Usurpadores do ser em si

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Para começo de conversa: quem são os usurpadores do ser em si? Essa interpelação pode levar o leitor consciente, e com cidadania, a navegar por diversos oceanos da política, da construção da sociedade e seus meandros econômicos e os escombros dos poderes palacianos, justamente aqueles que induzem sujeitos a fazerem de tudo para se apossar de um quantum de mandonismo. Desta forma, meus caros leitores, vos peço licença para iniciar o nosso diálogo de hoje usando uma observação feita pela escritora russa naturalizada norte-americana Ayn Rand (1905-1982). “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.

Esse ponto é importante, mas antes de adentrar no seu bojo, creio que é interessante outro fragmento que recolhi do livro Pensadores da liberdade. “O mundo está repleto de oportunistas de plantão, manipulando os mais inocentes e leigos de forma a obter total controle sobre suas vidas. O melhor antídoto contra essa malícia é o conhecimento. Uma pessoa que aprende a refletir, questionar e buscar a verdade de forma objetiva e honesta dificilmente será uma presa desses oportunistas” [Rodrigo Constantino. Introdução. In Pensadores da liberdade. SP: Faro Editorial, 2021, p. 11]. Será que é possível, a partir desse duplo olhar, iniciar uma viagem para, quiçá, compreender quem são os seres que usurpam o ser do ser? Creio que a primeira coisa a ser feita nesse processo de busca, é entender quem é o indivíduo, ou sujeito social. Lógico que nunca me cansarei de indicar que o homem só se tornará como tal a partir do momento em que receber valores éticos e morais de seus respectivos ambientes de socialização, mas não é somente isso, pois de acordo com Jean-Paul Sartre (1905-1980), esse mesmo sujeito só se torna emancipado a partir do momento em que tem condições de recusar o papel que as instituições externas, portanto, coercitivas, lhes determinar.  Sendo assim, é possível dizer que o homem só se tornará livre quando for capaz de entender o que essa liberdade significa para si e para seus demais semelhantes. Neste sentido, Thomas Hobbes (1588-1679) em seu livro Leviatã trata dessa questão, quando analisa a ideia de que o homem é lobo do próprio homem.

Interessante colocação, pois leva o ser a se perguntar: por que o homem é lobo do próprio homem? Pode-se começar pela questão biológica. Se um sujeito, por exemplo, que foi escravizado contra a sua própria vontade e aí deve-se fazer a distinção entre esse processo e a servidão, conforme Étienne de La Boétie (1530-1563) apresenta em seu clássico Discurso sobre a servidão voluntária. Imagine, meu caro leitor, um homem que é açoitado constantemente e, diariamente tem sua humanidade vilipendiada por algozes que prazerosamente lhes tortura. O que aconteceria se esse violentado pudesse revidar as sevícias sofridas? Seria considerado selvagem, bárbaro o seu ato de desforrar as agressões que recebia? Parece-me que essas interpelações podem ajudar as pessoas a refletirem um pouco mais sobre as próprias condutas, principalmente quando humilham quem está em condição inferior, seja lá por qual situação. Claro que muitos dirão que o melhor é não revidar, entretanto, como bem frisou Toni Morrison (1931-2019) em seu ensaio O corpo escravizado e o corpo negro, com o fim da escravidão, seja aqui no Brasil ou nos Estados Unidos, o corpo preto permaneceu na mesma condição por questões políticas que sustentam até hoje o racismo, tanto lá quanto aqui, todavia, no solo brasileiro, o processo é negado, porém praticado. Sendo assim, vos pergunto meus caros leitores, quem usurpou o direito de o elemento africano ter cidadania em nosso território? E por quê?

O homem só terá condições de se tornar livre quando ele mesmo, romper com seu passado escravista, no caso do elemento europeu. Quando do fim do escravismo, a ideia era saber quando o escravizador seria emancipado de suas próprias sevícias. O assunto parece ser maçante, mas deve sempre ser revisto, discutido, debatido, pois, mais de 54% da população brasileira se diz pertencente ao universo africano, conforme apontei no meu artigo Cotidiano racial no Brasil que acaba de ser publicado pela revista Bis editada pelo Sindicato das Escolas Particulares do Estado de Minas Gerais [https://sinep-mg.org.br/files/bis-revista]. Há miríades de relatos aqui e ali sobre essa questão, entretanto parece que o processo de racismo em nossas paragens está longe de acabar, mesmo que muitos dizem que isso é uma vergonha e que todos são irmãos sob os olhares divino, todavia, o espaço entre o falar e o praticar é enorme. Existem pesquisas nas quais as pessoas informam não serem racistas, mas conhece alguém que o é. Entretanto, seria interessante nomear quem é esse ser que se pensa melhor do que o seu semelhante em virtude da tonalidade da pele. Não canso de repetir que o país é presidido por um sujeito que afirmou certa vez que seus filhos não se casariam com pretas por que foram bem-educados. E agora meu caro leitor, como é que fica aquela observação segundo a qual, o indivíduo entrevistado disse que conhecia alguém que tinha comportamento racista?

Entendo que a questão pode ser semelhante àquele brinquedo de parque de diversões: o bate-bate. O sujeito que conduz o pequeno automóvel tenta sair, mas ou esbarra na lateral ou é abalroado por outro condutor. Na lenda infantil O leão e o rato, o primeiro está envolto numa rede que o imobiliza quanto mais ele se movimenta na tentativa de se livrar dela. Foi preciso um pequeno roedor com sua paciência para desfazer nó a nó e, em seguida, libertar o animal considerado o rei da floresta. São duas situações bem diferentes, sendo que a primeira é real e a segunda é alegórica, utilizando o universo da fábula, mas, se ao término de sua fala, o narrador explicar aos ouvintes que na maioria das vezes, as questões não são resolvidas na base da força, da violência, mas na paciência e na persuasão, o interlocutor entenderá que é preciso sempre haver diálogo, contudo, o receptor jamais pode estar com o chicote nas mãos e o objeto aqui pode existir de diversas maneiras, como por exemplo, o famigerado “você sabe com quem está falando?”. Outra coisa que se deve observar é quando a pessoa vocifera que o país é liberal, neoliberal ou coisa parecida, mas como isso é possível numa sociedade escudada no trabalho não pago e o fim do cativeiro não emancipou o elemento africano, criando condições para que ele pudesse se desvencilhar das malhas da escravidão?

Para onde foi o africano e seus descendentes vilipendiados por mais de 300 anos aqui no Brasil? Será que permaneceu nas fazendas, dentro das senzalas onde era humilhado diariamente? Passeava constantemente perto dos pelourinhos e troncos onde era açoitado impiedosamente? Para responder essas perguntas seria interessante o meu leitor fazer um exercício simples de se colocar no lugar do outro, ou seja, daquele que viu seus filhos serem vendidos como mercadorias, destituídos de suas humanidades, proibidos de constituírem família. Interessante que se fala tanto da desagregação familiar contemporânea, mas ninguém quer fazer reparações aos atos realizados pelos senhores escravagistas que viam em suas mercadorias apenas seres bestializados que deveriam gerar lucros cada vez maiores e a situação sempre contava com o beneplácito dos religiosos. Muitos dos que me leem nesse momento, podem afirmar que são coisas do passado e de fato o são, contudo, por cheirarem a cadáveres insepultos continuam conduzindo as relações sociais em nossa sociedade.

Enfim, se o Brasil, por intermédio de seu povo, não enfrentar o seu passado escravagista, não haverá futuro diferente do passado e os mortos continuarão, a exemplo do que aconteceu no romance Incidente em Antares, de Erico Veríssimo (1905-1975), deixando suas sepulturas, assombrando os homens do presente e do futuro. Não é possível aceitar o nível de violência, seja física ou simbólica que os descendentes de africanos e outras minorias vêm sofrendo no presente. É preciso, como está no início dessa reflexão, identificar os usurpadores das cidadanias dos brasileiros que se encontram nos degraus inferiores da pirâmide social. Sem isso, tudo parecerá aquele processo de enxugar gelo.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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