Pobrezas humanas e suas misérias

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Pobreza, iniquidade, desigualdade social, miséria, fome, enfim, uma série de adjetivações e substantivações que podem servir para definir o momento pelo qual a humanidade passa. Mas me parece que tudo isso já foi constatado e catalogado, bem como suas pretensas causas, entretanto, as saídas é que tendem a ser inalcançáveis e por diversos fatores. Assim como elenquei algumas situações acima, sem, no entanto, as esmiuçarem por crer que o meu leitor semanal as conhece de fio a pavio, como se diz no jargão popular. Sendo assim, acredito haver aí um paradoxo, já que muitos sabem a fonte das miserabilidades humanas do presente como consequência de um pretérito que pode ser distante, dependendo do olhar do observador desejoso em ir além do ponto de fuga – aquela linha que se coloca no horizonte, por exemplo, quando o indivíduo fica encantado com as águas do mar, principalmente no momento em que elas estão calmas e sem as ressacas provocadas pelas fases da lua.

Deixando as poéticas oceânicas para um momento mais alvissareiro, por exemplo, assim que a pandemia, que varre a humanidade no aqui e agora, for apenas uma memória e registros históricos, como o é a gripe espanhola (1918-1920), a Peste Negra – sempre lembrada por diversas situações e enunciações, como os versos que compõem a narrativa “para quem os sinos dobram”. Posto isto, aproveito o ensejo para vos perguntar, meus caros leitores, quais são os estômagos que roncam em virtude do seu vazio existencial e por falta de alimentos e nutrientes? Para tentar enveredar pelos caminhos que possam me levar a uma resposta satisfatória, recorro, mesmo que laconicamente, à definição de alma dada pelo pensador grego Platão. Segundo ele, a alma é o ser incorpóreo que anima a matéria a partir de uma lógica fundada no olhar, segundo o qual, a perfeição somente existira no plano das ideias. Sendo assim, apenas lá e somente nesse ambiente haveria afetividade suficiente para que ninguém passasse por severas privações alimentícias e vitamínicas. Se isso for correto, então, não há saída para as mazelas sociais que corroem as relações humanos, dificultando a prática solidária e igualitária que norteia o universo de uma religiosidade sem pátria, nem patrão e propaladora, principalmente se este for humano e dominado pela presunção e a vaidade que as adjetivações são as concessoras, daí Sócrates, o pai da metafísica que, por intermédio da maiêutica, tentava levar a juventude ateniense à reflexão. Pagou um preço altíssimo. Condenado a ingerir a própria morte por intermédio de um veneno, deixou a vida, contudo, um caminho a ser percorrido por aqueles que realmente se incomodam com a fome alheia.

Neste ponto desta narrativa, fico sempre com aquela questão em que as pessoas tem curiosidade, como uma necessidade predicativa, de definir o espectro em que se localiza o seu interlocutor. Tal desejo se escuda na ideia de que lado da peleja se está, ou seja, na esquerda, na direita, no centro ou melhor em cima do muro. Creio que seja interessante tentar responder tal interpelação a partir do seguinte olhar: de que lado pode estar um indivíduo que, tem como utopia, uma sociedade justa e não totalitária? Parece-me que os totalitarismos estão de todos os lados da peleja ideologizante e politiqueira. É como se todos os homens devessem ser como a personagem do desenho animado Leão da Montanha que usava sempre o bordão: “saída pela …”. Eu do meu lado, entendo que seja complexo definir o sujeito que, a exemplo do pensador alemão Immanuel Kant (1724-1804), dizia, a partir dos seus imperativos, que cada pessoa deveria agir, levando em conta que sua postura, posicionamento e ação social visando um fim, fossem universalizadas. Não é tão difícil, a partir das teses defendidas pelo economista alemão Max Weber (1864-1920) – os seres humanos teriam condutas racionais pensando em alcançar um objetivo – chegar-se a um ponto em que o rechaço da pobreza, da miséria, do vácuo estomacal e do aviltamento definissem o nível das congregações sociais, evitando aquilo que o escritor francês Victor-Marie Hugo (1802-1885) evidencia no prefácio em de seu romance Os miseráveis (São Paulo: Martin Claret, 2014).

Para que o meu leitor tenha uma ideia sobre o que essa minha enunciação objetiva, me parece salutar reproduzir aqui o texto do autor francês, cujos enredos tanto encanto me proporcionam. “Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século [XIX] – a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem revolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este [Os miseráveis] não serão inúteis” [VICTOR HUGO, 2014, p. 37]. Esse preâmbulo romanesco é datado de 1862, portanto, meus caros leitores, dos tempos Oitocentistas e, passados mais de cem anos, continua atualíssimo. Por que será? A pergunta se torna assaz interessante, principalmente porque no presente existem uma miríade de designações religiosas, crenças disso e daquilo e, no entanto, ainda não se chegou a um denominador comum no que diz respeito a minimizar as desgraças sociais daqueles que passam fome, o que me faz formular uma nova interpelação: será que a miséria humana é ainda maior do que o vácuo estomacal daqueles que sentem seus estômagos vazios a cada dia que passa?

“Pensar sobre o futuro não tem nada de fácil. Especialmente em um sistema que se expande e se torna mais complexo a cada fase. É parecido com os jogos de estratégia e RPG nos quais se avança por um labirinto de obstáculos, enigmas e ciladas, para estágios sucessivos, até alcançar o objetivo final. O desafio é imaginar futuros alternativos plausíveis e diferentes superando os obstáculos, decifrando os enigmas e evitando as ciladas. Mais difícil ainda quando o presente é cambiante e vai se configurando uma ampla ruptura com o passado. O enredo muda o tempo todo. Se o futuro não se parecerá nem com o passado nem com o presente, como imaginá-lo?” [Sérgio Abranches. A era do imprevisto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 34]. Como meus leitores podem analisar a partir dessas colocações interpelativas do cientista social e autor da obra em tela, pensar o passado a partir dos escombros do passado não é tarefa fácil, ainda mais quando se sabe que o presente no amanhã será esse ontem complexo que deverá respaldar as abordagens sobre um devir social sem que os homens sejam assombrados pela fome, como almejava o escritor francês. Parece-me que construir uma sociedade mais igualitária e justa não é só desafio das autoridades constituídas eleitoralmente, mas sim e sobretudo do eleitorado. Este sim, precisa deixar de pensar em si apenas de forma ressentida, entendendo que enquanto houver um semelhante esmolando em sua porta, o seu lauto jantar será recheado e marcado pelas misérias humanas. Agora se a desgraça alheia não lhe afeta em nada, então o problema não é social e sim de âmbito moral e aí como dizia meu professor de Ética e Política nos tempos de Unicamp, é preciso uma visita urgente à doutora consciência e não aos templos.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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