Sobras de um amor… parte III …

7.

 

         Ao abrir os olhos, Márcio procura a esposa na cama, contudo, o leito estava completamente vazio. Olhou para o relógio, observando que os ponteiros passavam um pouco das nove horas. “Por que será que saiu tão cedo da cama”, pensou o marido, levantando indo direto ao banheiro para se higienizar. Não escutou o barulho da chuva, sinal que o tempo havia melhorado.

Outro elemento que o editor percebeu foi o silêncio no interior da casa, indicando que não havia sinal da esposa. “Será que desistiu do casamento”, se perguntou tentando não pensar no pior. Terminou de se arrumar, deixando o quarto em busca da esposa. Deu olhada rápida por partes dos compartimentos do imóvel, observando que a porta da cozinha estava fechada. “Deve estar lá fazendo novamente aquele vitaminado horrível de ontem. Se bem que não senti fome mesmo”, indagou o editor em pensamento.

Ao entrar no cômodo, se deparou com Angélica em prantos sentada numa cadeira, debruçada sobre a mesa. “- Amor! O que aconteceu? Por que está assim”, inquiriu o esposo. Com os olhos encharcados, a empresária só afirmou estar com muito medo, levantando-se em seguida e desabando nos braços do marido.

– Márcio! Estou com muito medo. Acordei e fiquei pensando em tudo o que nos aconteceu ontem. Não consegui pegar no sono. Tomei um banho e fiquei aqui tentando ajustar tudo. Não posso ter ciúmes de ti com os livros, afinal você abriu uma editora, então é natural estar com eles a todo tempo e ontem choveu o dia inteiro. Será que sou tão egoísta assim? Também voltou a me assombrar aquelas acusações que Rosângela me fez na Alemanha. O que eu faço?

– Sente-se aqui. O que tua ex-esposa disse é verdade. Mas isso não faz parte de sua essência, portanto, tu não és assim. Muitos dos nossos comportamentos são herdados ou adquiridos durante a nossa vivência e, em alguns casos, nos primeiros anos de nossas vidas.

– Você está me dizendo que ser egoísta é meu defeito? E talvez por isso brigamos tanto e eu tenha um medo lascado de te perder?

– O ciúme tem um pouco desse egoísmo e acrescido de insegurança que cada um de nós temos. Eu tenho e tu jogou tudo isso na minha cara ontem à noite. Doeu para caralho, mas somente os amigos fazem isso. Nos dizem o que precisamos ouvir e não o que queremos. Se fosse assim, poderíamos todos usar o espelho da madrasta da Branca de Neve.

– Como assim?

– No conto de fadas, a madrasta enfatiza o espelho a partir do pronome possessivo “meu” e o objeto afirma que é ela é a mais bela do reino que governa. Mas, se o artefato lhe pertence, logo quem responde é o próprio ego transfigurado no item usado para refletir, não o ser em si, mas apenas a sua representação. Neste sentido, só conseguimos ver aquilo que queremos e não o que é.

Diante do olhar pasmo da esposa, o editor continua dizendo que o interesse dela por ele surge a partir desse ponto. “- Quando todo mundo lhe fazia os seus desejos, era interessante, mas logo perdia-se o encanto e tu buscava outra diversão. Você e Rosângela tinha projeto de vida? Caminhavam juntas quando planejavam uma coisa”, perguntou Márcio.

Angélica estava pensativa. “- Não precisa responder nada! Apenas pense. Estamos nós dois aqui como naquele adagio: um amor e uma cabana. Mas parece que os nossos egos enchem essa casa, pois quero que faças do meu jeito e tu do seu. Estamos parecidos aos dois burros que, amarrados um no outro, estão vendo duas moitas de capim, e cada um quer comer a que está enxergando”, explicou.

– Amor eu entendo o que está me dizendo, mas é difícil se desvencilhar de certas coisas e hábitos que não são nossos, mas parece que nasceram com a gente. Eu nunca me vi do jeito que você me coloca e Rosângela me falou naquele dia na Europa. Fiquei sem chão.

– A exemplo de quando esteve em meu apartamento e eu mandei que enfiasse o seu ego na bunda!

A esposa lembrou do episódio e começou a rir. Recordou como ficou possessa com ele. Queria mover o mundo para vê-lo debaixo do seu sapato, mas quanto mais almejava aquilo, mais desejava estar com ele como naquele momento em que falavam sobre o relacionamento.

– Preste atenção no que vou te dizer agora: eu me casei contigo, mas não para ser trocado, como um brinquedo que tu enjoas e deixa de lado, saindo em busca de outro. Sei de sua bissexualidade e ela só passará ser empecilho para nós, caso tu não sejas franca consigo mesma. Não quero que mude a sua condição para caber dentro do nosso relacionamento.

– Estou ciente disso. Sempre serei franca contigo e mais do que isso, comigo mesma. Minha mãe me chamou a atenção nesse ponto: eu não devo ser o que não sou para caber dentro de uma determinada situação.

– Por que o medo?

– Não sei ao certo, mas parece que seria por ser tudo novo em minha vida. Há 90 dias, nem na mansão eu entrava direito e quando ia, havia brigas homéricas. Quando tinha reuniões, sempre terminavam em rusgas e depois que meu irmão saiu de casa, aquilo tudo virou um cemitério. E do nada, parece que o local ficou todo iluminado. Minha mãe deixou de ser racista.

– Veja bem, amor. Ninguém muda uma condição da noite para o dia. Sua mãe não deixou de ser racista. Agora ela tem consciência de que as ações dela mais prejudicarão você e o seu irmão. Eu não me iludo, pois sei que se não te fizer feliz e nem Tarsila ao Amadeu, tudo pode voltar a ser como antes. Do meu lado, quero a sua felicidade justamente por que te amo e não para agradar gregos ou troianos.

– E por que me amas Marzinho?

– Quando descobri que te queria para além do seu corpo, entendi que o meu desejo era pela paz que me transmitia. Esse seu lado mandão me forçava a me reinventar, mas o medo de sair do meu comodismo, me fez fugir para qualquer lugar onde eu não precisasse modificar um nada dentro de mim. Eu te amo porque não tenho nada do que tu possuis. Todo esse seu dinheiro te fez gigante, mas sem nenhuma proteção, sem nenhum amor. Quando naquele churrasco, seu irmão disse que vocês não tinham vida e que estavam descobrindo isso comigo, fiquei lisonjeado, mesmo sabendo que ficar contigo seria osso duro de roer.

Angélica, saiu do seu lugar no sofá e foi se sentar mais próximo do marido que continuou a tentar explicar o amor, como se fosse possível descrever em palavras ou usar sonoridade humana para externar o que vai n’alma de uma pessoa quando descobre que deseja passar o resto da existência com a outra, mas se isso não for possível, por conta das vicissitudes da vida, continuará amando em silêncio, sem muitas trovoados, relâmpagos e tempestades.

– Naquele dia no hospital, fugi de pura covardia. Eu não queria dizer sim ao que estava sentido por ti. Uma gigante que poderia ficar em cacos por nada. Queria entender se não era apenas impressão minha, se era só tesão. Naquele café da manhã em sua casa, o jeito que pegou em minha mão me incendiou muito mais do que ter visto seu corpo pelas transparências. Parecia que eu estava te tocando a partir da alma.

– Está vendo porque eu tenho medo. Meu temor é de perder todo esse amor que me tens. Quando dissestes para minha mãe que se eu optasse por Rosângela, deixaria a estrada, eu senti que faria isso, não por despeito, arrogância ou coisa parecida, mas porque me amava e não desejaria implorar afeto.

– Márcio. Olhando para esses meus 33 anos, hoje pude perceber que estou sendo amada pela primeira vez. Ao mesmo tempo que essa certeza me deixa serena, me coloca em pânico. Agora, mais do que nunca, eu compreendo porque meu irmão foi fora do ar todo esse tempo. Sem Tarsila, ele não conseguia andar, pensar, por isso todos os dias pareciam ser iguais para ele.

– Entendeu agora quando sua mãe me colocou para fora de sua casa, e eu fiquei naquele banco de praça todo choroso no meio da tempestade? Toda vez que alguém me diz alguma coisa que pode me agredir ou ser contrário ao que penso, prefiro observar do que revidar.

Angélica com os olhos cheios de lágrimas abraçou mais forte o esposo, o beijando ternamente, se levantando em seguida, o pegando pela mão, o conduziu até a cozinha. No trajeto, ele perguntou o que era o amor que ela diz sentir por ele.

Já dentro da cozinha enquanto a esposa lhe preparava o café, foi incisiva: “- Te amo porque você me força a todo momento a me rever, me reinventar. Faz com eu olhe para o passado antes de te conhecer e analisar minhas condutas. Te amo porque tenho a certeza de que nunca me deixará cair. Durante esses 90 dias, me apresentou um mundo que eu não conhecia. Não tem muitas pessoas nele, apenas três pessoas: tu, a Fê e o Roberto que se amam indistintamente e, mais do que isto, respeitam o jeito de cada um. Eu pensei que tu fosses o condutor, mas não!  Vocês formam o que podemos chamar de triângulo equilátero, isto é, os três lados são iguais. Quando Danisa me falou que a Fernanda cuidou de vocês para nós e os dois cuidaram dela, de certa forma, para o Ricardo, entendi muita coisa. Mas ainda assim, às vezes, eu surto! Sei lá é um medo terrível de te perder, pois sei como tu és.

– Amor! Minha vida era uma rotina só, sem graça, sem sabor, sem cor, sem poesia, sem estrelas e foi isso que teu irmão me mostrou quando desceu o sarrafo no meu texto. Estava sem magia. No primeiro dia em que você me levou ao clube dizendo que eu podia sair do carro, pois não estava comigo e nem ligava pelo fato deu ser preto, fiquei pensando em tudo aquilo e em outras coisas.

– Marzinho! Sei que ainda sou imatura, apesar de já ter 33 anos e tenho comportamento adolescente, mas me dá um desconto bem grande tipo aqueles de liquidação: leve cinco e pague dois e ainda pagando apenas 30% do valor de face.

Ao ouvir a esposa dizendo isso, Márcio caiu na gargalhada que chegou aos olhos. Angélica riu também, afirmando que estava com saudades daquele sorriso dele que tanto a enlouquecia. “- Me ajude a crescer. Quero muito estar à altura desse amor que sei que me tens. Todo mundo está dizendo que me amas incondicionalmente, mas às vezes eu não vejo isso, pois quero que fique me bajulando como todos faziam, porém sei no fundo que não é isso que desejo, mas tão somente estar segura do seu amor e de que não vai me deixar em hipótese alguma”, desabafou Angélica.

Assim que estava tudo pronto, o casal tomou se alimentou e a esposa esqueceu de colocar açúcar no café, mas o marido optou por não falar nada, contudo a careta que fez denunciou tudo. “- Está vendo! Nem fazer um café para ti eu sei. Realmente sou uma tragédia na cozinha”.

– Por que não para de se depreciar e não me pergunta o que eu achei? Eu adorei. Sempre que posso prefeiro tomar café sem açúcar.

– Está de sacanagem comigo Marzinho!  Diz isso para não me deixar sem graça.

– É sério amor! Não precisa colocar açúcar no café. Agora me diga quando descobriu que me amava a partir da sua alma?

– Quando lhe presentei com a minha calcinha naquela sorveteria. Não lhe dei para te conquistar ou te seduzir, mas para te dizer que, se me recusasse, seria como seguir em frente completamente sem roupas, sem eira nem beira, contudo, tendo a certeza do amor que eu lhe tenho. Havia conversado com Eleanora horas antes, depois que você deixou o carro. Ela me pediu para abrir meu coração a ti sem medo de ser rejeitada, mas como forma para eu continuar em frente.

Enquanto terminavam de tomar o café, Márcio explicou a esposa que quando a viu dentro do quarto do hotel, onde ele havia se abrigado sem que ninguém soubesse, entendeu o quanto ele a amava, mas ainda tinha dúvidas com relação aos sentimentos dela. “- Eu ainda guardo aquela calcinha dentro do saquinho, num canto secreto de minha gaveta de cuecas”, explicou o esposo. Essa informação fez com que Angélica ficasse mais doida de amores pelo homem com jeito espartano, mas que a deixava completamente desparafusada.

Assim que terminaram o café, o casal deixa a residência para dar uma passeada de mãos dadas pela propriedade e sentir o clima depois de passada as tempestades: umas vindas do céu e outros dos corações dos nubentes que compreenderam que tinham um longo caminho a percorrer até dizer aos amigos que a relação amorosa de ambos era perfeita e isso se for possível haver casamento no mundo concreto como o idealizado pelas pessoas que se unem em núpcias.

Enquanto na área rural a mais de 100 quilômetros, a empresária e o editor, de mãos dadas, saem para um passeio pela fazenda, na residência do general da reserva, este tentava, enquanto se alimentava, tomar coragem para ligar para Eleanora, a milionário que o tinha virado do avesso. Também pudera, mesmo tendo ultrapassado a casa dos 50 anos, ainda estava com tudo em cima. A mulher de cabelos castanhos e olhos da mesma cor, bem diferentes da tonalidade dos filhos, tinha feito as duas estrelas, conquistadas com muito ralo no Exército, se multiplicarem. “Ligo ou não ligo? Será que vou parecer muito atirado. Acho que ela não se importará seu a convidar para almoçar comigo hoje”.

Entre uma dúvida e outra, Alexandre pegou o telefone. Respirou fundo, percebendo que dar ordens dentro do quartel era mais fácil do que convidar aquela significativa senhora para sair. “- Alô!”, antes mesmo de dizer alguma coisa já sentiu o que Márcio vinha passando com Angélica.

– Finalmente me ligou né, seu general fujão. Eu só pareço sargentona, mas não mordo, ainda mais um oficial de duas estrelas.

– Bom dia Eleanora!

– Estou feliz em ouvir a sua voz. Ela me conforta e muito.

– Você não quer almoçar comigo hoje?

– Não!

– Não! Por que me deu essa opção quando me disse “você não quer”. É claro que quero, mas só nós dois. Vou deixar minha nora mais a vontade com o meu filho aqui na mansão.

– Onde está pensando em ir, minha cara Eleanora.

– Ontem eu jantei no seu restaurante, então hoje o almoço será no meu. Te espero lá por volta do meio-dia e depois um motel para fechar com chave de ouro o nosso encontro.

“- O quê”, perguntou Alexandre todo sem jeito e com a voz meio trêmula.

– Deixa de ser bobo. Só falei para sentir a sua reação homem de deus e se fosse isso mesmo? O que tem de mais? Beijos querido. Te vejo lá. Deixe-me ajustar umas coisas aqui para Tarsila e Amadeu.

No horário exato, estava lá Alexandre no American-bar com um copo de uísque, tentando se manter calmo, mas estava completamente intranquilo. Queria muito fazer aquela situação caminhar, afinal não tinha nada que impedia ele e Eleanora de se relacionarem um pouco mais além da simples amizade. Entre avançar, recuar ou ficar em cima do muro, tomou a decisão de sentir o terreno.

Quanto Eleanora o viu metido num terno parecendo um defunto, não conseguiu se controlar e começou a rir. “- Desculpe-me amor, mas é que você ficou muito engraçado dentro desse terno. Das próximas vezes, não precisa se vestir assim. Acabou a farda e agora tu é civil. Não me preocupo com suas estrelas. Eles servem somente no quartel, aqui fora pelo menos para todos que convivem comigo, não tem muita eficácia”.

Alexandre tentou, mas não conseguiu relaxar. Quando se sentou, sentiu as mãos da empresária em seus ombros. Ao perguntar o que ela fazia, obteve uma resposta engraçada: “- Estou tentando tirar as estrelas e a farda que sua alma ainda usa”. Ao dizer, ela fala baixinho no ouvido dele: “- Mas quero que meu general saiba que está lindo e continuará sendo, desde que mantenha meu coração em harmonia”.

Assim que sua acompanhante se sentou diante dele, o general quis saber como estavam todos e se Márcio e Angélica tinham dado notícias. “- Se aqueles dois entrarem em contato comigo, ou com algum dos amigos e os pais deles, a lua de mel vai ser um fiasco. Eles precisam ficar fechados dentro de uma casa e ajustarem tudo. Mas claro que já recebi notícias deles. Parece que brigaram ontem, pelo menos os seguranças me informaram que ouviram conversas e a minha filha gritando e batendo a porta. Portanto, ao que tudo indica, ainda continuam vivos”.

Pela cara que Alexandre fez, Eleanora se adiantou e explicou. “- Meu amor. Minha filha atravessou o estado para trazer aquele homem e quando ele ameaçou não voltar, ela ameaçou ficar nua na rodoviária em que meu genro estava querendo fugir dela. Depois Márcio toma um porre de lascar e vai parar na UTI. Queria esquecer minha filha porque ela tinha terminado com ele. Eu e a mãe dele já assistimos brigas homéricas entre os dois. Está vendo aquele banheiro ali? Pois é! Angélica surrou a ex-namorada dele ali dentro”.

Diante da narrativa da empresária, Alexandre começou a rir. “- Gosto de te ver assim e não com aquela cara de quem está comando um batalhão de soldados numa guerra. Sua única batalha agora é comigo, contra sua timidez e a farda que demoras a tirar”, disse a matriarca.

“- Está bem, minha querida! Prometo da próxima vez estar mais calmo. É que é tudo muito novo em minha vida. Sem quartel, ser civil, tentar conduzir um negócio do qual não sei muita coisa, mas achei que era o melhor caminho para se começar e agora estou na companhia de uma mulher encantadora que, pelo que observo, também quer recomeçar de algum ponto e seguir comigo pelas estrelas. Será que terei essa capacidade para conduzi-la”, perguntou o general

– Acho bom que tenha. Mas caso não seja portador, é só me dizer agora. Ou calar-se para sempre e seguindo comigo daqui para frente.

Assim que Eleanora terminou de falar, o garçom chegou e disse lhe algo. Ela só assentiu com a cabeça. “- Aconteceu alguma coisa, querida”, perguntou Alexandre.

– Não! Eu pedi para fecharem o restaurante e assim podemos ficar mais à vontade e também para evitar pessoas que gostam de bisbilhotar a vida alheia.

– Uma coisa que eu reparei em vocês todos: ninguém gosta de fotografia, publicidade e aparecer. Posso saber qual o motivo?

– Ninguém precisa saber quem eu sou. Basta os que devem por ter algum tipo de relacionamento conosco. Para que o mundo precisa saber que estou ao lado de um homem encantador como você, Alexandre?

– Sou grato em tê-la como companhia para esse almoço.

O atendente chegou com os cardápios. A proprietária sabia que o almoço não poderia ser demorado, pois o estabelecimento deveria ser aberto assim que o casal deixasse o local. Ela escolheu um peixe grelhado, saladas verde-escuras e cerveja sem álcool. Alexandre, que estava tomando uísque, pediu rosbife e ao terminar a bebida pediu outra, talvez para se sentir mais leve.

– Eleanora, mil desculpas, estou me adaptando a vida fora da caserna. Afinal foram mais de 30 anos de uma vida bem regulada, metódica e dentro dos regulamentos e outros cursos mais.

– Eu disse à minha filha aquele dia que você conversou com o meu genro que tu e ele pareciam pai e filho em virtude da diferença de idade. Olha só. Se me deixar, posso te ajudar a se adaptar aqui fora. Desculpe-me também por conta da brincadeira do motel.

Enquanto a comida era servida, Alexandre ficou só observando a dona do restaurante. A olhava de forma que a deixava sem graça. Assim que os garçons se afastaram, Eleanora perguntou ao acompanhante se havia alguma coisa de errado. Obteve como resposta que estava tirando as medidas dela para que o universo pudesse coser uma roupa espacial para ela usar na primeira noite em que estiverem juntos. A resposta dela foi ficar com o rosto todo afogueado.

Enquanto o casal conversava de forma descontraída e em tom que ninguém pudesse ouvir, Rafael, o barman que os atendeu primeiro, dialogava com Manoel, o garçom mais velho do restaurante.  “- Seu Mané! Eu te confesso que não entendo. Esse pessoal tem dinheiro para caramba, e vive se lambuzando com essa negraiada. Será que pode me explicar!”.

Manezinho, como era chamado pelos amigos, respondeu de forma bem direta: “- Por que não pergunta para a sua ignorância. Tente entender porque aquele preto está com ela e você, branco, aqui servindo. Sabe quem é aquele senhor? Acho que não precisa conhecer, pois nada vai mudar essa sua visão racista. Tenho certeza de que se a proprietária souber que você tem essa visão preconceituosa, fica esperto que será demitido. A filha dela é casada com um negrão e a nora dela também é preta e garanto a ti que todos são diferentes de tu. Eles comem com ela e você apenas serve as mesas. Então se limite a isso”.

Assim que terminaram de almoçar, o casal se levanta e Alexandre, ao se aproximar do garçom que havia feito o comentário preconceituoso, colocou uma nota de R$ 100 no bolso dele e outro no de Manezinho.

Quando o general e a proprietária deixaram o estabelecimento, Rafael perguntou ao parceiro se entendeu o gesto do negão. “- Talvez ele saiba que seja tu e você não se recorda, mas o senhor te mandou um recado. Puxe pela memória, pois ele te olhou umas três vezes enquanto conversava com Eleanora”, meu caro Rafael.

O garçom ficou ali tentando encontrar o general em seu passado. “- Caralho! Sabia que eu conhecia aquele negão. Por culpa dele fiquei preso 30 dias no quartel e sepultei de vez o meu futuro no Exército. Eu fazia o curso de Cabo e chamei um soldado de macaco infante e esse cara, na época, era coronel, veio falar comigo aos gritos e eu parti para cima dele. Dei umas porradas e parece que cada soco que eu desferia na cara dele, era como seu eu jogasse uma pá de terra em cima do meu futuro. A raiva era tanto que eu o xingava de filho da Chita”.

– Então meu amigo, pode colocar a sua barba de molho. Se ele falar para dona Eleanora o que aconteceu entre vocês dois, tu já sabes: demissão na certa. Ainda mais agora que ela está antenada com o pessoal de cor.

– Vira essa boca para lá. Se eu perder esse trabalho, meu casamento desaba.

– Então reze bastante para ele não falar nada para a proprietária.

Quando o casal que havia acabado de almoçar andava serenamente pelo shopping, a acompanhante do general quis saber porque ele deu uma gorjeta tão alta para os dois garçons. “- Para que aquele garçom mais baixo se lembrasse com mais clareza de quem eu sou”.

– Como assim?

– Quando eu era Tenente-coronel e ele servia no mesmo batalhão que eu, fui lhe chamar a atenção porque, ele fazia o curso para se tornar Cabo, chamou um soldado de macaco infante. O rapaz não gostou do meu tom de voz e partiu para cima, me esmurrando e me chamando de macaco. Ele estava completamente alucinado. O resultado foi 30 dias de prisão e o sepultamento do sonho dele seguir carreira no Exército.

– Então, ele deve ter se lembrado e foi isso que conversava com o outro garçom. Amanhã mesmo vou demiti-lo.

– Não! Nunca devemos reagir como as pessoas esperam de nos comportemos. Dê-lhe corda e deixe que se enforque sozinho. Na semana que vem, almoçaremos aqui novamente e vamos convidá-lo a se sentar em nossa mesa. Se você me permitir, estaremos eu, tu, seu genro e nora e seus filhos.

Do nada Eleanora, pegou na mão de Alexandre que, surpreso correspondeu a iniciativa da acompanhante que o convidou para passarem a tarde na mansão. “- E seu filho e sua nora. Eles estão lá. Pode não ser legal”, tentou se justificar Alexandre.

– Não tem problema algum. Vou dispensar meu motorista e vou junto contigo em seu carro.

O casal deixou o shopping indo em direção ao estacionamento e a presidente de honra das Organizações Oliveira disse ao motorista que ia no carro com o general e a equipe de segurança deveria segui-los. Quando chegaram à mansão, Tarsila e Amadeu estranharam a presença de Alexandre que sentiu o desconforto, e tentou se despedir para ir embora.

“- Ainda bem que chegaram”, disse a nora, explicando que Amadeu desejava conversar com Roberto nas empresas. “- Será que você pode ligar e marcar o encontro, Eleanora. Assim sairemos em cinco minutos. Sabes como o seu filho fica ansioso quando decide fazer uma coisa”, explicou Tarsila.

Sem pensar duas vezes, a sogra pediu, de maneira imperativa, para o general se sentar e aguardá-la enquanto providenciava o encontro do filho com o diretor de comunicação das empresas. Pegou o telefone se dirigindo ao escritório e a nora entendeu a situação e entrou com ela. “- Que história é essa do Amadeu querer ir para as empresas agora”, perguntou Eleanora.

– O seu general quando me viu, tentou ir embora. Levarei Amadeu para passear no shopping comigo. Vamos ver roupas para o enxoval do nosso filho. Assim tu ficas mais à vontade com ele. Caralho, minha sogra, esse homem é o Márcio escarrado, só que mais velho.

Ao dizer as duas caíram na risada e Eleanora agradeceu pela nora ter entendido a situação e voltando à sala fazendo menção de desligar o telefone, finalizando a conversa com o seu diretor.

Assim que o filho e a nora deixam a mansão, a anfitriã do oficial lhe oferece uma bebida e antes mesmo de contar com a anuência de sua visita já prepara o uísque com gelo de água de coco. Quando ia dizer alguma coisa, Eleanora falou: “- Tome! Te deixar mais relaxado. Está com medo do que homem? Queres provar alguma coisa a alguém”, interpelou a sua interlocutora como quem coloca a baioneta no pescoço do general.

– Fico todo sem jeito. Quero relaxar quando estou contigo, mas temo dizer ou fazer algo que não vai do seu agrado.

– Faça o simples: seja você e pronto! Não quero estar com um ser fantástico, mas com uma pessoa que faça meu mundo parar de girar de maneira acelerada. Alguém que sei que não está comigo pelo meu dinheiro ou me vendo como um caixa-eletrônico.

– Realmente não é isso que priorizo. Não sou rico e nem tenho pretensões de ser. Fiz minhas economias durante os anos de caserna e tenho meus rendimentos oriundos de minha aposentadoria. O único céu que eu desejo conquistar é um coração que me deixe sereno. Sem medo das tempestades, das secas, das altas temperaturas, enfim, que queria estar comigo construindo um amanhã harmônico. Afinal eu tenho mais passado do que futuro, então que este devir seja belo, singelo e radioso.

Eleanora adorou o que ouviu da alma do general, que usou as palavras para se expressar, mas para não agir como adolescente ou igual a filha, procurou mudar o foco da conversa, dizendo a Alexandre que ele se parecia com o genro dela.

– Como assim? Eu e ele não temos nada em comum, exceto a cor da pele.

– Eu e minha nora acabamos de falar sobre isso. Vocês dois são sisudos, cismados, metódicos, mas indicam trazer sempre a poesia n’alma e isso é encantador. Meu Amadeu é assim também e eu só fui perceber isso quando o reencontrei no apartamento de minha filha e ele correu para o elevador, onde o amigo estava, indicando que preferia a rua do que meus braços. Fiquei arrasada e quase destruí a vida do meu genro.

– Você fez o quê?

– É! Dei um jeito dele ficar sem casa, mas descobri que o apartamento era de minha filha. Ela tinha comprado para presenteá-lo por ter conseguido o que ninguém havia tentado antes: ser amigo do Amadeu. Tentei fazer ele perder o emprego naquele jornal que faliu tempos depois.

– Por que está me dizendo tudo isso Nora?

– Para você saber quem eu sou a partir do que te digo e não por revirar a minha vida, antes de saber se vai ficar comigo ou se esconder atrás dessa farda invisível que ainda usa.

– Eu não ia fazer isso!

– Não ia porque já fez. Se não fosse assim, não teria chegado a general no Exército.

Diante da revelação, Alexandre ficou pensativo. Não deu nem tempo de refletir sobre as primeiras informações e já levou o primeiro cutucão da quase namorada. “- Quer pensar junto comigo ou sozinho em sua casa? Você escolhe. Se optar pela segunda opção, pode começar a me esquecer, isso se tiver construindo algum sentimento ainda dentro de ti em relação à minha pessoa”.

O general ficou sem saber o que falar, tamanha a surpresa pela observação feita por Eleanora. “- Meu caro general. Não tenho pressa, não quero estar com alguém para desfilar em festas, shoppings. Como o senhor pode ter observado, todos nós detestamos holofotes. Desejo ter alguém que caminhe comigo sem pressa pelos anos que me restam de vida. Quero alguém para passar uma tarde descontraída como hoje, sem que ele esteja metido numa farda imaginária ou fiquei encafifado porque eu sou branca e ele preto. Com o meu genro e minha nora pude observar que ninguém nasce racista ou preconceituosa, mas ela se torna por escolhas que faz durante a vida”.

– Eleanora eu não sei o que dizer. Posso vasculhar a obra todinha de Shakespeare tentando achar palavras para lhe dizer o que sinto quando estou contigo e, ainda assim, não conseguiria localizar nada para te descrever como meu coração e minha alma sentem. Claro que eu não quero ir embora, mas preciso ter certeza de que não é chuva de verão. Desejo caminhar contigo até o paraíso, mas espero não ficar no meio do caminho te deixando no purgatório. Não sei se você compreende adequadamente o que estou a lhe dizer.

– Eu te entendo e foi por isso que eu e minha nora dissemos uma a outra que tu pareces o meu genro, que é patrão dela, mas que a partir de segunda-feira será sócio dele na editora Jardim da Leitura.

– Pensei que teu genro iria trabalhar em suas empresas?

– Que nada! Minha filha ofereceu o cargo de diretor internacional de comunicação, mas ele não quis. O homem fala três línguas, mas não deixa isso transparecer. Disse que poderia ser vice-presidente e ainda assim ele recusou, mas disse que gostaria se fosse possível convidar o amigo Roberto para ocupar o cargo de diretor.

– Nesses tempos, raro encontrar pessoa assim. E ele optou por conduzir essa editora?

– Como você, com seu restaurante que, diga de passagem, serve uma comida deliciosa. Estou quase contratando a sua cozinheira.

– Não é ela. É ele!

– Como assim?

– Ele foi cozinheiro no Exército por sete anos e quando deu baixa, estava trabalhando num local chamado Bar da Net. Parece que tinha um pessoal que frequentava o local e a refeição era feita sob medida para um cliente sob medida. O cara almoçava e jantava lá todos os dias, mas do nada, parou de ir no estabelecimento e os proprietários resolveram fechar provisoriamente o local. Mas não sei como ele soube que eu estava montando o meu restaurante e precisava trabalhar, foi falar comigo.

Eleanora fez uma cara de quem não estava acreditando no que ouvia. “- Que foi querida? Aconteceu alguma coisa”, perguntou Alexandre curioso para saber o que havia ocorrido.

– Você sabe de quem era esse bar?

– Não faço a menor ideia. Só achei doida a finalidade dele. Montar um negócio daquele só para atrair alguém. Só se for um ser para lá de especial, mas como sei que tem gente louca para tudo, então, está valendo e eu ganhei um excelente cozinheiro.

A mãe de Amadeu começou a rir. “- Você sabe querido, como foi que nos conhecemos, ou pelo menos o motivo”, interpelou Eleanora. O general respondeu que foi naquela empresa que organiza festas em que ela estava acompanhada de Judith para organizar o casamento de Angélica com Márcio.

– Pois é! Aquele dia foi consequência do fato de seu cozinheiro ter perdido o trabalho no Bar da Net.

Diante do olhar de incredulidade apresentado por Alexandre, Eleanora foi direta ao ponto. “- Quem montou o bar foi minha filha. Ela achou que seria uma forma para atrair Amadeu e assim poder monitorá-lo. O cardápio era decidido por ela que contratou uma nutricionista só para isso. Ninguém sabia que Angélica estava articulando tudo. Mas dia após dia nada de conseguir se aproximar do irmão que permanecia arredio, vivendo como se só existisse aquele momento.

– Então bar era de vocês? E por que foi fechado?

– Por que o objetivo foi alcançado, graças ao meu genro que trabalhava num jornal e estava todo fodido, sem criatividade vegetava no fundo de uma redação. Ele sempre parava no local, via Amadeu, mas nem dava as horas para ele, até que numa segunda-feira, por falta de lugar, sentou-se com o meu filho e o resultado você já viu.

– Por isso que eu disse: isso é doido. Quando saiu minha aposentadoria do Exército fiquei sem saber o que fazer da vida, meus últimos 30 anos foram dedicados ao verde-oliva. Sentia saudades da tropa e da rotina da caserna, mas precisava dar o passo seguinte e deixar aquele mundo para trás, contudo, não sabia o que fazer. Pensei em voltar para a minha cidade, mas tinha certeza que seria aquela paparicação toda e eu quero apenas o anonimato. Então optei por ficar por aqui e ver onde poderia começar algo totalmente diferente do que tinha vivido nos últimos 30 anos. Estou tentando com esse restaurante, vamos ver se dará certo!

Enquanto na mansão Eleanora tentava tirar o fantasma da farda que o general usava, na casa de Judith, Rogério buscava um jeito de ajudar o filho a projetar uma vida para levar com Débora. Esdras sabia que só poderia ligar para a sócia da cunhada quando tivesse algo a dizer. “- Eu não sei o que e como auxiliá-lo. Eu só entendo de supermercado e ele disse que não quer trabalhar com isso. O que você acha Judith”, perguntou o esposo.

– Amor! Seu que pelo amor podemos fazer alguns sacrifícios. No seu lugar, eu montaria uma loja lá na cidade dela e daria para ele gerenciar, sob a sua supervisão e de Leônidas, mas nada de mandá-lo para lá. Mariana teria um treco se isso acontecesse. Ofereça isso a Esdras, colocando que deverá retornar os estudos. Sem isso, nada a fazer.

– Onde ele está agora?

– Resolvendo as questões da faculdade. Quer transferir o curso de administração para onde pretende se mudar, assim que tiver tudo aprumado com ele.

– A noite eu converso com aquele moleque. Só que não vai dar para ser uma loja grande. Ainda não temos pernas o suficiente para um grande voo.

Durante o jantar, Rogério já indicou ao filho que ele não tinha escolha. “- Montarei uma loja para você onde Marzinho mora e você administra, enquanto conclui o seu curso. A tua namorada também está estudando e assim que concluir o curso, podem pensar em casamento”, sentenciou o pai.

– Está bem pai! Não era o que eu tinha em mente, mas preciso começar de algum lugar. Débora me deu uma semana e o tempo está passando e não tenho nada na cartola para oferecer. Mas veja bem, não quero o Marzinho metido nessa história. Ele é muito reacionário, até parece ser mais velho que o senhor.

“- Teu irmão não é nada disso. Apenas pensa e age diferente de ti e seu irmão Léo”, disse Judith.

– Tanto é que casou com uma mentecapta, ciumenta do caralho e tudo porque ela tem dinheiro. Queria ver se ela fosse pobre como a Débora se tinha embarcado nessa aventura que todos já sabem onde vai dar: separação.

“- Tenho certeza de que seu irmão pode ser tudo isso que você disse, mas também pode ser aquilo que desejar ser, sem precisar pedir a sua permissão ou aprovação, mas duma coisa eu lhe garanto. Mesmo podendo fazer aquilo que tu querias realizar com a filha dos outros, ele não o fez e acho que essa diferença é tudo e o casamento dele diz respeito a ele e a mais ninguém”, disse Rogério indicando aborrecimento por conta do apontamento do filho.

Foi Judith quem colocou água na fervura dizendo que era aquilo que o pai poderia lhe oferecer naquele momento. Esdras tinha a prerrogativa de aceitar ou não, mas se recusasse teria que construir outra coisa para continuar com a moça e isso não era imposição de ninguém, nem mesmo dela, mas apenas uma consequência do que ele desejava para si. “- Você pode ficar por aqui com essa sua vida de vagal. Comida não vai lhe faltar, mas fora isso, esquece. Dinheiro para balada, carro, roupas, perfumes, acabou tudo”, sentenciou a mãe.

Esdras percebeu que a mãe lhe colocara a baioneta no pescoço. “- E tem mais. Eu ligo para a moça amanhã dizendo que o amor da vida dela não passa de um moleque presunçoso que só queria sexo com ela e mais nada. E tu falaras pessoalmente com os pais dela para desocupar o terreno sentimental da filha”.

– Porra! Vocês são um pé no saco mesmo!

– Ué! Não meteu a boca no teu irmão? Então tem que ser melhor do que ele. Só podemos criticar alguém se conseguirmos ser melhor ou fazer diferente que possa ser equiparado a ele. Marzinho é todo recatado, reacionário como tu mesmo disse, mas não saiu por aí querendo comer filha dos outros como se fossem prostitutas. Você que não se aprume não rapaz. Bom! Essa é a minha oferta, mais do que isso não posso fazer. Não vou ficar sustentando seus caprichos de playboy que passou do ponto e faz tempo.

Rogério deixou a mesa para conversar com o filho e saber da gravides de Mariana. “- Alô filho! Acabei de falar com ele. Você acha que conseguiremos fazer um aporte legal para montarmos a loja para ele administrar? Podemos usar os mesmos distribuidores que temos para as lojas daqui”.

– Pai! Vou ser sincero. Longe daqui eu não confiaria nele. Não que ele faria merda ou desviaria dinheiro, mas Esdras nunca trabalhou com isso e eu não estou disposto a deixar a cidade para ficar o bajulando, enquanto fica brincando de casinha com a Débora. Ela é séria, mas ele, fico com o pé atrás e justamente por ser meu irmão.

– Léo. Vou dar um crédito a ele, mas e se falarmos com o Marzinho?

– Pai, a praia do Márcio é outra. Ele manja de livros, livraria e agora vai embarcar na editora dele. Mas, esperemos ele voltar da lua de mel com aquela doida dele e conversaremos. Verificaremos até onde ele pode ir nessa empreitada.           – Tudo bem então filhão. Amanhã daremos início a esse novo projeto, sem querer voar logo cedo. Ligarei para a sogra dele para colocá-la a par e também para Débora. Pedirei a ela para não tirar a baioneta do pescoço de Esdras. Ele tem que sentir o ferrão na bunda para andar como homem e não ficar se rastejando atrás de mulher como um verme.

– Está certo pai.

– E como vai meu netinho?

– A gravidez está indo que é uma maravilha. Seu neto virá com saúde. Assim que for possível, verificaremos o sexo do bebê. O que senhor prefere?

– Eu e sua mãe o queremos com saúde e será amado da mesma forma como vocês três. Agora se perguntar para Judith, lógico que dirá que espera uma menina.

– Pai! E o Marzinho? Que mulher do cão ele foi arrumar. É bela, mas uma dinamite misturada com granada sem pino.

– Ela é rabo de foguete para fazer seu irmão acordar para a vida. Ela é doida por ele e vice-versa, mas são dois braseiros que terão que baixar a temperatura se quiserem que o casamento prossiga, do contrário, a carne sapeca por fora e fica crua por dentro.

– O senhor acha que o casamento vai longe?

– Se os dois sobrevierem à lua de mel, aí pode ir longe. Imagine aqueles dois sozinhos na fazenda e sem ninguém para interferir ou dizer o que fazer? Os seguranças estão bem longe deles, mas o pau quebrou ontem. Só para variar um pouquinho, mas sei que teu irmão fará tudo para se acertar com a galega dele.

– Pai! Dá um abraço aí na mãe. Vamos ver se jantamos um dia desses para colocarmos tudo isso certinho. Não deixe o Esdras ir visitar Débora enquanto não estivermos com tudo fechado sobre o supermercado para ele gerenciar.

Ao terminar de conversar com Leônidas, Rogério voltou para onde a esposa estava conversando com o filho. “- Teu pai está certíssimo. Você teve todas as oportunidades. Ninguém te acelerou, até que o amor bateu à sua porta e agora tu tens que se explicar com ele”.

– Estou temeroso mãe. E se não der certo?

– Não se pode pensar desta forma, se ainda não começou a partida. Lembre-se que, além de ti torcendo e fazendo o que for necessário para dar certo, há seus familiares e seus amigos e, sobretudo o desejo de Débora continuar contigo. Ela não te cobrou nada, mas apenas que você apresente uma vida ou pelo menos um projeto para dividir com ela.

“- Fico pensando que o Marzinho com aquela carolice dele ficará me aporrinhando”, desabafou Esdras.

– Você não acha que teu irmão já tem trabalho de mais lidando com aquele gênio dos infernos que a mulher dele tem?

– É verdade! Que mulher dos diabos. Ela atropela todo mundo. Como foi mesmo aquele lance dela espancar a ex-namorada do Márcio dentro do banheiro do restaurante da família dela.

– Parece que ela foi zoar o seu irmão e Angélica não gostou, catando ela dentro do banheiro, esfregando o rosto dela numa das portas da privada.

– Só o Marzinho mesmo para aturar uma mulher dessas.

“- Se Débora fosse como ela, você estava todo ferrado. Ia levar uma surra por dia”, apontou Judith.

Mãe e filho deram risadas. Quando o pai se aproximou, chamou o filho para tomarem uma cerveja na varanda da casa. “- E eu não estou convidada”, intimou Judith.

Pai e filho se entreolharam, dando risadas e todos foram para o local proposto por Rogério. Os três conversaram de tudo um pouco, desde economia, do relacionamento entre Esdras e Débora e ele cumprir a promessa de só falar com ela quando tiver algo definido e encaminhado. Dialogaram sobre a perspectiva de uma mudança da família para a cidade em que o editor residia com Angélica.

“- Nem pensar”, sentenciou Judith. “- Eu gosto daqui e não pretendo sair. Marzinho já tem lá quem cuida dele e de sua galega e se tu for morar lá, fica na tua. Não quero que teus problemas com Débora o afete, pois com certeza, ele fará o mesmo. Isso se o casamento sobreviver aos sete dias de lua de mel.

Lá na fazenda, Márcio e Angélica, depois de uma tarde toda passeando pela propriedade, se recolheram exaustos das andanças e das conversas iniciadas logo pela manhã. Embora a idade do casal fosse próxima, ele tinha 35 e ela 33, os dois pareciam adolescentes em algumas questões, porém, o marido, pelo histórico de vida parecia ter mais experiência do que a esposa, entretanto, ela apresentava um quadro problemático bem maior por conta das sevicias sofridas na adolescência. Os estupros praticados por Jô estavam lá guardados em um lugar da memória da empresária.

“- Amor! Quem vai tomar banho primeiro”, perguntou Márcio.

“- Que tal tomarmos juntos e depois fazermos um jantar para nós dois”, interpelou Angélica em forma de proposta.

– Pode ser sim. Mas antes quero saber como está esse coração aí. Estou preocupado contigo.

– Meu marido! Sei que tenho muito a avançar, mas só tendo a certeza de que tu estarás comigo, a coisa fica um pouco mais leve e, desta forma, eu também possa estar contigo. Sei que guardas dentro desse coração temores e tremores, angústias que te fizeram se tornar esse homem metódico, mas ao mesmo tempo extremamente sensível e belo.

– Angélica! O nosso caminhar juntos significa que haverá tretas, discussões, mas eu, sobretudo, espero ter paciência e maturidade para não ficar te amedrontando com a minha fuga. Preciso aprender isso, se não, tenho certeza que não conseguiremos nos equilibrar para aproveitarmos o que o nosso amor pode nos dar de melhor.

– Eu sei paixão! Vou preparar a banheira para nós dois. Hoje desejo viver sem pressa, sem ansiedade. Não quero ter medo quando travar contigo. Preciso confiar na minha capacidade de te fazer feliz.

A esposa saiu para deixar tudo pronto para o banho de banheira do casal, enquanto Márcio foi ver o que tinha na cozinha para fazerem o jantar. Percebeu que não havia nada de carne vermelha, mas muito peixe e seus derivados, frango e carne de soja. Observou tudo e decidiu por fazer um bobó de camarão. “- Amor! Venha, meu corpo deseja o calor do teu ser, mais do que as temperaturas desta água”, disse Angélica.

Assim que ficou completamente nu, Márcio entrou na banheira e a esposa já foi lhe abraçando e o empurrando para a lateral para que pudessem ficar apoiados um no outro e curtindo aquele momento. Quando o marido ameaçou dizer uma coisa, a empresária pediu para ele não falar nada. “- Fiquemos em silêncio para que as nossas almas conversem com nossos corações. Quero muito ouvir o que a sua alma tem a me dizer e sei que tu queres ouvir a minha”.

O casal acabou cochilando, com o corpo de Márcio sustentando o da esposa. Foi como se se desligassem do mundo material. Onde a dupla estava era impossível definir as cores a partir dos padrões humanos. As músicas que os sopros da natureza entoavam, sempre indicavam a mesma melodia e os dizeres apontavam à estrada que os dois deviam seguir em direção a felicidade plena.

Do espaço em que se encontrava, Márcio viu o seu corpo refletido no espelho e quanto mais observava, mais percebia que estava se tornando Angélica. Ela do seu lado, presenciava o mesmo fenômeno. Precisavam entender que se um não se virasse o outro, jamais conseguiriam encontrar a felicidade que tanto buscavam nos braços do parceiro.

O casal foi despertado pela temperatura da água e se entreolharam como quem tivesse a certeza de que tiveram o mesmo sonho, viram e sentiram a mesma coisa, passando pela mesma experiência. “- Obrigado Marzinho por me amar do jeito que sou. Toda confusa, briguenta, birrenta, meio infantil e me ajudando a ser uma pessoa melhor para eu mesma”, desabafou Angélica.

– Iria te dizer a mesma coisa, mas como não deixou nada que eu pudesse soprar em teu coração, então só me restou te agradecer por tornar minhas noites, mesmo chuvosas, estreladas. Sou grato por não desistir deste reles jornalista que só pensava em fugir de um belo amor. Te amo minha adorável arquiteta.

O casal deixa a banheira e ao terminarem de secar os corpos, vestiram roupas leves e o marido disse que faria um bobó de camarão para a esposa. “- Faremos juntos. Me pede para cozinhar para ti, porém está me acostumando de forma errada. Não deixa eu fazer nada com medo que saia uma gororoba”.

– Eu gosto de cozinhar, principalmente quando tenho um motivo especial.

“- E o que tem de especial para que meu adorável esposo vá para o fogo nessa segunda noite de nossa lua de mel”, inquiriu Angélica.

Olhando ternamente e cheio de amores para com a esposa, Márcio respondeu: “- Você! Quer mais especial do que estar com a pessoa que me ajuda a ser melhor para eu e, por conseguinte, para ela também”, disse Márcio.

Angélica o abraçou dizendo que estava começando a entender porque tinha ficado irada naquela tarde de domingo quando ele a afrontou. “- Somente uma pessoa com tamanha coragem para me ajudar a sair daquele pântano tenebroso em que eu estava metido, poderia me dar um choque de 220v. Te adoro, meu querido esposo”.

Enquanto separava os ingredientes para o prato que faria, Márcio abriu uma cerveja, percebendo que ela continha álcool e, ao olhar para a esposa, ela lhe pisca dizendo que uma, duas não iria fazer-lhe mal algum. “- É só não exagerar”. A empresária abriu um vinho e ficaram ali bebendo, conversando, se beijando, trocando carinhos e carícias.

Já na casa dos pais de Ricardo, Fernanda que havia sido convidada para jantar, pois o noivo desejava ter uma conversa definitiva com ela e o evento seria para ter esse diálogo. Tudo parecia ir bem até o irmão de Débora falar em casamento com a futura secretária de Amadeu. Incialmente, Fê achou genial, gostou da conversa, mas bastou ela dizer que não poderia dar resposta naquele momento. “- Quero pensar com mais carinho, meu amor. Tem muita coisa acontecendo nas empresas, portanto, estou atolada de trabalho até segunda-feira quando teremos o retorno de um importante diretor e eu serei a secretária dele. E depois quero conversar com o Marzinho também e como está em lua de mel com Angélica. Talvez lá pela terça-feira ou quarta-feira da semana que vem falaremos sobre isso. Pode ser amor”.

Ricardo fez aquela cara de quem não gostou nada da resposta. Primeiro quis saber quem era o diretor e se ele conhecia a pessoa. “- Eu não sei ao certo, mas mesmo que soubesse, só iria te falar se tivesse autorização para fazer isso. Então não vejo a menor importância nessa informação. Você está sendo impertinente em querer saber coisas sobre o meu trabalho que nem mesmo eu sei direito. Eu não fico falando nada do que faz, mesmo sabendo que pode vir a trabalhar com Marzinho”, disse Fernanda.

– Sim. É sempre esse porra desse Marzinho. É meu Marzinho para cá, meu Marzinho para lá! “Se Márcio autorizar, preciso falar com o meu Marzinho”. Por que você não dá logo a bunda para ele, pois parece que está louca para fazer isso, mas fica se escondendo atrás de um amor que diz que me tens.

Fernanda olhou e, em silêncio tirou a aliança que estava em sua mão direita e jogou sobre a mesa e gritou com o noivo. “- Pegue essa aliança e enfia no seu cu. Se não der, coloque em seu pau quando ele estiver bem brochado e tu desejar se masturbar. Seu idiota. Márcio está em lua de mel com a esposa, que por sinal é minha patroa e me ofertou um trabalho porque brigamos dentro da loja em que eu trabalha e fui demitida por isso. Ela é ciumenta como o teu rabo. Acho que eu e o Marzinho temos que trepar, fazermos fotos e vídeos e mandar para todo mundo, aí sim vocês sossegam com essa visão de ignorantes que conservam até a medula”.

Antes de deixar o cômodo, Fernanda falou de forma exasperada: “- Eu quero um homem do meu lado, não um moleque. E seu quisesse apenas um pau, eu teria ido a um sex-shop e comprado um vibrador. Pelo menos ele me dá prazer e não aborrecimentos como você que acha porque te amo serei submissa ao seu ciúme doentio. Vá se foder Ricardo junto com a sua estupidez”.

Ao dizer isso, deixou a sala de jantar e quando chegava a sala para sair da casa, foi contida por Adélia. “ – Minha filha! Acalme-se! Não vá embora desse jeito. Ficarei muito mal se acontecer alguma coisa contigo lá fora. Eu e Romualdo sabemos o que Márcio, Roberto e Danisa significam para você. Todavia, meu filho ainda não consegue aceitar esse amor entre amigos que existe entre você e o Márcio. A mente de Ricardo é meio obtusa e machista, idêntica a dos amigos, que eu vivia insistindo com ele para se apartar pois as coisas não eram mais do jeito que eles imaginavam”.

– Adélia. Eu amo o seu filho. Mas não sou capacho de ninguém e não serei dele. Só pedi um tempo para pensar com carinho na proposta que me fez e isso não se resolve da noite para o dia. Eu tenho a minha liberdade. Moro sozinha a mais de dez anos e preciso avaliar tudo. Não é só trocar aliança de mão e sim mudar completamente a forma de viver a vida. Será que ele entende isso, ou quer ficar me apresentando para os babacas dos amigos dele? Se quiser isso então ele que vá num puteiro e contrate a primeira prostituta que conhecer.

– Eu entendo você, minha filha. Mas não tome decisão radical nenhuma com a cabeça quente. Olha só: deixe essa semana passar, pois sei como é importante esse seu trabalho nas Organizações Oliveira. Quando Márcio chegar da lua de mel dele vocês conversam e marcamos aqui em casa um jantar de reconciliação ou de rompimento definitivo. E posso ser sincera: meu filho ainda não está preparado para se casar contigo ou com quer que seja. Olha só com que leveza a irmã dele ajustou as coisas com Esdras. Sem muito alarde, mostrou ao namorado como ela pensa a vida e o que quer do homem que esteja com ela.

Enquanto Fernanda, sentada na sala, tendo a companhia da mãe de seu namorado, se consumia em prantos, Ricardo saia de casa em companhia do seu pai. Romualdo teria uma conversa séria com o filho. Foram ao mesmo boteco que o pai costumava ir quando chegava do trabalho ou a situação estava complicada entre ele e a esposa.

Ao se acomodarem, o pai pediu uma cerveja e já despejou tudo o que tinha para dizer ao filho. “- Seu moleque retardado. Preste atenção no que vou te dizer, pois não repetirei mais isso. Você sabia que ela tem um apreço especial por esse amigo. Todos sabem que se houvesse alguma coisa entre eles, ninguém chegaria perto. Dona Angélica não teria a menor chance. É natural ela querer conversar com o Márcio. Quem cuidou dela nesses últimos cinco anos. Foi você? Claro que não. Tu estavas apenas preocupado em comprar carro e comer o máximo de mulher ou pelo menos dizer aos trouxas de seus amigos que ficou com fulana ou beltrana”.

Quando Ricardo ia falar, o pai foi severo: “- Cala a boca que eu ainda não terminei. E eu não sou nenhum daqueles bostas que ficam te enchendo a cabeça de merda com machismo isso e aquilo e que homem e mulher nunca serão amigos. Que mulher tem que ser comida e pronto. Ou tu pensas que não sei as conversas vazias e frívolas que anda tendo com aqueles seus colegas que só pensam com a cabeça de baixo”, afirmou de forma exasperada Romualdo.

– Agora aparece uma pessoa descente em sua vida que não quer apenas seu corpo, mas seu amor, sua amizade e mais do que tudo, te ama e quer discrição. Não quer que tu fiques desfilando com ela para exibi-la aos seus amigos de mente bichada. Por que achas que ela não te falou quem é o diretor? Por que Roberto não te disse? Por que você acha que o Marzinho, que tu morres de ciúmes, talvez porque sabes que ele pode ser melhor do que, detesta fotografia? Não reparou nos churrascos na casa da sogra como a mulher era discreta e quando não estava dentro d’água, cobria o corpo com a saída de banho.

– Mas pai, eu fico sem chão quando escuto o nome desse cara.

– Então trate de arrumar um chão. Porque se você pretende mesmo se casar com ela, terá que acostumar com a presença dele entre vocês e o nome dele também. Aquela mulher dele é uma dinamite com granada sem pino. Ela espancou a ex-namorada dele dentro do banheiro do restaurante da família dela. Então tu achas mesmo que ele tem um caso com Fernanda? Somente um cabeça dura feito a tua para acreditar nisso. Trate de se arrumar com ela, antes que o Márcio se junte ao Roberto e aí eu não quero estar na tua pele, além de jogar fora a chance de ser feliz com uma ótima pessoa. É meio amalucada, mas um coração de gigante.

– O que faço agora pai?

– Tu não faras nada. Guarde essa aliança e espere. Veremos como tua mãe arranja as coisas lá com ela, mas se afaste desses seus amigos imbecis que ficam te enfiando caraminholas na cabeça. Nenhum deles pagará tuas contas, caso fique desempregado. Não foi o Marzinho que te arrumaria uns bicos para fazer na editora dele e assim que a coisa começar a caminhar, te contraria de maneira fixa? Então seu jumento. Joga tudo isso fora e junto uma mulher que gosta de ti, mas está de saco cheio desse seu ciúme abestalhado.

Assim que o pai acabou de falar firme com o filho, o garçom traz outra cerveja para a dupla. Ricardo olha para o pai e se sente completamente desprotegido. “- Pai, eu amo essa mulher, mas não sei como me segurar quando ela fala desse amigo. Ela o diviniza e eu não o vejo desta forma. Eu o enxergo apenas como mais um cara. Sim. Tem lá seus atributos, é uma pessoa decidida, pois mesmo estando casado com aquela mulher que tem dinheiro que não acaba mais, não quer nada dela, nem mesmo um cargo nas empresas”.

– Está aí, talvez a diferença entre vocês dois e Fernanda notou isso. Ele é um bunda-mole, como ela mesmo diz sempre, mas tem caráter. Não é ambicioso, não quer ficar desfilando com a mulher endinheirada. E você? Bastou ficar noivo da Fernanda para começar a se exibir para os colegas, dizendo que sua noiva era secretária dos grandões das Organizações Oliveira.

Diante da fala do pai, Ricardo percebeu onde estava mancando com a namorada. “- Você tem até domingo para resolver essa situação aí dentro de ti. O amigo dela volta na segunda-feira e tenho certeza que entre você e o Marzinho, ela prefere ficar com o bunda-mole e quando sentir necessidade de sexo, comprará um vibrador. Tua mãe está lá acalmando Fernanda. Eu te proíbo de conversar com ela antes de domingo. Deixa-a em paz com as questões dela e só volte a procurá-la se tiver condições de ser a pessoa que esperas que tu sejas e torça para aqueles dois não saberem de nada, do contrário, vais apanhar como uma mula que empaca.

Na sala da casa de Ricardo, Adélia percebendo que a visitante se acalmava, lhe disse calmamente. “- Filha! Não termine nada ainda. Nós sabemos como Márcio é importante para ti e também não duvidamos dos sentimentos que tem para com o nosso filho. Conforme você mesma nos disse essa semana a coisa tá complicada lá no seu trabalho. Tenho certeza de que Romualdo está dizendo para o Ricardo não te procurar durante esse resto de semana, pelo menos até domingo. Assim, os dois podem pensar com calma e na semana que vem, terça ou quarta-feira marcamos aqui em casa um jantar de reconciliação ou rompimento definitivo”.

– Adélia eu amo seu filho, mas se apenas ficamos noivo e ele está com essa ciumeira danada, imagina então o que fará se souber quem será o meu chefe. E quando tivermos eventos na empresa? Marzinho lançará a editora dele dentro de um mês. Ricardo só está pensando nele e no que diz sentir por mim. A Débora já está assumindo alguns trabalhos no escritório de arquitetura por conta das ações que ganhou de Angélica. Se o Rick dá um espetáculo de ciúmes desses prejudicará a todos. Eu o amo, mas antes dele, existe o meu amor próprio e hoje ele me encheu a paciência.

– Eu te entendo filha e não lhe tiro a razão. Mas podemos combinar assim. Esperemos até domingo e vocês não se falam mais essa semana.

– Tudo bem, Adélia, mas não vou colocar essa aliança no dedo novamente até que tudo esteja resolvido entre nós. Mas falarei tudo isso com Roberto. Eu sei que ele é mais moderado que o Marzinho, inclusive pode segurá-lo. Eu preciso fazer isso. Os dois formam a única família que tenho. Esperava poder construir uma com o seu filho, mas desse jeito dele, é impossível.

Fernanda olhou no relógio e já passavam das 10 horas. Tinha que voltar para casa, mas como? Pediria um transporte, mas foi impedida por Adélia. “-Deixe que Romualdo te levará”.

Assim que a futura sogra, ou quase isso, termina de falar, Fernanda liga para Roberto perguntando se podia dar uma passadinha rápida lá.

– Pode sim Fê! Mas o que aconteceu? Está com a voz diferente. Você chorou? O que o abestalhado do Ricardo lhe fez?

– Quando eu chegar aí eu te conto.

Não demorou dez minutos, Romualdo entra na casa com o filho que nem olha para a namorada, indo direto para o seu quarto, enquanto o pai leva a namorada dele para a casa do amigo.

Quando Ricardo entra no cômodo, sua irmã entra atrás e acaba de jogar a pá de cal que faltava.

– Seu imbecil. Tua namorada prefere ficar com o amigo bunda-mole e um vibrador do que contigo. Agora vai lá e conta essa vantagem para os seus amigos que são retardados como tu. Entendeu por que nunca quis ficar com nenhum deles? Todos têm a mesma mentalidade obtusa como a sua. Sabe o que você pode fazer agora? Olhe para aliança que ela te mandou enfiar no cu, se masturbe, faça um self e mande para a sua patota.

– Por que está me dizendo tudo isso?

– Porque apesar de tudo, sou sua irmã e sei o quanto Fernanda gosta de tu. Mas essa sua marcação em cima do Marzinho é coisa de gente inferior. Você pode até amá-la, mas ainda não está à altura do que ela merece.  Está chegando agora e Márcio e Roberto são amigos dela há cinco anos. Onde estavas quando ela se metia em enroscada saindo com homens retardados e cafajestes como tu? Quem a socorria, estando ela certa ou errada: Márcio ou Roberto.

– O que posso fazer

– Coloque juízo nessa sua cabeça oca. Fernanda e Angélica tiveram uma briga dos infernos. Saíram no tapa no dia em que ela e Marzinho ficariam noivos. Márcio chegou e acabou com a confusão, afirmando à minha patroa que se casaria com ele porque a amava, mas não ia desfazer amizade com Fernanda e agora tu ficas aí dando chiliques, achando que o cara está enrabando sua namorada. Se os dois tivessem dado uma trepada se quer, nem tu e nem Angélica existiriam para eles.

– Você acha que tenho chances de reatar tudo?

– Não sei! Tudo vai depender de como essa história chegar ao ouvido do grande amigo dela. Torça para chegar distorcida, porque se chegar como eu vi na hora do jantar, pode colocar essa sua cara de cavalo de molho porque vais levar um caminhão de murros e sei que o pai não vai entrar para te defender. Lembre-se que não é o só Marzinho, mas tem o pai dele, o Leônidas, o Esdras e o Roberto. Eu não queria está na sua pele. Só porque o Esdras queria ficar comigo sozinho no apartamento do irmão, olha só o que aconteceu. Estou até agora sem falar com ele.

Na casa de Roberto, Fernanda explicou tudo o que ocorreu e o diretor ficou possesso, querendo ir à casa do namorado, mas foi contido por Danisa e a própria amiga. “- Calma amor! Deixe isso para ser resolvido amanhã. Agora descanse. Vocês têm um monte de coisas para fazer na empresa. Se ocupem disso e deixa o Ricardo lá com o ciúme dele. Se ele se aproximar de Fernanda antes de domingo, aí você toma providência e por favor não precisa contar isso para o Márcio”.

– Obrigado Danisa. Ontem foi o Márcio que trazia os problemas dele aqui para vocês, hoje sou eu. Perdão amiga!

– Querida, não tem problema algum. Você conseguiu nos juntar e quando tudo parecia que terminaria, emprestou a sua casa e seu ombro para eu chorar as consequências de minha insensatez. Faça assim, não vá para sua casa hoje. Já está tarde. Durma aqui conosco. Amanhã vocês acordam mais cedo, passam na sua casa e tu mudas de roupa para o trabalho e depois se quiser pode voltar para cá.

– Fê, fique um tempo lá no apartamento do Mazinho. Está fechado mesmo. Tarsila está trabalhando lá da mansão. Assim se Ricardo tentar te procurar na sua casa não te encontrará e, com certeza vai ligará e aí eu digo que tirou a semana para pensar.

– Obrigado Roberto. Estou mais aliviada. Eu realmente gosto daquele preto teimoso e ciumento, mas tenho que delimitar os espaços, senão não conseguirei respirar sossegada.

O trio conversou mais um pouco sobre coisas mais leves, inclusive sobre a expectativa de Fernanda ser secretária da diretoria e aguentar o gênio ciumento da mulher de Marzinho. “- Veja se pode? Ter um namorado ciumento e ser secretária da esposa do meu amigo e, diga-se de passagem, tem um ciúme do inferno de minha pessoa e me terá como secretária. Isso é coisa daquela mãe doida dela. Acho que é para fazer a filha crescer como pessoa”.

Depois de uma hora dessas conversas, a casa de Roberto mergulhou num silêncio total, enquanto Ricardo, sem sono olhava pela janela a lua que ia alto no céu quando escutou baterem na porta. “- Entre”.

– Filhão! Como está?

– Péssimo mãe.

– Posso te dar um conselho?

– Pode!

– Conversei com a sua irmã e achamos que tu deverias fazer uma terapia para equacionar essa sua insegurança. Faça um intensivo essa semana. Estamos juntos contigo. Sabemos o quanto essa moça representa para ti. Não se preocupe com dinheiro.

– Se a senhora acha que resolverá, procurarei um amanhã. Não quero ficar sem a Fernanda e se isso acontecer, a culpa será toda minha. Eu sei que ela já falou para o Roberto. Estranho ele não ter me ligado para falar um monte.

– Esquece tudo isso. Você tem até domingo para arrumar essa sua cabeça desarrumada ou pelo menos dar um norte para ela e o seu coração. Conversei bastante com Fernanda. Se ela falar não, esquece.

– Obrigado mãe.

– Boa noite filhão. Vê se dorme um pouco. Tens trabalho amanhã.

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