Ainda o pensar sobre o homem

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Embora o título da reflexão de hoje faz alusão ao ato de refletir sobre o ser humano, é preciso ter claro se isso não for realizado de maneira fecunda, no devir da humanidade, a nomeada por ser outra trocando apenas o verbo “pensar” pelo “pesar”. Tendo essa singela observação como premissa, começo as minhas enunciações para o momento trazendo alguns fragmentos textuais que considero importantes para ajudar-nos a refletir sobre o agir do indivíduo que se torna um ente social durante os processos de socialização primária e secundária. A primeira abordagem foi feita pelo psiquiatra martinicano Frantz Omar Fanon (1925-1961) e consta em seu livro Por uma revolução africana: textos políticos (Rio de Janeiro: Zahar, 2021), mais especificamente no artigo “A ‘síndrome norte-africana’” [pp. 37-53]. Segundo ele, “é comum dizer que o homem está sempre questionando a si mesmo e que renega quando afirma não estar agindo assim. Ora, parece ser possível descrever uma dimensão primordial de todos os problemas humanos. Ou, mais precisamente, que todos os problemas que se apresentam ao homem acerca do próprio homem podem conduzir à seguinte pergunta: ‘Será que eu, em função de minhas ações ou abstenções, contribuí para a desvalorização da realidade humana’” [FANON, 2021, p. 37].

Entendo ser significativa essa abordagem que o autor faz, pois nos conduz, eu e vocês, meus caros leitores, a diversos recônditos do ser em si e de sua alma, ou melhor, espírito – aqui nenhuma dessas definições estão associadas ao universo religioso, mas a duas questões importantes: a primeira é advinda do pensador grego Platão que entende a alma como aquilo que anima o sujeito, isto é, lhe dá sentido e movimentação na esfera material; o segundo advém do pensador alemão Hegel e faz alusão ao momento histórico do sujeito que no Brasil atribuímos o conceito de cultura, todavia, optei pelo primeiro porque está muito mais voltado às minhas pretensões neste texto, cujo escopo é abordar a problemática em torno do hábito, ética e tratar dessa temática numa Nação fundação no trabalho não pago, é enfocar a desvalorização do semelhante que exerce uma função tão importante quanto qualquer outra. Entendo que podem haver pessoas que discordam deste que disserta no momento objetivando auxiliar quem o lê a formatar dentro de sua mente vários questionamentos. Neste sentido é que coloco o segundo fragmento para essa narrativa que se propõe crítica. No livro Análise do Homem (Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966), o psicanalista suíço Erich Fromm (1900-1980) usou uma epigrafe, fazendo com que o leitor reflita antes mesmo de iniciar a leitura de sua obra: “Quem, pois, são os verdadeiros filósofos? Aqueles que ama contemplar a verdade”. Esse excerto foi capturado das obras de Platão. Entendo que aqui cabe outra assertiva, desta vez do universo dos enciclopedistas franceses depois da Revolução Francesa de 1789. Segundo tal aforisma, o homem, portador de cidadania plena, pode não concordar com o que diz o seu interlocutor, contudo, deverá defender eternamente o direito deste se expressar. Válido para o momento em que o Brasil está: mergulhado em plena pandemia com os agentes governamentais, principalmente no plano federal, tentando encobrir seus graves erros, indicando não pensar na população, mas somente em si e nas eleições do próximo ano.

Como meus leitores podem observar, somente nesses dois parágrafos há subsídios para se refletir o em si, no outro e como as ações humanos, quando são replicadas, formam um caos ou uma sociedade harmônica. Neste sentido, me parece que há espaço aqui para uma interpelação: como cada indivíduo pode contribuir para o devir da humanidade? O primeiro passo é tentar entender como as crianças estão sendo educadas no presente. Entretanto, não se pode fazer com que o sujeito individual se deixe subsumir pela massa, conforme nos fala Elias Canetti (1905-1994) no clássico Massa e Poder (SP: Cia das Letras, 2019). Quando se diz crianças, homens, é como se tirasse a responsabilidade de cada um para que o conjunto não desafine ao se pensar em qualidade de vida e solidariedade. O pensador alemão Immanuel Kant (1724-1804), presente aqui várias vezes, disse em sua obra Para fundamentação da metafísica dos costumes (Petrópolis, RJ: Vozes, 2013), que o ser humano deve agir a partir da máxima segunda a qual a sua ação possa ser universalizada. Desta maneira, entendo que cada criança é una e deve ser observada e educada pelos pais ou responsáveis desta forma e não com a ideia de rebanho. É preciso compreender desde cedo que elas têm autonomia e esse processo deve ser estimulado. Se isso é fato, tendo a observar que ninguém nasce racista, mas se torna por escolhas na vida adulta, pois um ser, durante o seu processo de socialização primária, aprenderá valores éticos e morais passados pelas famílias, pais, responsáveis, tios e demais parentes.

O historiador Francisco Bethencourt diz em seu livro Racismos: das cruzadas ao século XX (SP: Cia das Letras, 2018, p. 22) que “o racismo na forma de preconceito étnico associado a ações discriminatórias foi motivado por projetos políticos”. Resta saber se no Brasil isso ocorreu a partir de quem. Claro que uma leitura atenta aos movimentos da história, saber-se-á que o espirito do tempo contará que a nobreza e os cafeicultores, associados à uma elite lisboeta, jamais aceitariam o fato de que os descendentes de africanos se constituíssem enquanto cidadãos. É importante recordar que naquela manhã de sábado, 13 de maio de 1888 quando foi publicado a Lei Áurea eliminando o escravismo no país, a capital da Corte era habitada muito mais por escravos do que homens brancos. Então, meus caros leitores, imaginem o que aconteceria se essa massa de ex-cativo possui consciência social, educação e portadoras de seus direitos plenos? Não preciso dizer que uma transformação sem haver a necessidade do uso da violência, mesmo que fosse a simbólica, para mudar todo o quadro social da época e do seu devir. Passados 133 anos do fim do trabalho escravo no Brasil, e os descendentes de africanos continuam carregando e recebendo em suas almas pretas as chibatadas desferidas por sórdidos senhores e seus mórbidos capatazes através de um racismo negado, contudo pratica nos bastidores.

A escritora estadunidense Toni Morrison (1931-2019), que costuma ser presença constante em minhas reflexões, faz uma distinção entre corpo escravizado e corpo negro. Segundo ela, “não apenas as origens, mas as consequências da escravidão nem sempre são racistas. O que é ‘peculiar’ na escravidão do Novo Mundo não é sua existência, mas sua conversão à tenacidade do racismo. A desonra associada a ter sido escravizado não condena inevitavelmente os herdeiros de alguém à vilificação, à demonização ou ao suplício. O que sustenta isso é o racismo” [O corpo escravizado e o corpo negro. In. A fonte da autoestima: ensaios, discursos e reflexões. SP: Cia das Letras, 2020, p. 107]. Parece-me que diante do exposto acima, é possível fazer a seguinte pergunta: o ser em si é racista ou se torna e aceita fazer parte de um projeto político que deseja eliminar, ou espremer nas masmorras dos castelos pós-modernos e seus respectivos palácios, aquelas populações que deram o sangue para construir esse país e recebiam como pagamento bilhões de açoites quando estavam acorrentados nos troncos espalhados por esse Brasil afora? A resposta é individual ou coletiva?

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

 

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