Tempos quase que pré-modernos

Gilberto Barbosa dos Santos

 

A sociedade está globalizada e não adianta dizerem que isso não ocorre, pois é fato, inclusive discussões importantíssimas são realizadas há muito tempo, bem antes de a humanidade ingressar no século XX: um exemplo foi o surgimento do Mercantilismo após o fiasco das Cruzadas e o fim da Idade Média. Mas o que tudo isso tem a ver com o cotidiano daquele que se arrisca a ler as linhas que confecciono e posto aqui nesta página semanalmente? Pode ser que nada, mesmo porque o mundo está vivenciando uma grande catástrofe provocada pela ação de um vírus que paralisou a sociedade e a economia há quase dois anos e é claro com a colaboração do homem que se pretende civilizado. Contudo, meus caros leitores, é possível se buscar um entendimento a partir do que afirmou a psicanalista e escritora Tania Rivera numa entrevista publicada no jornal Folha de S. Paulo em sua edição da última segunda-feira, 20 de julho enfocando o luto em tempos pandêmicos. Segundo ela, “o país sempre teve números monumentais. Isso não parece chocar ou tocar especialmente muita gente porque fica no anônimo. As pessoas só entram em contato com isso quando sofrem por alguém próximo”. O que ela afirma faz-me reportar o período da peste negra medievalista e o poema “Para quem os sinos dobram”.

Sendo assim, vos pergunto meus caros leitores, por que, quiçá haver uma forte religiosidade imperando na sociedade, ainda é impossível detectar um grau de solidariedade maior entre os pares sociais? Parece-me que aqui pode-se perceber a dicotomia entre o pensar platônico e o filosofar aristotélico. Não objetivo aqui resumir, em poucas linhas, a contribuição importante desses dois pensadores para o mundo ocidental, mas tão somente partir dos pressupostos inatos que permeia a obra de Platão, para quem o mundo perfeito não existe na sua materialidade, mas tão somente no plano das ideias, ou seja, na subjetividade do seu existir, no lado abstrato da vida, no campo intangível em que o ser existe, mas não para o seu semelhante, mas para si mesmo. Neste sentido, creio que a metafísica socrática pode ser útil quando se objetiva compreender porque o predicado consome o sujeito, mesmo sendo este o construtor daquele. Neste sentido, não é o adjetivo que forma o indivíduo, mas este que da vida àquilo lhe qualifica. Pensar assim leva o homem a um parto de si mesmo, chamado de maiêutica. Se o homem é fruto do que o meio faz dele, sobretudo daquilo que ele faz do que o mundo lhe representa e aí Friedrich Nietzsche (1844-1900) tem razão quando diz que o mundo só pode ser entendido como fenômeno estético, eu vos pergunto: qual é a distinção entre o belo e o sublime? Onde cada um deles reside na construção social do ser que deve ser construído para si?

Neste ponto de minha pequena reflexão, entendo que há espaço para um olhar presente numa crônica que a escritora Marta Medeiros publicou em seu livro Quem diria que viver ia dar nisso [Porto Alegre, RS: L&PM, 2018]. No texto Nem todo mundo (p. 10), ela afirma que “nem todo mundo veio ao mundo para brigar, para reclamar, para agredir, para difamar, para fofocar, para magoar, para se vingar, para atrapalhar – hábitos de muitos, arrisco dizer que da maioria, já que é mais fácil chamar atenção através do nosso pior do que do nosso melhor. O pior faz barulho, o pior ganha as manchetes, o pior gera comentários, o pior recebe os holofotes, o pior causa embaraço. Porém, há os que vieram em missão de paz e não se afligem pela discreta repercussão de seus atos”. Posto isso e retornando à distinção entre o pensamento platônico e o aristotélico em que o leitor atento perceberá que no primeiro, o que pauta o ser em si são questões alusivas ao imanentismo, isto é, próprio do homem, portanto, cabe a cada um de nós, buscar a compreensão da natureza humana presente no ser humano. Desta forma, entendo que Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) tem razão quando afirma que o homem nasce bom, contudo, a sociedade o corrompe. Sendo assim, o que deve ser investigado é o que consubstancia o poder dessa agregação que tem capacidade de corromper a essência do sujeito.

Se no campo platônico, daí a ideia de amor platônico, ou seja, aquele que só existe na mente e no coração de quem o sente, é possível ao investigador do social e do homem em si, perceber que a natureza humana pode não ser aquela que o indivíduo apresenta no palco da vida, valendo ai uma reflexão a partir das abordagens feitas pelo antropólogo Erving Goffman (1922-1982) sobre os papéis que as pessoas representam em seus cotidianos moldados a partir das experiências, conforme Aristóteles nos aponta em sua obra Ética a Nicômacos (SP: Martin Claret, 2012). É a partir da concepção empírica que pode se pensar o sujeito. Por exemplo, Nicômacos era o pai do filósofo, o que nos sugere a seguinte pergunta: como um filho pode escrever um tratado de ética destinado ao próprio pai? Essa interpelação nos leva ao campo dos processos de socialização primária e secundária, pois ali é entendido que é destinado aos adultos a tarefa de inculcar nas crianças valores éticos e morais através daquilo que Immanuel Kant (1724-1804) chama de imperativos categóricos e o seu dever agindo no devir do homem, pois para o pensador alemão, o homem nunca é, vivendo, portanto, um eterno vir a ser e é assim que as pessoas são governadas pelas personagens que constroem para representar no palco da vida, no tablado construído pelas relações sociais e afetivas.

Tendo essas admoestações como premissas, vos interpelo, meus caros leitores, como é possível estarmos vivendo em plena era pós-moderna em que tudo se modifica no instante seguinte, conforme Zygmunt Bauman (1925-2017) nos apresenta em várias de suas obras, entre elas Vida Líquida (Rio de Janeiro: Zahar, 2009) e Modernidade Líquida (Rio de Janeiro: Zahar, 2001), e sendo conduzidos por pensamentos pré-modernos, para não dizer medievalistas? Qual o temor do homem que se comunica com seus semelhantes por intermédio de aplicativos, casa-se através de recursos tecnológicos? Por que ainda acredita em coisas já superadas pela ciência e comprovada pelas mais diversas formas de pensamento filosófico? O que o sujeito social teme? Encontrar-se com o seu ser em si estampado no rosto de seu interlocutor? Parece-me que aqui é possível retroceder um pouco no tempo e tentar compreender esse homem social a partir da perspectiva de Thomas Hobbes (1588-1679) em seu Leviatã (São Paulo: Martins Claret, 2012) quando afirma que o homem é lobo do próprio homem e, para deixar esse seu estado natural, funda-se a sociedade, o Estado e as regras. Se isso é fato, porque muitos não respeitam as leis definidas por todos? Será aquele que se compraz com um gestor que deseja ardentemente ver instalado sob a sua batuta uma autocracia para se proteger bem como a sua prole, não lhe é igual? Como podem ver, meus caros leitores, o ser humano tem por hábito apontar o dedo sentenciador para o outro, enquanto camufla as suas mazelas dentro da mão fechada por três dedos.

Essa é uma ação simples e corriqueira, mas que esconde profundidades, muitas vezes, enraizadas na alma do ser e aqui não estou fazendo alusão ao universo religioso, mas àquilo que Platão designa como sendo o ente que movimenta o indivíduo em sociedade, isto é, o que faz dele ser o que é. Portanto, sentenciar o outro parece ser tarefa fácil quando joga para debaixo do tapete as próprias visões torpes e míopes que se tem sobre os seus semelhantes e aqui é que se encontra um dos pontos nevrálgicos do racismo à moda brasileira, pois se sentencia a partir de uma pré-disposição a condenar aquele que lhe é estranho a partir da tonalidade da pele e da condição pretérita que ela pode externar. Portanto, o homem não nasce racista, ele se torna levando em conta as escolhas que faz e das suas experiências. Por exemplo, um sujeito que é amigo de um racista, machista, homofóbico pode ser considerado como tal? Ou ele se exime dessa culpabilidade, mesmo se interagindo com o semelhante que é preconceituoso? Contudo, para não ficar aferrado a essa questão, amplamente externada por este que vos escreve, meus caros leitores, adianto a escrita e passo para a questão seguinte que incomoda tanto os sujeitos sociais que se quer conscientes de que uma sociedade diferente começa no instante seguinte à decisão tomada pelo ser em si que compreende o que se é a partir dos valores que recebeu, contudo, sem haver a necessidade se perpetuá-lo no vir a ser, isto é, no devir de sua manifestação social durante as comensalidades e outras formas de interatividades institucionais com seus semelhantes.

Enfim, pensar o homem a partir dessa perspectiva pode indicar se tratar de uma tarefa simples, mas tudo leva a crer que não é tão simplório desnudar o homem de suas vestes sociais carcomidas por valores pretéritos, principalmente os medievais, segundo os quais, a regência da vida ativa na sociedade é realizada a partir de uma ideia coercitiva construtora das instituições, conforme Emile Durkheim (1858-1917) apresenta em diversos momentos de sua obra sociológica. Sendo assim, a pós-modernidade é um automóvel que não tem marcha-a-ré, mesmo que os homens que estejam no comando assim o desejem. Por isso, compreendo que é tarefa de cada um modificar o seu devir ao se desvencilhar das teias das aranhas medievalistas e pré-modernas que ainda se apresentam em nosso presente.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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