Sobras de um amor … parte III

16.

 

Quando o jantar estava para ser oferecido, Angélica foi até a sala, ajudando o esposo a caminhar até a sala onde a refeição seria servida. Rogério pegou os copos e Alexandre levou a garrafa. Enquanto degustavam o rosbife feito por Judith, a contragosto da esposa de Marzinho. “- Minha filha não é um naco de carne vermelha que matará o meu filho. Acho que o seu ciúme chegará primeiro”, disse a sogra dando risadas.

“- Amanhã ele come carne vermelha só se passar por cima do meu cadáver”, disse a nora, de forma exasperada ficando amuada porque a sogra não a deixava controlar a alimentação do marido do jeito que achava que seria o certo. Angélica desejava que Márcio deixasse, assim como ela, de ingerir produtos de origem animal, mas a tarefa parecia ser inglória.

Rogério escutou parte da conversa quando se levantou para ir ao banheiro, voltando ao seu lugar, apertou o joelho do filho dando gargalhadas. “- Tua mãe está lá brigando com sua mulher por conta do cardápio de hoje. Parece que Angélica não quer que tu comas carne vermelha. Eu é que não vou me meter, depois da porrada que ela lhe deu na perna que quase o deixou inválido, só olho”.

Tanto Rogério quanto Alexandre caíram na gargalhada, enquanto o filho tentava de todas as formas mudar o rumo da conversa, mas os dois parceiros só queriam saber como foi o lance dele ter apanhado da mulher. “- Caralho! Eu não apanhei de Angélica”.

O pai sabendo que o filho ficava pilhado, resolveu só sacaneá-lo perguntar: “- Se não apanhou dela, o que é essa perna imobilizada? Vem de me dizer que machucou jogando tênis”. Quando o editor ia responder, a esposa apareceu para levá-lo ao jantar. Pela cara dela, estava rusgada com Judith por conta do prato principal da noite.

No curto trajeto, o marido lhe fala ao ouvido. “- Quer desfazer essa tromba. Vai ficar brigando com a minha mãe por conta de um cardápio que ela preparou com tanto carinho para nós? Segunda-feira voltaremos à nossa dieta, sua boba”, disse Márcio sorrindo e passando levemente a mão na bunda dela num misto de carinho e sexualidade.

Quando todos estavam à mesa, Angélica fez menção de servir o marido, a sogra se antecipou e colocou um pedaço enorme de carne no prato do filho. Fez isso mais para provocar a nora do que realmente para ver Márcio comendo. Novamente a esposa ameaçou se zangar, mas recebeu um leve toque por baixo da mesa.

Rogério que assistiu a cena, ficou com vontade de rir e cochichou no ouvido do general. “- Meu caro Alexandre, tu já tinhas visto uma mãe disputar com a nora a atenção do filho? Pois se nunca viu, assista! Minha nega é tão crica quanto a nora. Ela fala que não vai se meter na vida dos dois, mas aquela pancada que o Marzinho recebeu doeu nela e hoje vai ficar de pirraça com Angélica, a não ser que o meu filho de um basta nisso”. Depois que o pai do editor falou, os dois deram risadas.

Eleanora e Judith quiseram saber, mas foi Angélica quem falou. “- Provavelmente estão cochichando já que eu e a minha sogra estamos disputando a atenção e o mimo ao meu marido”.

Todos caíram na gargalha, porque era isso mesmo e a sogra, por ter mais experiência de vida e saber que seria mais infantil que Angélica se ficasse a noite inteira de pirraça com ela, deveria cessar com aquele jogo. Judith se levantou e foi dar um abraço na nora que ficou completamente desconcertada com o gesto e não conseguiu segurar uma lágrima que caiu do olho.

“- Marzinho, agora que compraram o terreno para a nova loja porque você não vem trabalhar conosco na empresa”, perguntou Rogério, mesmo sabendo qual seria a resposta, inquiriu o filho para mudarem de assunto.

– Não tenho perfil para isso. Serei um estorvo. Trabalhar com vocês nessa empreitada será a mesma coisa que chamar Leônidas para ser meu braço-direito na editora. O único cargo em que eu seria útil nas empresas de minha esposa, declinei porque desejo a minha autonomia e a dela.

“- Rogério, não adianta, Marzinho não vai deixar a editora. Você pode pagar o que ele quiser, mas não moverá uma agulha para estar lá. Tanto é que Débora projetará o novo prédio com várias salas para serem alugadas logo na entrada do supermercado e uma delas já está destinada à livraria da editora Jardim da Leitura. É possível até criar um jardim para propor aos pais deixarem os filhos se divertindo com livros infantis, e outros eventos que serão realizados todos os finais de semana. Acho que o mais perto do supermercado que seu filho chegará será isso”, explicou a empresária ao sogro.

Márcio, surpreso com a notícia, tentou esboçar uma contrariedade, mas foi contido pela esposa. “-Está tudo decidido e não tem mais volta. Você me disse que não queria nada do que é meu, adquirido antes do casamento. Pois bem, agora estamos casados e não adianta vir com conversa disso e daquilo. O dinheiro que empreguei é nosso, portanto, é do casal”, sentenciou a esposa.

Rogério, Judith e Eleanora bem que tentaram segurar o riso, mas não conseguiram e acabaram caindo na gargalhada, pois o editor não tinha como dizer algo a partir da exposição de Angélica que o tinha feito entender que não havia saída, argumentos ou coisas parecidas: exceto o divórcio, mas como ele era doido de amores por ela, tinha que seguir em frente com a empresária. “- Eu te falei para não deixar a tua mulher passar muito tempo com a sua mãe. Olha aí o resultado. Ela manda em ti e tu não pode fazer nada, senão continuar amando-a do jeito especial que ela é para ti, meu caro filho”, disse Rogério, gargalhando em seguida.

Alexandre tentou ficar do lado de Marzinho, mas quanto mais tentava ajudar o anfitrião daquele jantar, mais o deixava desprotegido e ciente de que ela construiria outras empresas estando com ele e sua opinião não contaria, como na aquisição do terreno. O general entendeu bem a questão, pois virou sócio de um supermercado sem entender nada do ramo. Só entrou com o dinheiro e repassando à administração do seu percentual ao diretor de comunicação das Organizações Oliveira.

O jantar transcorreu normalmente com trocas de olhares entre Angélica e Marzinho, bem como Rogério e Judith. Eleanora e Alexandre não ficaram atrás, evidenciando que o evento foi para selar a paz entre os anfitriões e, principalmente, entre a empresária e sua sogra que desistiu de ficar provocando-a, pois percebeu que tinha muito mais a contribuir para a felicidade do filho do que entrar numa disputa infantil com a nora.

Entre um assunto e outro, o tema da alimentação entrou na pauta e Angélica discorreu muito sobre as melhorias que Márcio teria ao mudar o hábito alimentar. “- Claro que tenho que respeitar o desejo do meu marido, mas quero sinceramente que dentro de um ano não estejamos mais ingerindo produtos de origem animal e por vários fatores”, explicou a empresária.

Terminada as comensalidades, os três voltaram para a sala, contudo, a anfitriã tentou ajudar o marido, o pai dele interveio dizendo que não se preocupasse: ele e o general davam conta de transportar o perneta do filho para a sala. “- Isso é para tu aprender quando eu te dizia sempre: cuidado com elas. Elas são uns doces, uns manjares dos deuses, mas quando querem te oferecer um doce de jiló com sumo de limão, não pensam duas vezes”, disse Rogério caindo na gargalhada enquanto a nora lhe dava um leve tapa no ombro rindo com e o general.

O trio já acomodado nas poltronas continuou o diálogo e foi o general quem falou com Márcio. “- Te conheço há pouco tempo, mas acho que dá para te dizer algo sobre o seu casamento. Nunca me casei por uma razão muito óbvia: não havia encontrado aquela pessoa que me fizesse ver o laranja do sol ser tão belo quanto os olhos dela. E sei que Angélica é essa mulher que conseguiu fazer isso contigo. Colorir sua existência de fio a pavio. Então não a deixe escapar. Não precisa deixar de ser o que se é para estar do lado de uma pessoa, principalmente se ela te completa. Pelo pouco tempo que tenho de convivência com Eleanora, se tua esposa saiu a ela, seja inteligente, garoto”, explicou Alexandre.

– Eu sei general. Mas, às vezes, ela é ardida e turrona como no lance do supermercado e eu sei que não vai parar por aí. Criaremos uma fundação para auxiliar crianças carentes de nossa sociedade e ela deseja que eu seja presidente, mas te confesso que não tenho a menor habilidade para isso, então declinarei do convite e oferecer o posto a ti e já está definido.

Alexandre tentou dizer algo, mas foi Rogério quem disse, rindo: “- Marzinho aprendeu com a melhor, meu caro general. Então se sinta empossado na presidência da fundação. Todos vamos trabalhar na instituição: vamos oferecer postos de trabalhos para os adolescentes assistidos pela instituição. Doaremos cestas básicas, cujos valores serão deduzidos do Imposto de Renda devido pelas minhas empresas. O editor aí atuará no setor de redação e leitura. Será criada uma biblioteca para os frequentadores se ambientarem com o mundo da leitura”.

“- Pelo que estou vendo, a coisa vai longe nessa associação entre as duas famílias, mesmo que o elo entre elas tente não ficar em evidência, tudo converge para o colo dele e sempre declina de assumir o posto de protagonista”, disse o general Alexandre olhando para Márcio.

– Meu amigo, nunca desejei ser protagonista de nada. Meu sonho sempre foi o de ficar no meu universo e o das letras, escrevendo, aguardando que de alguma forma as linhas que confecciono possam ajudar as pessoas a refletir um pouco sobre suas existências e, se possível, iniciar as transformações necessárias em suas existências. Daí a criação de minha editora. Acho que poderei fazer isso por intermédio dela. Portanto, para além disso, não almejo mais nada.

– Foi por isso que tu e Tarsila pediram para eu escrever um livro sobre a minha história, inclusive pode ser transformado em romance e aí vocês dois poderiam fazer as devidas adaptações?

– Sim meu caro amigo. Uma história bem contada pode ser inspiradora para muitos jovens que ainda não acharam rumo na vida e ficam à mercê do crime, do tráfico de drogas e toda sorte de violência fora e dentro de casa. Não sou ingênuo a ponto de acreditar que meus textos colocarão fim a essa beligerância toda, mas se conseguir despertar algumas pessoas, já me darei por satisfeito. Todos nós temos a oportunidade de escolher o caminho que queremos, desde que sejam mostradas várias alternativas e não apenas aquela em que o cidadão tem em mãos uma arma para ceifar a vida do seu semelhante por conta de coisas materiais, posições sociais e status. Não sei se me fiz entender, general.

– Sim! Compreendi bem Márcio e podemos marcar a partir de segunda-feira as entrevistas e eu vou falando. Como é mesmo o título que vocês sugeriram para o livro: Da favela ao generalato.

– Acho que é isso mesmo, mas se não for podemos mudar e aí tu podes escolher o que achar melhor, afinal o conteúdo será todo seu.

– Inicialmente este está bom.

Assim que o general terminou de falar, Eleanora, Judith e Angélica chegaram na sala e as duas senhoras convidarem seus respectivos acompanhantes para irem embora, pois tinham um almoço para organizar no sábado. A coisa seria como dantes, ou seja, terminar por volta das 22h30 com a ceia noturna.

Os dois casais deixaram o apartamento, enquanto Márcio e Angélica optaram por ficar ali na sala. A esposa olhou para o marido que chegou mais para o canto do sofá, apoiando a perna imobilizada na mesinha de centro, pedindo para ela deitar a cabeça no colo dele. Silenciosamente, Angélica fez o solicitado e assim que se posicionou, começou a chorar e o esposo quis saber o motivo.

– Pela primeira vez, amor, estou me sentindo feliz e as lágrimas são em virtude disso. O seu coração me deixa em paz e agora me sinto como se estivesse andando nas nuvens.

Enquanto ouvia a esposa, Márcio alisava a cabeça dela, passando suavemente a mão sobre o seu rosto, sentindo, os detalhes daquela face que tanto encantava sua alma. “- Quando você me disse essa semana que desejaria que o mundo lá fora não existisse para não atrapalhar o amor que me tens, entendi bem hoje, depois da conversa com Roberto. Ele me disse como convive com Danisa. Na folga que dei a Fernanda, ela correu para ficar com a futura sogra, pois encontrou nela a amiga que nunca teve”.

O esposo permaneceu em silêncio, estimulando a empresária a colocar tudo o que lhe ia n’alma naquela noite de sexta-feira, depois de uma semana amalucada e um jantar com as sogras, o pai dele e o namorado de Eleanora. Angélica se levantou, observando o esposo afirmou: “-Agora eu tenho plena certeza de que amanhã não acordarei sem tê-lo do e ao meu lado, amor”.

– E por que tinhas tanta dúvida quanto a isso, pois vivia lhe dizendo o quanto te amo e não conseguiria dar um passo sem tê-la em minha companhia?

– Talvez uma coisa aqui comigo. Uma ideia de não aceitação. Aquele problema com relação ao sexo. Ainda não estou totalmente livre daquelas assombrações, mas sei que conseguirei um dia ficar totalmente inteira para ti.

– Em primeiro lugar, adoro sexo, principalmente o que tenho contigo e sei o quanto se esforça para estar inteira na relação. Também tenho consciência que existem coisas em nossas vidas que não desaparecem assim apenas com um ato de vontade. Segundo: não estou contigo por conta do sexo, mas por ser essa mulher capaz de me transmitir essa paz, como a que estou sentindo agora. Não existem palavras no mundo que dê conta do que sinto quando estou em sua companhia. O máximo que consigo dizer é: obrigado por fazer o laranja do céu ter um enorme significado em minha vida quando se junta com os verdes de seus olhos.

Angélica ficou olhando o marido, enquanto ele dizia o que ia n’alma e o que ela significava em sua existência. Já tinha dito isso outras vezes, mas como naqueles momentos a esposa existia de uma forma, agora, totalmente mais serena observaria as palavras de uma outra maneira. “- Naquele domingo em que estavas com o vestido combinando o laranja com o verde esmeralda, percebi que iria até o fim do mundo contigo. Não quero ficar te procurando em outras mulheres, fazendo comparações se posso ficar contigo pela eternidade”, explicou o marido.

– Amor! Por que eu não via tudo isso antes?

– Por que tu estavas mais ocupada tentando me provar o valor do amor que se sentes, atropelando tudo, com medo de que não fosse correspondida no seu propósito de me amar até a eternidade. Essa perna imobilizada é fruto desse desespero, dessa desrazão, de sua insegurança.

– Depois de conversar muito com Roberto, perceber o relacionamento dele com Danisa, falar com Débora e saber que andou tendo umas conferências com a nossa cunhada, a Tarsila, entendi que estava tentando te achar num lugar que nunca estaria. Ainda é complicado para eu aceitar o quanto minha imaturidade estava nos levando à infelicidade.

– Querida! Não adianta eu sair na balada em busca de algo que tenho aqui contigo. Não preciso mostrar para o mundo que tenho do meu lado uma mulher excepcional. Não é perfeita e ainda bem que não é, mas sei que quando estou nos braços dela pode chover, fazer sol, esfriar que meu coração estará sempre aquecido e protegido e minha alma vivíssima.

Diante do olhar encantado e esmeraldino da esposa, Márcio completou: “- Quando você chegou no hospital querendo me trazer para cá, silenciosamente eu agradeci ao alto por não ter morrido depois daquele porre. Roberto chegou na hora certa, como se fosse enviado pelos deuses para me deixar aqui e te amar do jeito que te amo agora”.

Angélica abraçou o marido que lhe disse: “- Eu sei que essa sua ciumeira não passará, mas tenho certeza que se controlará mais, sabendo resolver tudo de uma maneira mais serena. Tarsila me pediu para evitar ficar sozinho com outras mulheres. Não que eu faria alguma coisa, mas o que elas poderiam tentar me assediar e como tu ficarias? Tarsila me disse que se uma mulher der em cima do Amadeu e ele der trela: os dois morrem e ela terá o bebê na cadeia”, disse rindo o editor.

“- E o que isso significa para ti, meu amor”, perguntou Angélica.

– Que desejo do fundo do meu coração que tu tenhas paz na alma para vivenciar esse amor que me tens.

– Você já me faz uma pessoa imensamente feliz. Eu é que precisava me acalmar e sentir toda essa serenidade, essa paixão, esse amor que emana do centro do seu ser. Nós dois sabemos como isso tudo começou, justamente por tu ser muito parecido com a taboa e um carvalho. Tentei te vencer com minha imponência, mas você soube se recolher e se levantar depois. Fui lá e quis te derrubar, aquele jornalista lambão estava firme como um carvalho.

Márcio ficou observando a esposa, enquanto ela tentava achar palavras humanas para informá-lo o ponto principal a partir do qual ela percebeu que não havia mais volta, pois estava completamente dominada pela paixão e pelo amor. “- Quando eu percebi que por detrás daquela taboa que me apareceu frágil, havia uma haste que sabia se flexibilizava sem perder a essência, entendi que não dava mais para ficar do mesmo jeito. Ao tentar encontrar dentro do carvalho algo que me permitisse derrubá-lo de um golpe só, compreendi o quão flexível era e só podia ser assim porque tinha algo de belo n’alma”.

Quando o marido pensou em dizer algo, Angélica explicou que, ao buscá-lo no Pontal, o localizando logo de cara porque aquele carvalho se apresentava como uma taboa completamente frágil que se escondia atrás de uma ação repetitiva para não chamar a atenção, mas foi justamente isso que aconteceu. “- Quando entrei no quarto e fiquei na penumbra te esperando sair do banheiro, ali tive a certeza absoluta que não havia ido até lá em busca do amigo, mas do homem que eu já amava desesperadamente e não conseguiria voltar para cá sem ele”, explicou a empresária.

Márcio permaneceu em silêncio, esperando mais revelações e declarações. “- Depois daquela certeza, submergi no medo e na possibilidade de te perder e aí posso lhe afirmar que foram mais dias de angústias do que de prazer e felicidades. Por isso que te disse essa semana, caso quisesse a separação, mesmo sendo cortada por dentro e por laminas afiadíssimas, não faria objeção alguma, mesmo sabendo que provavelmente ficaria no seu encalço, nem que fosse de forma silenciosa”.

O marido olhou para o relógio percebendo que as horas já iam alto e deveriam dormir, pois no sábado haveria mais atividades na mansão e no domingo os pais dele voltariam para a cidade de origem. Optou por deixar a esposa externar tudo aquilo que lhe ia n’alma, pois pela manhã saiu desesperadamente de casa, achando que ele procuraria um advogado para pedir a separação.

– Eu quis muito entender toda essa bagunça que estava aqui dentro. Primeiro, porque nunca imaginei que fosse me apaixonar por homem, tendo em vista que fiquei sete anos me relacionando com uma mulher e entendia ser isso o correto e o que eu desejaria até o fim, mas a coisa mudou. Não deixei de gostar de mulheres, mas se fosse fazer uma análise entre o que tenho agora contigo e o que eu tinha com Rosângela, me sinto mais seguro do seu lado e não porque você seja homem. Não se está me entendendo?

– Amor! Eu sei que tudo pode mudar aí dentro de ti, como aqui no meu coração, todavia, se eu ficar com medo de que amanhã tu me deixarás por outra pessoa, não conseguirei viver isso que tenho agora contigo. Não estou iludido nesse casamento e nem nesse relacionamento.

– Minha mãe me disse quando te levei para jantar pela primeira vez na casa dela, que não deveria modificar o que sou para estar dentro de uma relação, vamos dizer, heteronormativa. Falou ainda que tudo o que estava sentindo poderia ser fruto de uma impressão, justamente porque você não se rebaixou às minhas imposições.

– E você acha que um dos fundamentos do seu medo pode ser esse: de repente se encantar por uma mulher e ter que me dizer isso? Ou tem certeza absoluta de que não está apenas impressionada comigo e confundindo isso com amor? Pode ser que seja isso e aí as reações que tu tens com relação à qualquer mulher que se aproxime.

– Está vendo Márcio. Eu não sei. Quanto mais a gente fala desse assunto, mais eu fico confusa, pois há coisa de quatro meses, eu achava que tinhas certezas absolutas, inclusive rompi com a minha família e tentava trazer meu irmão de volta, mas tudo parecia tão complexo, porém, do nada você apareceu descomplicando muita coisa, Rosângela mostrando uma vertente dela que eu não conhecia, tu fugindo do que sentia por mim e eu tentando achá-lo na ânsia de te encontrar me encontrando.

Márcio tentou dizer, mas Angélica completou o que vinha dizendo: “- Estou com 33 anos, muito dinheiro herdado das empresas do meu pai que me violentou na adolescência. Estou diante de um homem fabuloso que creio amá-lo incondicionalmente, mas te confesso, não estou resolvida comigo e em virtude disso temo que se canse dessas minhas inconstâncias e busque outra pessoa não tão problemática quanto eu.

– Por que não para com tantos porquês e deixe a coisa fluir. Não estou nessa contigo pela sua grana como já falei outras vezes. Também não estou aqui porque te acho linda de fora para dentro, mas pelo contrário, pela sua beleza interna que é externada em suas ações. Teu coração é maravilhoso; não sinto maldade em ti; não vislumbro aí no interior do teu ser um quantum se quer de pessoa vingativa.

– Não sei ser diferente, amor, mas tudo isso não me dá a segurança que quero ter quando estou contigo. Conversei com Roberto e vejo o quanto ele e Danisa estão fortalecidos no amor; meu irmão com Tarsila; Fernanda com Ricardo; Débora com seu irmão; Mariana com Leônidas; seu pai com a sua mãe; a minha mãe com o general dela, porém, eu não sinto isso entre nós dois. Me perdoe amor, mas estou com muito medo de tê-lo arrastado para esse relacionamento sem realmente ter certeza de estar inteira nele, enquanto te cobro isso, transformando sua vida num inferno.

– Você quer dar um tempo, enquanto equaciona isso dentro de ti? Podemos, inclusive não dormirmos no mesmo quarto, cama. Posso usar o quarto de hóspedes até tu se resolver.

– Não é isso, Márcio. Não complica ainda mais a minha cabeça. Eu te quero o tempo todo comigo, mas não estou segura de que quererei isso daqui a dez meses. Danisa está grávida, Mariana espera um filho. Daqui a pouco Débora se casa com Esdras e na sequência Fernanda.

O esposo olha com carinho para a esposa, dizendo: “- Estou começando a achar que você está temerosa em descobrir que o que manteve esse amor que me tens, foi o fato de sempre se sentir ameaçada e agora que tudo parece estar caminhando para a serenidade, não tenha mais interesse.

– Por que está me dizendo isso amor.

– Observe o que falou a respeito de todos os casais que estão à nossa volta e de certa forma podem até ter iniciado seus relacionamentos a partir de nosso encontro. Eles estão em paz e você não. É como se quisesse muito uma coisa e quando alcança, ela perde a graça.

– Você está me dizendo que tudo pode não passar de se um fogo de palha?

– Sim. Só pode ser isso, pois não sei de onde tiras tanto temor. Estou aqui contigo. Te amo. Desejo passar o resto da minha existência do seu lado e sei que teremos momentos tensos, como os de terça-feira, mas ainda assim, quero continuar com você justamente porque não preciso olhar para o mundo quando estou com ti. Mas se tu começas a perceber que não tem a mesma certeza de que eu, creio que temos que conversar sério sobre isso.

– Márcio, ao invés de me ajudar, coloca mais pilha, me deixando mais atrapalhada e me sentindo culpada.

– Querida! Não precisa se sentir culpada, apenas tome a decisão que achar mais acertada agora. Por exemplo, se queres dar um tempo por não ter tanta certeza assim, é o que deve fazer. Quer saber o que eu acho?

– Quero!

– Acho que está com medo de se tornar adulta e se levar a sério. Entre o amanhã desconhecido e o ontem conhecido, quer optar pelo conhecido, ou seja, o ontem que pode lhe ser mais confortável. Por isso que te perguntei se nos separássemos, me deixaria em paz, sem ficar me procurando. Fui embora na tentativa de compreender tudo o que ia dentro do meu coração, pois no fundo sabia que seria complicado um relacionamento contigo.

Sem dizer nada, Angélica deixa o marido na sala e corre para o quarto e o tranca por dentro. Márcio não falou nada e nem pediu para ela ficar, acreditando que poderia voltar em breve, mas se passou mais de uma hora, a esposa não retornou.  O editor resolveu ir dormir no quarto de hóspedes e, com muitas dificuldades conseguiu se livrar das roupas para tomar um banho rápido e dormir. “Melhor deixar tudo para amanhã”, pensou o esposo, enquanto se higienizava. Antes de se deitar, trancou a porta do quarto. Não queria vê-la em sua cama enquanto não se decidisse. “Cansei dessas inconstâncias. Começo a compreender que fui mais um brinquedo, algo que ela quis muito e agora começa a perder a graça, justamente no momento em que iniciávamos a estabilização do que achávamos que sentíamos um pelo outro”.

Ao contrário do que aconteceu em noites anteriores, desta vez ele não foi despertado pelos sons da esposa querendo derrubar a porta do quarto. Enquanto o sono chegava de mansinho, Márcio ficou pensando em tudo e compreendeu o quanto foi imaturo em embarcar naquela viagem de casamento e de amor. Quando o sentimento tinha tudo para serenar, a esposa começava a ficar incomodada com o que sempre buscou. Na cabeça do editor, era como se Angélica só conseguia viver se fosse em conflito, brigando com deus e todo mundo. Tendo essas reflexões como parceira, adormeceu, despertando pela manhã com o som do celular tocando.

– Alô!

– Marzinho o que está acontecendo?

– Oi Roberto! Eu que pergunto, por que me ligou tão cedo?

– Você viu que horas são?

– Acho que deve ser umas sete horas.

– Não! São quase dez horas e tua mulher já me ligou não sei quantas vezes. Vocês brigaram novamente?

“- Claro que não meu amigo, mas o lance está complicado”, informou o editor.

– Então conversa e descomplica a porra toda!

“- Foi o que fizemos ontem depois que minha mãe e Eleanora saíram daqui”, justificou Márcio.

– Resolva isso e apareça na mansão. Estou indo para lá e pelo visto Eleanora e Judith vão catar você.

“- Eu não fiz nada e começo a ficar cansado disso tudo. Não consigo ter paz para viver esse amor. Cada dia é uma coisa: uma hora é ciúme, outra hora é medo do futuro. Não sei mais onde tentar resolver isso”, desabafou o editor.

– Tente arrumar um tempo para tudo isso. Tu tens uma editora para colocar em funcionamento e com essa coisa toda da sua vida pessoal, não sei não, meu amigo, a coisa pode não rolar do jeito que está pensando.

“- Está certo, meu caro. Verificarei como a coisa se ajeita por aqui e até lá pelo meio-dia aparecemos por lá. Casados ou com a separação encaminhada. Abraços, amigo”, se despediu Márcio.

Assim que desligou o telefone, o editor destrancou a porta do quarto indo ao banheiro para se higienizar, tentando recolher os cacos do que sobrou da noite anterior. Enquanto arriscava se banhar, minimamente, já que com a perna imobilizada, muito de seus movimentos foram reduzidos. Ao olhar para o espelho que ficava dentro do banheiro percebeu que era observado por Angélica.

Enrolou-se na toalha e se voltando para a esposa foi direto: “- Por que tinha que ligar para o Roberto, para não sei mais quem? Será que não conseguiremos resolver nossos problemas sem envolver nossos amigos? Querida! Eu sei que podemos pedir um tempo, mesmo ficando na mesma casa e em quartos separados, mas não precisamos dizer isso ao mundo todo”.

– Por que trancou a porta por dentro?

– Porque não queria que você acordasse e ficasse batendo na porta, ou entrasse e se deitasse ao meu lado, quando sei que não é isso que deseja fazer. Pensei que precisasse do seu momento, então quanto menos eu ficasse falando, melhor.

“- Eu sabia que isso iria acontecer”, exclamou Angélica.

– Acontecer o quê?

– Que na minha primeira crise, você me abandonaria.

“- Está ficando maluca é! Como te abandonar? Estou aqui e te dando todo o espaço que necessita para se resolver contigo mesma e não estou preocupado com as consequências desse seu agir consigo mesma”, explicou o marido.

“- Por que não foi dormir comigo? Por que trancou a porta por dentro e por que não me quis na cama contigo? Será que ficar em dúvida algumas vezes me tornou menos desejável para você”, inquiriu a esposa.

Márcio ficou em silêncio, pois sabia que a coisa está ficando complicada e se continuassem com aquela conversa, sairia faísca e acabariam discutindo novamente. Puxando a perna imobilizada, o marido se aproximou da esposa e a envolveu num fraternal abraço. “- Às vezes conseguimos mandar no mundo, mas não conseguimos lidar com os infortúnios que incomodam nossas almas, meu amor”.

Angélica chorou copiosamente no ombro do esposo, chegando a soluçar. “- Eu tento. Quero fazer a coisa certa, mas sempre fico achando que não sou a pessoa ideal para seguir em frente contigo nessa jornada”, desabafou a empresária.

– E por que sempre foge para o quarto? Por que não enfrentamos juntos isso e outras coisas que virão pela frente? Amor, não superamos certas coisas com apenas uma ou duas sessões psicoterápicas. Eu já te disse, coloque ordem na sua vida. Defina horários para tudo, principalmente para a sua terapia. Superar seus traumas não será nada fácil. Estarei contigo em todos os momentos desse processo.

– Eu sei Marzinho, mas é que …

“- É o quê? Que vida tu queres para ti”, indagou o esposo.

– Não sei ao certo!

– Amor. Lembre-se sempre. As mudanças requerem de nós muitos esforços e tu está no meio do furacão. A vida de Tarsila e Amadeu entrou no eixo agora, mas recorde-se que os dois sofreram por cinco anos longe um do outro. Ele não sabia onde ela estava, enquanto o amor da vida dele estava ali pertinho sem poder tocá-lo, fazê-lo feliz. O general passou a existência procurando uma pessoa: tinha medalhas, divisas, dinheiro, mas não conseguia se ajustar até encontrar a sua mãe. Mariana ficou anos se perguntando porque a vida lhe tirara o bem mais precioso: a mãe, contudo, o destino colocou Judith no caminho dela. Fernanda a mesma coisa e ainda por cima um cara machista para caralho que talvez seja assim porque não conhecia outra realidade. Agora me diga: que vida tu queres para ti?

– Quero viver contigo aquilo que você enxerga sempre quando olha o laranja do céu que precederá as luzes das estrelas. Eu sei que tu olhas para o firmamento querendo a paz que os astros e as nuvens sempre lhe dão.

– De fato! Eu vejo tudo isso lá no eterno, mas quando volto para a terra, vejo a paz se materializando do meu lado e eu desejo sempre que seja assim amanhã, depois de amanhã, enfim até que o eterno dure.

– Mas e seu não puder estar assim amanhã? Como eu ficarei e você? Baguncei toda a sua vida, não te deixei fazer as escolhas, te empurrei para um relacionamento conturbado. Tenho muitas instabilidades e sempre achando que te perderei no instante seguinte. Fico toda encanada, caso eu me interesse por outra mulher e seja obrigado a ficar contigo por conta disso tudo.

– Vamos nos fechar dentro de nossas sinceridades? Quando isso acontecer, você vem e me diz o que está ocorrendo e eu a mesma coisa. Se aparecer alguém em minha vida, mesmo estando contigo, não darei o passo inicial até que conversemos sobre tudo isso. Agora preste atenção no que vou te perguntar: você estava casada há cinco anos com Rosângela! Por que eu apareci em sua vida? Cheguei e te assediei? Fiz comparação entre eu e ela? Acho que não e, sempre fomos sinceros um com o outro.

Diante do mutismo da esposa, Márcio acrescenta: “- Olha só para ti! Está sofrendo n’alma porque não consegue ficar serena consigo mesma. Está sempre com medo de tudo e de todos. Vamos curtir o hoje e depois o domingo. Na semana que vem temos outras coisas para fazer, mas isso não será possível agora”.

– Você promete não me abandonar mesmo que esteja chovendo canivete?

– Meu amor. Se depender deste coração aqui, estarei contigo sempre. Quero que fique tranquila para tomar as decisões quando os problemas aparecerem. Para o momento, temos um dia na casa de sua mãe. Ontem o jantar foi delicioso, muito descontraído e hoje, ao chegarmos na mansão, vamos encarar Eleanora, minha mãe e meu pai. Ou você acha que Roberto já não falou para uma delas que o clima azedou entre nós dois.

– Desculpe-me amor. Quando acordei de madrugada e vi que tinha trancado a porta por dentro e agora pela manhã não havia saído, fiquei com medo e não queria ligar para ninguém da mansão e como sei que tens um ótimo diálogo com Roberto, achei que ele poderia me ajudar e de fato o fez.

“- Agora vai lá se arrumar. Eu já fico pronto e vamos até a mansão. O dia será longo”, disse o marido.

“- Você está feliz comigo, Marzinho”, perguntou Angélica.

– Estou paixão.

“- Mesmo? Ou só está falando isso para não me deixar pior do que já estou”, indagou a empresária, indicando insegurança nos questionamentos.

– Se eu quisesse uma mulher pronta e acabada, melhor seria ter comprado uma boneca inflável ou um robô. Tenho junto de mim um ser que, lá fora para ser um carvalho, mas somente eu sei como ele é por dentro e isso me faz me apaixonar todos os dias pela alma que lhe dá sentido. Agora vai lá. Se demorarmos mais um tiquinho, todos estarão nos ligando.

Ao deixar o quarto, Angélica sentiu um leve tapa que o esposo lhe deu na bunda de forma carinhosa. “Meu deus do céu, terei que ter muita paciência para levar esse relacionamento. Creio que seremos mais amigos do que realmente marido e mulher”, pensou o editor, percebendo que terá pela frente muitos dias de trovoadas, relâmpagos e tempestades.

Quando entrou no quarto para separar uma roupa para o dia, levando em conta que não poderia entrar na água por conta da perna, observou a porta do banheiro aberta e foi dar uma olhada na esposa que se banhava. Em silêncio, entrou e fez do vaso sanitário um assento, ficando lá até que ela o notasse quando se virou para tirar o shampoo dos olhos.

Angélica lhe lançou um sorriso assoprando um beijo que o encheu de paixão. Continuou fitando-a até que ela lhe perguntou porque tanto a olhava. “- Quando se ama alguém, como uma estrela que brilha eternamente no firmamento, se quer ficar o dia todo a observando, torcendo para que aquele brilho não se apague nunca, nem com o romper de uma nova aurora. Por incrível que pareça uma dessas estrelas se materializou em minha vida e sou grato ao universo por permitir que ela desfalcasse seu exército de brilho para encandecer a minha existência que vivia um breu só. Te amo minha constelação”.

Ao dizer isso, Márcio deixou o banheiro e o quarto, se instalando na sala, enquanto a esposa se arrumava para o compromisso na mansão dos Oliveira. Assim que Angélica deixou o quarto indo em direção onde ele estava, pode perceber que ela está um pouco diferente daquela mulher assustada e com medo com quem havia conversado momentos antes. A empresária estava trajando uma saia que não chegava a ser considerada uma mini e nem uma normal. A camiseta lhe acentuava o busto, indicando que usava um sutiã que não apertava seus seios, mas evidenciando toda a sua sensualidade.

Márcio apenas olhou e não disse nada, mas a esposa que ouviria alguma coisa, pois o marido não curtia muito certas transparências. “- Vamos”, disse Angélica pegando na mão do editor que empacou. “- Se for para ir com essa blusa, melhor ficarmos. Tem transparências de mais. O tamanho da saia eu até aceito, mas não vejo necessidade alguma de mostrar coisas que todos sabem que tu tens”.

A esposa fez aquela cara de quem se sentiu contrariada, mas em silêncio voltou para o quarto. Lá dentro sozinha, sua alma lhe sorria, pois ela tinha colocado a blusa de propósito para saber que homem a esperava na sala: o amigo ou o marido e pela reação do Márcio, o esposo ciumento não desejaria ficar desfilando a beleza da esposa como se ela fosse um troféu.

A empresária voltou do mesmo jeito que saiu, apenas com outra blusa um pouco mais escura que não deixava transparecer nada. “- Assim está melhor”, perguntou Angélica ao marido que demonstrou o seu contentamento. Em pensamento, a esposa anotou: cobraria aquele mimo e seria durante o dia mesmo. “- Onde está o seu biquíni”, perguntou o marido. “- Se meu esposo não pode entrar na água, nem eu, ainda mais sabendo que sou a responsável por ele estar assim”, explicou Angélica.

Aquela observação encheu o marido de orgulho, mas por outro lado, não sairia do lado dela, portanto, quem pegaria a comida seria a esposa e carne vermelha, aquele pedaço com a gordura derretendo como ele adorava, jamais passaria pelo prato que Angélica lhe prepararia.

Assim que colocaram os pés dentro da mansão, o casal foi sabatinado pelo quarteto da noite anterior. “- Quando é que os dois vão parar de brigar”, intimou Judith a mais baixa de todas e a que parecia ter uns dois metros de altura. “- Só para variar, minha sogra, tive minhas crises de ansiedade, medo e outros fantasmas mais que me assombram, mas o teu filho está aqui comigo e não me deixará cair. Disso você pode ter certeza. Eu quem preciso aprender a não exteriorizar em demasia coisas que somente eu e ele devemos equacionar”, explicou Angélica indo em direção ao interior da casa em busca do irmão e de Tarsila.

“- Não! Espere filha”, disse Eleanora querendo saber mais. “- Saímos de lá e os dois ficaram bem. O que aconteceu depois”, perguntou a mãe da empresária.

– Porra mãe! Parece que a senhora não conhece a filha que tem. Se esqueceu que fui casada com Rosângela por cinco anos. Isso não é novidade para ninguém que esteja nessa casa hoje e foi a senhora mesma quem me disse bem aqui que eu não deveria ser o que não sou para caber dentro desse relacionamento. Isso me deixa insegura e preciso desabafar e conversar e meu marido é um excelente amigo, mas às vezes, por essa condição, diz coisas que não quero ouvir, mesmo precisando escutar.

Enquanto a filha conversava com a mãe, Judith, Rogério e Alexandre escutava o que ela dizia e perceberam que seria isso sempre. A sogra de Angélica começava a perceber que muitas das coisas que a filha trazia, principalmente a insegurança, era fruto de um abandono durante uma importante fase da vida do ser humano. De certa forma, Tarsila, Fernanda, Mariana e a nora tinham o mesmo problema canalizado de forma diferente. Todas tentaram de certa forma enfrentar a vida, por isso amadureceram mais rápido e não transformavam tudo num pé de guerra. Angélica, demorou mais tempo porque tem dinheiro que acobertava a sua insegurança e ao se casar com o seu filho, desparafusou de vez porque ele não dava a mínima para o dinheiro dela.

De mãos dadas, Judith e o marido se dirigiram para a área externa da casa próxima às piscinas, onde o almoço, ou melhor, o churrasco seria servido. Márcio foi ajudado pelo amigo até chegar numas cadeiras que foram colocadas de modo que ele pudesse ficar à vontade.

Assim que se acomodou, Esdras chegou com um prato cheio de carne com gorduras do jeito que o irmão adorava. “- Como logo moleque, porque se tua esposa aparecer já era. Hoje tu vais comer somente batata e cebola assada”, disse o irmão rindo e Márcio acompanhando, se recordando dos tempos em que eram adolescentes e faziam as estripulias.

Fernanda apareceu em companhia do namorado que parecia outro, depois que descobriu o chamego da noiva com a mãe dele. Ali conseguiu compreender que a secretária da presidência das Organizações Oliveira não iria a lugar nenhum sem ele. Assim que viu Ricardo, Márcio o chamou para uma conversa.

– Meu caro, temos trabalho a fazer. A minha editora precisará de quatro capas de livros nesta semana. Você dá conta do recado? Te mando uma síntese de cada obra e tu pensa na capa e me mande três capas diferentes. Preciso delas até o próximo sábado.

Ricardo ficou pensando e já foi logo sabatinado. Fernanda apareceu e já sentenciou. “- Ela fará sim Marzinho. O dinheiro será útil. Ele já encontrou um terreno ali perto da casa da Adélia e só precisa dar uma entrada e depois parcelar o restante. Enquanto moramos no seu apartamento, conseguiremos construir a nossa casa. Você não disse que tem trabalhos extras para ele”, perguntou a noiva.

– Sim. Lançaremos quatro livros na inauguração da editora e já temos mais sendo produzido e outros traduzidos por Tarsila e há dois: um francês e outro em italiano que estou vertendo para o Português.

“- Eu não sabia que falava todas essas línguas”, disse Ricardo a Márcio.

“- Sei também alemão, mas o conhecimento de Tarsila é melhor do que o meu, então ela traduzirá para nós. Fico com o francês e o italiano. Depois vamos contratar um tradutor do inglês”, explicou o editor, no momento em que Angélica chegava com Tarsila querendo saber qual era o assunto.

Fernanda toda efusiva porque Ricardo encontrou um imóvel perto da casa dos pais e com o trabalho que faria para editora e mais o dinheiro que ela tinha economizado com a indenização que recebeu da loja da qual fora despedida, conseguiriam dar entrada no terreno e o restante seria parcelado.

“- Bom! Fernanda se você não se importa, gostaria de te auxiliar nessa empreitada. Até porque fui responsável pela sua demissão. Podemos fazer assim: a empresa lhe adianta o valor do terreno e descontaremos em cinco anos de seu salário. Pode ser assim”, perguntou Angélica.

Nem foi preciso perguntar duas vezes. O casal topou, o que deixou a amiga de Márcio nas nuvens. Agora era só Débora trabalhar no projeto e, dentro de no máximo duas ou três semanas começariam a construir a casa e os dois poderiam oficializar a união.

– Fê! Eu acho que lá pela quinta ou sexta-feira tu poderás se mudar para o meu apartamento. Na segunda ou terça-feira verei como ficou a editora e escolher os móveis para mobiliá-la.

“- O senhor não fará nada disso. Quem fará isso somos eu, Tarsila e as minhas duas secretárias. Se você escolher móveis como comprava roupas, a sede de sua editora parecerá uma antessala para o inferno”, sentenciou a esposa.

– Cruzes amor. Eu sei que meu gosto é do bom, mas desse jeito que falou, realmente sou um péssimo em estética.

Rogério se aproximou com um prato cheio de carne e ofereceu para o filho. “- Ele comeu muita carne vermelha ontem. Hoje quem vai cuidar da alimentação dele sou eu. Chega. Depois traga-lhe uns pedaços de frango e peixe e em seguida muito legume”.

O pai de Márcio tinha feito aquela ação justamente para saber quem é que mandava e querendo rir, disse ao filho: “- Acho melhor tu obedecer, senão sairá daqui com a outra perna quebrada”, disse rindo.

– Quebro a dele e depois a sua também, Rogério. Tenho certeza de que Judith me ajudará te segurando.

O sogro fez aquela cara de troça e saiu dando risadas sendo abraçado pelo filho Esdras que disse baixinho. “-Pai! Essa mulher do Marzinho é pior do que a mãe em relação ao senhor. Com dona Judith tu consegues negociar, agora com Angélica, a coisa é foda”.

Fernanda chamou Angélica para conversarem com Roberto sobre o terreno e a empresária aceitou o pedido. Quando elas passaram por Rogério e Esdras, os dois entenderam que podiam levar a carne para Márcio. Assim que chegou onde o filho estava, o pai disse: “- Moleque, está ferrado, com essa dinamite dos olhos esverdeados! Ainda bem que tua amiga percebeu e a tirou daqui. Agora come e vê se não deixa vestígios porque se ela perceber, todos estamos fodidos”, afirmou o sogro gargalhando, pois parecia aquele pai que ensina os filhos a fazerem arte escondidos da mãe.

Dentro da mansão, Fernanda feito uma adolescente contava para Adélia o que tinha acabado de acertar com a patroa sobre a aquisição do terreno, inclusive que poderia se mudar até o final da próxima semana para o apartamento de Marzinho, economizando o dinheiro do aluguel, podendo empatá-lo na construção da casa.

– Agora se acalme que Ricardo fará tudo do jeito que você quer. Eu e o Romualdo conversamos com ele. Se vocês acertarem isso essa semana e se Débora conseguir concretizar o projeto da casa que querem, conforme combinaram, na outra semana podemos dar início às obras”, disse Adélia.

“- Teu noivo não sabe, mas fizemos umas reservas desde quando ele e Débora nasceram e somente teriam acesso para a construção de suas residências. Acho que dá para começar a levantar as paredes. Tenho uns amigos empreiteiros que podem trabalhar para vocês”, explicou Romualdo.

“- Vocês estão pensando em casar quando”, inquiriu Angélica.

“- Só depois que a casa estiver pronta. Enquanto isso eu fico sozinho no apartamento do Mazinho e Ricardo morando com os pais. Quando falei que iriamos morar lá, ficou de fricote, então agora só estaremos juntos em nossa casa”, disse Fernanda rindo com Adélia que compreendia a jogada da futura nora. O objetivo era por pressa no noivo para ser mais célere em tudo o que fazia e parar de ficar criando fantasma da futura esposa com o melhor amigo dela.

Angélica aproveitou a deixa e chamou a secretária para uma conversa a sós. “- Você é muito amiga do Márcio e eu estou muito insegura com relação a ele. Fui casada com uma mulher e não sei até que ponto isso pode ainda incomodá-lo, por exemplo, ao ponto de achar que vou deixá-lo por outra. Não sei se você me entende”, explicou a empresária.

– Angélica, adoro o Marzinho por uma simples razão; é pessoa de uma palavra só e não costuma roer a corda. Se te disse que é pau porque é e se for pedra, pode acreditar que é. Apesar disso, Márcio é muito flexível e por isso se atenha ao que acertaram. Tenho certeza de que ele não está contigo enganado. Provavelmente quererá de ti franqueza. Se tu falar a ele que se interessou por outra pessoa, no dia seguinte ele desocupará a sua vida. Agora se ele te falar que se interessou por alguém, também sairá da mesma forma de sua existência e não quererá que interfira no devir dela.

– É que fico sempre pensando que poderá encontrar alguém melhor do que eu.

– Essa sua sensação é motivada por alguns fatores que fizeram com que se apaixonasse por ele, mas pode, ao mesmo tempo te afastar dele. Marzinho pode morar contigo nessa mansão, naquele seu apartamento chique, no apartamento dele que vivia cheirando a mofo, bolor e mudou os ares quando você entrou na vida dele ou até mesmo naquele quarto do hotel instalado naquela zona inóspita da cidade. Para ele tudo é a mesma coisa, porém, o que diferencia é a pessoa. Talvez tu não estejas acostumada com a simplicidade com que o teu marido vive a vida, portanto, se estiveres inteira com ele, tenho certeza de que será imensamente feliz e ninguém conseguirá atravessar o caminho de vocês dois.

– Eu preciso me convencer disso.

– Agora é necessário você dar paz para ele. Quando ele começa a falar de um assunto é porque aquilo o está incomodando. Se não te quisesse na vida dele, não teria deixado o hospital em sua companhia. Eu e o Roberto poderíamos cuidar dele, mas Márcio escolheu seguir contigo, indicando o quanto te ama. O outro momento foi quando tu que quebrou a perna dele e se tivesse acertado a sua genitália, o pau só iria servir para mijar e olhe lá! Qualquer mulher gostaria de ter um homem assim do lado, sendo contar que ele é muito compreensivo contigo, mesmo sendo meio antiquado.

– Por mais que me diga, ainda não consigo entender porque os você e ele não se envolveram como homem e mulher.

– Por uma razão muito simples: não serve para mim como homem. Amigo é uma excelente pessoa, mas não temos químicas e agora tire essas coisas da cabeça e o ame. Se não for capaz de fazer isso, se afaste. Ele entenderá e com certeza terá nele um excelente amigo.

Essa observação de Fernanda, que estava dando os primeiros passos em direção ao seu casamento com Ricardo foi uma chacoalhada na empresária que não tinha visto a situação pelo prisma que a sua funcionária lhe havia mostrado naquela ocasião.

Assim que Fernanda terminou de falar, Ricardo chegou querendo a sua atenção. “- Estava te procurando, meu amor”. “- Como pode ver, não estava com Marzinho e sim dialogando com a esposa dele que é minha patroa”.

“- Tem coisas mais importantes para pensar do que no seu amigo. Angélica sou grato pelo auxilio que está nos dando”, disse o noivo de Fernanda.

– Agora realmente você consegue compreender que jamais entre o meu esposo e sua noiva houve alguma coisa, pois se isso tivesse ocorrido, nem eu e nem você estaríamos aqui tendo essa conversa.

Ao dizer isso, a empresária optou por não alongar o diálogo. A secretária tinha lhe feito revelações bombásticas sobre o esposo, principalmente no que diz respeito ao seu caráter e na firmeza em seus propósitos. Desta forma, ela, esposa, tinha que se concentrar no futuro com ele e como desejaria viver esse devir do amor dos dois. “Não é justo viver com ele, tendo essa dúvida aqui dentro e de repente evitar que Marzinho possa ser feliz com outra pessoa”, pensou Angélica enquanto se deslocava para o local em que o marido estava.

No trajeto procurou dissipar tudo, buscando focar naquilo tudo que ouviu da funcionária. Ao cruzar com Tarsila, foi chamada por ela. “-Angélica! Posso ter uma palavrinha contigo”, perguntou a cunhada. “- Claro que pode. Não precisa dessa formalidade toda”, informou a empresária.

– Quando tu souberes do assunto, saberá porque todo esse cuidado.

Angélica tentou dissuadir, mas sabia que a cunhada não iria lhe dar trégua, então o melhor era se falarem já. As duas se deslocaram para a área do estacionamento da mansão. Debaixo de abacateiro, onde ninguém deixava automóvel porque dos frutos que a árvore produzia, Tarsila foi taxativa: “- E você e Márcio? Quando vão se entender? Tive uma conversa com ele no mesmo dia em que o agrediu e pedi para não machucar o seu coração. Falei para se colocar no seu lugar e parar de dar muito espaço para essa mulherada que não faz parte do nosso cotidiano e também delimitar o espaço de Fernanda, que agora tem o Ricardo e Adélia que estarão com ela”.

– Ele me disse e eu sou imensamente grata, querida, todavia, não deu nem tempo dele colocar isso em prática, pois o agredi e a consequência poderia ser realmente a separação, porém, Márcio não pediu. Mas, sinceramente não sei se foi uma boa, pois não sei se consigo fazê-lo feliz do jeito que ele merece.

– Por que está dizendo isso?

– Ora, fui casada cinco anos com a sua irmã e mais dois anos de namoro, totalizando sete. É a primeira vez que me envolvo com um homem nessa proporção. O engraçado é que o meu marido e minha mãe viviam me alertando se tudo não passaria de fogo de palha, de desejo fugaz de adolescente que se recusa a crescer.

Ao dizer isso, os olhos da empresária estavam marejados e ela não fez questão de esconder da cunhada que estava sofrendo e o medo lhe assombrava, diante da possibilidade de não existir mais nada que a impedisse de viver em paz com o editor e tudo isso estava mostrando que realmente ela o quis enquanto havia disputa com outras mulheres, a exemplo do que acontecia nos tempos de colegial e da graduação.

– Tarsila, sinceramente não sei o que fazer. Eu sei que se pedir um tempo, ele me concederá, porém compreendo também que não haverá volta. Fernanda me disse que Márcio tem apenas uma palavra e se ele falar não, posso esquecer de uma reaproximação. Se isso acontecer, acho que entro em parafuso, aliás, eu já estou.

Antes mesmo de terminar de falar, Angélica estava abraçada à cunhada e chorando, enquanto lhe perguntava o que faria. “- E o que Marzinho diz disso tudo”, perguntou Tarsila. “- De um modo diferente, me falou a mesma coisa que Fernanda. Que não ficará no meio caminho e que sairá de minha vida. Mas se eu o deixar ir embora enquanto me resolvo, sei que se equacionar tudo e querê-lo de volta, não o encontrarei”, desabafou a presidente das Organizações Oliveira.

– Por que não propõe um pacto a ele?

– Posso até propor, mas não posso exigir dele por exemplo fidelidade sexual e eu tenho certeza de que assim que ele estiver sozinho, aquela Ângela cairá matando e ainda tem Alice para assombrar-nos.

“- O que realmente sente por ele”, perguntou Tarsila.

– Tenho certeza absoluta que eu o amo, mas há esse meu lado que tem uma queda por outras mulheres, então fico temerosa se um dia isso acontecer, como ficaremos.

– Querida. Tu não achas que está colocando muita coisa dentro da sua cabeça. Quando ele resolveu ficar contigo, sabia que da sua bissexualidade, portanto, não tem nada escondido entre vocês dois. E o que ele lhe diz sobre tudo isso?

“- Me diz sempre que o futuro é muito longe e que o passado está distante, então devemos viver o aqui e o agora e, caso isso acontecer e quando ocorrer, devemos ter maturidade e conversarmos. Disse que não deixará de ser meu amigo, como a Fernanda acabou de me dizer, mas acho que não conseguirei vê-lo como amigo depois de tê-lo como marido e se ele passar na minha frente com outra mulher, não sei como reagirei”, desabafou a empresária para a cunhada.

– Angélica. Eu e seu irmão passamos cinco anos afastados um do outro por conta de vários problemas, mas acho que o maior empecilho foi a minha covardia e me afastei dele enquanto ele sofria.

– Olha só. Não me pense desta forma, pois sei que se naquele momento vocês tivessem insistido no relacionamento, poderia ter terminado em tragédia. Além do mais estavas sempre por perto cuidando do meu irmão em silêncio. Devemos agradecer o Márcio ter aparecido e resgatado os dois.

– E é justamente sobre isso que desejo te falar. Você acha que Márcio realmente será capaz de te deixar? Ele cuidou do Amadeu, o trouxe de volta, foi ofendido pela sua mãe, por você e por mim, mas, no entanto, está aqui disposto a caminhar contigo, sem mesmo saber como terminará essa viagem.

Angélica ficou olhando para a cunhada, enquanto enxugava as lágrimas que não paravam de cair. “- Minha cunhada: dê um pouco de paz ao coração dele e ao seu, pois sei que Márcio está empenhado em fazer isso e independentemente se amanhã tu se interessar por outra mulher ou pessoa, viva o presente. Sinta em sua totalidade esse amor. Se eu ficar pensando que Amadeu na empresa encontrará outra mulher e que eu não sou a pessoal ideal para ele, não conseguirei dar o que seu irmão deseja: o meu amor. Deixe o Marzinho te amar de forma muito simples, como ele gosta de dizer.

– Ele me pediu para continuar na terapia e que estará sempre comigo.

– Então! Confia nele que já te deu provas robustas que te quer muito do lado dele.

– Obrigada Tarsila. Agora vamos. Quero colocar tudo isso em prática hoje mesmo.

As duas cunhadas chegam abraçadas à área das piscinas, onde Márcio estava com um pedaço de carne na boca e quando viu Angélica, tentou engolir tudo de uma vez, valendo gargalhada de todo mundo. “- Tudo isso é medo da esposa ou dela te dar um puxão de orelhas ou pedir a separação, meu jovem”, perguntou o general dando uma enorme risada, que chamou a atenção de Eleanora.

A anfitriã anotou aquele sorriso como sendo algo significativo. Provavelmente Alexandre estava deixando os hábitos da farda de lado e se soltando cada vez mais entre o pessoal. Ela se aproxima dele, lhe dando um beijo na face e agradecendo baixinho no ouvido dele: “- Obrigado amor, pelo sorriso”. Como a observação da namorada foi inesperada, ele ficou vermelho e todos perceberam, mas ninguém disse nada.

Angélica olhou para o marido e não disse nada. Não podia ficar chamando a atenção dele toda vez que faziam churrasco. Foi Márcio mesmo quem disse que a partir de segunda-feira iniciariam a dieta que ela tanto queria. A esposa se aproximou dele e repetiu o ato que a mãe fez com o general. Só que o conteúdo foi outro, pois Angélica apenas agradeceu por ele amá-la do jeito que ela era.

Ele respondeu do mesmo jeito e tom: “- Se você fosse diferente, com certeza não teria me apaixonado por ti. Irei contigo até o fim do mundo se for possível só para captar um sorriso que sua alma me direcionar”.

A observação do marido foi como se toda a sua insegurança fosse se dissipando aquelas dúvidas. A empresária tinha certeza que elas o visitariam outras vezes, mas era só dialogar com o marido. As conversas com ele na noite anterior, o fato dele ter trancado a porta do quarto por dentro foi proposital, não porque desejava ir embora, mas para que ela tentasse se compreender. As observações de Fernanda e Tarsila também foram significativas e tinha que viver aquele amor, sem temor de que no futuro aparecesse alguém para ele ou para ela.

Nesse interim, Fernanda apareceu e abraçou Ricardo pela cintura, dando uma mordiscada na orelha do noivo que se segurou para que a reação ficasse apenas no corpo inteiro e não em sua região escrotal. Se alguém percebeu alguma coisa, optou pelo silêncio.

O casal saiu de mãos dadas indo em direção à mesa em que a comida era servida. Cada um pegava o alimento que deseja e os garçons só iam colocando mais na medida em que esfriavam ou acabava o conteúdo.

Foi Fernanda quem puxou o assunto. “-Estou preocupada com Angélica e Márcio. Parece que não estão indo bem ou ela está muito insegura, achando que o marido pode deixá-la”.

“- Se o Márcio deixar um avião desses ir embora, ele pode começar a dar a bunda, pois jeito de veado ele tem”, disse Ricardo rindo, mas já sentindo o beliscão forte desferido pela noiva que sentenciou: “- Pois eu acho ele muito mais homem do que qualquer daqueles seus amigos punheteiros. Tenho certeza que já se masturbaram pensando que estavam me comendo e sentindo inveja de ti. Cuidado com o que vai dizer novamente do meu amigo. Embora eu te ame, não gosto de machismo e seu comentário é deselegante e escroto, coisa de gente pobre e sem caráter”.

Sem falar mais nada, Fernanda saiu do lado do noivo e entrou para dentro da mansão, tentando não demostrar decepção e tristeza pelo comentário que o noivo fez do amigo. Adélia e Judith que conversavam com Rogério percebeu e o trio foi em direção a ela que não aguentou e falou o que tinha escutado da boca do noivo.

Do nada, Ricardo entrou na sala, sendo surpreendido por Rogério que lhe agarrou pelo pescoço, dizendo entre os dentes. “- Se você falar de novo que meu filho é veado, te farei engolir essas bolas que carrega no meio das pernas e que sua noiva ainda não experimentou. O recado está dado, moleque”, disse isso saindo calmamente como se não tivesse acontecido nada, mas Ricardo estava com a cara de quem tinha acabado de ver um fantasma.

Meio catatônico, Ricardo tentou buscar abrigo junto à mãe que acabou dando o golpe final. “- Não vem para cá buscando proteção que não terá. Onde já se viu chamar o amigo de Fernanda de homossexual? Você teve sorte que foi o pai dele quem escutou porque se fosse ele, não sei como sua cara ia ficar, além de perder a noiva”, disse Adélia de forma exasperada.

– Saiu sem querer.

– Moleque. Modere sua língua, pois ela poderá te trazer consequências ruins para a tua vida. Já te falei mais de mil vezes para se afastar daqueles seus colegas que têm essas ideias reacionárias. Olha só como sua noiva está, seu inconsequente.

Judith só olhou para Ricardo e saiu. Conversou com Angélica e em pouco tempo estavam todos dentro da sala e em silêncio o noivo de Fernanda escutou o que não precisaria, ainda mais depois de que a esposa de Márcio tinha oferecido para comprar o terreno. “- Meu caro Ricardo, eu te ofereço um trabalho na minha empresa, não é grande, mas trabalho terá sempre. Minha esposa empresta o dinheiro para tu comprar o terreno e construir a casa em que vai morar com a sua futura esposa e o que recebemos? Essa ingratidão? Talvez ache que eu seja gay porque não comi a tua noiva, minha excelente amiga, ou por que não fico como tu me ufanando que comi fulana, beltrana, que eu sou fodão? Mulher de verdade não gosta desse tipo de homem. Fernanda não precisa de um moleque ao lado dela. Então, guarde para ti as suas opiniões absurdas, pois amanhã tu poderás não ter noiva, terreno e nem emprego. Ah! Tivestes sorte do meu pai está de bom humor hoje, do contrário, estaria com essa cara de machão de quinta categoria toda amassada. Angélica, me ajude a voltar lá com o pessoal. Não quero que esse aprendiz de homem me estrague o dia. Desculpe-me Adélia, mas teu filho precisava escutar isso para entender que ser homem não é ficar contando vantagens aqui e ali, mas ser sobretudo, amigo da esposa, da noiva e da namorada”.

Márcio deixa o interior da mansão e nem parecia que houve discussão. Ele disse tudo numa serenidade, a exemplo do que o pai fez com Ricardo. Fernanda o deixou lá e foi em direção aos amigos. Roberto percebeu que tinha acontecido algo, mas optou por ficar em silêncio. Dentro da casa ficou apenas Adélia e Ricardo que não sabia o que dizer. “- Poxa mãe! Foi só uma brincadeira e a coisa virou essa confusão toda”.

– Pode ser brincadeira entre ti e os merdas dos seus colegas, mas não para essa gente aqui que são sérias e não faltam com respeito com ninguém e se você falou isso para Fernanda é porque já comentou isso em outro lugar. Teve sorte do pai dele não te quebrar a cara. Agora que quiser ficar com a tua noiva, terá que pedir desculpas para o Marzinho e torcer para ele aceitar.

Romualdo entrou no ambiente querendo saber o que tinha acontecido e a esposa expos tudo o ocorrido. “- Tu és retardado ou está treinando seu imbecil? Como tu vem dentro da casa da família dele o chamá-lo de veado e ainda mais para a melhor amiga dele”, pergunta de forma exasperada o pai de Ricardo.

– Pai! Eu sei que errei mais pelo hábito.

– Esse hábito você não adquiriu junto do seu pai, de sua mãe e nem de sua irmã. Você pedirá desculpas para ele agora, do contrário, eu entrarei nisso e vamos desfazer tudo, inclusive o noivado com Fernanda que, apesar de te amar, está começando a perceber que tu não és homem, apesar de carregar pau e testículos. Isso que fizestes é coisa de alcoviteiro ou daqueles seus amigos retardados.

Pai e filho se aproximam do grupo em que o editor estava e Fernanda se distanciou do noivo. A fala dele foi como um golpe, ainda mais porque Márcio e Angélica iriam ajudá-los no início do projeto da casa, inclusive o marido cedeu o apartamento dele para morarem até o imóvel ficar pronto. Roberto a acompanhou, porque sabia se ficasse ali, a coisa poderia ficar complicada.

Romualdo foi quem falou primeiro. “- Márcio quero te pedir desculpas pelas asneiras que esse idiota disse à noiva a seu respeito. Eu sinto muito, pois é um hábito que não existe em nossa família”.

Angélica olhou firme para Ricardo afirmando. “- Não é o senhor quem tem que fazer isso, mas seu filho que vive fazendo merda atrás de merda e a Fê sempre relevando, mas essa de duvidar da sexualidade de meu marido, passou das contas, pois afetou todos nós. Assim, estou propensa a repensar tudo aquilo que lhe disse anteriormente”.

– Peço desculpas, Márcio, pois foi como disse ao meu pai, foi por força do hábito. Sei que cometi um erro gravíssimo, mas espero contar com as suas sinceras desculpas.

– Meu caro. Não sou de muita reunião, então só vou lhe dizer uma coisa: se é hábito, isso indica que conversou sobre esse assunto com seus colegas, o que somente contribui para eu verificar a sua péssima visão moral que tem das outras pessoas, sem lhes conhecer direito. O racismo, homofobia e todo tipo de preconceito nasce desse achar e depois explicar-se como se fosse força do hábito. De ti só quero duas coisas: o seu trabalho que será bem pago e que faça Fernanda feliz. A sua opinião sobre a minha pessoa não tem o menor valor, mas se eu souber que anda disseminando inverdades a meu respeito, os dentes que tu tens na boca vão parar na porta do seu rabo.

Depois do que Márcio disse à Ricardo parecia que não haveria mais clima para ele continuar ali. Fernanda estava desolada, conversando com Roberto que tentava de todas as formas, acalmá-la. O editor chegou junto com a esposa e quis conversar com ela que, chorando, abraçou o amigo perguntando o que ela deveria fazer.

– Querida. A treta é entre ele e eu e não tem nada a ver contigo. Se o ama, vá em frente. Você tinha treta aqui com a minha esposa e nem por isso, eu deixei de me casar com ela e continuar sendo seu amigo. O pão para ficar belo e formoso, leva umas porradas. O seu Ricardo está entendendo como a coisa funciona.

– Mas e se ele quiser ir embora?

– Estará provando que não é digno de ti e não é homem. Ele tem que ficar até o final, afinal quem disse o que não devia foi ele e entendeu que entre nós não há mentiras e nem frescuras.

O clima ficou pesado por mais de uma hora, mas todos se ocuparam em dissipar aquela situação, pois Fernanda não iria embora e não queria que o noivo fosse, pois teria que aprender a lidar com momentos embaraçosos que ele mesmo criava e precisava entender que para a noiva, colocar em dúvida qualquer coisa relativa aos seus amigos, a coisa ficaria tensa mesmo.

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