Sobras de um amor … parte III

27.

 

A segunda-feira amanheceu sem chuva, mas o céu permanecia nublado. Débora foi a primeira a chegar no escritório. Praticamente não dormiu nada a noite toda. Quando o sono chegava, cochilava voltando à vida de sobressalto e recorria ao notebook e digitava tudo o que lhe vinha à mente até o sono voltar a lhe visitar. O processo se repetiu umas cinco vezes até que dormiu por cerca de duas horas, despertando em torno das seis horas.

Não quis acordar a casa, que se resumia nos pais, deixando apenas um bilhete informando que se alimentaria numa cafeteria perto do escritório ou solicitaria uma refeição na confeitaria pertencente à família da patroa e também sócia. Abriu a porta, ajustou tudo para aquele dia, revisou alguns trabalhos seguindo em frente. Mandou uma mensagem para Esdras dizendo que queria almoçar em sua companhia, portanto, o aguardava perto do meio-dia, mas caso não pudesse, lhe avisasse que iria até ele.

Enquanto se concentrava na execução de um projeto que estava em sua fase final e deveria ser concluído por Angélica, mas a sócia-patroa tinha a cabeça voltada para o casamento e suas ondas cerebrais se ocupavam sempre do amor que tinha pelo marido. Débora se dividia em outras três pessoas: uma se concentrava no namoro com o irmão de Márcio que estava cada vez mais apaixonado por ela; a segunda mulher viajava no curso de arquitetura que prometia, em seu final, um percentual maior no escritório em que ingressou como secretária júnior e acabou alçada ao atual posto por manter-se fiel à empresária. A terceira pessoa era a filha que sonhava em dar um presente aos pais, por exemplo, um neto. Mas isso demoraria mais um pouco, pois dependia das outras duas pessoas que criaram uma outra que se escondia de tudo e de todos.

Era nessa pessoa que nunca aparecia, exceto em momentos singulares, que a futura cunhada do editor se concentrava naquele momento, quando a porta do escritório foi aberta, dando passagem a esposa de Marzinho que parecia estar radiante, mais do que os outros dias. “- Bom dia minha princesa”, disse Angélica para espanto de Débora que guardou para si aquela surpresa. “- O que temos para hoje minha cara”, perguntou a empresária.

– Estou concluindo algumas coisas que ficaram da sexta-feira e depois almoçarei com Esdras. Quero saber como andam as coisas no supermercado e apresentar algumas ideias que tive para a nova loja. E como você está aqui, podemos até falar sobre isso. O que acha Angélica”, perguntou a futura cunhada.

– Está certo. Pode me mostrar agora. Quero dar uma passada nas empresas agora pela manhã e depois podemos tomar um chá da tarde. Desejo começar o projeto de reforma da mansão para ela se tornar a sede da fundação. Tem algumas coisas que quero realizar lá. Uns programas sociais, inclusive em parceria com a editora do Márcio.

Sem demoras, Débora abriu o arquivo e foi falando tudo sobre o que pensava para a nova loja do supermercado. Pensou num prédio funcional com alguns caixas de autoatendimento. Os clientes que fossem comprar poucos produtos e tivessem cartões de fidelidade, pegavam as mercadorias e na própria gondola haveria pequenas máquinas com infravermelho que desbloqueavam as mercadorias e poderiam sair sem precisar passar pelos caixas.

Angélica gostou da iniciativa dela, contudo, disse que seria interessante discutir com todos, inclusive Márcio que, mesmo sem aceitar, era sócio na empreitada. “- Mas tudo tem que contar com a anuência dele? Afinal, ele não está nem aí para o supermercado. É um egoísta que só pensa em si e acha que o mundo tem que girar em torno do umbigo dele”, desabafou Débora.

“- De onde saiu essa Débora, minha cara”, perguntou Angélica. “- Não conhecia essa pessoa rancorosa. O que tens contra o meu marido e é claro, seu futuro cunhado”, inquiriu a arquiteta sem disfarçar o espanto.

– Desculpe-me Angélica, mas não aguento mais essa babação, esse rapapé todo com o seu marido. Ele nunca se importou com os lances e o trabalho da família no supermercado. Portanto, não vejo motivo algum para contar ou não com a anuência dele.

“- Tudo bem. Talvez tu tenhas razão. Eu converso com ele e se meu marido desejar conhecer o projeto, peço para entrar em contato com vocês. Eu realmente não sei porque arrastei o Márcio para essa loucura. Afinal, ele nunca quis ficar em evidência de nada. Só desejava ficar com o universo livresco dele. Acho que essas palavras ferinas deveriam ser direcionadas à minha pessoa. Não acha Débora”, questionou a empresária

Tentando evitar que a situação acabasse caindo em descontrole e animosidade entre as duas, Débora levantou, deixando a sala se dirigindo à cozinha do escritório e preparou um café. Depois do que tinha dito, percebeu que poderia ter ficado em silêncio. Angélica percebendo que a secretária demorava para voltar foi em seu encalço, a encontrando encostada na pia com a xícara na mão.

– Débora. Não precisa ficar desse jeito. Eu sei que minha relação com Márcio afetou todos vocês e por culpa exclusivamente minha. Por ter sido imatura, infantil, achando que todos tinham que compartilhar das minhas vivências, inclusive do amor que eu tenho por aquele homem. Preciso aprender a separar as coisas. Não posso trazer a minha vida pessoal para o mundo do meu trabalho. Todos vocês vivem dizem isso, portanto, a tua fala não afeta em nada nossas relações profissionais.

– Não queria ter dito aquilo.

– Mas sempre dizemos aquilo de que a alma está cheia. Márcio vive me falando isso. Pede sempre para eu estar aqui e ser a arquiteta. Nas empresas, que eu seja a presidente e quando estiver com ele que seja a esposa, companheira de jornada que deseja ter do lado.

– Exato Angélica! É que todos nós achamos. Ninguém quer dizer, mas é preciso que nos deixe um pouco seguir as nossas vidas. Continuarei trabalhando aqui contigo, sendo sua sócia, secretária e também futuramente sua cunhada, pois amo Esdras e sei que ele tem desavenças com Márcio e seu marido também sabe e provavelmente por isso que não queira se envolver nos negócios do supermercado.

“- Você me dizendo isso, começo a entender a cabeça do Márcio em nunca querer misturar as estações”, desabafou a arquiteta.

– O Márcio é uma ótima pessoa, mas não quero ficar muito próximo dele. Parece querer padronizar todo mundo a partir da leitura que faz do mundo. Observe que Esdras não visitou vocês e procura sempre se afastar. Meu irmão está com Fernanda porque a ama, mas fica inseguro, pois acha que tem que ser igualzinho ao seu marido para agradar a noiva. Por mais que a gente fale, a psicóloga diga, Rick sempre acha que a Fê vai deixá-lo para se atirar nos braços de Márcio a qualquer momento.

– Eu te compreendo. Tenho um irmão e sei que se ele ficasse inseguro por conta da relação com Tarsila, talvez eu agisse como tu. E é claro que só pude ter encontrado o meu marido por conta desse amor que tenho por Amadeu. Aliás foi tentando protegê-lo de algo que eu nem sabia direito o que era, que encontrei com o homem da minha vida. Por isso, Débora, como te prometi sociedade depois que se formar, também o faço agora no que diz respeito à minha vida com Márcio interferir na existência de qualquer um de vocês.

Depois de dizer isso, a empresária deixou o escritório em direção à sede de suas empresas. Todos que trabalhavam com ela, notaram uma grande diferença em sua postura. Nada de brilho ou escuridão, apenas o profissionalismo de sempre. Discretamente manteve Fernanda e Roberto distantes, procurando os dois quando o assunto era o trabalho. Quis saber do diretor de comunicação como andavam as questões envolvendo a criação da fundação e se tudo estava certo em relação à editora.

A reunião com Roberto durou mais ou menos uma hora e nada de abordar a vida pessoal dela com Márcio. Em seguida, pediu um encontro com a gerente de finanças para saber como estava a implantação do projeto créditos para os funcionários do grupo. Roberto foi chamado novamente para explicar como pretendia comunicar o programa aos colaboradores.

Ao término do encontro, Angélica desejou conversar com o irmão. Assim que Amadeu entrou na sala, as câmeras do compartimento foram desligadas, pois a presidente não queria nenhum registro do diálogo que teria com o vice-presidente. Ela contou tudo o que ouviu de Débora pela manhã e quis saber do irmão qual seria o posicionamento dela.

– Keka! Todos estão cansados e ninguém mais quer se envolver no seu mundo com o mosquito. Adoro você e seu marido e pelas razões que os dois já sabem, mas acho importante que tu e ele se fechem. Não deixe ninguém entrar na vida e no amor que nutrem um pelo outro. Márcio não irá a lugar nenhum sem ti e vice-versa. E o resto é conversa e insegurança sua e dele.

“- Obrigado querido”, agradeceu Angélica, se sentindo mais aliviada.

– Não construa inimizade com Débora ou com quem quer que seja, mas se afaste de todos. Se tens terapia hoje, não falte. É um momento importante para ti e observe que Márcio não contou para ninguém os estupros que você sofreu do Jô e tenho certeza de que não falará. Eu, e Eleanora estamos contigo e com ele e isso é o mais importante.

– Você tem razão, irmão. Acho que deixei que todo mundo invadisse minha vida com ele. Márcio sempre quis discrição e nada disso conseguiu desde que eu apareci na vida dele. Ontem à noite a esposa de Pedro me falou tantas coisas, Eleanora também, e eu sei que todos têm razão, bem como o que a Débora me disse hoje. Ela me segredou que o irmão está inseguro em relação à Fernanda e fiquei pensando como seria contigo. Então decidi não falar mais sobre a minha vida com Marzinho, exceto com Eleanora e contigo e sei que se Márcio quiser me deixar, terei que ser forte.

“- E quem te disse que seu marido quer lhe deixar”, inquiriu Amadeu.

“- Coisas que tenho aqui dentro e motivado por tudo o que você e o mundo já sabem”, respondeu Angélica.

– Keka! Eu falei para o Márcio que você está sendo feliz pela primeira vez na sua vida. Inventei todo aquele drama para ele entender o quanto te ama e deve lutar para esse amor dar certo. Então faças tu também o esforço necessário para que dê certo.

Assim que Amadeu terminou de falar, o telefone de Angélica tocou e quando ela atendeu foi informada que estava havendo uma confusão na entrada do prédio. Tinha alguém tentando entrar no imóvel com uma conversa estranha. “- É um negão que disse que queria falar com a senhora. Eu achei estranho, mas ele disse que se chama Márcio e era seu esposo. Na dúvida eu chamei a polícia e ela acaba de chegar para levar o meliante”.

– Mande-me uma foto dele e diga para polícia não fazer nada e o senhor torça para que este homem não seja o meu marido, porque se for, pode procurar outro emprego.

Enquanto Angélica falava com o chefe de segurança, Amadeu já tinha saído da sala e entrado no elevador privativo. Nesse interim, a imagem chegou para a presidente que informou que o segurança estava em maus lençóis.

Já no térreo, Amadeu viu os policiais tentando algemar Márcio. “- O que os senhores estão fazendo com meu cunhado”, perguntou o vice-presidente falando entre os dentes.

Ao ouvir o que Amadeu disse, o segurança percebeu que tinha cometido um tremendo equívoco na sua primeira semana de trabalho. “- O segurança nos chamou dizendo que tinha um meliante aqui tentando invadir o prédio e que na certeza queria sequestrar a presidente”, disse o policial.

Amadeu olhou para o funcionário e nem deu tempo de dizer nada, pois Angélica já estava lá completamente irritada, mas falou com calma e firmeza. “- Se os senhores algemarem meu marido terão que apresentar uma justificativa plausível, pois do contrário, estarão criando situações complicadas para vocês”.

Junto dos policiais que seguravam Márcio, havia um PM com divisas que veio falar com ela. “- Viemos atender ao chamado de sua equipe de segurança que nos informou que um homem preto queria invadir o prédio para tentar sequestrar um de vocês e aqui chegamos e esse negão falou que era seu marido, mas na dúvida, íamos levá-lo para o DP e lá ele se explicaria”.

– Amadeu, chame o Roberto e diga que quero uma reunião agora com a chefia de segurança. A equipe inteira será sumariamente demitida. Não quero este incompetente trabalhando comigo. E os senhores querem por favor soltar meu esposo ou terei que conversar com gente que tenha gabarito nessa cidade”.

Largaram Márcio que estava catatônico, sem reação. “- Tudo bem amor. Agora se acalme. Eu sei como está se sentindo”.

Amadeu não conseguiu sair do local até ver o amigo livre das mãos dos policiais e os funcionários que saiam para almoçar viram a cena, falando baixinho que aquela segunda-feira prometia. “- Não está no horário de almoço de vocês? Então que façam o que iriam fazer”, disse o vice-presidente de maneira exasperada chegando perto do amigo mosquito.

O casal de irmãos ladeando o editor entraram no elevador e chegaram ao andar da diretoria. Angélica entrou em sua sala e chamou Roberto que estava se organizando para ir almoçar. “- Oi Angélica, você me chamou”.

– Bom! Você já sabe que o segurança do térreo, querendo aparecer mais do que devia, chamou a polícia porque o Márcio estava na portaria querendo falar comigo e, na certeza, desejava me fazer uma surpresa. Então quero que toda a equipe de segurança seja trocada e o cidadão que quis ser esperto vá para o olho da rua e providencie para que não trabalhe mais na cidade.

“- E o Marzinho como está”, perguntou Roberto.

– Meio atônito, mas ficará tudo bem conosco. Depois que fizer isso pode ir almoçar e no período da tarde me mantenha informado se os procedimentos foram adotados. E amanhã tenha uma reunião com os diretores de segurança. Não quero mais esse tipo de situação aqui nas empresas.

Sem dizer nada, Roberto saiu para atender as solicitações de Angélica. O que ninguém sabia era que o segurança mantinha amizade com Ricardo e havia conseguido o emprego através de um conhecido que trabalhava na equipe de segurança. Quando o noivo de Fernanda chegou lá para pegá-la ficou sabendo do ocorrido e viu o amigo de pé na calçada, desejando saber se estava saindo para almoçar.

– Que nada Ricardo! Fui demitido e ainda sei que terei problemas para arrumar emprego nessa cidade.

– Mas o que foi que aconteceu? Eu te falei que o pessoal era gente boa, mas meio esquisito e que era só fazer o seu trabalho que não haveria problema.

– Porra! Por que não me falou que a dona era casada com um negão como tu.

“- Você se estranhou com o Márcio”, inquiriu Ricardo.

– Esse porra veio aqui dizendo que queria falar com a presidente. Eu desconfiei que era conversa fiada e chamei a polícia. Pensei que ficaria bem na fita com os diretores, mas o filho da puta é casado com a mandachuva e por isso ela mandou embora todo mundo.

Assim que o segurança terminou de falar, Fernanda apareceu e soltou um murro na cara dele. “- Ricardo o que você faz conversando com esse racista do caralho? Por conta desse saco de bosta a polícia queria algemar o Marzinho. Anda por que está conversando com esse aprendiz de estrume”, perguntou Fernanda, de forma exasperada.

Antes mesmo que Ricardo falasse alguma coisa, a noiva deduziu que era amigo dele e ali tinha dedo dele. “- Você deu um jeito de por essa merda de homem aqui para me vigiar! Se fez isso, acabou de enfiar essa aliança no cu e aproveita dá o rabo para ele, ou coma o cu da mãe dele”, falou a gerente, com o som saindo entre os dentes.

Fernanda nem esperou o noivo ou quase isso lhe dar a resposta, voltando para dentro do prédio, ligando para Roberto para saber se ele ainda estava no andar da diretoria. “- Estou sim Fê. O que aconteceu”, perguntou o amigo. “- Posso ir almoçar contigo e com a Danisa”, perguntou a amiga.

“- Pode sim, mas o que aconteceu”, quis saber o diretor.

– No caminho eu te conto.

Quando Fernanda chegou no estacionamento interno da empresa encontrou Roberto a esperando encostado na porta do automóvel. Ao entrar no veículo, ela desabou chorando dizendo que desconfiava que o segurança que havia humilhado Marcio e chamado a polícia mantinha ligações com Ricardo, pois viu os dois conversando.

– Se isso for verdade, a coisa vai ficar feia para ele. Eu arrebento com ele e depois deixo os irmãos do Márcio terminarem o serviço e é claro que afetará as relações entre Débora e Angélica.

Entre a sede das empresas e a casa de Roberto, o telefone de Fernanda não parou de tocar e os dois sabiam de quem eram as ligações. Num determinado momento, Roberto estacionou o carro e pediu para atender. “- Alô. O que você quer Ricardo”, perguntou o diretor de comunicação.

– Quero falar com a minha noiva.

– Acho que está exigindo demais. Fale comigo, pois se for sobre o amigo que você conseguiu implantar dentro das empresas para vigiá-la, fique sabendo que seus dias de passeio no parque estão terminando e torce para que essa história não chegue aos ouvidos de Márcio e Angélica, pois isso prejudicará inclusive seus pais. Agora, pare de ligar e vá refrescar essa sua cabeça oca e tente encontrar uma desculpa bem fajuta para dizer a todo mundo, pois a equipe inteirinha de segurança foi demitida e imagina se eles souberem que foi por conta de uma patifaria sua. Não queria estar na sua pele.

Desligando o telefone, o diretor de comunicação colocou o carro em movimento e Fernanda perguntou a ele o que deveria fazer. “- Márcio precisa saber disso”, desabafou a gerente.

– Fê! Vamos com calma. Não diga nada a ninguém. Espere Ricardo tentar se explicar o que aconteceu. Se essa história chegar no ouvido dele ou de Angélica, não quero nem saber o que pode acontecer com o seu noivo. Agora vamos almoçar e tente se serenar. Olha só. Não fique em casa com Danisa e nem seu apartamento.

A amiga ficou em silêncio, mas por dentro o mundo ia sendo consumido por pensamentos negativos. “- Assim que voltarmos do almoço se hospede num hotel e deixe a coisa fluir. Deixe que eu seguro a sua retaguarda nas empresas. Com toda aquela confusão, duvido que Angélica volte para trabalhar hoje”.

Almoçaram e durante a partilha ninguém tocou no assunto do que havia acontecido no final da manhã e nem falaram no nome de Márcio e Angélica. Roberto deixou Fernanda próximo de um hotel cinco estrelas, onde ela pode descansar a tarde inteira. Percebeu que realmente Roberto estava com a razão e teria que escutar o que Ricardo tinha a dizer, até porque não lhe dera chance alguma de se explicar.

Nas empresas, Roberto e Amadeu tiveram reuniões com a direção da equipe de segurança que havia sido dispensada, contudo, não esperavam uma convidada: a própria Eleanora fez questão de estar ali, pois envolvia toda a estrutura de sua organização. Ficou tudo esclarecido e entenderam que foi uma situação isolada e não havia necessidade de trocar todos, mas apenas confirmar a demissão do servidor por racismo e fazer com que todos passassem por cursos de formação. Desta forma, o contrato não foi desfeito, como desejava Angélica.

Depois do episódio com o segurança, Angélica deixou o prédio em que funcionava a sede de suas empresas, tendo a companhia do marido que, aos poucos, foi voltando ao normal. Márcio temia a ação das policias, pois sabia que a história que aconteceu antes dele viajar para a Alemanha, não tina sido digerida por algumas policiais que na primeira oportunidade, devolveria a ele à afronta feita pela sogra.

“- Para onde você quer ir, meu amor? Preciso saber o que foi fazer lá nas empresas”, disse Angélica.

– Te fazer uma surpresa e levá-la para almoçar, mas não sabia que iria virar tudo isso.

– Não virou absolutamente nada e vamos fazer o que tu tinhas em mente antes de ser afrontado por aquele inexperiente.

Márcio pensou e quando ia dizer, a esposa disse 38. “- Almoçamos e vamos passar a tarde lá. Afinal foi naquele clube que nós nos percebemos como seres que se amam e querem passar o resto da eternidade juntos”, disse Márcio para felicidade da empresária que pensou muito no que Débora lhe disse pela manhã e o próprio irmão. “Preciso proteger nosso casamento”, pensou Angélica compreendendo bem o desejo de Márcio em ficar no anonimato.

Antes de chegarem ao restaurante, Márcio sugeriu à esposa que comprassem a comida e levassem. Desta forma, poderiam passar a tarde juntos, sem ninguém para atrapalhá-los. “- No que meu marido está pensando que não quer nem almoçar aqui”, perguntou Angélica.

“- Em nada especial, mas em tudo especial. Quero esquecer dos momentos que passei desde que aquele segurança me fez passar vergonha e quase ser algemado pelos policiais e nada melhor do que estar com meu amor, longe de tudo e de todos. Preciso blindar o nosso amor. Percebi que estamos muito expostos e isso não é bom”.

Aquela fala do marido foi impactante para Angélica que optou pelo silêncio e quando chegaram no restaurante puderam escolher tranquilamente o que almoçariam assim que chegasse no clube. A opção por levar comida foi justamente para que o casal se fechasse sem ninguém para atrapalhar. O mundo poderia deixar de existir, desde que estivessem juntos.

Ao chegarem no clube onde determinadas certezas começaram a ganhar vida no coração dos dois, o casal se encaminhou para o chalé 38, que, ao ter a porta trancada por dentro foi como se Márcio e Angélica se fechasse para o mundo, se prometendo deixar o local totalmente diferentes de quando entraram. O editor foi direto para o chuveiro, mas não ficou muito tempo sozinho, já que a esposa entrou e o abraçou por trás, tentando divisar o que ia n’alma de seu amor.

Como que antevendo os pensamentos da empresária, o marido respondeu que não tinha nada em mente e que desejava apenas fazê-la feliz e esquecer que havia um mundo material repleto de pessoas amarguradas, por isso, portadoras de uma feiura imaterial amedrontadora. “- Quero apenas que o nosso amor atinja outro patamar no final desse dia. A primeira vez que estive aqui descobri que te queria muito mais do que como amiga, mas fiquei tão apavorado que tentei me esconder do amor que eu já lhe tinha, contudo, a partir de hoje desejo apenas compartilhar contigo e mais ninguém o que vai em minha alma quando o coração sopra o seu nome para alegrar minhas ondas cerebrais que enviam de volta reações bioquímicas para o resto do meu corpo, me fazendo o ser mais feliz do universo. Só desejo que tu deixes eu compartilhar isso contigo”, explicou Márcio beijando ternamente a esposa, ensaboando, em seguida, o corpo dela.

Naquele momento, Angélica acreditou que toneladas de peso acrescido de medos que pareciam nunca iram abandoná-la, se evaporaram como por encanto. Deixou-se ficar ali sendo ensaboada várias vezes pelo coração da pessoa que fazia noite e dia serem uma eterna felicidade. A dupla de nubentes não fez amor, pois naquele momento a situação dos dois era completamente outra. Almejavam apenas iniciar uma nova etapa no relacionamento.

Terminado o banho, os dois se alimentaram, permanecendo em silêncio por questões de segundo, enquanto trovoadas e raios riscavam o céu daquela cidade que um dia tanto assombrou Márcio. Marido e mulher fizeram a higiene bucal e ficaram olhando pela janela do quiosque à espera dos primeiros pingos de chuva que precipitariam em breve.

No quarto do hotel em que escolheu para se refugiar do mundo, Fernanda pensava em tudo, inclusive em Márcio, seu melhor amigo que poderia ter sido seu grande amor, contudo, nunca conseguiram se entender como homem e mulher. Agora estava prestes a se casar com um homem, até onde compreendia, cuidaria dela e a amava. “Será que ele colocaria alguém para me espionar ou foi tudo uma coincidência”, se perguntava a gerente de finanças do grupo Oliveira.

“Não posso jogar a minha felicidade fora por conta do Marzinho. Até porque o que vou lhe dizer quando afirmar que terminei tudo com Ricardo porque o segurança que chamou a polícia nas empresas foi enviado por Ricardo”, pensava em voz alta Fernanda. O som de sua voz se misturou à sonoridade de seu celular. Ao conferir de quem partira a ligação, ela observou ser de Roberto.

– Oi Roberto!

“- Você está bem, querida”, perguntou o amigo.

– Estou sim! Pensando muito no que aconteceu pela manhã e se tiver que contar a verdade para o Márcio, acho que o mundo pegará fogo e eu serei a maior prejudicada nisso tudo.

“- Mas que verdade”, quis saber Roberto.

– Por que a pergunta, Ricardo.

– Primeiro porque você nem ouviu as explicações de Ricardo. Então, acho que tudo pode ter sido uma mera coincidência, pois levantamos as informações para sabermos como segurança veio parar aqui nas empresas e descobrimos que chegou por intermédio de uma agência de empregos e ninguém indicou ou falou com o nosso pessoal. Portanto, acho que ele conhecia o seu noivo. Só isso.

“- O que faço então Roberto”, inquiriu a gerente.

– Me aguarde que te pegarei e você volta para cá e a noite converse com Ricardo. Márcio sumiu com Angélica e tenho certeza de que não está nenhum pouco preocupado conosco. Adoro ele, mas está na hora de o deixarmos com a esposa. Os dois são completamente aloprados e devem se entender. Não deixarei que estraguem meu casamento e nem o seu.

“- Obrigado amigo. Estava preocupadíssima e com medo de tudo, mas agora estou mais serena”, desabafou Fernanda.

– Use a razão e não o coração. Márcio é nosso amigo, mas não podemos nos foder para protegê-lo. Então deixe o hotel e me espere em uma sorveteria que tem aí perto que vou te pegar e, caso o seu noivo te ligue, marque uma conversa para a noite, lhe pedindo desculpas, pois acho que ele é inocente nessa confusão do segurança com Márcio.

Assim que Fernanda desligou o aparelho, Ricardo ligou e desta vez a noiva atendeu. “- Oi amor”, disse Fernanda. Antes mesmo de dizer alguma coisa, Ricardo começou a chorar, pedindo desculpas, mas não tinha nada a ver com o ingresso do Luiz Carlos nas empresas. “- Por que eu pediria para alguém de vigiar? Não faz sentido algum”.

– Agora se acalme. Está tudo bem, querido!

“- É que sinceramente estou temendo que termine tudo por conta de um episódio que eu não tenho nada a ver. Fui lá te buscar porque iriamos comprar os móveis hoje, mas deu tudo errado”, explicou Ricardo entre lágrimas.

– Querido! À noite, passe em casa e conversaremos. Não irei a lugar algum sem ti e o seu amor. Agora preciso voltar ao trabalho. Te amo viu!

Ao desligar o telefone, Ricardo respirou aliviado e entendeu como a situação que vivia com ela parecia ser firme, mas poderia ruir por qualquer coisa, então o melhor era estar sempre atento. De fato, o lance do racismo de Luiz Carlos não tinha nada a ver com ele, contudo, achava graça dos comentários do amigo quando dizia coisas contra os pretos e depois afirmava ser apenas brincadeira.

Tendo esse pensamento em conta, Ricardo organizava todo o seu trabalho, pois no dia seguinte estaria em férias e trabalhando com Márcio. “Estou entendendo quando Débora pedia para eu me afastar desse pessoal, pois poderia ter problemas, principalmente com Fernanda”, pensou o noivo, respirando fundo e idealizando uma forma de se distanciar. “O trabalho na editora do Márcio será muito bom. Melhor ainda se ele me contratasse de forma efetiva”, disse em voz alta Ricardo sem saber que estava sendo observado.

– Você soube! O Luiz Carlos foi mandado embora daquela empresa em que começou a trabalhar na semana passada. Aquela que o pessoal diz que sua noiva é empregada lá e só conseguiu a promoção porque é amante do marido da presidente.

– Marcos! Eu poderia te dizer um montão de coisas e depois quebrar essa sua cara, mas tenho certeza de que nada disso mudaria essa sua forma asnática de ver o mundo e as pessoas, então fingirei que não ouvi, pois talvez sua mãe é quem queira ser amante do cara lá e não tem coragem para se declarar a ele. Ou melhor, não é sua mãe não, mas a sua esposa, pois talvez você não dê conta do recado e ela precise oferecer marmita por fora para ter gozos e subir pelo ventilador.

Marcos não esperava essa resposta de Ricardo, pois ele sempre falava tudo rindo como se não se importasse, mas naquele momento, algo havia se modificado e era melhor, construir um muro, pensou o colega de sala. “Realmente ele está diferente. Acho que aquele retardada conseguiu colocar uma coleira e uma calcinha aí no todo comedor”, pensou o interlocutor, deixando a sala para evitar discussões desnecessária. Afinal nenhum deles tinha nada a ver com a vida do outro.

Enquanto deixava o ambiente, Marcos dizia a si mesmo que tinha muito mais a perder do que Ricardo. Pelo que corria nos corredores da empresa, ele não ficaria ali muito tempo, pois o pessoal das Organizações Oliveira poderia chamá-lo para trabalhar e aquelas férias não surgiram do nada. “Se eu partir para ignorância, serei demitido e não terei onde atuar e esse negão filho de uma puta ainda pode fechar meus espaços aqui nessa cidade”, pensou Marcos.

No restante da tarde Ricardo trabalhou no automático, sendo que a única diferença foi a conversa com a irmã que lhe contou sobre o diálogo com Angélica logo cedo e por isso achava que no dia seguinte haveria novidades, como por exemplo, ser demitida ou coisa parecida. “- Aquela mulher é aloprada e nunca sabemos o que vai fazer no dia seguinte. Hoje me chama para ser sócia e amanhã pode, num rompante por conta do bunda mole do marido, tirar a lua de órbita”.

“- Deb fique tranquila, pois acho que não acontecerá nada disso. Angélica deve estar pirando porque todo mundo está descendo o sarrafo nela por conta de achar que os amigos têm que resolver as confusões que ela e o marido arrumam por conta do ciúme doentio dela. Quem é que vai querer ficar com um sujeito todo esquisito, mandão, autoritário que se acha acima de tudo e de todos”, afirmou Rick.

Para sacanear o irmão, Débora afirmou categoricamente: “- Sua noiva! Ela é louquinha para estar nos braços do negão que se casou com Angélica”.

– Não diga isso nem de brincadeira. Tu sabes o que sinto por Fernanda.

“- Então não a deixe para outro, pois sei o tamanho do amor que ela lhe tem. É só não deixar que o seu ciúme estrague tudo. Seu adversário não é o Marzinho, mas o fantasma que você alimentar dentro do seu coração”, alertou Débora.

– Obrigado irmã. Mas hoje a coisa foi complicada. Um amigo que começou a trabalhar como segurança na sede das Organizações Oliveira agiu com racismo com o Márcio e chegou a chamar a polícia e aí o circo foi armado e ele demitido. Acontece que quando fui buscar a Fernanda para comprarmos os móveis, ela me viu conversando com o funcionário e achou que eu tinha arrumado um jeito de colocar o cara lá para vigiá-la.

“- Eu te falei para se afastar dessas pessoas. Elas fingem não ser racistas até que aparece uma oportunidade como esta e colocam tudo a mostra. E dai”, questionou Debora.

– Fernanda brigou comigo, sem me deixar explicar e voltou para dentro da empresa, indo almoçar com Roberto. Márcio sumiu com a esposa e ninguém sabe dele, mas ainda bem que conversei com ela agora a pouco e marcamos de nos vermos a noite.

“- Amanhã tu estarás de férias e aproveita para tirar essa gente de sua agenda. Faz uso da oportunidade que o Márcio está lhe dando e não deixe ninguém saber que conhecia o cara racista. Se souberem, a coisa vai ficar complicada para o seu lado e sei que de muitas outras pessoas”, orientou a irmã.

– A única coisa com a qual eu me preocupo é a hipótese deu ficar sem Fernanda. Ai a coisa ficará complicada.

“- Então se acalme e se concentre no seu trabalho e amanhã todos começarão um dia novo”, disse Débora tentando serenar o coração do irmão.

A segunda-feira não foi tensa só para as pessoas que se encontravam nos degraus de baixo da escada social em que a família de Angélica tremulava no topo. A coisa tinha sido complicada e tensa na reunião em que Eleanora precisou agir como bombeiro para evitar que o problema com Márcio se alastrasse. Não podia sair demitindo todo mundo só porque o genro se sentiu maculado por conta de um segurança inexperiente que deixou seu racismo aflorar num momento em que não se pode.

Ao término do encontro, a presidente de honra quis saber por que Fernanda não estava ali participando do evento, afinal, era íntima do Márcio. “-Dona Eleanora, eu achei melhor ela não presente por vários fatores e um deles é porque o noivo dela, o Ricardo, também é negro e, sei lá, de certa forma, não usaria o lado racional para nos ajudar a resolver esse problema”.

A sogra de Márcio ficou em silêncio e depois concordou com o diretor de comunicação a partir de um aceno de cabeça. “- Mãe, deixa que resolvemos isso. Fica tranquila que isso não acontecerá novamente dentro de nossas dependências. O mundo lá fora está cheio de gente racista e, por mais que usemos filtros, é quase que impossível evitar que alguns deles se tornem nossos colaboradores”, disse Amadeu.

“- Está bem meu filho. Não interferirei mais na vida de você e de sua irmã. Acho que seus respectivos cônjuges dão conta. Angélica para variar sumiu. Alguém sabe onde ela está”, inquiriu Eleanora só para ter certeza da resposta.

“- Deve estar passeando entre as estrelas com o mosquito. Ali é a tampa e o balaio. Ela é desparafusada e o marido é melindroso até o extremo. Deixe que depois resolveremos tudo. Agora, acho que tem uma pessoa com duas estrelas que está te aguardando dona mamãe. O seu general está lá fora, presumo eu”, disse rindo Amadeu.

– Engano seu meu filho. Alexandre está resolvendo coisas do restaurante dele. Talvez nós nos veremos a noite. E você e Tarsila como andam? E a gravidez? Exijo todo o cuidado com meu neto, hein.

– Está tudo certinho mãe! Essa semana finalizaremos a nossa mudança, pois ela e o Marzinho querem inaugurar a editora na próxima semana e isso só será possível se o Ricardo assumir amanhã o compromisso que fechou com o meu amigo mosquito.

Na casa 38 do clube edificado pela arquiteta, o casal que havia ficado um bom tempo, após a refeição, contemplando o tempo, a vida que se passava fora do imóvel, acabou dormindo um nos braços do outro como se toda aquela confusão pela manhã tivesse acontecido numa outra encarnação. Antes de dormirem, os dois se prometeram não deixar que nada no mundo externo atrapalhasse mais o amor da dupla.

– Keka! Eu não suporto mais nossos amigos estarem sempre entre nós, tentando nos ajudar a ficarmos juntos. Acho que só depende de nós dois. Eu não vejo Roberto e Danisa pedindo ajuda para ninguém e sei que a relação deles é semelhante a qualquer outra, com altos e baixos, assim como Amadeu e Tarsila.

– Eu sei amor, mas é preciso que cada um de nós faça a sua reflexão. A minha eu venho fazendo. Tive uma conversa com Débora hoje pela manhã e compreendo que ela está com toda a razão. Não te quero entre Fernanda e o irmão dela. Entendi que a minha secretária está se segurando para não emitir opinião alguma sobre a relação de Ricardo e Fernanda, mas eu me coloquei no lugar dela, principalmente no que diz respeito ao Amadeu e foi por isso que eu e você nos conhecemos.

Márcio apenas anuiu porque sabia perfeitamente o que a esposa lhe dizia e, em virtude disso, disse para si mesmo que aos poucos se afastaria de Fernanda, Roberto e de todos eles, pois via que tudo aquela confusão estava asfixiando todos os amigos.

Pensando nisso e observando o silêncio e a respiração da esposa, o editor, assim como Angélica, caiu no sono. O casal permaneceu nessa condição a tarde toda e a chuva aumentava. Quando os dois despertaram, a noite já estava chegando e, apenas dando um beijo carinhoso, a empresária e seu marido, entraram no carro e se deslocaram até o apartamento onde moravam.

Já dentro do imóvel, ligaram seus respectivos celulares, observando que haviam muitas mensagens, mas nada que não pudesse deixar para a terça-feira. Márcio respondeu tudo de maneira breve, dizendo que resolveria na manhã seguinte e a presidente das Organizações Oliveira seguiu o mesmo caminho que o esposo, transferindo tudo para o dia seguinte.

Calmamente Márcio se banhou tendo a companhia da esposa. Aproveitando o momento, a convidou para assistirem um filme. “- Amor! Você tem preferência por algum filme”, perguntou o esposo que obteve como resposta uma apaixonante observação: “- Pelo filme não, mas pela companhia sim. Quero-te comigo, minha paixão. E depois podemos ir comer naquele barzinho em que vc quebrou o copo e machucou a mão”.

“- Por que aquele local, posso saber”, perguntou Márcio.

“- Por várias razões e, uma delas, é que naquela noite senti a temperatura do seu corpo pela sua mão. Foi como se o meu coração recebesse pequenos choques elétricos e seus olhos querendo me ver, mas com um medo danado. Então podemos ou não”, perguntou Angélica.

– Claro que sim. Depois de uma declaração dessas, minha paixão.

Uma hora depois dessa conversa, lá estavam Márcio e Angélica conversando animadamente, quando o segurança que tinha provocado toda a confusão pela manhã, estava usando trajes de garçom e foi atender o casal que havia acabado de chegar. Ele ficou sem saber o que fazer e partiu do editor a primeira verbalização, dizendo que era para deixar o cardápio que assim que estivessem escolhidos os pratos o chamaria. “- Mas pode me trazer um uísque e para a minha esposa uma cerveja importada sem álcool”, disse Márcio.

Ao fazer menção de dizer algo, o garçom foi contido pelo cliente que tentava dizer que não tinha o menor interesse em saber nada relativo ao episódio nas empresas de Angélica. “- Meu rapaz, deixa isso para lá e espero que tenha aprendido a não julgar as pessoas pelo que acha que elas são. Sei que não gostas de preto, mas não sou eu quem vai mudar isso dentro de ti e sim a vida”, explicou Márcio calmamente.

Assim que o atendente, que até aquela manhã era segurança, saiu, Angélica abraçou o esposo, entendendo que o acontecido de manhã também serviu para ele. “- Márcio. Você é extremamente importante em minha vida. Não é que te quero só para a minha pessoa, mas observando o jeito que falou com o garçom, notei que desejas mesmo colocar um fim a determinadas posturas que só tendem a nos prejudicar”, explicou a empresária.

– Nos desligamos do mundo a tarde e eu quero ficar somente contigo. Amanhã voltaremos aos nossos cotidianos. Eu na editora e você nas suas empresas e depois podemos almoçar juntos ou jantar e nos afastarmos um pouco dos amigos.

Quando o garçom voltou com as bebidas, surpreendeu o casal se beijando e trocando juras de amor com os olhos. “- Aqui está o pedido de vocês”, disse o atendente não deixando de notar a beleza singular da empresária e de como ela tinha os olhos esverdeados.

Ao deixar o espaço reservado pelo casal, o Luiz Carlos conversou com Josias, funcionário mais antigo, querendo saber o que Márcio tinha para ter fisgado um mulherão daqueles e com muito dinheiro. “- Exatamente tudo isso que você não tem: humildade. Aquele cara trabalhava no jornal que fechou e não gosta nenhum pouco dos holofotes. Observa que eles não ficam se exibindo para ninguém e é justamente isso que ela gosta nele: a discrição”, explicou o interlocutor.

“- Como sabe disso tudo”, perguntou Luiz Carlos.

“- Por uma razão muito simples: ela vem aqui desde que comecei a trabalhar e sempre ficou no reservado e não admite que ninguém atravesse o mundo dela. Um dia ela apareceu sozinha e logo depois o rapaz chegou e, do nada, quebrou um copo com as mãos, saindo em seguida. Ela foi atrás dele e o pessoal que conhece os dois dizem que são inseparáveis. Você os conhece de onde”, inquiriu Josias.

– Digamos que eu tive uma experiência não muito boa com ele de manhã e ainda quase ferrei com a vida de um amigo que está noiva com uma bela mulher que é amiga desse aí. O cara também é negão e fisgou outro mulherão e a conheceu no noivado dele e, do nada o cara começou a mudar o seu comportamento. Deixou de sair com a gente, de nos chamar para churrasco na casa dele e declinar dos outros convites que fazíamos.

“- Eu acho que eles estão certos. Sair contigo deve ser uma coisa do arco da velha. Tu deves achar que mulher é só boceta. Se o negão aí me desse um espaço, perguntaria a ele o que fez para encantar essa sereia de olhos esverdeados. Mas vamos deixar de prosa e servir as mesas. Hoje a coisa aqui está fervendo”, falou Josias.

Márcio e Angélica bebericaram lentamente suas bebidas até que o garçom foi acionado e o pedido formalizado. Peixe grelhado com saladas verde-escura e mais uma rodada de bebida para cada um deles. O uísque e a cerveja chegaram e novamente Luiz Carlos surpreendeu o casal aos beijos. A cena o incomodou e, por isso, levou uma reprimenda de Márcio.

“- Meu amigo, é impressão minha ou tu achas que um preto não pode se casar com uma branca ou vice-versa. Uma preta se casar com um branco”, perguntou o editor de forma serena.

– Peço desculpas. Isso não acontecerá novamente.

“- Espero mesmo, pois se formos importunados de novo com sua indiscrição, teremos que conversar com o proprietário”, avisou Márcio.

Ao deixar o local, o garçom estava meio desapontado e levou uma bronca de Josias. “- Meu amigo. Deixe que eu atenda a mesa do casal ali. Estou vendo que fará merda e perder esse emprego aqui também. Se tu não gostas de preto, por favor, não dê na cara, pois poderá ter problemas seríssimos”, orientou o colega de trabalho.

Luiz Carlos parou, pensou e percebeu que poderia fazer coisas piores, pois estava com Marcio atravessado na garganta. Perdeu o emprego porque achou que o editor fosse um qualquer e depois viu o amigo ser acusado de estar em conluio com ele para espiar a noiva, amicíssima do marido da mandachuva das Organizações Oliveira. Em função disso, se dirigiu ao gerente do bar e informou que estava mudando de setor com o colega.

A troca foi efetuada e o casal que estava sendo servido pelo garçom anterior notou a alteração, mas optou por não dizer nada. Tanto Angélica quanto Márcio compreenderam que se o funcionário continuasse servindo os dois, a noite poderia ter um desfecho não muito agradável a todos. Então o melhor a fazer seria evitar desavenças e outros desentendimentos.

No final daquela jornada, o editor e sua esposa foram embora, deixando apenas que os olhos e o coração de ambos dialogassem. Márcio, em silêncio, recordava quando ela o seguiu pedindo para entrar no carro já que sua mão sangrava. Angélica se lembrou do toque nas mãos do marido que até então lhe era um completo desconhecido, exceto a trágica história de seu quase casamento. “- Quando chegar em casa quero lhe mostrar uma coisa”, disse o editor.

“- E eu posso saber antecipadamente o que é”, perguntou Angélica.

– Se eu falar agora estragará a surpresa. Então terá que esperar quando estivermos dentro do nosso quarto.

“- Não é nenhuma tara sua que terei que satisfazer, né, meu amor”, inquiriu a empresária.

– A minha principal e única tara se chama Angélica. Uma mulher que mais parece uma dinamite prestes a explodir e que tem uns olhos esverdeados para lá de encantadores.

Quando terminou de falar, Márcio sentiu a esposa lhe apertar a mão, indicando que estava grata pelas palavras que dizia, mas que elas vinham d’alma e do coração do marido. Pouco mais de dez minutos depois, o casal estava dentro do elevador e o editor já beijava avidamente a esposa, percorrendo boa parte do corpo dela com suas mãos, a deixando em erupção.

Já dentro do quarto, quando Angélica imaginava que Márcio continuaria as carícias, mas fez totalmente o contrário, pedindo para ela esperar que voltaria em questão de segundos. Ao retornar, estava com uma caixa nas mãos, a entregando para a esposa, perguntando se ela não se recordava daquele objeto. Ao perceber que se tratava da caixa de lenços umedecidos que havia deixado no apartamento de Márcio, a empresária quase vai a loucura com o gesto do esposo.

“- Meu deus Márcio! Você preservou a caixa e os lenços também. Por que não me falou que tinha guardado. E por que fez isso”, perguntou a esposa.

– Por uma razão muito simples: tudo o que diz respeito a nós dois e ao amor que lhe tenho, se eu puder manter, farei e essa caixa você deixou em casa quando suas mãos queimaram as minhas e meu coração não parou mais de bater em sua homenagem.

Ao ouvir essa confissão, Angélica partiu para cima do esposo, lhe arrancando a camisa, beijando, o mordiscando, passando as mãos por boa parte do corpo do esposo, se concentrando em seu falo que já está pronto para uma noite de amor. Márcio levantou a empresária, como se ela não pesasse quase nada e aproveitando que ela estava de saia, lhe arrancou a calcinha e, enquanto devorava a boca da esposa, introduziu o pênis na vagina de Angélica que urrou de prazer.

Lentamente o editor sentou-se na cama, enquanto a esposa o cavalgava mordendo sua orelha e dizendo entre lágrimas que o amava do mais profundo de sua alma. Vociferando palavras desconexas, a empresária chegou ao orgasmo e continuou dizendo que era para o esposo não parar. Ao se levantar com a esposa nos braços, Angélica sentiu o membro a invadi-la totalmente, gozando novamente, enquanto o editor a colocava em cima da cama, indo por cima dela, aumentando a velocidade das estocadas, enquanto a empresária gozava mais uma vez, até o marido também atingir o clímax, levando Angélica a um gozo intenso que a deixou prostrada do lado do esposo. Arfando dizia que Márcio ainda iria matá-la de tanto prazer.

O editor deu aquela gargalhada que a deixou mais doida de tesão por ele. “- Você ri assim porque sabe que acabei de gozar e perdi quantas vezes isso aconteceu comigo, mas deixe eu me recuperar para tu ver se não te quero novamente aqui dentro”, disse Angélica indicando com o dedo sua vagina.

O casal percebeu que poderia pegar no sono, por isso, optou por voltarem ao chuveiro, se higienizando e, retornando para cama, acabaram a noite dormindo um nos braços do outro, não sem antes se prometerem um amor silencioso como iniciaram aquela manhã que só não seguiu em frente por conta do episódio racista de um segurança que prestava serviço nas empresas de Angélica.

A mesma paz que Márcio e Angélica encontrou um com o outro, Fernanda também sentia estando com Ricardo. Naquela noite saíram só os dois para uma conversa franca. A noiva deveria passar a ele segurança e, conforme tinha combinado com Roberto, se afastar um pouco de Márcio até para que pudesse construir algo sólido com Rick que, apesar de não ter a mente tão aberta quanto a de Marzinho – se é que o editor a tinha, pois tudo levava a crer que era um ferrenho conservador e que por ser assim encantou a esposa -, merecia seguir em frente com ela.

Foi Ricardo quem chegou falando tudo e colocando a noiva nas cordas. “- Não aguento mais ser crucificado por conta daquele seu amigo. Tudo bem que amanhã vou começar a trabalhar com ele, mas não o quero entre nós dois. Ele praticamente te deu o apartamento e eu tive que aceitar. Reconheço que disse coisas que se quer deveria ter pensado, mas porra, estou me esforçando para ficar contigo. Não estou te cobrando nada, mas dizer que eu tinha alguma coisa a ver com aquele barraco que o fresco do Márcio aprontou no saguão da sede das empresas dele, é de mais para a minha cabeça. Portanto, Fernanda, serei breve e direto: ou fica comigo e nos esforçamos, ao máximo, para fazermos o nosso amor dar certo ou você vai lá e briga com a tua patroa para ficar com esse seu Marzinho”, disse Roberto em tom de desabafo, tentando não parecer cobrança.

Antes mesmo que Fernanda pudesse dizer alguma coisa, o garçom chegou perguntando o que o casal desejava. A noiva pediu uma garrafa de vodca dinamarquesa enquanto o noivo disse que iria acompanhar Fernanda e que depois pediria algo.

“- Por que vai tomar essa garrafa de vodca”, perguntou o tecnólogo.

“- Sei lá! Queria beber algo mais forte que o meu medo”, explicou Fernanda.

“- Medo do quê”, questionou o noivo

“- De que me dissesse o que acabou de falar”, respondeu a noiva.

– Preciso ser direto contigo. Sei que não sou perfeito e não tenho nenhuma intenção de sê-lo e também não desejo me transformar no que não sou para ficar contigo. Compreendo que não tenho a maturidade dos seus amigos, mas de uma coisa eu sei: posso te amar como te amo agora até o fim da eternidade. Você é o meu primeiro amor, mas suportarei uma rejeição e seguir te amando. O que não quero é ficar pensando se meus passos, meus pensamentos são iguais aos de Roberto ou Márcio para tu me querer. Portanto, meu amor, quero uma resposta sua e agora e pode dizer que aguentarei qualquer que seja ela.

O garçom trouxe a garrafa de vodca com um balde de gelo, enchendo os dois copos e saindo em seguida. Fernanda pegou o seu e virou tudo de uma vez dentro da boca. Ação que não passou despercebida pelo noivo que estranhou, mas resolveu ficar em silêncio esperando o que Fernanda lhe diria.

– Amor! Sei que para continuar seguindo em frente contigo, terei que me afastar do Márcio e por várias razões. Compreendo que se eu estivesse em seu lugar, exigiria isso de ti e se não agisse assim, viveríamos em pé de guerra, sem dar oxigênio para os nossos sentimentos. Mas é muito difícil para eu fazer isso, pois nos últimos cinco anos, Márcio sempre foi a minha âncora. Quando meu barco parecia estar à deriva ou no meio do furacão, lá estava ele, em silêncio, me dando o seu ombro e sua mão para me ajudar a sair do lodo e do lamaçal que eu tinha me metido por imprudência.

Sorvendo um pouco da sua vodca, Ricardo sem pestanejar disse a noiva. “- Isso foi até aquela noite do noivado dele com aquela desmiolada de sua patroa. Me desculpe, os dois se merecem, mas isso não é problema meu e sim dele. A única que quero estar contigo, cuidar de ti e deixar que cuide do meu coração que foi surpreendido com a beleza que sua alma me apresentou naquela segunda-feira à noite e depois no jantar em sua casa”, disse o noivo, virando o restante da bebida que ainda restava em seu copo.

Fernanda olhando para ele, lhe jogou um beijo em formato de vento e continuou falando sobre as conclusões que havia chegado aquela tarde em que ficou reclusa num hotel da cidade. “- Não queria falar com ninguém, pois tive uma conversa com Roberto e ele me pediu para não deixar o Márcio ficar entre eu e tu, a não ser que eu não te amasse e nesse caso deveria parar de te enrolar com isso e aquilo e com exigências que pareciam a ti serem descabidas”, afirmou a gerente das Organizações Oliveira, enchendo o copo novamente e sorvendo metade do líquido, sentido que o mesmo começar a lhe soltar do medo que sentia.

– Ricardo! Eu nunca tive ninguém e a exemplo da cunhada do Márcio, tive que ralar muito para chegar até aqui e o meu referencial positivo sempre foi o Marzinho. De modo que quando ele apareceu com Angélica na loja de roupas que eu trabalhava, percebi logo de cara que ela me roubaria o amigo e, inconscientemente, a provocava para ver se não levava aqueles arroubos de ricaça adiante ou Márcio percebesse que tudo não passava de encantamento e loucura da cabeça dele.

“- Mas não foi isso, pois os dois estão casados”, disse o noivo.

Fernanda ficou em silêncio e Ricardo acrescentou: “- Você está querendo me dizer que é apaixonada pelo seu amigo e só foi perceber isso hoje à tarde e que agora pediu uma garrafa de vodca para criar coragem e me dar o fora”, perguntou Ricardo.

– Não! Estou tomando essa vodca porque queria algo mais forte do que o medo que eu estava sentindo. Te amo e sei que para viver esse amor, tenho que me afastar do Márcio ou, pelo menos, tirá-lo de ser protagonista ou a pessoa em quem eu pensava logo quando amanhecia.

“- Você quer um tempo para pensar tudo isso”, inquiriu Ricardo.

– Se eu tivesse na dúvida nem tempo eu pediria. Terminaria tudo. Não há essa incerteza, mas quero que entendas o papel que Márcio tem em minha vida. Me afastarei dele para que eu e tu tenhamos paz e possamos construir o nosso casamento e, caso não dê certo, não vamos culpá-lo ou quem quer que seja, mas apenas nós dois por não conseguirmos colocar em prática o nosso sentimento.

O garçom voltou e Fernanda pediu uma picanha na pedra para dois, não dando chance de Ricardo pensar no que jantaria. “- Amanhã você começa a trabalhar com ele e eu espero que não seja apenas um bico enquanto esteja de férias do seu trabalho”, explicou Fernanda.

– Mas se eu vir a trabalhar de forma efetiva na editora, Márcio quererá saber mais sobre ti, ficará me perguntando porque você está distante.

“- Se isso acontecer, coisa que acho que Márcio não fará, pois é muito direto, você pede para ele vir me perguntar. Porém, acho que todos estão saturados de todos e ele não falará nada contigo que não seja da editora”, disse Fernanda, categoricamente.

– Está bem meu amor.

“- Desejo estar contigo como Roberto está com Danisa. Os dois se fecharam e eu sei que ela deu um ultimato nele. Caso não pare de tentar socorrer Márcio e aquela mulher desmiolada dele, quem deixará o Roberto será a esposa. Ela lhe disse isso numa noite que jantou com Eleanora e Alexandre depois que saíram do cinema”, explicou a gerente de finanças.

Diante do silêncio de Ricardo, Fernanda continuou sorvendo a vodca, só que desta vez, mais lentamente. “- Ele sabe que se não atender o pedido dela, poderá ter uma separação logo em seguida. Tanto é que ele não ligou para nenhum dos dois hoje à tarde e se limitou a se reunir com Amadeu e a mãe de Angélica”, informou a noiva.

A comida chegou e enquanto degustavam, Fernanda mudou de lugar ficando mais próximo do noivo que a sentiu diferente a partir daquele momento. Pelo jeito que a noiva lhe olhava, Ricardo observou que ela queria outra coisa dele, porém, não diria nada, aguardando ela verbalizar.

Pegando na mão do noivo, Fernanda o observou bem dentro dos olhos, pedindo para ele não deixá-la dormir sozinha naquela noite. “- Não quero transar contigo amor, mas apenas me sentir segura novamente. Sei que pode parecer loucura, mas só de saber que se eu pedisse ao Márcio para dormir na casa comigo, eu ficaria calma”.

“- Você nunca pediu isso a ele, não é”, inquiriu Ricardo.

– Não! Porque só de saber que se pedisse ele estaria lá comigo, já me tranquilizava, mas estou pedindo isso agora ao homem que amo e tenho desejo de passar o resto de minha vida com ele.

“- Tudo bem amor. Ligarei aos meus pais dizendo que ficarei contigo e amanhã eu converso com eles. Afinal precisamos comprar nossos móveis e dar uma olhada na obra de nossa casa. Meu pai quem está fiscalizando tudo com Débora, mas precisamos também observamos tudo aquilo”, disse o tecnólogo.

Com essa observação de Ricardo, Fernanda foi se soltando e ficando mais serena. Terminaram o jantar e seguiram para o apartamento dela. Enquanto a noiva se banhava, o noivo conversava com os pais e Adélia desejou falar um pouco com a futura nora. “- Assim que ela sair do chuveiro e eu entrar, digo-lhe para falar com a senhora”.

“- Está certo filhão. Cuide bem dela. Daqui para frente somos a família que ela tem, conhece e confia. Então não vai colocar o carro diante dos bois e se esforce para que o amigo dela te contrate na editora”, explicou a mãe de Ricardo que respondeu confirmando que ela podia ficar tranquila que ele estaria sempre do lado dela, independentemente da tempestade que tivesse caindo sobre a cabeça da noiva.

Assim que Fernanda deixa o banheiro, Ricardo disse a ela para falar com a futura sogra enquanto ele se higienizava e depois os dois ficariam ouvindo músicas até o sono chegar.

“- Oi Adélia! Aconteceu alguma coisa”, perguntou Fernanda.

“- Quando for para ficar de uma vez com meu filho, me avise. É a segunda noite que ele dorme fora de casa. É bom que tu sejas uma ótima esposa para o Ricardo, senão se verá comigo”, disse a futura sogra rindo, pois sabia que lentamente Fernanda estava conseguindo colocar o filho dela no devido lugar.

– Eu só quero ele para mim, de corpo e alma e a partir de domingo a minha cama será a sua moradia. É meu presente para o homem com o qual desejo passar o resto de minha vida com ele, Adélia.

“- Obrigada filha por fazer meu Rick feliz. Tenho certeza de que vocês dois saberão cuidar um do outro, desde que tu não deixes aquele seu amigo ficar entre ti e o meu Ricardo”, falou Adélia.

– Pode ficar serena Adélia. Conversamos bastante sobre isso. Eu fiquei a tarde toda sumida para entender tudo o que eu tenho que fazer para que sejamos todos felizes. Marzinho tem a maluca da Angélica para cuidar e ela agora é quem se ocupará dele, assim como acontece com Roberto e Danisa. Então chegou a minha vez e eu encontrei uma pessoa sensacional, não perfeita, mas que está disposta a crescer junto comigo para que o nosso amor se fortaleça.

“- Sou grata a ti, minha filha. Débora me fala sempre sobre o Esdras e como ele e o irmão tem uma relação conturbada, porém, se respeitam e nenhum dos dois atravessam o caminho do outro. Ela também está feliz com ele, o que deixa eu e o Romualdo em paz.  É isso querida, me deixe ir e os dois aí se comportem. Não quero nada chegando antes do tempo”, disse Adélia em tom de repreensão.

– Está certo sogra querida. Pode deixar que cuidarei bem do seu filhão, o meu Ricardo.

Assim que terminou de falar e desligou o aparelho, Fernanda foi abraçada pelo noivo que a convidava para irem dormir. “- Amanhã teremos um dia cheio e desejo estar com muita disposição para tê-la do meu lado sempre que possível”, admoestou Ricardo pegando Fernanda no colo que começou a dar gritinhos de felicidade por ter sido pega de surpresa.

Já na cama, os dois não pararam de se beijar e a gerente das Organizações Oliveira se sentia cada vez mais leve, tendo a certeza de que a tarde livre, sozinha, naquele quarto de hotel foi importante para as decisões que havia tomado. Elas a levaram a estar ali na cama com o noivo e de maneira muito harmônica.

Depois o casal ficou um ao lado do outro e Ricardo pegou na mão da noiva como quem desejava lhe passar segurança. Ficaram assim por um bom tempo até que o sono chegou e o noivo disse boa noite, dando um leve beijo na face de Fernanda dizendo que a amava imaginando que ela estava dormindo, mas a declaração foi ouvida pelo corpo, pelo coração e completamente processada pela alma que enviou recado ao tecnólogo pelas cordas vocais de Fernanda que só respondeu: “- Também te amo, meu preto”.

E assim foi terminando aquela segunda-feira para os principais atores que gravitam em torno da existência sentimental de Márcio e Angélica. No apartamento do general, Eleanora parecia não querer mais ir embora o que preocupava o militar da reserva que não tinha intenção alguma de dividir sua casa com ela ou com qualquer outra pessoa, mas como dizer não àquela mulher que, quando estava em seus braços o fazia gozar abundantemente de diversas maneiras, portanto, não somente quando faziam amor que passou a ser uma constante na vida dos dois?

Naquela noite de segunda-feira não foi diferente, ainda mais porque a matriarca dos Oliveira passou o dia todo longe dele, resolvendo as encrencas que a filha e o genro mimado sempre aprontavam. “- Preciso que meu general me faça gozar muito hoje. Exijo que tu me faças ver as estrelas estando em seus braços”, disse Eleanora o agarrando quando entrava em seu apartamento. Não restou ao general de duas estrelas, atender o pedido da namorada, pois bastou ela se encostar no corpo dele, para que seu membro indicasse o que desejava naquela noite.

Já refeitos das quantidades de gozos que tiveram, o general perguntou a ela o que tinha acontecido. “- Aqueles dois me tiram do sério. Minha filha não consegue ficar serena e o meu genro é cheio das frescuras e vive arrumando confusão. Tudo bem que é complicado muitas coisas, porra, mas será que sempre precisar terminar em confusão”, perguntou de forma exasperada a matriarca dos Oliveira.

“- Se você me explicar o que aconteceu, talvez eu converse com os dois e podemos equacionar a situação”, disse Alexandre.

– Esquece. Tudo o que eu disser, você já sabe só de conviver conosco durante esse tempão todo. Márcio é mimado ao extremo e minha filha é insegura e tem um ciúme do tamanho do inferno, mas deixa para lá. Posso dormir aqui contigo hoje amor”, perguntou por fim Eleanora.

“- Tudo dependerá de ti. Já está aqui na minha cama, me fez gozar até quase perder os sentidos. Você acha que terá condições de voltar à mansão”, perguntou o general rindo, enquanto a namorada se ajustava ao seu corpo para ter uma noite tranquila de sono, pois sabia que não conseguia dar mais nenhum passo sem tê-lo em sua companhia.

– Obrigado por me amar desse jeito, meu general. Tenho muitas coisas para lhe contar, mas no momento me sinto insegura e com temor de que tu possas me abandonar. Então só lhe peço para não me apressar e confiar no amor que eu lhe tenho.

“- Qual é o assunto? Pode pelo menos me dizer”, perguntou o general tentando estimular a namorada a dizer.

“- É que sinceramente tenho temor de que quando souber, me abandone e eu não sei se suportaria seguir em frente sem ti”, confessou Eleanora.

“- E diz respeito a quem ou ao quê”, inquiriu Alexandre.

– É sobre os meus dois filhos. Sou gratíssima ao Márcio por ter me devolvido os dois.

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