Olhar Crítico

Ética

O que é ser ético? Com essa pergunta começo meus aforismas quase que críticos deste domingo. Acrescento à essa interpelação o adjetivo crístico. A resposta, meus caros leitores, pode parecer-nos simples, contudo, existem pessoas que vivem dizendo, falando, propalando, mas nos bastidores, suas condutas nos levam a questionar não o dito, mas o ser que o diz. Desta forma, Immanuel Kant (1724-1804) em suas Fundamentações para a metafísica dos costumes (SP: Martin Claret, 2012), base fundamental para compreender os três livros críticos: Crítica da Razão Pura, Crítica da Razão Prática e Crítica do Juízo, afirma que o sujeito deve agir levando em conta que sua conduta possa ser universalizada. Percebam aqui que a questão está no campo do imperativo, isto é, do dever. E por que o dever está diretamente ligado ao devir da sociedade?

 

Corrupção

No bloco anterior abordei a questão do dever e do devir como elementos fundamentais para se pensar o vir a ser de nossa sociedade. Neste sentido, sinceramente, gostaria de entender o que faz com que pessoas, cujas formações profissionais objetivam cuidar da vida e dar segurança às pessoas, se enveredem por esquemas que visam desviar recursos públicos para fins privados. As minhas inculcações não têm escopo algum de sentenciar quem quer que seja, mas tão somente o de compreender, as razões que levam tais sujeitos sociais a agirem assim e não de maneira condizente com o seu agir profissional. A situação é emblemática porque sabem a distinção do que é certo ou errado, mas optaram pelos caminhos que levam ao crime de lesa majestade. Eu não tenho a resposta, mas somente a Justiça que apura os mais diversos delitos praticados por autoridades constituídas eletivamente aqui e alhures. Então, meus caros leitores aguardemos as decisões togadas, mas que a pergunta é inquietante, lá isso é.

 

Mundo pandêmico

E já que a peleja vai nesse campo, é interessante olhar para o mundo pandêmico e os números de mortes, mesmo com a vacinação caminhando. O que será que ocorre? Acho que a pergunta deveria ser a seguinte: quem de vós, meus caros leitores, conhece a natureza desse vírus e dos demais que pululam a esfera invisível da vida ativa na sociedade e leva o homem ao óbito? Na Idade Média, a Peste Negra que exterminou grande parte da sociedade europeia chegou nos lombos dos ratos que eram os transportadores das pulgas que, aliada à falta de higiene, ceifaram a vida de bilhões de pessoas e há várias causas para isso, entre elas, o massacre dos gatos que exterminavam os ratos. Outro elemento daquela época presente no século XXI é a ausência de conhecimento ou cegueira, para não dizer ignorância da população.

 

Crendices

Se por um lado, há a corrupção grassando aqui e em outras paragens brasileiras, conforme a mídia de um modo em geral vem divulgando, por outro existem os incautos que, mesmo diante de evidências, fatos e milhares de mortes, ainda acreditam em verborragias palanqueiras que buscam o beneplácito de uma turba de analfabetos políticos que pode insistir nos equívocos cometidos em 2018. É preciso cautela e uma grande dose de razão em detrimento das paixonites, como é comum presenciarmos nesses momentos críticos pelo qual o Brasil vem passando. A economia patina justamente porque o carro chefe não é o comércio, mas o conhecimento que deve ser adquirido nos bancos escolares, contudo, a educação oferecida à população não privilegia o conhecimento, mas a decoreba e o status do vir a ser. Esse não é um fenômeno tipicamente dos tempos modernos, mas se arrasta desde os tempos monárquicos e pode ser compreendido através da adjetivação “doutor”.

 

Informação

Outro dia eu li nas redes sociais o comentário de um significativo amigo sobre informações, conhecimentos, fatos e os quase fatos. Achei importante aquele olhar, pois é sempre tempo de nos colocarmos em reflexão a partir do que sabemos, do que ouvimos dizer e dos sussurros que nos chegam cotidianamente através dos ruídos da alma e dos barulhos das ruas. Como nos posicionarmos quando somos testemunhas oculares dos fatos, como dizia a antiga chamadinha do programa “Repórter Esso”? E quando é um repórter que obtêm uma informação com documentos comprobatórios? O que ele deve fazer? Se levar em conta os preceitos constitucionais e, por dever de ofício, compartilhar o dado com seus leitores e sociedade. Mas será que a imprensa tem condições de fazer isso? Pergunto de outra forma: os jornais são livres ou sofrem pressões cotidianas para publicar somente aquilo que interessa a determinados grupos privados e políticos?

 

Público e privado

Lógico que num país em que, normalmente o que é de todos mediante o pagamento de impostos, tributos e taxas acaba sendo apropriado de forma privada por determinados grupos, conforme o escritor José Martiniano de Alencar (1829-1877) especula em seu livro Cartas de Erasmo ao Imperador (Academia Brasileira de Letras: https://www.academia.org.br/), é preciso ter claro a distinção do que é de natureza privada do que é público e, nessa toada, muitos confundem uma coisa com a outra. Por exemplo, a decisão de um governante extrapola a esfera do privado, pois afeta a vida de milhões de pessoas, contudo, o conteúdo do seu almoço não diz respeito a ninguém, todavia, dependendo de onde ocorre a comensalidade e quem a pagou, ultrapassa o universo do privado. Fazer essa distinção é fundamental para não se sentenciar uma churrascada entre amigos, com encontros regados a bebida e carnes para se dividir os recursos desviados dos cofres públicos.

 

Máscaras

Dentro dos imóveis, cada cidadão deve agir da melhor maneira que lhe aprouver, mas quando está em sociedade, na via pública, o comportamento deve ser outro. Ninguém sai pelas ruas da cidade de roupas íntimas, já que existe um dispositivo na lei que veta tal comportamento. Desta forma, o uso de máscaras deixa de ser um problema de escolha privada, pois a sua utilização é questão de saúde pública, portanto, não diz respeito ao sujeito em si, mas ao colegiado do qual ele faz parte. Desta forma, estando na praça, aquela mesma cantada em verso pelo poeta dos escravos Castro Alves (1847-1871), o sujeito que se quer social, deve olhar que não está só e seu comportamento irresponsável afeta os demais. Se não fosse desta forma, com certeza, os dados relativos à pandemia, que já matou mais de 540 mil brasileiros, seriam bem menores. É o que se pede quando percorrermos as páginas de Kant sobre o dever sobre o que se pretende no devir. Aos interessados, recomento a leitura do livro Os onze: o STF, seus bastidores e suas crise, publicado pela Editora Cia das Letras em 2019 e de autoria dos jornalistas Felipe Recondo e Luiz Weber. gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

 

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