Sobras de um amor… parte III

19.

 

A manhã de trabalho nas empresas presididas por Angélica transcorreu tranquila, sem nenhum transtorno, totalmente diferente do que havia acontecido na segunda-feira. A empresária parecia outra pessoa, o que valeu comentário entre a secretária e o diretor de comunicação. “- Roberto! Ela está completamente diferente! O que Marzinho fez para que a esposa se transformasse tanto”, perguntou Fernanda.

Roberto olhando para a amiga e querendo saber mais do que a subalterna estaria disposta a falar, informou de forma sarcástica. “- Acho que o que você sempre desejou receber do Marzinho: amor”. Fernanda fechou a cara, indicando que poderia sim, guardar um sentimento secreto n’alma, mas não dizia para ninguém. Entretanto, para dissipar qualquer duvidas que o diretor pudesse vir a ter, respondeu com muita serenidade: “- Quem não gostaria de ser amada por um homem espetacular como o Márcio”.

Assim que terminou de falar, a funcionária foi surpreendida pela empresária que perguntou o que o marido dela tinha a ver com aquela conversa no café, no intervalo de uma reunião e outra.

Enquanto Roberto tentava disfarçar, Fernanda foi direta: “- O nosso amigo aqui acha que eu tenho um amor secreto pelo seu marido”. Por saber que a sua secretária era sempre direta e objetiva, sem fazer muitas voltas, Angélica lhe foi franca, perguntando: “- E tem”.

– Eu disse ao diretor de comunicação que, agora não sabe se comunicar, qualquer mulher gostaria de ser amada por um homem como Márcio, mas não é segredo de ninguém que tenho um apresso especial por ele, contudo, toda essa querência é na pessoa e não no homem. Até porque se houvesse entre nós um envolvimento maior do que temos, com certeza, não haveria espaço para mais ninguém, inclusive você, minha cara amiga e patroa”.

– Obrigado Fernanda. Demorei para entender isso, mas com muita calma e paciência, o meu marido me fez entender isso e outras coisas mais. Assim como ele não nos deixará cair, nós também faremos o mesmo com ele. Portanto, Roberto tu e meu irmão farão companhia para Márcio hoje, enquanto eu, Fê, Debora e Tarsila compramos o mobiliário para a editora e não aceito não como resposta.

Ao término de sua fala, Angélica deixa os dois funcionários sozinhos, indo em busca de Amadeu para lhe pedir que seja parceiro do diretor no final da tarde. Enquanto isso, Roberto tenta conversar com a amiga que entre gargalhadas lhe disse: “- Deixa de ser medroso, meu caro. Seja sempre sincero com Angélica e com quem quer que seja. Não estamos aqui porque somos bajuladores, mas por sermos francos com ela e a família dela”, disse a secretária.

“- Nisso você tem razão, Fê”, sentencia Roberto.

No apartamento-editora, Tarsila e Márcio conversavam sobre o problema do dia anterior com a esposa. Os sócios tinham se tornado amigos, principalmente pela questão étnica e por estarem casados com os dois irmãos cujos psiquismos tinham sido afetados pelas truculências, violências de Jovelino e anuência de Eleanora.

“- Meu amigo, até quando tu suportarás essas inconstâncias de Angélica”, perguntou a cunhada. Antes de responder, o editor pensou e resolveu fazer outra interpelação: “- Me responda uma coisa, Tarsila: como sua irmã conseguiu ficar com ela por sete anos”.

– Por que elas são iguais em tudo: no mando, no trato e no falar com os outros semelhantes, principalmente se estão abaixo de suas condições sociais e hierárquicas. Você baixou o topete de Angélica quando não aceitou lhe ser submisso. Se quiser continuar com ela ao seu lado, não mude nada do seu jeito de ser. Permaneça assim, do contrário, tu e o general correm sérios riscos de serem trocados por outras pessoas.

“- Você está querendo me dizer que não posso mudar meu modo de ser com Angélica”, perguntou o sócio.

– Amigo! Ela é louca por ti justamente por ser o que tu és: autêntico! Não está com Angélica pelo dinheiro dela e isso a coloca em parafuso. De certa forma, ela e minha irmã se davam bem porque as duas sabiam o que cada uma faria. Rosângela pensava que a dominava, mas no fundo acabava sendo domada pelo dinheiro e o status que a sua esposa proporcionava a ela.

“- Então eu não fui o fator preponderante no fim do casamento das duas”, questionou Márcio.

– Não! Minha irmã já estava com Evelyn fazia um ano. Virava e mexia, elas se encontravam aqui no Brasil. Era mais fácil para ela vir ao nosso país, por ser livre. De certa forma, o seu aparecimento só livrou Angélica de um problema maior, pois se ela pedisse a separação, com certeza, Rosângela iria extorqui-la. Peço-te desculpas por saber disso tudo e não tentar alertar Angélica, e espero que me entenda: estava cega de ódio por conta de terem me afastado de Amadeu.

Márcio ficou pensando enquanto encaixotava todos os pertences que seriam usados na nova sede da editora e os móveis doados às pessoas que precisavam de auxílio. “- Querido! Tudo isso não tem nada a ver com vocês dois nesse presente, bem como comigo e o Amadeu. Não quero ficar revolvendo o passado, pois não podemos modificá-lo, mas utilizá-lo para caminhar adiante. Então se amas Angélica e ela a ti, penso que devem construir a vida de casal daqui para frente”, aconselhou Tarsila.

Diante do silêncio do sócio, a cunhada acrescentou: “- Na Alemanha eu percebi a maneira como ela te olhava. Nunca a vi observando Rosângela daquele jeito. Amadeu me disse que Angélica brigava constantemente com o amor que já lhe tinha. Te agredia de maneira inconsciente, mas desejava no fundo que você revidasse para que tivesse um motivo para não te ver mais, porém, a primeira pessoa que lhe vinha à mente quando acordava, era o jornalista lambão que havia virado o mundo dela do avesso. Agora tente tirar da cabeça e do coração a relação que minha irmã manteve com a sua esposa. Angélica poderá até ter queda por outras mulheres, mas creio que pensará mil vezes antes de colocar em risco o que tem contigo por conta de um tesão apenas”.

– Obrigado Tarsila. Me tirou um peso enorme das costas.

“- Quem tirou um peso de suas costas”, perguntou Angélica que já estava no interior do apartamento.

Tarsila olhou para o sócio querendo lhe dizer que a partir dali era com ele. “- Tarsila estava me falando dos tempos em que você conviveu com a irmã dela. Me disse que o amor que tu me tens é fantástico e, por isso, não devo deixá-la escapar por nada desse mundo”.

– E ela tem razão. Sei que temos falado mais sobre os nossos sentimentos do que vivenciá-lo, porém, entendo que seja importante esse diálogo, principalmente agora que estou em transição, fazendo terapia para saber lidar com os meus fantasmas e olha que são enormes, contudo, você tem me auxiliado bastante.

Tarsila observou a cunhada enquanto ela falava olhando diretamente para Márcio, notando o quanto o marido tinha ajudado, não na transformação da empresária, mas justamente na maneira como lidava com as outras pessoas. “Para um relacionamento dar certo, cada um dos envolvidos precisa dar sua contribuição”, pensou a tradutora, compreendendo que deveria também fazer a sua parte para viver de forma coerente o seu casamento com Amadeu.

Entre esse pensamento e a visão que acabara de ter do marido, Tarsila notou que Angélica já havia abraçado o seu sócio dizendo que havia ido buscá-lo para almoçar. “- Cunhada! Depois da terapia, trarei o meu irmão aqui para fazer companhia ao meu maridão, enquanto eu, tu, Fê e minha secretária compramos os móveis para a editora de vocês”, informou a empresária.

“- Por que não deixa o Marzinha escolher também”, perguntou Tarsila.

“- Porque se ele escolher móveis, como comprava roupa e mobiliou esse apartamento, a editora decretará falência antes mesmo de começar a funcionar”, respondeu sorridente Angélica.

A tradutora olhou para o sócio e se manteve em silêncio, pois sabia do gênio mandão da cunhada. Entretanto, o pouco de convivência com o editor, sabia o que ele gostava em termos de mobiliário, inclusive já tinha conversado sobre a decoração do imóvel em que funcionária a sede da Jardim da Leitura.

O casal deixou o apartamento em direção ao mesmo restaurante que foram da outra vez em que a alimentação que fizeram não continha nada de origem animal. Ao contrário daquele dia, nesta terça-feira Angélica não perguntou se o marido desejaria fazer uma refeição sem nenhuma proteína animal. Ela simples o conduziu. Márcio ficou pensando como seria difícil estabelecer certos princípios e limites para cada um deles. A esposa achava que tudo tinha que ser do jeito dela.

“- Amor! Hoje estava mais afim de comer uma carne”, informou o esposo já dentro do restaurante.

“- Por que não me disse antes”, falou a empresária.

“- Acho que deveríamos consultar o outro antes de conduzi-lo a qualquer lugar que ele possa preferir não estar”, explicou Márcio acrescentando: “- Como já estamos aqui, não vamos sair, pois seria deselegante, mas da próxima vez me pergunte antes”, afirmou o editor que tinha plena convicção que a esposa havia agido daquela forma por conhecê-lo e saber que ele jamais deixaria o ambiente.

Quando se ajustaram numa mesa, Márcio se lembrou do que Tarsila lhe disse e aproveitou o ensejo para se posicionar. “- Hoje ficaremos aqui, mas da próxima vez, sairei e se você quiser, ficará sozinha. Não é assim que um casal deve conduzir a vida e o relacionamento”.

Angélica ficou em silêncio, pois entendeu que o marido compreendeu a sua manobra, portanto, não haveria uma segunda chance. Então era melhor aproveitar aquele momento e depois a noite levá-lo para um restaurante que servisse churrasco ou pratos contendo proteína animal. “Se o quero fazendo uma alimentação mais natural, tenho que mudar a estratégia. Acho que tenho que deixa-lo escolher”, pensou a empresária dizendo em seguida que a noite poderia ir a uma churrascaria.

– Não é isso que quero. Só penso que temos que fazer tudo acertado previamente. Não me incomodo em hipótese alguma em me alimentar de comida vegana, só acho que devemos estar de comum acordo e não agir da forma como fez agora.

“- Marzinho, por que você tem que ser tão chato e transformar tudo numa conferência”, perguntou a esposa.

Sem nada dizer, o editor levantou e deixou o restaurante dizendo apenas que ela poderia almoçar sozinha. “-Minha companhia não será assaz aprazível para ti. Tchau”, disse Márcio que, mesmo coxeando a perna imobilizada, conseguiu desaparecer da frente da esposa que não esperava por aquela ação do esposo.

Ainda atônita pela reação do marido que não costuma reagir, mas ter atitudes depois de muito ponderar, a empresária deixou o interior do restaurante afirmando à atendente que guardasse a mesa, enquanto ela verificaria o que estava acontecendo com o seu acompanhante.

Chegando no estacionamento do estabelecimento, Angélica encontrou Márcio que falava ao celular na tentativa de pedir um transporte. Ela não pensou duas vezes, tomou o aparelho das mãos dele, jogou no chão e pisou em cima, destruindo completamente o equipamento. Colocando o dedo no rosto do editor vociferou: “- Por que você fez isso? Me deixou sozinha feito uma idiota dentro do restaurante”.

– Por uma razão muito simples: não costumo ficar com pessoas cuja minha presença é um saco, uma chatice. Então, entendi ser melhor você se alimentar com o seu próprio ego. Quebrar o meu equipamento é a prova do quanto tu és egoísta e só pensa em ti mesma.

“- Por que está me dizendo isso”, perguntou a empresária.

– Por uma razão muito simples: não sou seu empregado. Não quis cargo nenhum em suas empresas; não quero o seu dinheiro, porque não pretendo ser o seu serviçal, mas apenas seu marido.

Assim que Márcio terminou de falar, o transporte chegou e ele entrou no interior do automóvel, e quando o condutor ameaçou dar a partida, Angélica se jogou na frente do carro. O motorista, olhando para o editor, perguntou o que deveria fazer. “- Desvia e segue em frente”, ordenou o editor.

Angélica se levantou e correu até o seu carro, saindo em alta velocidade atrás do automóvel em que Márcio havia entrado. Quando o motorista parou no farol, Angélica jogou seu veículo na frente do veículo em que o marido estava sendo transportado. O condutor gritou com ele. “- Saia do meu carro, seu preto filho de uma puta. Olha só o que essa branquela está fazendo. Por que não come ela logo e pare de ficar dando show para todo mundo ver, seus degenerados. Nem todo mundo tem interesse nessas merdas que vocês ricaços fazem. Agora desça se não chamo a polícia”.

Assim que deixou o automóvel, Márcio quase foi atropelado pela esposa que manobrava o carro para dar caminho ao motorista. Encostou o seu veículo no acostamento e correu atrás do editor que já tinha enveredado pelo interior de uma praça. Ela gritava com ele, apressando o seu passo e quando o alcançou, puxou-o pela blusa, quase o derrubando. Desferiu um tapa em seu rosto e o beijando loucamente, em seguida dizendo, entre lágrimas: “- Seu filho de uma puta! Você faz isso porque sabe que sou louca por ti. Me desculpe, sei que peguei pesado, mas não pensei para falar. Vem! Vamos almoçar em outro lugar. Não temos condições de voltar àquele restaurante”, disse a empresária aos prantos.

Em silêncio, o editor voltou com ela até o local em que a esposa havia deixado o seu carro. Já no interior do veículo quando tentou dizer algo, foi contido por um beijo alucinado de Angélica que, chorando prometia ser diferente com ele e não o agredir tanto. “- Me dá um desconto amor, apesar dos meus 33 anos, sei que preciso amadurecer mais. Portanto, não vamos arrastar essa pequena desavença em nossa tarde”.

– Está bem! Vamos almoçar no restaurante do shopping e em seguida iremos à sua terapeuta.

Em boa parte do trajeto, o casal ficou em silêncio que foi quebrado por Angélica que falava mais por nervosismo do que por necessidade de se comunicar com o esposo. “- Não desejo ser sempre essa bomba-relógio amor. Quero ter essa serenidade que tu tens e saber andar no fio da navalha, como os seus amigos dizem que você faz”, disse a empresária quando o veículo se aproximava do restaurante da família dela.

– Tu não precisa ser o que não é. Nunca devemos ser aquilo que não somos, mas precisamos sim, sabermos quem somos, como somos e porque somos assim ou de outro jeito. Nunca pedi e nem vou solicitar de ti que seja aquilo que não é. O máximo que posso fazer é te ajudar a compreender quem tu és de fato.

“- Eu sei amor, mas na maioria das vezes, quero apenas conversar bobeiras contigo, dar risadas de coisas simples, mas há momentos que parece que tu está numa conferência de filosofia, psicologia ou coisa parecida, quando meu anseio é só ter comigo o homem que amo”, desabafou Angélica.

Ao ouvir isso vindo da esposa, Márcio ficou em silêncio, pois não era a primeira vez que ela lhe dizia isso. “Deve ter lá sua fonte de veracidade”, pensou o editor, contudo se manteve calado enquanto a motorista estacionava o veículo na vaga destinada aos proprietários do restaurante.

Antes mesmo dela chegar à porta do carona, o marido já havia deixado o assento, fazendo movimento para se colocar de pé. “- Deixe-me te ajudar, querido”, disse Angélica. Para não ser indelicado, o editor não disse nada, mas conseguiu ficar em equilíbrio e lentamente começou a caminhar em direção ao prédio. Enquanto faziam o percurso, a empresária, timidamente tentava pegar na mão de Márcio, mas temia ser rechaçada.

Se no mundo material os corpos tinham dificuldades para cumprir um simples ritual de pegar na mão um do outro, como qualquer casal, imagina como a coisa caminhava no plano das almas, onde residem os seres que animam e impelem os corpos físicos a se conduzirem de acordo com suas essências, de preferência, divinas.

Todos os amigos do editor sabiam que ele sempre andava travestido com uma armadura que o tornava invisível e impenetrável, até a chegada daquela mulher que, do nada, revirou todo o seu mundo, lhe tocando a essência protegida por um milhão de dizeres, livros, filosofias e não se sabe quantos princípios religiosos. Do nada, como que recebesse um imperativo mental, o editor parou, puxando a esposa para si, lhe dando um longo beijo dizendo em seguida que amava loucamente aquela dinamite dos olhos esverdeados que saia do eixo quando era contrariada.

“- Vou amadurecer meu amor e ser digna desse sentimento que me tens”, disse Angélica.

Márcio colocou levemente o dedo em riste na boca da esposa, dizendo que não era somente ela quem precisava crescer: ele também. “- Preciso tirar essa camisa-de-força que me aprisiona e não me deixar ficar mais à vontade contigo e levar as coisas mais na serenidade. Quando for sério, que seja assim, mas se é para harmonizar que eu saiba agir como se deve”, expôs o esposo.

No interior do shopping, o casal passou por uma loja de roupas íntimas e Márcio notou com a esposa observava os manequins. “- Entre e escolha as peças que passaram diante de ti. Te espero na livraria. Ainda temos um tempinho. Podemos almoçar com calma e depois seguirmos para a sua terapia”, estimulou o marido.

“- É sério Marzinho? Posso entrar em comprar umas coisas que quero usar contigo depois que tirar essas talas”, inquiriu a empresária.

– Claro! Vai lá. Nunca devemos deixar de concretizar aquilo que desejamos fazer e quando é possível realizar.

Enquanto a esposa se embrenhava pelos corredores da loja, o editor caminhou lentamente até a livraria, aproveitando que estava só, pegou um livro de um autor desconhecido, do qual havia lido uma crítica naquela manhã. Sentou-se e iniciou a leitura, cuja enunciação dizia respeito ao universo de um adolescente que adorava ficar sentado à beira de um rio observando o caminho que a água percorria e, enquanto fazia isso, refletia sobre o seu passado, construindo castelos que poderiam abrigá-lo quando se tornasse adulto.

Além deste, Márcio escolheu mais dois e quando foi pagar, o proprietário lhe reconheceu das colunas sociais. “- O senhor não é aquele jornalista que se casou com uma ricaça e agora lançará uma editora chamada Jardim da Leitura”, perguntou o livreiro.

“- Como o senhor sabe disso”, interpelou o editor.

– Saiu na coluna social de domingo. Inclusive a foto que ilustra tem o senhor e sua esposa. Tu tens bom gosto meu amigo. Muitos aqui no shopping desejavam ter um minuto com ela, mas sempre passava por aqui com aquele nariz empinado. O que o senhor fez para tê-la na cama?

Márcio olhou para o proprietário, dizendo apenas: “- O que nenhum de vocês fizeram: ser apenas um ser humano que a observava com olhares humanos e não de cachorros no cio”.

“- Do que os dois estão falando”, perguntou Angélica, surpreendendo o marido, enquanto o abraçava pela cintura. O dono da livraria com receio de que ela tivesse ouvido o comentário, ficou todo vermelho.

– Esse senhor, que ainda não sei o nome, porque a nossa foto, que eu nunca autorizei que fosse tirada foi parar na coluna social de um dos jornais da cidade, quer saber o que eu fiz para ter me tornado o seu marido.

Angélica olhando fixamente para o livreiro lhe disse com muita convicção: “- A paz e a harmonia que esse homem me dá não tem dinheiro no mundo que pague. Não é meu preto”, disse a empresária lhe dando um profundo beijo para provocar o comerciante. “- Quem sabe ele não escreve um livro contando aos seus leitores como se tornou esse homem especial que é: amigo, companheiro, amante, enfim, o que muitos de vocês tentam, mas não conseguem, pois colocam o cérebro apenas na cabeça do pau, achando que o órgão é de mel e todas as mulheres desejam”, disse isso e pegando na mão do esposo, puxando-o dizendo que precisavam almoçar rápido por terem negócios a ajustarem a tarde visando a inauguração da editora.

Já na mesa do restaurante, Márcio quis saber porque a esposa falou daquele jeito com o livreiro. “- Porque me deu vontade. Esses caras acham que nós mulheres só queremos seus paus. Não perceberam que existe vida para além de seus pintos eretos ou murchos? Então ele mereceu cada uma das palavras que lhe dirigi e sua boca gostosa, meu nego delicioso, o meu beijo”, disse a empresária rindo, pois sabia que o marido era todo careta e bem conservador, mas adorava ele desse jeito.

Quando o Manoel apareceu com o cardápio, saudando jovialmente o casal, o celular da empresária tocou e, ao atender, a terapeuta lhe perguntou se podia adiar a consulta para uma hora depois do agendado. “- Pode sim. Eu ainda estou almoçando com o meu marido, assim ganhamos mais um tempinho para fazermos nossas refeições de forma mais serena”, explicou Angélica.

– Olá senhor Manoel, tudo bem?

– Sim, seu Márcio. Não sei como aconteceu, mas depois que Rafael foi demitido o nosso movimento melhorou. Não quero fazer nenhum tipo de comparação, mas o ar ficou mais respirável. Ainda bem que aquele demônio racista teve o que mereceu.

“- O que aconteceu com ele”, perguntou o editor tentando parecer curioso.

– Dizem que foi assassinado dentro da prisão. Parece que chamou um agente penitenciário de macaco, de verme e por isso passou uns dias na solitária e quando saiu, não durou dois dias na cela. Não acredito que tenha cometido suicídio. Acho que foi morto e antes obrigado a escrever a carta para a mulher. Sempre dizia a ele que com o comportamento que vinha tendo, um dia acharia o dele e aí acabou encontrando o caixão.

Márcio olhou para o garçom e fez aquela expressão de quem estava surpreso com a informação que, com um pouco de diferença, havia lhe sido transmita pela general. “- O que o casal almoçará hoje”, perguntou Manoel. Para surpresa do marido, Angélica pediu uma picanha na pedra para o esposo e para ela um peixe grelhado, bastante legumes e saladas verde-escuras para os dois.

– Para ele tu traga um uísque, da mesma marca que meu irmão bebe e eu desejo uma cerveja alemã sem álcool.

“- Ué! Por que um pedido tão exótico assim, minha paixão”, inquiriu o esposo.

“- Mudanças não podem ser feitas de forma radical e sei o quanto você gosta dessas carnes vermelhas e não tem exagerado. Também creio que um uísque não comprometerá tuas funções hepáticas”, respondeu a esposa, lhe beijando harmoniosamente.

Márcio aproveitou e, por baixo da mesa, acariciou uma das pernas da esposa que sentiu que seu rosto afogueava, enquanto sua vagina começava a ficar umedecida. O esposo observou seus olhos que estavam mais verdes e os pelos dos braços mais arrepiados. “- O que é isso”, perguntou o editor.

– Desejo de que tu tires essas talas amanhã e retomemos o nosso casamento de onde ele parou naquela noite em que te agredi com um pontapé. Agora se não for esse o seu mesmo anseio, podemos conversar.

Subindo mais a mão em direção à vagina da esposa, Márcio respondeu que se ela adivinhasse o que se passava pela cabeça dele, lhe diria o que lhe ia n’alma. “- Você quer que eu adivinhe o que vai na sua cabeça, mas não me disse qual é o órgão. É aquela que está em cima do pescoço ou no meio das pernas”, perguntou Angélica, provocando uma reação de riso no marido, que sorria até com os olhos.

– Obrigado Marzinho! Fazia um tempão que eu não via esse sorriso lindo que tens.

Diante do comentário da esposa, o editor abraçando-a disse baixinho em seu ouvido. “- A cabeça de baixo está mandando na de cima e o que é maravilhoso. Quero te fazer gozar até chegar as estrelas. Me aguarde, meu tesão delicioso, minha vida”. Ela ficou mais excitada ainda, adiantando a informação de que comprou umas coisas bem sexys para usarem na quarta-feira.

Manoel chegou com o pedido e, enquanto servia, Márcio sorveu um gole do uísque, indicando ao garçom que desejava outro. Tudo pronto e o casal começou a ingerir seus pedidos e o editor, entre uma garfada e outra, falava do dia em que almoçaram naquela cidade distante no Pontal. “- Obrigado por me amar do jeito que sou, querida, completamente atrapalhado”.

Angélica se limitou a olhar para Márcio lhe enviando uma piscada e um aperto de mão. Assim que terminou de engolir a comida que tinha dentro da boca, a empresária se limitou a dizer que se precisasse fazer de nova aquele périplo para trazê-lo de volta, faria sem pensar duas vezes.

Ao término do almoço, o casal olhou para o relógio observando que faltava meia-hora para a sessão terapêutica de Angélica. Marido e mulher ingressaram nos respectivos banheiros do restaurante, fizeram a higiene bucal, deixando o local em direção à clínica psicológica. Quando ingressaram na antessala se depararam com a funcionária com quem tiveram divergências no começo do tratamento.

A situação poderia ter ficado insustentável, caso Márcio não agisse rápido, dizendo à esposa que não dessem atenção a ela e nem falasse nada com a psicóloga. Tudo deve ter ocorrido por conta da mudança do horário e não foi possível fazer os devidos ajustes. Angélica respondeu ao ouvido do esposo que não se incomodasse com aquela sirigaita.

– Agora, se ela ficar te paquerando enquanto sou atendida, pode ter certeza de que irá me visitar no presídio e ela estará no cemitério comendo grama pela raiz.

– Por que tudo isso? Não estou a fim de ficar sozinho pelo resto de minha vida. Ainda mais agora que tenho uma bela estrela que faz meus dias e noites serem mais iluminados. Te quero agora, depois, depois e até que o infinito chegue ao final.

A secretária, sem se quer lançar um olhar para o casal, entra na sala da terapeuta, saindo em seguida informando que Angélica poderia entrar. Márcio observando a esposa, indica que não é para falar nada sobre a secretária. A terapeuta lhe pergunta se estava tudo bem.

“- Pelo que observo a senhora está bem. Vejo um brilho diferente em seus olhos. Quer falar sobre isso”, perguntou a psicóloga.

– Acho que pode ser por conta desse homem que tenho do meu lado. A cada dia que passa, me deixa mais segura, apesar de minhas crises. Ontem parecia que estávamos no meio de uma enorme tempestade e ele conseguiu fazer com que fosse um evento sem tanta importância.

“- Por que acha isso”, inquiriu a terapeuta.

– Porque não ficou me perguntando nada. Achei que não desejava me conduzir para o sofrimento que tive com o pesadelo. Às vezes, acho ele meio pedante, parece que está sempre defendendo uma tese ou usando o seu conhecimento para se esconder. Acho que é meio ou totalmente inseguro.

– Ele quem?

– O Márcio, meu marido.

“- Você já disse isso a ele”, lhe perguntou a psicóloga.

– Já, mas parece que não se toca.

“- E você, como se sente quando está com ele? Essas teses todas não te afetam? Não te irrita ao ponto de querer deixá-lo, pedir a separação”, perguntou a terapeuta.

– Às vezes sim, às vezes não, mas gostaria que ele fosse mais leve, sereno.

“- Ele sempre foi assim, ou tu achas que tudo não passa de uma ferramenta, uma muleta que usa para se esconder”, questionou a analista.

– Se esconder do que?

“- Sei lá! Seria interessante conversarem sobre isso”, estimulou a psicóloga, percebendo que Angélica mudava o foco da conversa, indicando não querer falar de si, mas apenas do outro, do marido. “- Bom! Se ele é tudo isso de ruim que está dizendo, então acho que seria o caso de uma separação. O que achas”, indagou a profissional.

– Nem pensar. Ele tem essa parte, mas a outra supera tudo. Traz-me paz, harmoniza, cuida do meu coração, atura minhas infantilidades como hoje antes de almoçarmos. Brigamos porque eu queria ir a um restaurante e não lhe dei opção, achando que tinha que ser do meu jeito.

– Parecido quando tu estavas com seu pai?

“- Do que você está falando”, inquiriu Angélica.

– Preste atenção nas suas ações quando está com seu marido. Tente entender o que esse homem tem para te suportar, bem como fazer todos os seus gostos. Quando diz não a ti, tudo termina em confusão que só é contornada depois que o seu marido aceita seus pedidos de desculpas, mas ainda assim, tem esse lado dele que dizes ser ruim.

Enquanto a consulta prosseguia dentro da sala da psicóloga, na antessala Márcio se ocupou em ler o romance que tinha comprado na livraria do shopping. Fez um movimento com o rosto que não passou despercebido pela secretária que tentava não olhá-lo, mas depois que a notícia do casamento dele com a empresária correu a cidade inteira, a secretária passou a pensar nele, buscando algo que fez com que aquela milionária caísse de amores por ele.

Ao fechar o livro e se encostar na poltrona, recordando o que a esposa tinha dito ao livreiro momentos antes, os olhos deles ganharam um brilho diferente e um sorriso tímido apareceu em sua face. Elizabeth notou, mas se manteve em silêncio, pois sabia que um passo em falso poderia provocar um terremoto. A fama de ciumenta de Angélica tinha corrido a cidade e todos sabiam que o editor era intocável, e talvez por isso, se tornava especial.

“- Fiquei sabendo que o senhor inaugurará sua editora em breve. Parabéns”, disse timidamente a atendente.

“- Sim. Os jornais informaram corretamente”, respondeu o editor educadamente, pois sabia que no ramo que estava ingressando não podia ser antipático com ninguém, justamente porque poderia se tornar um eventual leitor dos livros que sua empresa colocaria no mercado livreiro.

“- Por que se enveredar por esse caminho, quando sua mulher tem tanto dinheiro”, inquiriu a funcionária.

– Por uma razão muito simples, minha cara: o dinheiro é dela e não meu. Quem trabalhou para conquistar foram os familiares de minha esposa, portanto, devemos deixar o resultado do trabalho a quem lutou para produzi-lo. Nunca quis nada do que eu não me esforcei para tê-lo. Me casei com a empresária porque á e mulher com quem desejo passar o resto de minha vida, podendo ser numa palafita, embaixo de uma árvore, num barraco ou debaixo de uma ponte: se ela estiver comigo, serei como estou sendo agira, um homem extremamente feliz.

Ao dizer isso, Márcio voltou os olhos para a página em que estava lendo. O tema era mais interessante do que ficar dando terreno para aquela secretária que queria saber além do que deveria, pois era paga para atender bem os pacientes de sua patroa.

Quando tirou o foco da atenção de Elizabeth, esta ficou pensando no que ouviu. Realmente, o editor era uma pessoa interessante, bem diferente daqueles indivíduos com quem saia e conversava. Era a mesma coisa de sempre disso e daquilo, de comprar carros e se tivessem dinheiro, nunca mais trabalhariam. Diante dela, havia um homem que tinha a chance de fazer tudo isso, no entanto, recusava-se a seguir o receituário da maioria dos homens que passou pela sua vida e cama.

A exemplo de Fernanda, Elizabeth já estava na casa dos 30 anos e, por mais que tentasse, não conseguia se ajustar a nenhum deles e a idade já ia chegando e sabia que depois de um certo ponto, a solidão começaria a ser a melhor amiga de uma mulher. Olhando fixamente para Márcio, ela arriscou mais uma pergunta, pois sabia que ele, por mais irritado que pudesse estar com ela e por conta das suas ações umas semanas atrás, não deixaria de responder.

– Será que o senhor pode me responder uma última pergunta?

Sem tirar os olhos do livro, o editor respondeu respeitosamente que sim.

– Não consigo me firmar com nenhum namorado. Às vezes penso que o problema está comigo, mas tenho certeza de que não. O que o senhor acha que eu devo fazer?

– Parar de procurar a pessoa que deseja para ser sua parceira nos mesmos lugares de sempre. Não é possível esperar resultados diferentes, agindo de modo semelhante. Por exemplo, se você não estuda, atrairá para ti pessoas que tenham a mesma vibração. Se não se respeita, atrairá para ti pessoas com esse mesmo diapasão. Se não se der a chance de ser feliz, procurará sempre homens que se parecem com o seu pai: patriarcal, mandão que só a querem para uma coisa: cama e se apossar do seu ser, sem lhe dar nada em troca.

Elizabeth tentou esboçar alguma reação, mas estava surpresa com o que ouviu da boca daquele homem que parecia saber o que lhe ia n’alma. “- Onde encontro uma pessoa como o senhor”, perguntou Elizabeth.

– Em lugar nenhum. A única pessoa de que precisa está dentro de ti. Esse é um grande erro que a maioria dos seres humanos comete: procurar no outro aquilo que deve encontrar dentro de si mesma. O dia que se compreender, ou pelo menos tentar fazer isso, talvez o seu sonho se realize e a pessoa que tanto quer, para ser sua parceira, surja. Então tome cuidado porque pode estar vivenciando relações vampirescas: tu sugas e é tragada e quando acaba o néctar que chamam de amor, de alguma forma o vazio se apresenta entre o casal.

Assim que Márcio termina de falar, Angélica e a terapeuta deixam a sala. Ela olha para o marido e à secretária, percebendo que os dois conversavam. Para evitar novos constrangimentos, Márcio se levanta, perguntando se já podem ir. Elizabeth para quebrar o clima que sentiu complicado, deseja ao editor sucesso na editora. “- Quem sabe não me torno uma cliente comprando livros que você publicará”.

“- Ficarei honrado em tê-la como leitora de meus livros”, disse Márcio já com a mão na maçaneta, pois sabia que se ficasse ali mais uns minutos, a esposa pularia no pescoço da secretária.

Dentro do carro, Angélica, já exasperada, disse entre os dentes: “- Eu sabia que deveria tomar cuidado com você e aquela vaca. Estava marcando encontro com ela né. Está usando meus transtornos para vim vê-la e, enquanto fico nas empresas trabalhando, tu vai para o motel com aquela vagabunda”.

– Por que eu sabia que tu agirias desta forma? Eu apenas fui educado com ela e devo ser sempre, afinal minha editora deixará de ser um sonho, para ser uma realidade, então os clientes são extremamente importantes.

– Realizará seu sonho com o meu dinheiro, enquanto come as clientes. Venderá seus livros no motel com elas.

– Pegue esse seu maldito dinheiro, que só transtorno trouxe a ti e aos seus familiares e enfia no cu. Se não couber tudo, leva para o cemitério contigo, vá para o inferno com ele. Estou farto dessas suas criancices. Porra será que não consegue enxergar para além dessa sua ciumeira boba. Olha só o que fez com a minha perna e nem por isso eu te deixei. Agora só porque fui gentil com uma pessoa, lá vem você achando que estou comendo, que quero levar para o motel. Sinceramente não sei de onde tiras tantas baboseiras.

Angélica ficou em silêncio, enquanto Márcio despeja tudo o que está suportando com as crises e chiliques da esposa. “Foi tu quem pediu para eu vir contigo. Daqui para frente, se quiser, venha sozinha. Chega. Estou fazendo papel de palhaço. Não aguento mais tanta humilhação. Por favor me deixe no meu apartamento. Se não puder, eu peço um transporte”, sentenciou Márcio, já saindo do carro. Ao bater a porta, olhou para dentro do carro e disse a esposa: “- Esquece essa porra de editora e esquece que me conheceu e que eu existi em sua vida”.

Mesmo coxeando, o editor dobrou a esquina e desapareceu, enquanto Angélica ficou imóvel dentro do automóvel do lado do motorista. O marido andou dois quarteirões e encontrou um ponto de taxi, pegando o primeiro da fila, indo ao seu apartamento. Ao chegar no imóvel, pediu para o motorista aguardar enquanto subia. Só tinha uma coisa para fazer.

Entrou no apartamento esperando encontrar Tarsila, mas havia apenas um bilhete dizendo que assim que chegassem, era para ligar e combinar o local em que se encontrariam. No lugar da assinatura, havia apenas um T. Márcio lembrou que estava sem celular, pois Angélica havia quebrado o seu no estacionamento do primeiro restaurante que foram. Sendo assim, ela não o encontraria em hipótese alguma.

Colocou umas roupas dentro de uma velha bolsa que encontrou no cômodo que havia lhe servido de quarto, deixando o apartamento em seguida. Entrou no taxi e desapareceu naquela tarde, sem deixar nenhuma pista de onde poderia estar. Assim que o veículo conduzindo Márcio deixou o local, o carro de Angélica estacionou e ela entrou no prédio como uma doida e, ao ingressar no apartamento, notou que não havia ninguém e o marido havia passado por lá, mas saíra rapidamente. Só viu o bilhete e, como o ciúme tinha lhe cegado e turvado o raciocínio, entendeu tudo errado o que leu.

“- Filho de uma puta. Se eu achá-lo, o matarei e essa quenga também”, berrou a empresária dentro do apartamento vazio.

Ainda transtornada, ligou para Roberto, pois sabia que o editor o procuraria. “- Roberto, onde está o seu amigo. Aquele filho da puta está me traindo. Se sabes onde ele está vai me falando, porque se eu o encontrar, pode dizer a todos que o seu amigo é finado.

– Dona Angélica quer me dizer o que está acontecendo?

Ao fazer essa pergunta, o diretor chama Fernanda pelo interfone. Diante do silêncio da empresária, o amigo entendeu que os dois tinham brigado e ela achava que Márcio o procuraria ou já tinha falando com ele ou Fernanda.

Ao entrar na sala, a secretária perguntou o que estava acontecendo. Mas ao escutar Angélica berrando perguntando pelo marido, entendeu tudo. Automaticamente tentou localizar o amigo, mas sem sucesso. “- Será que os seguranças conseguem rastreá-lo, Roberto”, perguntou a secretária.

“- Vamos aguardar Fê”, disse Roberto, acreditando que o amigo entraria em contato.

Angélica ficou no apartamento em prantos, ligando a todo momento para o diretor para saber do marido. “- Angélica eu não sei onde o Marzinho se encontra. Já tentamos ligar para ele, mas o telefone está indisponível. Assim que falar conosco, te informaremos. Agora procure se acalmar. Me conte o que aconteceu”, pediu Roberto, mas a empresária não conseguia falar, pois só chorava, dizendo que foi tudo culpa dela.

Eram quatro horas quando Roberto terminou de resolver umas questões de publicidade do grupo, chamou Fernanda e foram até o apartamento de Márcio. Quando chegaram, perceberam que o carro de Angélica ainda estava lá. “- Fê, deixa que eu converso com ela. Tenho certeza de que Angélica aprontou mais uma para o Márcio e ele não aguentou mais. Vamos tentar manter essa situação apenas entre nós. Tudo bem”, perguntou.

O casal ingressou no apartamento, encontrando a empresária desolada, deitada no sofá com o papel em que havia o bilhete deixado para Márcio. Ao ver os amigos, Angélica apenas entregou o papel a Roberto e abraçou Fernanda. “- Estou te dizendo: o Márcio me deixou para se encontrar com essa tal de T aí. Não assinou o nome inteiro para que não desconfiassem quem é ela”, disse entre lágrimas a esposa. “- Como sabia que íamos rastreá-lo, quebrou o telefone”, completou Angélica.

A empresária estava tão transtornada que não conseguia enxergar que o esposo estava sem o celular porque ela havia quebrado o aparelho no começo daquela tarde. O telefone de Roberto tocou e antes mesmo que ele pudesse falar alô, a amiga tomou o aparelho das mãos dele e já foi xingando quem estava do outro lado da linha, achando que era o marido.

– O que é isso Angélica? É Danisa! E o que faz com o telefone do meu marido? O que está acontecendo?

Com o telefone em mãos, Roberto explicou o ocorrido à esposa que, irritada disse: “-Tomara que ele não volte mais. Essa doida está acabando com a vida dele. Te quero fora dessa bagunça toda. Os dois já são bem grandinhos para resolverem suas rusgas e infantilidade de sua patroa. Tchau”.

Enquanto os amigos tentavam acalmar Angélica no apartamento do marido, Márcio entrava no quarto de um hotel na cidade vizinha, onde havia acabado de chegar. Quando estava no taxi pediu ao chofer que parasse na rodoviária e assim que chegou às bilheterias, comprou passagem para a primeira cidade que viu e tinha ônibus disponível.

Se registrou com o primeiro nome que lhe veio à cabeça, pagou em dinheiro a diária e ainda deu uma gorjeta para o atendente, dizendo que não queria ser incomodado por ninguém. O balconista anuiu com a cabeça, mas tinha certeza de que tinha visto aquele homem em algum lugar, só que não se lembrava onde.

Dentro do quarto, Márcio se jogou na cama, dormindo rapidamente, mesmo tendo lágrimas vertendo dos olhos. Acordou quando a noite já ia alta. Entrou no banheiro e, enquanto tomava banho, sentiu o estômago vazio. Assim que terminou de se higienizar, foi para o quarto, se arrumou, ligando para o atendente perguntando se havia algo para comer. Ao ser informado que a cozinha poderia lhe preparar um lance, aceitou de pronto.

Enquanto aguardava o pedido chegar, Márcio tentou se situar onde estava, inclusive o horário. Os ponteiros do relógio indicavam que passavam das dez horas. O sanduiche chegou e o editor recebeu o alimento, dando uma gorjeta para o funcionário. Enquanto degustava o alimento, pensava na mulher e sabia que seria impossível restabelecer novo contato com quem quer que seja de sua cidade. Em virtude do amargor que lhe ia n’alma, Márcio não conseguiu comer todo o lanche. Achou algumas cervejas na geladeira e começou a beber, uma atrás da outra e por fim, já embriagado, dormiu e não percebeu que a chuva lá fora começava a surgir.

Na cidade vizinha, Angélica estava em pânico e a confusão do bilhete tinha sido desfeita com a chegada de Tarsila. “- Porra Angélica, está doida? Essa aqui é a minha letra e esse T eu sempre usei quando queria me comunicar com o seu irmão. O bilhete era para o Márcio que deveria estar contigo e depois sairíamos para comprar os móveis para a editora. Realmente, ele tem muita paciência contigo e se sumiu é porque você falou alguma merda profunda para ele”, disse de forma exasperada a cunhada.

Eleanora foi informada do sumiço de Márcio, porém, ninguém quis falar sobre o real motivo, mas como ela conhecia bem a filha, sabia que a empresária tinha feito alguma merda grande. Antes mesmo de deixar a mansão, chamou seus principais seguranças e pediram para achar o genro. Ela temia que ele havia sido sequestrado.

Ao chegar no prédio em que Márcio usava como sede de sua futura editora, a sogra quis saber tudo e não era para lhe esconder nada. Angélica desabou e contou tudo o que tinha ocorrido, inclusive quando o ofendeu por conta do dinheiro. Fernanda ficou possessa quando ouviu essa informação, mas se conteve a partir do olhar de Roberto que pediu licença para ir ter com a esposa, chamando a secretária para o acompanhá-lo. A amiga entendeu, pois sabia que poderia fazer ou dizer coisas que poderiam se arrepender depois.

– Roberto! Não desligue o telefone e qualquer contato do Márcio, por favor me informe.

– Tudo bem Angélica, pode deixar.

Eleanora olhou tanto para Roberto quanto para Fernanda e ocorreu que se Márcio tentasse falar com um dos dois, a filha jamais saberia. Os três eram unha-e-carne. Tarsila também deixou o apartamento, retornando à mansão, se despediu da cunhada dizendo que jamais seria capaz de praticar uma canalhice daquela com ela e nem com o marido que amava muito. “- Tudo bem Tarsila, eu que lhe peço desculpas. Fiquei completamente passada e não consegui raciocinar direito”, disse Angélica.

Assim que estavam apenas a empresária e sua mãe no apartamento que era de Márcio – Angélica se recusou a voltar para a sua casa sem a companhia do esposo – Eleanora ligou para os seus seguranças, descobrindo que ele tinha deixado a cidade, mas ninguém sabia para onde havia ido. A presidente de honra das Organizações Oliveira pediu o celular da filha e pegou os números de Roberto e Fernanda.

– Para que a senhora quer isso mãe? Se o meu marido ligar, eles vão me falar.

– Eu tenho cá minhas dúvidas. Márcio desapareceu. Saiu da cidade e com certeza, cedo ou tarde entrará em contato com um desses dois e eu quero saber quando isso acontecerá.

Novamente a sogra de Márcio falou com os seus seguranças e, em cinco minutos os dois números estavam grampeados, de modo que se o editor tentasse falar com o casal de amigos, saberiam em cinco minutos e de onde ele estava chamando. Eleanora vendo a filha abalada e sem reação, só dizendo que não sabia como ia viver sem o marido, foi até a cozinha fez um chá com umas ervas usadas como calmante, levando para Angélica.

Assim que as duas ingeriram a bebida, a sogra de Márcio convidou a empresária para se deitarem. Ficaria com ela até que o sono chegasse. Olhou para o relógio e já eram onze horas e o céu estava sendo iluminado pelos raios que indicavam chuva próxima.

No hotel na cidade vizinha, Márcio acordou por volta das duas horas e sabia que tinha que avisar os amigos, mas temia que os dois fossem forçados a dizer à Angélica onde ele estava. Então fez uma ligação a cobrar para o celular de Fernanda que prontamente atendeu a ligação. “- Alô! Marzinho! Onde você está? Como e por que sumiu”, perguntou a amiga.

– Ué Fê não está dormindo. Você tem trabalho amanhã cedo.

– Esquece o trabalho. Estou possessa com a sua mulher. Tenho certeza de que se for para as empresas amanhã, brigaremos e eu não quero fazer isso. Mas me diga onde está?

– Em lugar nenhum, querida. Apenas liguei para dizer que estou bem e que ficarei onde estou hospedado e amanhã eu mesmo darei um jeito de tirar essas talas da minha perna e aí eu vejo para onde vou.

– Você está aqui na cidade?

– Não! Mas não precisa saber por hora onde me encontro. Só me faça um favor: deixe uma mensagem no celular do Roberto dizendo que estou bem. Eu desconfio que grampearam o telefone dele.

– Se fizeram isso, então se eu deixar mensagem vão saber. Sendo assim, converso com ele na empresa amanhã. Sabendo que tu estás bem, trabalharei mais tranquila. Beijos. E vê se fica bem. Essa mulher está te tirando os sentidos, meu amigo. Eu sei que tu a ama, mas procure se amar mais do que a ela.

– Está certo Fê. Pensarei no que me disse, mas preciso estar longe de tudo e de todos para pensar com calma. O meu mundo anda está muito tumultuado. Estou com saudades daquele Márcio que lia descontraidamente num bar numa certa noite. Não posso deixar que o leitor perneta morra.

Ao ouvir o amigo dizer isso, Fernanda ficou mais serena, pois sabia que aquele Marzinho não tinha sido tragado pelas loucuras da mulher e por conta do amor que ele lhe sentia. “- Eu também, meu amigo. Quero aquele Márcio de volta. Se você o encontrar, lhe diga que tenho enormes saudades. Beijos querido. Fique bem e volte para nós o mais rápido possível”.

Desligando o telefone, tanto o editor quanto a amiga se sentiam mais leve. Realmente Fernanda conseguia tirá-lo do meio do turbilhão, lhe devolvendo a calmaria. Ele só não conseguia entender porque não se apaixonou por ela, ao invés da empresária amalucada. “Ah isso são coisas que somente o doutor destino pode responder. Nós mortais não conseguiremos ter resposta para tudo”, pensou Márcio voltando para cama.

Enquanto todos dormiam, a equipe de segurança contratada por Eleanora conseguia o que ninguém imaginava ser possível: encontrar o editor menos de 24 horas de seu desaparecimento. Eram sete horas quando o celular da sogra de Márcio tocou e, ao atender, foi informada onde o genro se encontrava, inclusive uma foto do prédio em que estava hospedado e o quarto de onde tinha feito a chamada para a amiga Fernanda.

– Por favor, transfira a gravação da conversa para o meu celular e o de minha filha. Obrigado pelo trabalho. Depois vamos jogar umas partidas de futebol.

Assim que ouviu o teor da conversa entre Márcio e Fernanda, Eleanora percebeu que não havia nada de mais ali, apenas o que todos sabiam haver entre os dois. Então não iria revelar nada à filha, entretanto, ela já tinha escutado, pois tinha acordado com o barulho da mensagem chegando em seu aparelho. “- Mãe que conversa é essa”, perguntou a empresária.

– Que Márcio teve com Fernanda essa madrugada. Ele desconfiou que Roberto estaria grampeado, então ligou para a amiga, mas eu pedi o mesmo procedimento para o aparelho dela. Agora sabemos onde ele está e o que pretende fazer.

Olhando para a filha, Eleanora perguntou: “- Você sabe o que significa leitor perneta”. “- Sei sim mãe. Era como Fernanda o chamava por conta do jeito que se conheceram. Ela disse que está com saudades daquela pessoa e acho que tenho uma grande parcela de culpa pelo desaparecimento dela”, justificou Angélica.

– Pare de ficar se culpando. Vamos buscar o seu marido e resolver tudo isso. Não fale com ninguém que sabemos onde ele está. Deixe uma mensagem no celular do Roberto avisando que não irá trabalhar essa manhã porque está indisposta. Se der alarde que sabe onde o seu marido está escondido, é capaz de Roberto entrar em contato com ele, pois o número do telefone ficou gravado no celular de Fernanda.

Mãe e filha saíram em direção à cidade em que Márcio se escondia e Fernanda chegou na empresa toda feliz dizendo a Roberto que o amigo tinha falado com ela pela madrugada. “- Ele me disse que não iria te ligar porque desconfiava que seu celular estava grampeado e iam saber onde ele estava”.

Roberto pensou um pouco, pegou o seu aparelho e notou um pequeno censor na parte de cima do equipamento. Aquilo não estava lá no dia anterior. Ele pediu o dela, explicando: “- Se eles me grampearam, com certeza você também está”, disse o diretor olhando no visor do aparelho da amiga, percebendo o mesmo ponto.   “- Olha aqui. Idêntico ao meu”.

O diretor ficou pensando em como resolver aquilo sem chamar a atenção de ninguém. De todas as formas que idealizava para alertar o amigo, não havia saída. Quando finalmente tomou a decisão de usar o seu equipamento mesmo, a coisa já tinha tomado outro rumo. Márcio atendeu o telefone no quarto de hotel e assim que falou alô, o diretor relatou o que havia acontecido e o editor escutou baterem na porta e Angélica gritando para ele abrir, enquanto o camareiro exigindo que ela falasse baixo para não acordar os outros hospedes.

– Obrigado meu amigo, pela tentativa, mas ela já está aqui na porta do meu quarto no hotel. Deixe-me abrir se não acordará todos os hospedes. Mas de qualquer foram, lhe sou grato pela tentativa de me avisar. E olha não vão se prejudicar por minha causa. Você e Fê fiquem firme no trabalho.

Assim que Márcio desligou o telefone, mãe e sogra já estavam dentro do quarto, pois o atendente não teve outra saída senão usar a chave extra para franquear a entrada das duas mulheres no quarto do hóspede.

Pedindo mil desculpas ao cliente, o atendente deixou o quarto, cuja porta foi fechada em seguida. Angélica olhou para a mãe, pedindo para a ela esperar no carro, pois a conversa era entre ela e o marido. “- Tudo bem filha, mas só acho que Márcio deveria entender que os nossos problemas são resolvidos internamente e não precisamos de plateia enquanto equacionamos todos eles”, disse Eleanora que obteve como resposta a seguinte observação do genro: “- Respeito a sua opinião, mas acho que se tentei desaparecer é porque não estou suportando mais essas criancices de sua filha e justamente por ser consequência de uma adolescência turbulenta que ela teve em companhia de você e do Jovelino”.

“- Vocês dois querem parar”, disse Angélica de forma exasperada. “- Mãe faça o que lhe pedi, por favor”.

Eleanora cumpre com o combinado com a filha, deixando as dependências do hotel, indo em direção ao automóvel, onde ficaria aguardando o retorno da filha e do genro. Embora ela tenha lhe dado uma reprimenda, sabia que Márcio estava no limite, pois Angélica vivia fazendo cenas e aprontando para ele. Enquanto estava no carro, a sogra pediu para a equipe de segurança desabilitar o monitoramento que havia feito nos aparelhos de Roberto e Fernanda. Logo em seguida ligou para o diretor pedindo desculpas por ter feito aquilo. Era a única forma de encontrar o Márcio. Depois fez a mesma coisa com Fernanda.

Dentro do quarto de hotel, Angélica não disse nada, não implorou pelo retorno do marido. Apenas o abraçou e o chamou para irem embora. “-Vamos. Não diga nada. Temos um casamento para ser construído se, de fato, existe aí dentro de ti o amor que diz sempre nutrir por este coração aqui que vive metendo os pés pelas mãos”.

Em silêncio, o editor pegou a sua pequena bagagem e de mãos dada com a esposa, deixou o quarto de hotel. Chegando na recepção apenas pediu desculpas pelo incômodo. Quando estava na porta para sair do estabelecimento, o editor escutou o funcionário comentando com o colega: “- Como esse homem tenta fugir de um mulherão desses? E você viu a sogra dele, que delicia de coroa. Se eu estivesse no lugar dele comeria as duas”.

Só para dizer aos dois que ouviu a conversa, Márcio olhou para a dupla fazendo um movimento de negação com a cabeça e os funcionários entenderam que excederam no comentário. Já dentro do carro, a sogra lhe pediu desculpas pela forma áspera com que se dirigiu a ele ainda dentro do quarto de hotel. “- Não precisa se desculpar de nada, minha cara Eleanora”.

Quando chegaram à cidade de origem, a sogra ficou no restaurante de Alexandre e o casal foi direto para a clínica ortopédica. Márcio queria se livrar daquelas talas. Durante o percurso entre uma cidade e outra, a conversa foi meio tensa, mas os três sabiam que não era ali o local ideal para falar alguma coisa, até porque quem precisava se entender era Angélica e Márcio e a sogra já tinha ido além do que lhe apetecia, até porque ela era uma das principais responsáveis pelo estado psíquico da filha.

Já na clínica, o editor foi examinado pelo ortopedista que fez todos os procedimentos necessários e avaliações, afirmando em seguida que tudo estava bem, mas era preciso muito cuidado com a região afetada pelo pontapé desferido pela esposa que ouvia tudo em silêncio. Ali ela havia compreendido mais um pouco sobre os problemas físicos que a sua presença na vida do editor lhe acarretou.

Dentro do carro, quanto ela tentou dizer alguma coisa, o esposo foi categórico ao lhe dizer: “- Vamos deixar para conversarmos à noite em casa. Hoje há um montão de coisas para resolver que não foram realizados ontem. Temos que comprar os móveis para a editora. Preciso também ver as capas que Ricardo me mandou e providenciar a diagramação dos livros. Vamos nos concentrar nisso. Pode me deixar no apartamento e mais tarde almoçaremos, além de ter que providenciar um novo celular. Aquele que eu tinha você quebrou ontem”.

Em silêncio, a empresária ligou o automóvel e chegando em frente ao prédio, Márcio desceu dando um beijo no rosto da esposa, lhe perguntando se ela viria para pegá-lo para o almoço. “- É isso que tu queres? Continuar casada com uma mulher que só te mete em confusão. Que não dá conta das loucuras dela e do ciúme que tem de ti”.

– Lembre-se do que me disse no quarto do hotel: temos um casamento para construir. Então se estou aqui contigo, é claro que podemos tentar novamente, se for esse o seu desejo, mas conversaremos sobre tudo isso à noite. Então fico te esperando. Te amo.

Ao dizer isso, o editor entra no prédio e se dirige ao seu apartamento. Já dentro do imóvel vai até a cozinha preparar um café, mas foi surpreendido pela esposa que o abraçou por trás, chorando pede-lhe perdão, dizendo que não sabe viver sem ele e entende que o ciúme a faz perder todas as nuanças racionais que tem.

“- Será que a noite eu posso me encontrar com o leitor perneta”, perguntou Angélica.

Márcio achou estranha aquela fala, pois foi era a expressão usada por Fernanda quando se referia a ele e foi uma das coisas que falaram na madrugada. “- Tudo bem, querida, a noite conversamos mais. Agora fique calma e vamos trabalhar”, disse o editor dando um beijo carinhoso na esposa.

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