Sobras de um amor … parte III

8.

 

Fernanda acordou na manhã seguinte com o corpo todo dolorido. Resolveu não dizer nada aos amigos, mas chorou quase a noite inteira. As lágrimas caiam até que o sono chegava e por ser leve, logo despertava para ficar pensando em Ricardo e no ciúme excessivo que tinha do amigo. “Será não percebeu que eu adoro aquele negão, mas não como homem, e sim como pessoa? Será que somente eu enxergo o Márcio a partir de sua alma”. Tendo essas e outras anotações em pensamento, a hóspede viu quando o dia chegou, escutando o casal conversando.

Deixou o quatro, não sem antes arrumar tudo direitinho, pois ali seria o local em que seu afilhado ficaria depois de chegar ao mundo. “Espero que quando ele aportar aqui, as pessoas não estejam tão dementes como se encontram no presente”, pensou a futura secretária de Amadeu que não conseguiu disfarçar de Roberto que tivera uma péssima noite de sono.

– O que foi Fê? Pesadelo com Ricardo ou vontade de se jogar nos braços do Marzinho?

– Antes que eu me esqueça, vai tomar no olho do seu cu. E não vem com essa história. Acho que eu deveria ter dado para ele naquela noite em que tu ficou no apartamento trepando com a sua esposa. Assim teríamos o que dizer para esse pessoal que vive enfiando na cachola que eu e ele tivemos um caso ou vamos ter.

Danisa e o marido caíram na gargalhada porque sabiam que a fala do diretor foi uma provocação para ver se a amiga dizia alguma coisa relacionada ao acontecimento da noite anterior. Tomaram café rapidinho e Roberto e a secretária foram em direção à casa de Fernanda. No trajeto, o amigo lhe passou a chave do apartamento de Márcio. “- Fique lá. O Marzinho só voltará no domingo mesmo, então tu terás um canto para ficar mais tranquila e ir se acostumando com o ambiente para depois viver com Ricardo”.

– Você acha mesmo que eu devo reatar com ele, depois de tudo o que me disse ontem?

– Querida, penso que tu terás cinco dias para refletir com tranquilidade enquanto se prepara para secretariar a diretoria, isso quer dizer, a esposa do seu melhor amigo.  A discussão de vocês não foi por conta dele ter te traído, mas sim porque não consegue ficar à vontade sabendo do carinho que tu e Márcio tem um pelo outro.

Fernanda seguia em silêncio, enquanto o motorista lhe fazia uma significativa pergunta: “- Você vê nele traços de ser uma pessoa violenta? Ele já gritou contigo, já deu murros na parede quando discutiam”.

– Não! Ele nunca fez, mas eu percebo que o principal motivo é em relação ao Marzinho e é como se ele se encolhesse, se sentiindo inferior ao marido de nossa patroa.

– Fê! Posso estar errada, mas a mesma abelha que picou Angélica em relação a ti, acho que também está ferroando o coração de Ricardo, mas sei que a coisa se serenará e vocês viverão mais tranquilos daqui para frente. O medo dele te perder, além de tu teres ao seu lado, os pais e a irmã dele, pesa bastante.

– É meu amigo. Eu espero que sim. Não quero perdê-lo e também não moldá-lo aos meus caprichos porque não gostaria que fizesse isso comigo, porém, acalento algumas coisas, como por exemplo privacidade; não desejo ficar usando roupas que me exponham em demasia e nem ser exibida por ele aos amigos. Eu disse isso a mãe e o pai e ambos concordam comigo.

– Acho que é por isso que fica inseguro. Quando todo mundo quer soltar foguetes porque conquistas as coisas tu não queres, assim como Marzinho. Então fica achando que o Márcio é o homem ideal para ti, pois é discreto, odeia holofotes.

– Mas chega de falar disso. Hoje quero me concentrar no trabalho. Sei que estou em processo de avaliação por aquela doida da mãe de Angélica. Eita família de miolo mole com muito dinheiro. Você sabe por que ela me promoveu a secretária dos filhos dela?

– Não! Só sei que ela te levou para conversar e depois voltou com aquela conversa toda. Eu achei que era para fazer a filha crescer.

– Primeiro ela me perguntou se eu tinha dado para o Márcio. Tem cabimento uma coisa dessas? Aí eu soltei os cachorros e fui sincera, pois sabia que seria demitida. Estava de saco cheio de ficar respondendo que eu o genro dela só temos uma bonita amizade. Em seguida a doida me falou que adorou minha franqueza e que gosta de gente assim.

– Fê quando aquele negão tomou um porre do caralho e quase morreu e em seguida voltou para o apartamento dela, percebi que os dois não se largam. Podem morrer na porrada, mas depois um vai curar as feridas do outro. Quando cheguei no prédio dele e o vi largado no sofá, gelado e com a pressão baixíssima, fiquei com vontade de matar Angélica. Porém, antes precisaria salvar a vida dele. E tentei ao máximo esconder tudo dela.

– É! Fez que tanto fez que acabou casando com o Marzinho.

– Fê! Ainda sobre o Márcio: você nunca sentiu nada por ele mesmo?

– Porra Ricardo! Até você?

– Estou te perguntando numa boa, pois vocês têm um grude que mais parecem marido e mulher. Eu sei que não há nada, até porque me falaria, mas é muito estranho para quem enxerga de fora e está chegando no nosso universo agora, como o seu namorado Ricardo.

– Se eu te falar que Márcio não é um homem encantador, estaria mentindo. Ele é especial, mas é como se estivesse num altar e não pudesse tocá-lo. É algo meio que platônico. É tão belo o que sinto por ele que chega a ser broxante. Por mais que eu queira vê-lo como homem, eu não consigo. Se fosse para virar alguma coisa, teria ocorrido naquela noite. Eu até pedi para ele dormir no quarto comigo, pois eu estava com medo das tempestades. Era desculpas para ver ele atravessava o farol vermelho e partisse para cima. Mas que nada! O máximo que fez foi se levantar no meio da noite para me cobrir, pois o cobertor tinha caído no chão.

Ao ouvir isso, Roberto caiu na gargalhada porque Márcio nunca tinha falado nada sobre aquela noite. “- Eu e o Márcio é como se ele se masturbasse com o pau mole e eu sem tesão. Esquece. Não vou estragar a nossa amizade por algo que não tem sentido no nosso presente. Falei isso para a doida da esposa dele. Tenho certeza que será uma foda de péssima qualidade.

Diante do olhar do amigo, Fernanda sacramentou, esperando encerrar aquele assunto: “- Me chegou primeiro a pessoa e aí fiquei cega para o homem e tenho certeza de que Marzinho observa da mesma maneira. Ele será sempre o meu perneta leitor, aquele que nunca me deixará cair, ficar sozinha na escuridão. E vamos encerrar esse assunto que já rendeu briga, demissão, novos empregos e muita ciumeira”.

O casal chega à residência da secretária que desce rapidinho, ingressa na casa, saindo pouco mais de dez minutos depois, entrando no carro de Roberto, que se encaminhou para a empresa. Todavia, andaram quatro quarteirões e o diretor encostou o carro, descendo indo em direção do outro automóvel que havia parado bem próximo.

– O que está fazendo Ricardo? Você ficou maluco? Tu achas que Fernanda voltarás contigo, agindo feito um psicopata. Vai se tratar moleque. Se eu te pegar nos seguindo novamente, daremos um jeito de entortar essa sua cara que ficará esperando o Márcio voltar para desentortá-la com uma surra que o teu pai não te deu. Agora vai procurar um tratamento e só volte para falar com Fê quando for homem de verdade.

Ao entrar no carro, Fernanda estava passada, mas foi acalmada por Roberto. “- Fique tranquila. Ele não fará mais isso”, explicou o diretor que ligou para Romualdo. “- Fala com o seu filho para deixar de perseguir a Fê. Não é assim que a terá novamente. Espero sinceramente que isso não se repita, seu Romualdo. O comportamento dele, afetará o relacionamento de nós todos e eu não estou nem um pouco a fim de arrebentar a cara dele”, bom dia. “- Desculpe-me, pelo meu jeito, mas quando está com ela fica com fricote por causa do Márcio e agora está a perdendo e deu de persegui-la”, completou o diretor.

“- Tudo bem, Roberto falarei com ele. Você e Fernanda tem a minha palavra de que isso não acontecerá novamente”, informou Romualdo que ao desligar, telefonou para o filho, exigindo que ficasse onde estava. “- Seu filho de uma puta. Para quê foi atrás da moça? Quer arruinar a vida de sua irmã e de todos nós, cachorro! Me espere aí que estou chegando”.

Não deu dez minutos e Romualdo estacionou o seu carro atrás do veículo em que estava o filho. “- Pare moleque! Não combinou com a sua irmã e mãe de ir ao terapeuta? Mas não! Tem que arrumar confusão”, falou de forma exasperada Romualdo.

– Desculpe-me pai. Eu só queria vê-la. Eu amo essa mulher e estou com medo do caralho de perdê-la.

– E acredita que a conquistará com o que acabou de fazer? Tu achas que os caras te deixarão chegar perto dela? Você teve sorte que ela estava com Roberto. Se é o Márcio e, sabe-se lá, se o cara não começará a andar com seguranças por conta da mulher dele. Eles te arrebentam no meio. Deixe ela respirar, decidir o que fará. Fernanda falou para tua mãe que te ama, mas está receosa de que tu podes asfixiá-la com seu ciúme desmedido.

– Não sei o que me deu!

– Vontade apanhar. Cuidado! Você não tem terapia agora e por isso diminuiu o seu horário de almoço? Vamos lá. Eu te acompanho e depois voltamos para a casa.

Ricardo abraçou o pai e chorou copiosamente e as lágrimas eram de puro desespero. O que aconteceu com ele nas últimas doze horas lhe tirou todo o norte. “- É moleque! Essa doida tirou todos os seus pinos do lugar”, disse o pai rindo, pois percebeu que o filho realmente estava apaixonado pela maluca da Fê, mas a mulher parecia ser mais explosiva que Angélica.

Enquanto esperava o filho passar pela primeira consulta, Romualdo liga para Adélia, pedindo para ela falar com Fernanda, explicando que o filho havia iniciado terapia. “- Ela já me ligou e está putíssima com ele. Me disse que se ele fizer isso novamente, é ela mesma quem vai quebrar a cara dele e depois é só chegarmos para reconhecer o corpo”, disse a mãe caindo na gargalhada.

– Por que você está rindo mulher de deus?

– Se nosso filho quiser ficar com essa moça, terá que deitar em cama de pregos. Ela é das minhas. Vou até presenteá-la com um pau de macarrão. Mandarei entregar na empresa onde ela trabalha.

– Ué! Por que fará isso Adélia?

– Ela precisa saber que estamos do lado dela e não do nosso filho.

O casal deu risadas e o marido gostou da iniciativa da esposa. Perto do horário do almoço, Fernanda recebe a encomenda. Pensou que era algo de Roberto, mas não tinha nada a ver. Ao abrir o pacote, viu o pau de macarrão e logo em seguida o seu celular tocou.

– Gostou do presente, minha filha?

– O que é isso Adélia? Um pau de macarrão. Para que serve?

– Para quando precisar demonstrar para o meu filho quem está no comando. Ricardo ficou muito triste com o que fez hoje pela manhã e em nome dele e do meu esposo lhe solicito o perdão, mas não desista dele. Você é o primeiro amor dele e o pegou de jeito.

– Adélia. Amo seu filho e não pretendo me afastar dele, mas esses dias longe fará bem para nós dois e assim posso me concentrar aqui no trabalho. Se Rick fosse mais tranquilo, poderíamos estar mais avançados no relacionamento. Não vou para cama com seu filho, enquanto ele não estiver equilibrado. Não tem nada a ver com puritanismo, mas quero fazer amor com um homem e não com um moleque que acha que pode perder a namorada para o amigo dela. Se ele pensa que ficará me disputando com Márcio, está muito enganado: Marzinho vencerá sempre. E a senhora sabe no sentido que estou lhe dizendo.

– Sei sim minha filha e estou vibrando para que se torne minha nora!

– Adélia, nós já temos até o local para morarmos, mas não posso falar nada, porque se eu disser, é capaz de sair faísca e ele se recusar. Antes mesmo deu conhecer o seu filho, o Márcio tinha me prometido deixar morar lá para que eu me livrasse do aluguel.

– Nossa filha que maravilha!

– Mas como posso dizer isso ao seu filho com essa ciumeira danada que tem do Márcio?

– Então fique calma. O que aconteceu hoje de manhã não se repetirá. Eu lhe garanto e ficamos assim: na próxima semana marcaremos um jantar de reconciliação aqui em casa. Mas veja bem: não traga nem Márcio, nem Roberto e nenhum dos seus amigos, para não deixar meu filho mais inseguro.

– Tudo bem Adélia.

Assim que a futura sogra desligou o telefone, o filho chegou. Foram duas sessões seguidas. “- Oi filhão! E como foi lá”, perguntou a mãe. Ricardo se sentou ao lado dela e desabou no choro. Adélia ficou em silêncio, olhando para o marido que permaneceu ali com eles.

Depois de enxugar as lágrimas, Ricardo começou a falar sobre as conclusões que tinha chegado depois daquelas horas com o terapeuta. – Acho que o ciúme está mais associado às minhas inseguranças em relação ao sexo oposto”, disse o namorado de Fernanda.

Adélia e Romualdo escutaram atentamente, estimulando-o a continuar. O processo de fala e escuta é importante nesse momento, sem haver a necessidade de julgamentos. “- O ciúme é só com Márcio porque ele representa tudo o que eu queria ser, mas não consigo, pois criei uma identidade falsa que consegui manter com os meus amigos. De certa forma, todos nós fazemos a mesma coisa, nos ajudamos a manter as aparências”.

“- Que identidade falsa é essa, meu filho”, perguntou Adélia.

– É como se eu não aceitasse ou escondesse o meu verdadeiro eu e vivesse uma outra pessoa para ser aceita e assim continuar a farsa, protegendo o que eu realmente sou. Deixa eu explicar de forma diferente: seria como se eu vestisse uma roupa que me modificasse e agindo desta forma eu me sentia seguro.

“- Você percebeu tudo isso nessas horas com o terapeuta, meu filho”, perguntou Adélia.

– Não mãe! Vim no caminho pensando sobre o que falava para o psicólogo e ele me dava cordas. De certa forma, quando conheci Fernanda foi como se ela me desnudasse, tirasse toda essa proteção que eu usava para me sentir seguro. Quando os amigos dela me dificultaram o acesso a ela, foi como se tivessem me forçado a ser eu mesmo para chegar até Fernanda.

“- E quem é esse você”, perguntou Romualdo.

– Ainda não sei direito pai, mas eu sei que é desse que a Fernanda gosta e ama, pois foi esse que eu lhe apresentei naquela noite, achando que poderia levá-la para casa, crendo que ela era toda independente, mas percebi que não. É durona por fora, mas por dentro é um cristal protegido por aqueles dois amigos dela.

– Então é uma ótima pessoal, meu filho. Capaz de te fazer feliz.

– Acontece dona Adélia que estou quase quebrando esse cristal porque desejo ser melhor do que o amigo dela e não tem como eu ser como aquele cara. Ele parece afetado. Aí pinta o ciúme misturado com inveja. Fernanda confia cegamente neles e, em virtude disso, tenho que achar meu lugar ali, sem precisar remover os dois.

– Está certo filho. Pelo que vejo tu terás muito trabalho durante essa semana. Não deixe de ir trabalhar amanhã e se concentre no que estiver fazendo.

– Só mais uma coisa: no retorno do terapeuta eu recordei quando a Fê me disse que ela teve uma briga com Angélica por conta do ciúme dela e o Marzinho disse que iria se casaria com a empresária, mas jamais deixaria de ser amigo de Fernanda.

“- Elas não se bicam direito por conta disso, contudo, a patroa de Débora está desenvolvendo uma forma de ficar com o marido sem atrapalhar a amizade dos dois. Ela, assim como você, desconhecia amizade entre homens e mulheres”, explicou Adélia ao filho.

– Mãe. Tentarei trabalhar hoje à tarde. O terapeuta me disse que pode ser uma hora por dia até sexta-feira.

– Você já comeu meu filho?

– Eu almoço no caminho para o trabalho. Pai! Obrigado pela força. Ainda bem que Roberto não é pavio curto como o amigo dele, senão estaria com a cara toda rachada agora.

Os três deram risadas e Ricardo foi se ajustar para o emprego. A melhor coisa a fazer era se concentrar no trabalho e deixar Fernanda refletindo do lado dela e ele raciocinando a partir do seu universo. Pensou em mandar flores, mas entendeu que qualquer forma de contato não seria benéfica naquele momento, depois que a perseguiu. “Tenho que lhe passar segurança”.

Enquanto Ricardo tentava se ajustar com a própria consciência, Rogério falava com Eleanora e está lhe informou que poderia mediar a compra de um supermercado lá. Sabia de uma loja que estava à venda e que tentaria segurar o estabelecimento para ele. Espere até amanhã que vou conversar com a pessoa que me falou sobre esse supermercado e qualquer coisa tu vem para cá no sábado e fecha o negócio.

– Eleanora! Gratíssimo pelo apoio. Tenho que ajudar o moleque a resolver essa situação com a secretária da tua filha. Ela deu prazo até domingo.

Assim que desligou o telefone, a sogra de Márcio acessa o número do general que atende, meio surpreso. “- Oi amor! Que surpresa! Não esperava ouvi-la hoje”, disse Alexandre recebendo de volta uma certa cobrança. “- Pois se me ama como me chamou de amor, então espere todos os dias, pois não ficarei um só dia se quer sem me ouvir. Se sentir e pensar o contrário, então é melhor ficar com a sua farda e suas duas estrelas e esse amontoado de escudos que tem pelos seus 30 anos de Exército”, descarregou a namorada que, apesar de ter passado da casa dos 50 anos de idade, agia como a filha quando o assunto era o seu Marzinho.

“- Posso saber qual é o motivo de tamanha bronca, minha general”, perguntou Alexandre tentando quebrar um clima ruim que poderia se instalar se ele fosse pavio curto como a presidente de honra da Organizações Oliveira.

– Desculpe amor. Na verdade, estou te ligando para saber se aquele supermercado que te ofereceram ainda está à venda.

– Estou conversando com o proprietário agora. Ele veio insistir para eu ficar com o estabelecimento, mas eu não entendo porra nenhuma desse negócio e para falar a verdade nem sei comprar nada. Quem faz as compras no restaurante é o meu cozinheiro que aliás era seu funcionário.

– Ótimo! Diga a ele que há um comprador interessado, mas ele só poderá estar aqui na cidade no sábado. Diga para esperar que o negócio é certo. E não se esqueça, quero ver o senhor hoje, pois meu coração está com saudades do teu.

Ao desligar o aparelho, o general passou a informação ao seu amigo que ficou todo empolgado. Queria se desfazer do negócio porque estava cansado e pensava em investir em outra área, mas ainda não sabia ao certo, pois enquanto não se desfizesse daquele supermercado que poderia crescer, caso estivesse com alguém empolgado e com vontade de fazê-lo avançar.

Assim que Igor deixou o restaurante Duas estrelas, Alexandre ficou pensando naquela mulher que gostava dum mando. E não pensava duas vezes para falar. “Agora eu entendo porque o Márcio correu léguas da filha dela. Se for igual a mãe, deus me livre”, pensou o proprietário dando risadas, pois sabia que com aquele jeitão, Eleanora tinha laçado ele, não havia dúvida alguma disso. “- Do que o senhor está rindo, meu general”, perguntou o cozinheiro do qual tinha se tornado amigo desde os tempos da caserna.

– Nada não Ferreira! Só uma coisa que me ocorreu aqui, provando que há vida depois da farda. Não é porque me aposentei do Exército que a minha existência ficou lá dentro dos quarteis.

Enquanto Alexandre pensava no brilho dos olhos de Eleanora, ela conversava com Rogério. “- Meu amigo. Achei aqui um negócio para ti e seu filho. Marquei para o final de semana. Vocês chegam na sexta-feira e no sábado e domingo negociam tudo, aproveitando e ficam para ver se o Marzinho e minha filha saíram vivos desta lua de mel”, disse a mãe de Angélica dando gargalhadas. “- Eu posso falar com Judith”, perguntou ela a Rogério.

Sem dizer nada, o marido passa o telefone para e esposa. “- Olá minha amiga! Tudo bem contigo? E o general”, perguntou a mãe de Marzinho. Eleanora responde que está começando, mas ele cisma em não tirar a farda. “- Aliás, é ele quem está ajeitando esse supermercado para o teu filho”, explicou a sogra de Tarsila.

As duas deram risadas e Judith perguntou: “- E os nossos filhos? Como estão nessa lua de mel”. A mãe de Angélica respondeu gargalhando: “-  Ainda não se mataram. Pelo menos os seguranças falaram que só escutaram discussões na noite de segunda-feira e que ontem ficaram o dia inteiro passeando de mãos dadas pela propriedade e pela cara dos dois tudo eram flores nos corações do casal”, informou a sogra de Márcio.

– Quando eles voltam?

– Vou pedir para sábado à noite ou domingo pela manhã. Vocês estarão aqui e aproveitam e revejam o casal que espero que esteja inteiro.

– Eleanora, será que os dois juntos darão certo?

– Minha amiga, a Angélica é esquentada e seu Marzinho é uma lesma, então pode apostar que sim. Quando ela quiser andar rápido, ele a segurará para não se queimar no próprio desejo e se o seu filho estiver quase parando, minha filha chegará a brasa na bunda dele. O mais importante é que os dois sejam felizes.

E de fato, tanto Márcio quanto Angélica se encontravam, cada um em sua estrela cultivando o amor que sentia pelo outro. O casal estava sentado na varanda apenas escutando os barulhos dos pássaros e dos ventos, enquanto a esposa dormia debruçada no colo do marido. Quem via a cena a partir do céu, nem imaginava que aqueles dois, que tinham tudo para se odiar, não conseguiam ficar sem o outro. A quarta-feira se aproximava do período da tarde e a dupla já estava ficando entediada daquela paz toda.

Márcio fez um movimento com o pé e Angélica acabou despertando de um sono que parecia ser tão profundo que olha para o marido, dando aquele sorriso que o deixa mais apaixonado por ela. “- Amor! O que faremos na parte da tarde, depois que almoçarmos”, perguntou Angélica.

– Estou sentindo um fundo de tédio nessa pergunta.

– Não é isso, mas sei lá. Ficar aqui até domingo só nós dois, estou começando a achar que foi um exagero de nossa parte. Estou sentindo falta do agito, do meu trabalho. Para ti pode estar tudo bem, pois para morrer de repente tu levará uns 100 anos, mas eu não consigo ficar assim. Você me entende?

– Veja bem! Viemos para cá com um único objetivo: nos entendermos. Se voltarmos antes, ou até mesmo no domingo, devemos ter equacionado tudo entre nós: ciúme controlado, principalmente o que a senhorita tem de Fernanda. E precisamos ter claro que entraremos num ritmo alucinado, pois quero lançar a editora dentro de, no máximo um mês. Talvez eu passe o dia inteiro fora correndo atrás de tudo.

– Se não tiver mulher no meio desse agito todo, tudo bem, mas se começar com lesco-lesco com esses rabos-de-saia que dão risadas mexendo no cabelo para chamar atenção de ti, eu não respondo pelas consequências. Não quero nenhuma cadela ciscando na sua área.

Ao ouvir isso, o editor cai na gargalhada. “- Do que está rindo”, perguntou Angélica de forma exasperada. “- É que já vi tudo. Será trabalhoso organizar tudo isso sem te ter por perto palpitando, inclusive na decoração”. Ao dizer isso, o marido abraça a esposa lhe dando um profundo beijo, a deixando leve e serena.

– Amor! Não brigue comigo, mas quero voltar para o nosso apartamento. Acho que já foi tempo suficiente para conversarmos e sabermos o que temos que fazer para que o casamento funcione.

Márcio coçou a cabeça e, muito a contragosto, sugeriu partirem na sexta-feira após o almoço. “- Está bem! Queria que fosse amanhã, mas sei que isso está fora de cogitação”.

– Fiquemos assim então: sexta-feira depois do almoço. Agora é a sua vez de ir para o fogão. Eu fiz o jantar ontem e agora é tu.

A arquiteta franziu a testa, pois não esperava que seria ali naquele momento que teria que pilotar o fogão. Pensou em tudo o que havia na geladeira e resolveu fazer algo simples, sem invenção, sabendo que o marido adoraria. “- Espere aqui. Quando tudo estiver pronto te chamo. Não vá até a cozinha, por favor”, pediu a esposa.

Angélica preparou omeletes recheadas com queijo; camarão e com peito de frango: duas de cada. “- Pronto Marzinho. O almoço acabou de sair. Espero que esteja ao gosto do meu esposo”.

Quando Márcio chega à sala onde seria feita a refeição, observando o que a empresária tinha lhe preparado, olha para tudo com aquela cara de surpresa. “- Ainda não prove nada. Quero estar diante de ti e ver a sua cara para saber se fala a verdade ou estará apenas me bajulando”, informou a empresária.

Assim que terminou de provar um pedaço de cada omelete, Márcio se vira para a esposa fazendo usando uma expressão de quem vai sacaneá-la. “- Se não der certo a editora, posso montar uma omeletaria e minha esposa será a cozinheira do estabelecimento”. Sem pensar, Angélica abraça o marido toda feliz. Finalmente acertou um prato que ele gosta e muito: omeletes.

O casal almoçou e a esposa desejosa de saber mais coisas que o marido trazia guardado a sete chaves no coração, lhe perguntou se a forma de viver metódica era algo de sua essência ou foi ficando assim com o passar do tempo. “- Acho que alguma coisa te forçou a criar uma armadura para se proteger do mundo. Não é possível amor, um ser humano ser tão espartano e rotineiro assim como tu. Não é que eu não goste. Pelo contrário, eu adoro, pois sei onde tu estarás no momento seguinte e ainda assim enlouqueço só de te imaginar com outra mulher”.

– Dona mandona, a senhora sabe quando quer muito uma coisa, mas não sabe ao certo o que é, portanto, não imagina onde encontrar? Pois é! Esse sou eu desde a adolescência, procurando algo que fizesse as estrelas brilharem mesmo que estivesse caiando um temporal sobre a cidade.

– Explique-se homem, mas sem poesia e filosofia. Quero uma resposta direta sem muitas idas e vindas. Se ficar falando em formas poéticas, não chegará onde eu quero. Há momentos que desejo o meu Marzinho todo rebuscado de versos, mas agora quero um ser mais racional.

Márcio fecha a cara, mas entendeu bem o que a esposa desejava saber. “- Tudo começou na minha pré-adolescência por conta da diferença de idade entre eu e Leônidas. Meus pais só deixavam ele sair se me levasse. Essa história durou pouco e para não incomodar meu irmão, me recusava a acompanhá-lo, ficando em casa com o que gostava de fazer: ler e viajar nas histórias que os livros me contavam.

Crendo que a esposa desistiria de ouvi-lo, Márcio parou, mas foi cobrado pela esposa. “- Eu transferi esse hábito para a escola. Então no intervalo das aulas ficava lendo e, quando tínhamos as aulas vagas, escapava para a biblioteca, ficando por lá o período todo. Às vezes, saia para me enturmar, mas nunca achava espaço para conversar. Várias vezes ouvi que os meus assuntos não interessavam a eles, ou simplesmente eu começava a falar algo relacionados ao que estava sendo dialogado e o pessoal ia saindo”.

Angélica estimula o esposo a continuar. “- No começo aquilo que incomodava, mas depois desisti de tentar ficar parecido com alguém ou criar um ser que eu não era para ser aceito pelos garotos e quem sabe trocas uns beijos com alguma garota no intervalo. Sempre tinha umas interessantes, mas era como se eu fosse um ponto fora da curva, um parafuso sem rosca. É isso”.

– Pode parar com essa conversa curta. Eu sei que tem mais coisas aí dentro e pode desembuchar. Anda. Fale enquanto estou disposta a ouvir, mas se não quiser falar eu entendo e podes voltar para a cidade a pé.

– Caralho! Por isso que prefiro sempre me manter em silêncio.

A esposa se levantou, se sentou no colo do marido, falando baixinho em seu ouvido. “- Ainda bem que meu nego não encontrou ninguém naqueles tempos, pois o seu coração sabia que sua grande paixão ainda iria surgir, ou seja, euzinha aqui”.

Depois de beijá-la, Márcio levanta com ela no colo que aproveita para cruzar as pernas em suas costas e caminha para o sofá. Após se sentar, o marido revela o que ela temia: a presença de uma mulher que havia antes de Márcia.

– Eu ia e voltava para a casa sozinho e nem me importava porque sempre ficava pensando nos livros e romances que lia, até que um dia, na saída da escola uma adolescente veio conversar comigo. Eu estava totalmente aéreo e só escutei quando se apresentou: ‘Oi! Sou Alice e você quem é?’. Fiquei em silêncio e continuei a caminhada. ‘Acho que é por isso que te chamam de nerdão ou merdão, não sei ao certo’.

– Onde está essa Alice hoje? Se eu a encontrar conversando contigo, tenho certeza que não vai prestar, a exemplo do que aconteceu com a sua ex-namorada, aquela professora da faculdade.

– Eu nem sei onde anda Alice. Eu respondi de maneira bem direta, mas ela continuou insistindo. E todos os dias eram semelhantes. Ela estudava em outra sala e quando ajustava de termos aulas vagas no mesmo horário ou no intervalo, lá estávamos nós no pátio da escola. A nossa amizade era tipo eu e Fernanda. Foi para a casa dela que fui quando briguei com o meu pai.

– E lá vocês ficaram pela primeira vez?

– Nunca ficamos. Ela não transava homens, mas me fazia companhia para não ter que dar explicações para ninguém.

– Então vocês formavam o casal diferentão da escola: ela homossexual e você gay.

“- Caralho! Não! Eu gostava dela. Era um papel diferente. Podia falar de tudo e acabei descobrindo nela uma significativa pessoa, até que me falou que bem que poderia gostar de homens assim eu seria o seu namorado”, explicou o editor.

– Quando Alice me disse isso, foi como se eu percebesse porque queria estar sempre com ela. A sua alma me encantava, mas tinha o impedimento sexual. Depois desse tempo que eu fiquei na casa dela e o que me disse, começou a se afastar e eu retornando aos poucos a minha rotina antes de Alice. Aí fui para a Universidade, percebendo que não me encaixava em canto algum. Conversava com muitos dos universitários, mas apenas com Roberto que me afinava e é assim até hoje.

– Essa Alice você nunca mais a viu? E se ela aparecesse hoje te dizendo que havia se equivocado com relação à própria sexualidade e que aquilo tudo foram arroubos de adolescência, desejando recomeçar contigo do ponto onde pararam?

– Onde a imaginação da minha esposa quer chegar?

– No lugar de sempre! Saber até que ponto eu moro em seu coração a ponto de não ter que disputar o espaço com uma antiga paixão da adolescência.

– Bom! Não posso negar que ela me virou do avesso naquela época. Sendo assim, se ela aparecesse e dissesse tudo isso aí que tu falou, eu diria que precisaríamos conversar primeiro.

Angélica levantou e já berrando com o marido, lhe dizendo: “- Então vai atrás dela agora. Quem sabe não te leva para o país das maravilhas e não te apresenta uma xereca sem defeitos”.

O editor olha para a mulher e cai na risada, afirmando: “- E perder a minha omeleteira predileta? Nem morto. Eu encontrei a pessoa que procurava desde a adolescência e agora eu não a deixo nem se estiver chovendo canivete”.

– Você jura mesmo Marzinho?

– Amor! Tem duas coisas muito importantes no nosso casamento: uma indica força e a outra fraqueza. A primeira, uma arquiteta mandona que atravessou o estado para me achar numa minúscula cidade, ameaçando ficar sem roupas numa rodoviária caso eu não retornasse. A outra foi quando terminou comigo por conta de uma questão da intimidade dela e eu tomei o maior porre, indo parar na UTI. O mundo dessa mulher parou enquanto eu não aceitei voltar a viver no apartamento dela.

Ao ouvir isso, Angélica abre um sorriso. “- Agora! Estou casado com ela e me sinto imensamente feliz por isso, exceto quando ela tem os seus chiliques de ciúmes”.

– Tudo bem meu amor, mas se eu sentir o cheiro dessa tal Alice por perto de ti, já sabe. Se por ventura, tu estiveres na mesma rua que ela, desvie de caminho. Não quero nem pensar numa hipótese desta situação vir a acontecer.

– Fiquei tranquila. Não me recordo direito da face dela. Afinal já são passados mais de duas décadas quando isso ocorreu. Estávamos no começo do ensino médio.

A tarde na fazenda passou lenta e de forma bem serena. Márcio já pensando nas tratativas da inauguração da editora, tendo pelo menos um livro traduzido do alemão para o português, um volume das crônicas de uma lagartixa e quem sabe se não aparecia uns dois ou três escritores iniciantes e junto com deles o livro do Proust sobre leitura que poderia ser usado como brinde para os clientes que comprassem dois ou mais livros da Jardim da Leitura.

Angélica, ansiosa para voltar à vida no escritório de arquitetura e nas empresas da família, começava a organizar mais ou menos o que levaria de volta para a mansão, mas entre uma coisa e outra, lhe vinha à mente a história de Márcio com Alice e o fato dela ter dito que se não gostava de mulher, ela e o editor poderiam ter formado um belíssimo par.

No final da tarde, quando o marido estava sentado no mesmo assento na varanda, a empresária se ajustou ao seu lado inquirindo sobre Alice. Queria saber quanto tempo depois ainda o amor adolescente pela amiga perdurou “- Angélica! Isso foi há duas décadas, por que quer rememorar isso? Nem me recordo como é a face dela e nem como estaria hoje. Depois do ensino médio perdemos contato, mesmo após eu ter voltado à minha cidade, nunca mais a vi e nem tive notícias dela”.

– Está certo Marzinho, mas fiquei com essa coisa aqui dentro do meu coração a tarde toda.

– Façamos o seguinte: se ela aparecer eu já digo logo que sou casado com uma dinamite de olhos esverdeados e que ela deve ficar longe.

– Você está me zoando, mas se essa tal Alice começar a ciscar na minha área, eu não respondo pelas consequências.

O marido a olhou caindo na gargalhada, mas ficou com aquilo dentro da cabeça, pois assim como a professora apareceu do nada, Alice também. “Esse mundo é doido e dá muitas reviravoltas”, pensou o esposo. Mas, antes mesmo de concluir o pensamento foi dizendo que dificilmente ela saberia se o caminho dele se cruzaria com Alice, pois a esposa não a conhecia.

“- O que anda se passando por essa cabeça e esse coração, hein meu preto”, inquiriu Angélica de maneira impositiva.

– Absolutamente nada, apenas a ideia de que você querer voltar antes do que combinamos ficar aqui na fazenda. O acordado era retornarmos domingo, contudo, hoje já vi a ciumeira te pegar novamente. Isso indica que devemos ficar aqui mais uns dias.

– E você acha que ficando aqui a coisa vai arrefecer? Já sei! Tu deves ter marcado alguma coisa com essa tal de Alice e precisa ser sobre a editora. Virá com aquela desculpa de que tem trabalho de mais para lançar o seu empreendimento e me dará perdidos, chegando em casa tarde da noite.

– Amor! Posso te propor um negócio?

– Não vem com essa história de colocar uma terceira pessoa entre nós. Eu não quero e sei que não é a sua praia.

Márcio cai na gargalhada que chega aos olhos, deixando a irritada por conta do que ele dizia e fazia. “- Fazes isso porque sabe que ficou doida, mas não quero teu pau agora. Mas saber mais dessa sua relação com essa Alice”, disse de forma exasperada a esposa.

– Em primeiro lugar, penso que sexo não se faz. Ele acontece e por uma série de fatores. Depois: não estou contigo por conta do belo corpo que tens, mas pela belíssima alma que ilumina e faz esse pelo ser que tu és, existir para regozijo do meu coração.

Angélica olha desconfiada para o marido. “- Tu estas muito poético para o meu gosto. Aceitou numa boa voltar antes. Acho que tem coisa aí com essa Alice. Em troca de que irias me contar essa história”, perguntou entre os dentes a esposa.

– Amor! Já pensou em escrever um romance? Ainda dá tempo, pois lançarei a editora em 30 dias. O título poderia ser “Fantasmas de uma dinamite de olhos esverdeados”.

Ao dizer isso, o editor cai na gargalhada novamente, pois sabia que a questão Alice ainda iria cutucar a sua consciência e, com certeza, iria importunar Judith com aquela história. “- Eu contei porque me perguntou, mas já me arrependi de ter aberto esse baú”.

– Então tem mais coisas por aí dentro. Esse homem sisudo e espartano esconde muitas coisas de sua esposa. Pode ir falando.

– Não tem nada mulher de deus. Quer saber mais coisas sobre este seu marido aqui? Pergunte para Judith, para Roberto, Rogério e Fernanda. Eles sabem tudo sobre o meu existir.

– Sabem o que tu deixas eles saberem e contar. Ou tu achas que eu engoli a história de amizade com a Fê. Tenho certeza que se ela esfregar a xereca no seu pau você passa a rola nela e depois os dois vão dizer que nunca aconteceu.

– Está bem! Quando chegarmos à cidade, conversarei com a Fê e vamos tirar umas fotos trepando, e entregar para todo mundo.

– Olha só! Quando fala da sua Fê, tu ficas alterado. Só falta gaguejar. Acho que tu realmente ou comeu e não diz para ninguém, ou está enrabando ela ou pensa em degustar a xereca dela para deleite do seu pau”.

Ao dizer isso, Angélica parte para cima de Márcio com tapas. Ele a segura firme. “- Está maluca você é? Que conversa doida é essa? De onde tirou essa ideia maluca? Em troca do que iria esconder isso de ti e do mundo? É! Realmente temos que voltar e dar um tempo. Se continuares com essa marcação, a nossa situação ficará insustentável”.

– Porra! Já tem a Fernanda e agora vem essa Alice. Eu não dou conta.

– Quer parar com essa doideira. Será que não percebeu ainda que tem 90 dias que minha vida mudou completamente. Nunca transei com a Fernanda, nunca tive nada com Alice e foi um lance dos meus tempos de colegial. A única que cheguei a trocar uns beijos foi a professora que você quase acaba com a cara dela.

– E as amigas que recebiam suas massagens?

– E acha mesmo que seu quisesse transar com elas, aplicaria massagens? Você acredita mesmo que eu sou homem de fazer isso? Tu crês que tenho duas caras? Então eu viajei contigo para Alemanha, sem saber se voltavas comigo e deixei a outra face aqui trepando com a Fernanda. Aja paciência! Não sou obrigado a escutar tanta baboseira oriunda de ciúmes desmedidos e os fantasmas que tu crias a todo momento. Cansei.

Assim que termina de falar isso, sai andando pela propriedade para tentar ver as estrelas que começam a pintar o céu naquele final de tarde. Angélica entra para dentro da casa e tranca a porta. O editor não prestou atenção nessa ação e ficou andando pela propriedade que tinha um ótimo sistema de iluminação e depois permaneceu próximo da piscina, tentando esfriar a cabeça. “Meu deus do céu! O que eu faço para aplacar a fúria dessa mulher? Se eu não digo, fica me azucrinando. Seu eu falo, tem arroubos de ciúmes paranoico. Preciso me equilibrar, senão que vai parar no divã sou eu”, pensou o editor que entre olhar as estrelas, pensar sobre o casamento e sentir a brisa que vinha da água da piscina, não percebeu que o relógio tinha avançado duas horas.

Quando voltou e tentou entrar na casa, viu que a porta estava trancada por dentro. “Mais essa agora. Não vou fazer o jogo dessa doida e nem vou esmurrar a porta”, pensou Márcio olhando para todos os lados e não vendo nada, resolveu voltar a se sentar no mesmo assento. Entre um pensamento e outro acabou dormindo. Foi despertado pelos gritos da mulher que o vendo, dormindo ao relento se desesperou. O editor só não passou frio naquela madrugada porque um dos seguranças, colocou sobre ele um terno.

– Amor! Mil desculpas!

– Chega! Vai para o inferno tu e o seu ciúme doentio. Não aguento mais. Era para ficarmos aqui até domingo. Tu queres ir embora antes. Eu topei. Pediu para eu falar um pouco do meu passado, contei e por fim essa paranoica marcação em cima da Fernanda. Para mim não dá mais! Assim que o dia amanhecer, vou me embora, mas para bem longe de ti e suas doideiras.

Quando Márcio entra para dentro da casa, Angélica tranca a porta e berra a todos os pulmões. “- Você só sai daqui comigo. Está pensando que vou te deixar para essa mentecapta da Fernanda ou essa Alice que deve vir lá dos confins do inferno para me importunar. Nem tente sair sem a minha companhia daqui”, esbravejou Angélica.

No espaço reservado para os seguranças, os funcionários faziam suas apostas. O que colocou o terno sobre o editor voltou rindo, dizendo: “- Começou o ato número 2. Esses dois estavam demorando para quebrar o pau. Ela é pirada e ele vende camisas-de-força falsificadas. Dá nisso”, afirmou Francisco que voltou a rir.

Dentro da casa, Márcio ficou em silêncio, pois não queria esticar a corda para além do que Angélica poderia suportar. Os olhos dela estavam castanhos, indicando que estava em seu limite. Melhor não forçar a barra. “- Faça o seguinte: me deixe quieto no meu canto. Não quero conversa contigo”.

Assim que não ouviram mais nada dentro da casa, ninguém berrando e o editor saindo da residência com as malas, Francisco gritou: “- E o moço cede mais uma vez: ponto para a aranha que aprisiona o mosquito novamente” e todos caem na gargalhada.

Márcio se deitou no sofá recordando das falas do amigo Amadeu: “- Ela vai te aprisionar na Torre. Corre! Saia antes que seja tarde”, pensou o editor acrescentando: “Agora é tarde. Se eu sair, me arrependerei pelo resto de minha vida. Sinceramente, preciso de uma solução”. Pensando nisso, o esposo acabou dormindo profundamente no sofá.

O editor foi despertado com o sol batendo em seu rosto. Os raios solares entravam pela janela que ficaram abertas durante a noite. Além da iluminação, Márcio sentiu o canto dos pássaros que entoavam uma significativa melodia. Desde que chegaram ali no domingo não tinha ouvido tão bela canção. Ao tentar colocar o pé no chão sentiu um corpo estendido. Sua mulher acabou vindo para aquele espaço quando o dia ia amanhecendo.

“- O que está fazendo aí deitada nesse chão duro”, perguntou o editor.

– Não quis te acordar. Venha deitar comigo. Vamos ficar mais um tempo na cama. Não te pedirei nada, mas apenas que fique aqui. Sei que só faço e falo bobagens quando o ciúme me pega e eu só fico pensando e enxergando você com outra. Estou sempre tentando me controlar, mas às vezes, não consigo.

– Moça! Numa dessas tu acabas me matando. Sinceramente não sei se estou disposto a correr esse risco.

– Claro! Comigo é sempre risco. Talvez com a puta da Fernanda não é risco nenhum. Ela é do jeitinho que você gosta. Não tem defeito nenhum, além de ser totalmente submissa a sua rola. Quer saber duma coisa: vá se foder. Quer ir embora, vai. Só que a pé!

Ao dizer, a esposa empurra Márcio que acaba caindo no sofá e Angélica vai por cima o esbofeteando e gritando: “-Você pode ir morar com a Fernanda, mas vai todo cheio de cicatrizes, pois vou retalhar esses seus olhos”.

Márcio segura firma nas mãos dela e ordena: “- Vai lá tomar um banho para refrescar essa cabeça. Não estou afim de assistir mais uma de suas crises por conta de paranoias e ciúmes desmedidos”.

Enquanto Angélica em prantos se dirigia ao banheiro do quarto, o esposo ficou pensando em como equacionar aquela situação. Quanto mais ele falava, mais a coisa piorava. O melhor a fazer era entrar com ela no chuveiro e tentar serená-la. A quinta-feira estava perdida mesma e no dia seguinte partiriam. Não tinha mais como ficar ali na fazenda só os dois.

Sem avisar, Márcio tira a roupa e entra no box e se surpreende com a esposa em prantos debaixo do chuveiro. Sem dizer nada, lhe dá um abraço forte, a tranquilizando e, Angélica em prantos, lhe pedia perdão. Sabia que tinha perdido a cabeça, mas entenderia se caso o marido quisesse partir ou quando chegarem na mansão, terminarem tudo.

– Márcio eu não o que faço se ficar sem ti. Eu sei que, mesmo com essa aliança no dedo, ainda fico insegura com relação a você. Estou sempre achando que tem mulher melhor do que eu solta na praça e basta tu olhar para elas e está tudo resolvido.

– Não precisa me dizer mais nada. A pessoa que minha alma poderia ter encontrado está aqui comigo e é a coisa que eu mais quero no momento e no meu devir. Entendo o seu comportamento, embora eu não concorde. Me pediu para dormimos juntos, então faremos isso e nos desliguemos do mundo lá fora e quando despertarmos conversaremos mais tranquilo.

– Eu só vou deitar-me contigo se me prometer que não me deixará hoje, nem amanhã, nem nunca.

– Amor! Tu sabes que não prometo nada. Prefiro sempre fazer e estou contigo hoje porque quero e sou apaixonado por ti. Mas está sendo barra segurar essa onda de ciúme, contudo ficarei do seu lado enquanto essa ciumeira não for maior do que o que sinto por você.

O casal deixou o box. Se enxugaram e caíram na cama e Angélica se aninhando aos braços do marido como quem lhe pede proteção. Dormiram até o meio da tarde, quando o marido é despertado pelo ronco do estomago e o ronco da esposa. Olha para o relógio e observa que os ponteiros passam das três e se volta para Angélica tentando acordá-la. “- Amor que bom que não foi embora. Fique comigo por favor, mesmo que esteja chovendo canivetes”.

– Vamos preparar algo para comer. Estou com o estômago nas costas.

– Quer que eu faça as omeletes novamente ou deseja panquecas? Ainda tem recheios e ovos.

– Pode ser sim, paixão.

Enquanto a esposa, depois de colocar uma roupa leve, se dirigindo à cozinha, o editor ficou mais um tempo na cama, mas saindo logo depois. Sentou-se na sala e observou que teria uma parada dura pela frente. “Mas quem disse que amar e viver o amor só poderiam existir se fossem rosas? Para ficar e desfrutar o que Angélica tinha de bom para lhe ofertar, exigiria dele muito mais do que um bom coração apaixonado, mas um ser com muita paciência e inteligência para desarmar os gatilhos que ela trazia dentro dela”.

Sempre que ficava pensando, o editor se desligava completamente e desta vez não foi diferente. A empresária o trouxe de volta à terra o chamando para almoçarem. Depois de se alimentarem, ela avisou os seguranças que partiriam na sexta-feira pela manhã, mas não era para avisar Eleanora. Depois ligaria para os empregados reassumirem suas funções na sexta-feira depois que ela e o marido partissem.

Angélica pensou em perguntar de quem era o terno que aqueceu o marido aquela madrugada, mas desistiu, pois ninguém informaria, mas com certeza a mãe estava sabendo, inclusive das discussões dos dois. “Quando conseguirei me equilibrar totalmente e poder desfrutar do amor que esse homem tem pela minha pessoa”, se perguntou mentalmente a empresária, retornando para dentro da casa, encontrando o marido sentando novamente absorto no sofá.

– Amor, no que está pensando?

– Numa maneira de te deixar mais calma e controlar esse ciúme doentio que poderá acabar com o nosso casamento.

A esposa se sentou no colo do marido e em silêncio colocou a cabeça em seu peito como quem procura uma resposta ali no coração do esposo. “- Eu não sei mais o que pensar e o que fazer Marzinho”.

– Só tem uma saída! Continuar a terapia pelo menos uma vez por semana. Acho que tudo isso tem a ver com a sua insegurança e ela aumentou na medida que começa a compreender que eu não vou entrar nesse jogo mercadológico em que estavas acostumada. Não quero absolutamente nada, exceto o seu amor. Você pode me dar isso? Se não! Entenderei e seguirei em frente.

– Claro que posso e é o que mais quero e talvez por isso é que entro em parafuso, pois sei que não tem nada que tu queres que meu dinheiro possa comprar. Nem mesmo a paz que tu procuras em nosso casamento, posso te dar em forma material, mas apenas através do amor e sem ficar dando chiliques como os de ontem e agora pela manhã.

– Está pronta mesmo para voltar amanhã? Não quero ninguém interferindo entre nós dois. Nem Eleanora, Judith, nem Fernanda que é sua funcionária, Roberto que é seu diretor e meu braço direito na editora; Tarsila e Amadeu. Precisamos preservá-los de nossas diferenças.

– Se eu não conseguir me manter no salto, você me ajudar amor?

– Estou aqui e pronto, sendo o que mais quero é sentir o seu amor, seu calor, sua paixão.

Ambos se abraçaram fraternalmente, pois o que mais Angélica precisava naquele momento era do amigo e não do marido. Essa distinção era muito importante ela compreender para perceber o que existia entre Márcio, Fernanda, Roberto e Danisa. Essa última entendeu mais rápido, talvez porque fazia parte do mundo deles e foi ajudada por Fê para conseguir alcançar o seu objetivo: o coração de Roberto.

Entre Márcio e Angélica haviam muitos complicadores, quando deveriam existir facilitadores. Ela trazia consigo enormes traumas que o dinheiro ajudava esconder, mas quando entra no universo do esposo, observava que estava completamente nua e nenhum bem material, posição social ou posses cobririam o corpo desnudo. O editor parecia ser de carvalho, mas flexível como a taboa. Se a empresária não entendesse isso, poderia espancar todas as mulheres do mundo e ainda assim, não teria paz quando estivesse nos braços do seu amado.

Márcio vai até a cozinha pega uma cerveja e a garrafa de vinho e leva para a sala onde a esposa estava. “- Amor! Desejo sair daqui amanhã com alguns pontos bem definidos entre nós dois. Então me responda que tipo de pessoa tu queres ao e do seu lado? Pergunto porque não me transformarei em alguém só para te satisfazer e contentar o amor que lhe sinto”.

– Senhor Márcio, que pergunta difícil de se responder. Por que me faz tantos questionamentos? Sou sua esposa e não sua entrevistada, mas tudo bem, acho que depois do que aconteceu nas últimas 24 horas, entendo a sua insegurança e quer voltar com coisas definidas, ou pelo menos, sabendo que não anda em terreno minado.

– Exato, dona Angélica Maria Augusta. Embora eu seja apaixonadíssimo pela senhora, não quero tornar esse amor um sofrimento tanto para o meu coração quanto para ti que se esforçará para manter o nosso casamento.

A esposa pensou, pensou e foi direta: “- Olhando para o meu passado, principalmente aquele que se encerrou naquele domingo, te afirmo com convicção: uma pessoa como tu não estava no meu radar. Tu és chato, metódico, tem uma vida espartana, para não dizer, sem graça. Embora eu soubesse que tinha apreço pelo sexo masculino, nunca consegui me relacionar com nenhum para além da condição de pessoa e, muitas vezes, como meus empregados. Muitas vezes já me peguei querendo aquela vida que tinha de volta”, explicou a esposa.

– Então posso te devolvê-la amanhã ou se desejar a partir de agora.

– Está vendo por que tu és chato. Eu nem bem terminei de falar e já sentencia tudo, não me dando tempo de refletir sobre o que me perguntou.

– Desculpe-me, mas quero sair daqui amanhã com essa situação definida. Se partir com essa aliança no dedo, será de forma definitiva e o mesmo valendo para o caso dela não estar mais.

– Eu sei! Minha mãe me disse isso. Você parece ser fácil de dobrar, mas quando pensamos que conseguimos as coisas contigo, observa que tu permaneces firme na terra com as raízes bem fincadas no chão. Roberto me falou que um de suas principais virtudes é essa, inclusive é responsável pela ausência de amigos em tua vida. Fernanda me falou que você nunca chegou atrasado num encontro e que jamais se apaixonaria por ti, pois sabia que tu não a decepcionaria. Talvez tu sejas mesmo o ser perfeito que muitas mulheres idealizam e isso o torna um cara chato.

– Angélica! Não sei ser diferente! Sempre procuro existir da maneira como acho que seja a correta. Não cobro nada de ninguém, pois sei que cada um tem lá suas especificidades, mas se alguém quer conviver comigo, tem que respeitar as minhas regras. Não precisa concordar comigo e nem quero isso, pois não sou o dono da verdade.

– Acho que começo a compreender melhor seu lance com a Fernanda. Vocês são amigos justamente porque não brigam, mesmo não concordando um com o outro, pois não há necessidade de modificar o parceiro. Desta forma, é bem capaz de sairmos daqui separados um do outro e tu se arranchar na casa dela como buscando se esconder do mundo até a tempestade passar, mas os dois jamais se tornaram amantes, marido e mulher.

– As coisas ficam complicadas porque ela é mulher e eu sou homem, mas se fossemos do mesmo sexo, provavelmente diriam que somos homossexuais. É isso que o pessoal costuma enxergar, não a partir do fato, mas do que eles imaginam ser. Você e Ricardo estranham porque nunca desenvolveram uma amizade com alguém nesse nível. Ele provavelmente com aquela conversa fiada de machista e tu porque sempre comprava as pessoas.

– Amor! O que posso lhe dizer é que em hipótese alguma, antes daquele domingo, passava pela mente e nem mesmo em sonho, me envolver com uma pessoa do jeito que você é! Talvez porque nunca tivesse observado que eu estava em queda livre, tendo uma vida completamente vazia com uma rotina mortífera, num casamento em que sabia exatamente o papel que tinha que desempenhar, ou seja, aquele que comercializava status, posição social para se sentir segura no mundo.

– Presumo então que a partir de amanhã, ou mesmo deste exato momento, podemos retirar essa algema de nossos dedos e seguirmos em frente com as nossas vidas. Você com o meu mundo cor-de-rosa e eu no meu universo, contudo, sem um fantasma para me assombrar, exceto o amor que eu lhe tenho. Penso assim porque se você não sabe porque está comigo, sendo assim, acho que ficará difícil seguir em frente, pois não nos tornaremos um ser em si e um ente para si.

“- Caralho Márcio! Será que dá para parar de complicar tudo e sermos práticos. Não curto muito esse lance filosófico e ter que ficar explicando tudo. Isso torra a paciência. Por isso tu és chato e ninguém te aguenta por muito tempo”, disse Angélica, de forma exasperada.

– Uma razão a mais então para pararmos tudo por aqui.

– Porra! Eu não quero parar nada contigo. Só desejo que cesse esse interrogatório. Almejo viver um amor contigo e não ficar a todo momento tendo que responder agonizantes interpelações feitas por um cérebro medroso como o seu.

– Está certo então! Era isso que desejava ouvir. Fui mais um para você brincar de casinha, contudo, estou fora dessa brincadeira. Me restando apenas dizer adeus e seguir em frente.

– Eu sabia que tu estavas procurando um jeito para acabar com tudo e eu sair como a vila da história. Tenho que avisar o Ricardo que ele corre o risco de chegar em casa um dia e pegar o Marzinho da mulher dele de cuecas na cama e com o pau duro.

– Quer deixar de ser idiota. Eu te fiz uma pergunta e quero a resposta. Se não és capaz de me falar e sai com essa de que sou chato e fico transformando o relacionamento numa inquisição só, fica claro que está insegura sobre o nosso futuro.

– Eu te amo seu filho de uma puta porque me fez perceber que estava caindo e não percebia. Te amo seu bosta porque quando estou contigo me sinto caminhando levemente entre as estrelas. Te adoro porque sei que, mesmo que lá fora o mundo possa estar desabando, estarei protegida entre os seus braços e o meu medo é que tudo isso possa acabar pela chegada de outra mulher que seja aquela que tu idealizas aí dentro de ti durante os seus silêncios, seus encantamentos quando olha as estrelas. Agora se esse sentimento todo não seja o suficiente para que continues comigo, amanhã sairemos daqui em mundo diferentes, mas com certeza, meu coração estará em estilhaços.

Ao finalizar a conversa, esperando que fosse a última, pois Márcio realmente sabia ser um chato de primeira grandeza quando queria. Poderiam estar falando de coisas boas, de como foi o tempo que passaram juntos ali na fazenda, mas ele queria esticar a corda só para se sentir seguro ao lado dela. “Isso é muito egoísmo por parte de uma pessoa. Somente aqueles dois para aturá-lo. Realmente acho que foi um grande erro tê-lo arrastado para esse casamento. Deveria ter o deixado vestindo suas camisas lavadas no vaso sanitário e com calças ensebadas e sapatos que imploravam por graxa”, pensou Angélica com os olhos cheios de lágrimas e já falando sozinha.

Desta vez, ao entrar para o quarto a empresária não bateu a porta e nem a trancou por dentro, mas apenas a encostou e se jogando na cama, desabou. Chorou, berrou, vociferou, socou o travesseiro se perguntando porque ele tem que ser tão chato assim, estraga prazeres. Ela não contava que o marido estava ali de pé e em silêncio assistindo a tudo e escutando o que Angélica dizia entre soluços e lágrimas. Esperou pacientemente que a esposa terminasse todo o seu lamento. Quando tudo parecia ter cessado, ele sentenciou: “- Não me acho um desmancha-prazeres quando espero que minha esposa, a pessoa que eu amo, pare de se comportar como adolescente mimada. Toda vez que eu olho para as estrelas ou o céu tingido de laranja pelo sol, me recordo do dia mais feliz de minha vida quando ela, trajando um vestido com cores laranja e verde esmeralda, aceitou colocar no dedo da mão esquerda uma aliança contendo o meu nome. Eu sei que sou chato, mas não vou mudar o meu jeito de ser para que eu caiba num modelo de pessoa que ela ou qualquer outro ser imagina para mim. Ao contrário do que ela possa imaginar, quero retornar às nossas vidas, tendo-a do meu lado, encantando o meu mundo e espero que ela me ajude a não ser tão obtuso com questões tão simples como é o ato de amar”.

Ao terminar de dizer o que pensava e sentia pela esposa, Márcio deixou o quarto, indo em direção à porta da sala, pensando em dar uma volta pela propriedade naquele final de dia complicadíssimo. Entendia que, apesar de amar aquela mulher do profundo do seu ser, os caminhos jamais se encontrariam. Pareciam duas pessoas querendo fazer com que a outra caminhasse na sua estrada quando isso não era possível. O editor finalmente entendeu que não podia fazer nada para transformar Angélica numa pessoa que talvez ela não pudesse ser, contudo, quem ama também não pode mutilar o ente amado esperando que ele se encaixe perfeitamente no seu modo de ver e viver a vida. Angélica nunca deixaria de ser ciumenta, insegura por conta dos problemas criados em sua infância, pré-adolescência que se corporificou na adolescência, sendo jogados para debaixo do tapete na edificação daquela mulher adulta.

Antes que o marido colocasse a mão na maçaneta, Angélica pega em seu braço e observando profundamente em seus olhos, pensa mais um pouco e disse: “- Posso lhe fazer uma última pergunta”. Márcio tenta sustentar o seu olhar no dela, movimenta a cabeça afirmativamente. “- Eu sei que é muita pretensão de minha parte, mas se fosse para ti se casar novamente, já que vai tirar essa aliança do dedo, essa união se daria comigo”, inquiriu a empresária com os olhos em pânico e próximo do pranto.

– Com certeza seria contigo, porém, tenho a convicção de que não precisarei usar essa opção, já que pretendo seguir com a aliança em minha mãe esquerda e a dona dela até o fim da eternidade. Desejo ressaltar sempre as nossas qualidades individuais e não deixar que as nossas manias sejam maiores do que a nossa vontade de fazermos o outro feliz. Obrigado por me amar, mesmo eu sendo um desmancha-prazeres. Se quiseres, volto a usar minhas camisas antigas e meus sapatos que pedem graxa, pois foi isso que disse que era para eu fazer.

– Será que pode parar de falar e me beijar? Meu coração e minha alma não querem saber de filosofias, mas apenas do amor que tens por nós três.

– Três? Quem?

– Eu, meu coração, e minha alma.

Ao sentir os braços de Márcio a envolverem e os lábios dele tocando os seus, Angélica sentiu o seu corpo soltando todas as peias que o mantinha retesado. Quando o marido passa a mão pela sua bunda a segurando e pressionando o seu corpo junto ao dele, Angélica lhe morde a boca, pois tinha gozado de forma inesperada. Chorando, ela se ajeita ao corpo do marido com as pernas, de modo que ele pudesse carregá-la até o quarto, onde fizeram amor até a madrugada, provocando nela sucessivos suspiros, sussurros e orgasmos no casal.

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