quarto, Angélica se joga na cama e começa a chorar, pois em seu íntimo acreditava que Márcio, por mais que dizia que seguiria com ela, não conseguiria segurar a onda. “E se eu demorar para me livrar desses traumas? Será que ele me deixará sozinha”, se perguntava a empresária entre as lágrimas, choros e soluções. Os diálogos silenciosos eram intercalados com murros nos travesseiros e repetição de posturas corporais que ficava depois de ser violentada pelo pai.

A empresário ficou nessa situação por cerca de vinte minutos, dos quais a metade com a presença de Márcio que estava de pé, imóvel, só observando o sofrimento da esposa. Sentou-se ao lado da cama e começou a alisar os cabelos da esposa, dizendo baixinho para ela ouvir: “- Não vou a lugar nenhum sem o seu amor e se tu passares a vida toda com esses traumas, tenha certeza absoluta que estarei contigo, meu amor. O que sinto por ti abarca tudo isso e muito mais”, disse o editor, enquanto Angélica respondia dizendo não acreditar numa palavra do que ele dizia, tendo em vista a fisionomia dele momentos antes.

– Estou de fato cansado, mas não do amor que eu lhe tenho e nem de você. Mas das situações que, ao invés de nos proporcionar paz, serenidade, só aumenta o nível de aborrecimento e aí temos que trabalhar para fazer os devidos reparos de coisas que poderiam ser evitadas se tivéssemos o devido tato. Mas não adianta ficar falando isso agora.

A esposa se sentou ao lado do esposo para lhe sentir a alma a partir do que os olhos mostravam e observou uma tristeza da qual sabia que o amor que lhe tinha não seria suficiente para aplacar. “- Eu sei Marzinho que minha mãe extrapolou, mas não posso afastá-la de nós. Já fiz isso uma vez e posso te dizer que não quero tê-la longe, então, por favor, me ajude a perdoá-la. Afinal, por pior que seja uma mãe, não existe ex-mãe e nem ex-filho. Então dê-lhe um tempo. Iremos a esse jantar e daremos um jeito de não falarmos nisso. Pode ser”, perguntou a empresária ao marido.

– Tudo bem amor. Agora são quase quatro horas. Tomaremos um banho e dormiremos e despertaremos perto do horário de irmos para o apartamento do general e até chegarmos lá, penso um jeito de mudar o assunto.

Já de pé, Márcio deu a mão para a esposa indicando que deveriam tomar banhos juntos, mas ela se recusou, dizendo que precisava de um tempinho só para ela. “- Assim que eu terminar te chamo amor”, afirmou a esposa, contando com a anuência do marido que deixou o quarto indo se instalar no mesmo lugar do sofá como quem procura uma segurança. Antes de se acomodar, preparou um uísque e se deixou ficar ali pensando em tudo e ao mesmo tempo permitindo que o cérebro vagasse, encontrando a morada que melhor lhe aprouvesse.

No banheiro, por mais que tentasse se desvencilhar daquelas cenas horríveis que recheavam o seu passado, Angélica não conseguia. Seguia as recomendações da terapeuta para focar no presente, no marido e no amor que ambos tinham um pelo outro. Mas não dava e sem saber por qual motivo, deu um grito clamando pelo marido que se assustou, deixando cair o copo que espalhou cacos e liquido pelo chão da sala. Já dentro do banheiro, o editor abraçou a esposa lhe dizendo que estava ali e nada a machucaria. Em seguida, pegou Angélica no colo, a levando até a cama, enquanto ela sentia o mundo desabar dentro de sua cabeça e o coração aflito, respiração ofegante.

“- Amor! Você promete que não nunca me abandonará”, perguntou apreensiva Angélica.

Sem dizer nada, Márcio envolveu o corpo da esposa com o seu e beijou lhe ternamente os cabelos, lhe pedindo que se acalmasse. “- Estou aqui contigo agora e isso é o que mais importa. Relaxe”.

Sem dizer mais nada, Márcio se deixou ficar com a esposa, enquanto ela lentamente se acalmava, acabando por dormir em seus braços. Em seguida, com muito cuidado, o editor ajeitou o corpo da esposa na cama e foi tomar um banho. Retornou rapidinho, programou o relógio para despertá-los perto das seis e meia e também acabou caindo no sono que foi logo seguido por sonhos.

Enquanto o casal dormia na torre projetada por  Angélica, chamada de teia da rainha diaba pelo seu irmão, Eleanora estava apreensiva para o jantar na residência de Alexandre. Sem entender porque, sabia que havia se precipitado ao contar para o namorado que a filha, na adolescência, havia sido violentada pelo pai e trazia essas marcas até aquele momento, transformando a vida dela e o marido num verdadeiro inferno. “- Quer por favor se acalmar”, pediu o general à namorada, por compreender que havia passado dos limites quando a intimou chamar os filhos e os respectivos esposos para falar sobre as dores familiares.

– Como tu quer que eu me acalme, se fico sabendo que minha filha passou quase a tarde toda no terapeuta com o esposo por saber que te contei algo de muito íntimo dela que era guardado a sete chaves?

– Também tenho culpa nisso. Não deveria ter lhe pressionado a nada. Melhor era deixá-los à vontade para falar disso, mas essa minha mania de querer tudo em meu controle, começa a fazer estragos”, tentou ponderar Alexandre.

“- Agora não adianta falar mais nada”, berrou Eleanora para espanto de Alexandre que resolveu deixá-la sozinha na sala, entrando em seu quarto fechando a porta por dentro, fazendo com que a namorada compreendesse que, embora o militar estivesse chamando para si a culpa daquela situação toda, ela era a maior responsável, pois podia ter segurado a onda, mas novamente foi egoísta e só pensou no próprio prazer em estar com aquele homem singular e bem diferente do seu finado marido.

A namorada optou por não ir atrás dele, se deitando no sofá e chorando copiosamente como consequência do temor que lhe visitava só de pensar que poderia ficar distante da filha e do filho por conta de sua precipitação. Entre lágrimas e soluções acabou adormecendo, sendo despertada pelo namorado que alisava seus cabelos e, de forma silenciosa, pedia desculpas, prometendo a si mesmo dar um jeito na situação. “Assim que Márcio chegar, encontrarei uma forma de mudar o rumo da conversa. Falarei do livro e de nossa entrevista e tentarei definir o rumo de todas as nossas conversas”, pensou o general enquanto Eleanora se ajustava no colo dele buscando proteção.

No apartamento da empresária, foi ela quem despertou primeiro e sem fazer alarde que pudesse acordar o marido, se fechou no banheiro para conversar consigo mesmo, a exemplo do que fazia na adolescência, porém, desta vez foi para um diálogo com o seu eu que vivia descontrolado, desequilibrado levando tudo de roldão, não dando trégua para o esposo. “Desde que eu o conheci, transformei a vida dele num inferno só. Será que eu o amo mesmo ou é um mero capricho”, Angélica se perguntou mentalmente enquanto se olhava no espelho do banheiro.

Jogou água no rosto numa tentativa de tirar os últimos resquícios de sono do rosto, entretanto, o gesto foi mais no sentido de tentar afastar do seu íntimo aquela insegurança. Ao abrir a porta do banheiro se deparou com Márcio em pé como se fosse uma estátua. “- Por que trancou a porta do banheiro? Está acontecendo alguma coisa”, perguntou o esposo.

A esposa tentou desconversar, mas sabia que seria difícil esconder alguma coisa do editor, ainda mais depois daquela tarde com a psicóloga. “- Não é nada não meu amor”, tentou dissimular a empresária, mas o marido foi enfático: “-Se não há nada, então por que fechou o banheiro com a chave estando lá dentro”.

– Porra Márcio, já lhe disse que não é nada! Você um pé no saco, às vezes e parece sempre querer transformar tudo numa conferência filosófica. Estou farta dessa sua conversa!

“- Obrigado pela sinceridade. É bom saber que sou um tremendo pé no saco, mas até onde sei, antes você não pensava assim, mesmo sabendo que eu vestia camisas lavadas no vaso sanitário e calçava sapatos que pediam graxa”, afirmou Márcio.

– Vai começar com essa lengalenga novamente. Quer saber de uma coisa: pegue essa conversa mole toda e enfia no rabo. Estou farta de ti e de tudo isso, inclusive o que você representa: um homem presunçoso que acha que pode resolver os problemas de todo mundo. Sinceramente não quero alguém do meu lado apenas por piedade e eu sei que tu fazes isso o tempo todo.

Márcio apenas olhou a esposa e em silêncio deixou o quarto. Melhor seria ir para outro lugar, pois sabia que a coisa se complicaria. Deixou-se ficar na sala achando que tudo passaria e logo ambos se preparariam para o jantar na casa de Alexandre e toda aquela conversa sem pé nem cabeça provocada por uma revelação egoísta de Eleanora que, ao dizê-la ao general, só estava pensando em si mesma.

O editor segurava um copo de uísque quando observou que Angélica chegou na sala e foi logo perguntando o que ele fazia ali ainda. “- Estou te esperando para termos uma conversa. Não gostei do tom e da forma como conversou comigo. Acho que se não me quer mais do seu lado, podemos chegar a um denominador comum, sem precisar de grandes desavenças”.

– Acho que você não entendeu meu caro! Não quero mais estar contigo, quando sei que faz isso por piedade, dó de minha pessoa por conta de tudo o que passei. Não vou àquele jantar e também não quero mais ficar casada contigo. Preciso de um amigo, não de um filósofo que vive falando como se estivesse dentro duma sala cheia de alunos e se sentindo o dono da verdade. Também se desejasse comiseração, teria procurado um padre, pastor ou líder espiritual e não um marido que fosse amigo.

“- Tudo bem! Não conversemos mais e esquece o jantar”, disse Márcio estranhando completamente o comportamento da esposa que parecia estar falando de maneira normal. Deixou-a sozinha na sala, indo ao quarto, pegou uma pequena mala, colocou parte dos seus pertences e antes de entrar no elevador disse à esposa que depois daria um jeito de pegar o restante de seus pertences.

Já fora do edifício, Márcio pediu um transporte e procurou um hotel nas imediações da sede da Jardim da Leitura. Se hospedou sem a menor preocupação em dar outro nome. Se ocupou apenas em dizer ao atendente que não gostaria de ser incomodado por ninguém até o dia seguinte. Em seguida se dirigiu ao seu quarto, trancando a porta por dentro, desligou o celular e se jogou na cama, tentando segurar as lágrimas e se perguntando o que havia feito de tão errado que levou um pontapé na bunda da mulher que havia transformado a sua vida numa completa bagunça nos últimos meses.

Entendo que sua vida havia chegado num ponto do qual não podia mais retroceder e por conta do amor que sentia por aquela mulher completamente destrambelhada, sabia que não havia retorno mais à normalidade, pelo menos aquela que existia antes de tê-la conhecida. Tomou banho, saiu do hotel, indo a um supermercado que havia ali perto e comprou três garrafas de uísque e, numa farmácia, adquiriu medicamentos para dormir. “Se fosse colocar fim à sua existência, que fosse em silêncio, sem escândalo e que o pessoal descobrisse apenas pelo cheiro de seu cadáver putrefato no quarto do hotel”, pensou o editor.

Enquanto Márcio, dose após dose de uísque tentava criar coragem para colocar fim a sua vida que tinha tudo para ser um sucesso, todavia, havia sido até ali uma sucessão de tragédias, no apartamento de sua esposa, Eleanora estava completamente irritada com a filha ao saber que ela tinha mandado o editor embora por acreditar que o marido estava com ela por compaixão. “- Realmente as sevicias que seu pai praticou contra ti, te deixaram sem norte algum, minha filha e eu sei que a culpa é toda minha. Fui egoísta ao extremo, temendo pela minha segurança, mas duma coisa tenho certeza, Angélica: Márcio não estava contigo por dó, compaixão ou coisa parecida, mas tão somente por amor”.

– O que eu faço mãe? Ele saiu daqui como um cão enxotado e eu nem dei chance a ele de se explicar. Fui logo insultando-o, criticando esse jeito dele ser como pessoa e homem. Meus deu do céu, como pude fazer isso. A senhora me ajuda a achá-lo?

– Não! Não moverei uma palha para que isso aconteça. Sei dos meus erros e que os mesmos são enormes, mas fiz de tudo para que vocês descem certo, mas tu se recusas a crescer e continuar com o homem que largou tudo para te acompanhar nessa jornada que tem sido uma tragédia atrás da outra. Acho que ele cansou de ti.

Alexandre, que estava com a namorada, ficou em silêncio, mas ligou para o número de Márcio, mas só dava caixa-postal. Angélica percebendo o movimento do militar, se adiantou dizendo que não adiantava, pois ela tinha tentado umas mil vezes e não conseguia falar com ele. “- Achei que minha mãe pudesse me ajudar a encontrá-lo, mas entendo a recusa dela. Portanto, se não se importarem gostaria de ficar sozinha e quem sabe o meu marido entre por aquela porta”.

– Acho muito difícil filha! Ele deletou todo o acesso dele ao seu apartamento, indicando que não voltará. Eu sinto muito, mas espere até amanhã e o procure na editora. Tentei falar com Tarsila e ela está irritadíssima com tudo isso, portanto, nem quis procurar o Roberto e nem Fernanda e, tenho certeza de que se Marzinho estivesse com um deles, teria entrado em contato contigo.

“- O que eu faço agora”, perguntou Angélica tentando segurar o desespero.

– Espere que ele retorne ou te esqueça para sempre.

No quarto de hotel, Márcio não teve tempo de concluir seu objetivo que era o de colocar fim à sua vida. Bebeu tanto uísque que acabou apagando antes de ingerir os remédios. Despertou no dia seguinte com uma tremenda dor de cabeça e uma ressaca semelhante àquelas que tinha nos tempos de redação. Foi ao banheiro, se higienizou e ao tentar sair, sentiu que iria vomitar novamente e correu até o vaso sanitário, o enchendo com uma possante gosma meio amarelada, voltando para a cama em seguida. O relógio marcava quase meio-dia e meia.

Acordou duas horas depois e desta vez já se sentindo melhor, tomou outro banho e foi para a editora. Quando chegou lá, foi recebido por Tarsila que percebendo o seu estado o mandou de volta para casa. “- Me diga uma coisa, meu amigo. Onde você está ficando? Angélica já veio aqui pela manhã, me encheu o saco e eu a mandei tomar no cu. Roberto e Fernanda não querem falar com ela”.

– Estou ficando num hotel, mas não vou te dizer qual. Se ela voltar a te procurar querendo saber notícias minhas, mande-a me procurar nas páginas amarelas. Toque a editora do jeito que combinamos.

Ao dizer isso, Márcio deixou o prédio, voltando ao hotel. Assim que virou a esquina próxima à sua editora, Angélica apareceu do outro lado, entrando na sede da Jardim da Leitura. Desta vez estava mais calma, porém, queria notícias do marido. “- Ninguém quer me ajudar a achar o Márcio”, desabafou a empresária.

– E acho que todos estão certos. Você abusou da paciência dele. Seu marido era-lhe todo devoto, estava sempre contigo e aí tu o expulsa de sua casa, e manda ele te esquecer só porque tu achavas que ele estava contigo por compaixão.

“- Me diga uma coisa: ele apareceu por aqui e tu está me escondendo essa informação”, disse a empresária.

– Ele acabou de sair daqui. Mandei-o de volta. Estava fedendo a bebida alcóolica e com a cara toda amassada. Parece que bebeu a noite toda. E nem adianta me perguntar onde ele está porque eu não sei e, se soubesse, não diria.

“- Porra Tarsila, achei que erámos amigas”, disse Angélica em tom desabafo e desapontamento com a cunhada.

– E somos! Mas isso não significa que tenho que concordar com tudo o que faz, principalmente em relação ao Márcio que te ama incondicionalmente. Agora vá para casa e o deixe em paz. Acho que ele está precisando um pouco de sossego e faça o mesmo: reflita sobre a sua vida.

Enquanto Angélica deixava a sede da editora, Márcio entrava no hotel e, ao chegar em seu quarto, desabou na cama, pois ainda não tinha se livrado totalmente da ressaca. A noite pretendia terminar a bebida e concluir o seu projeto de suicídio. Depois de dormir o resto da tarde, o editor despertou por volta das dez da noite com muita fome.

A esposa por sua vez rodava a cidade tentando achá-lo. Já havia consumido um tanque de combustível e estava enchendo-o novamente num posto ficou pensando sobre a via-sacra pela cidade que recebia uma carga enorme de chuva. Naquele momento sua mente foi invadida por uma enxurrada de imagens começando pelo aparecimento de Márcio em sua vida. No final daquela tarde tentou ligar para o celular dele, mas só dava caixa-postal. Ao buscar o serviço de segurança da família, foi informada que Eleanora havia proibido todos de tentar ajudá-la. Percebeu então que teria que sair dessa sozinha, já que tinha cavado o o buraco emocional em que tinha se metido.

Ali no posto de combustível, quando abriu a bolsa para pegar o cartão e passar ao frentista, Angélica viu um homem entrando na loja de conveniência do estabelecimento. Parecia ser Márcio, mas ele se encontrava distante e o sujeito estava com as roupas molhadas. Resolveu segui-lo silenciosamente e depois de dois quarteirões teve certeza de que era o marido. Pensou em interceptá-lo, mas achou melhor não. Queria saber onde ele estava morando.

Observou quando o homem entrou no hotel carregando uma mochila na qual continha umas quatro garrafas de uísque. Estava resolvido a colocar fim a sua vida naquela noite e essa hipótese nem passava pela cabeça de Angélica e de quem quer que seja. A empresária não podia contar com a ajuda de ninguém. Tinha abusado do direito de fazer e dizer merdas para o marido.

Enquanto o seguia a distância, o vendo caminhar debaixo de chuva, como se ela não tivesse a menor importância, Angélica entendeu que se fosse procura-lo, poderia ser rechaçada ou não, mas teria que estar completamente diferente consigo mesma e com todos, pois se Márcio se recusasse a voltar com ela, teria que aceitar, seguindo em frente. “Será que consigo”, perguntou-se a si mesma, ligando o carro e se dirigindo à sua torre. Lá chegando encontrou a mãe que, dentro do apartamento, a esperava no afã de vê-la com o esposo.

“- Achou o Márcio, filha”, perguntou Eleanora.

– Achei sim mãe. Ele está hospedado num hotel e eu o segui agora a noite. Encontrei-o por acaso, quando comprava bebida no posto de combustível. A tarde Tarsila me falou que ele apareceu lá e estava todo ferrado, com cara de quem tinha bebido a noite toda, cheirando a uísque. Agora a noite eu o segui e ele andava de baixo da chuva como se isso fosse nada.

“- E não foi falar com ele”, interpelou a mãe da empresária.

– Não! Preciso me resolver. Se eu o procurar, tenho que estar preparada para tudo, inclusive para ele não me querer mais em sua vida, mesmo o amando muito.

“- Por que disse tudo aquilo a ele, filha”, questionou Eleanora.

– Sei lá mãe. Medo, insegurança. Achei que imploraria para ficar, se declarar, falar, mas ficou em silêncio, fazendo as malas e indo embora e também desligou o celular.

“- E o que pretende fazer então filha”, quis saber a presidente de honra das Organizações Oliveira.

– Resolver tudo amanhã cedo. Mas primeiro tenho que ter certeza do que farei. Depois o procurarei no hotel. Vou esperá-lo no saguão.

“- Está bem filha. Vou deixá-la sozinha para se resolver e dar um rumo em sua vida. Que seja com Márcio ou sem ele, mas tenha a certeza de que tudo precisará ser diferente em sua existência e ter maturidade para encarar tudo isso”, falou Eleanora.

– A senhora sabe a quantidade de culpa que tem por eu sofrer deste jeito.

“- Eu sei sim filha e sei mais ainda porque não deveria ter conversado nada a esse respeito com Alexandre sem que você e seu irmão estivessem juntos comigo. Também entendo que a minha relação com o general está abalada por conta disso, mas enquanto tu não se resolver com o seu marido, preferi dar um tempo em tudo o que estou vivendo com ele”, informou a mãe de Angélica.

No quarto de hotel, Márcio voltou ao repertório da noite anterior, mas desta vez havia algo que mexia com a sua cabeça. Durante o trajeto entre o posto de combustível e o hotel, teve a sensação de estar sendo seguido por alguém. Por um instante pensou ser Angélica, contudo, não houve aproximação e ele achou que deveria ser alucinação ou saudades da esposa que amava com uma certa devoção.

Entre um gole e outro pegou o telefone e fez uma ligação para a empresária, mas quando esta atendeu, Márcio desligou, inclusive tirando a bateria do seu aparelho. Embora a ação tenha sido muito rápida foi a senha que Angélica precisava para procurá-lo no dia seguinte. Sabia que o marido a amava mesmo e tudo tinha sido criação de sua imaginação, fruto das assombrações que a perseguiam desde a adolescência. Adormeceu com o celular do lado, pois tinha esperança que o editor voltasse a lhe ligar. Mas a noite findou e um novo dia raiou e nada de Márcio entrar em contato.

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