Sobras de um amor … volume III

6.

 

         Quando o casal de nubentes acordou na sede da fazenda, o mundo lá fora parecia que acabaria em água. A chuva que caiu durante a noite toda, se intensificou, fazendo com que Angélica e Márcio tivessem que ficar dentro da casa. Momento alvissareiro, pensou o editor, para se falarem, se amarem, se estranharem, caso houvesse um motivo, todavia, os dois dialogariam muito sobre os ciúmes dela e dele também. O da esposa pareciam as tempestades de verão e do marido se assemelhavam àquelas chuvas que caiam o dia todo, sem pressa, sem querer molhar, mas já encharcando tudo por onde passava.

Como havia feito logo cedinho, a empresária, acordou e procurou o esposo na cama, mas este já estava debaixo do chuveiro mandando embora os últimos resquícios do sono. Novamente, a esposa disse, só que berrando: “- Caralho Márcio! Por que não me espera para acordar? Sabe que quero te sentir aqui do meu lado”. Ao dizer isso, a esposa já entrou no box antes que o marido tentasse sair. “- Agora vais ficar aqui comigo até eu terminar e será do meu jeito e não da forma como tu esperas”.

– Meu deus do céu! Não sei se fico com medo, se tento fugir ou se te levo ao paraíso enquanto tento escapar dos seus tentáculos, minha rainha diaba.

Antes mesmo de responder, a arquiteta já estava alisando o membro de Márcio que tentou escapar, mas foi contido pelo beijo e desejo da esposa que queria senti-lo gozando como da vez que estavam no apartamento dela. Sem pensar muito, ela virou de costa para Márcio, colocando o seu membro entre as pernas e começou a fazer movimentos de vai e vem. A ação durou cinco minutos, com o editor ejaculando entre as pernas da esposa que, satisfeita, disse: “- Agora sim, meu esposo amado está pronto para começar o dia. A noite quero mais, hein, meu marido delicioso”.

“- Não fugirei do compromisso com teu corpo, tua alma e o nosso amor, minha paixão”, exclamou Márcio saindo do banheiro e observando as horas, percebeu que os ponteiros já se aproximavam do meio-dia e nada de a chuva arrefecer em sua intensidade. Terminou de se enxugar e quando começava a colocar a cueca, perdeu o controle porque foi empurrado pela esposa que, ao vê-lo pender para cima da cama, foi junto, o beijando avidamente. “- É tudo real! Eu e você aqui, sem telefone, sem ninguém, sem compromisso. Somente com os nossos corações e alma, meu querido”.

– Uma semana somente nossa!

Assim que beijou a esposa, conseguindo girar o seu corpo sobre o dela, Márcio perguntou se tomariam café ou almoçariam. Precisava definir, pois não queria trocar as coisas para ter que se ajustar ao antigo quando deixassem a fazenda. “- Realmente, meu Marzinho é metódico ao extremo. Custa deixar as coisas fluírem nessa segunda-feira chuvosa. Será que tudo tem que ser cronometrado assim: hora para acordar, tomar café da manhã, almoço, café da tarde e ceia”, perguntou Angélica dando um beliscão no esposo.

A partir dessa inquirição, o editor entendeu que tinha que sair da tomada para aquela lua de mel ser singular para os dois. Deixou a cama e o quarto, indo em direção à cozinha. “- Onde meu marido vai”, inquiriu a esposa. “- Tentar achar alguma coisa para forrar o estômago. Preciso estar firme e forte para continuar encantando minha adorável e mandona esposa”, respondeu o esposo já bem próximo da cozinha.

Abriu a geladeira e não viu nada do que esperava, por exemplo, leite. Encontrou dentro do armário um pode contendo aveia sem refino e em cima da mesa umas beterrabas. Ficou olhando sem entender nada, e quando fez menção de perguntar, a esposa já estava ali dizendo que ela faria o café para os dois.

“- Onde está o leite e as outras coisas”, inqueriu o marido.

– Hoje vamos tomar um café diferente. Eu farei para você. Me espere sentadinho lá junto à mesa.

– Mas não tem nada lá.

– O que farei será suficiente para agora até o final da tarde.

Quando o esposo estava imaginando que Angélica traria um excelente café com muitas frutas, bacon, ovos, ela surge com dois copos grande contendo um líquido que seria impossível dele definir o que era. Diante do desconhecido, fez como todo bom filósofo, perguntou o que era aquilo. “- Um vitaminado que fiz para nós dois”.

– Estranho, mas eu não vi nada que pudesse terminar nesse liquido.

– Por que é bem diferente. Então tome logo.

– Só se me falar o que tem aí dentro.

– Credo Marzinho! Acha que eu, sua amada esposa, faria algo que não fosse delicioso para o meu marido.

– É que está com essa conversa de me fazer não comer carne vermelha e depois deixar de ingerir alimentos de origem animal e nem perguntou se eu quero isso. Então, fico cá com as minhas dúvidas.

– Está bem! Eu digo! Homem chato do caralho!

Márcio fechou a cara! Detestava quando ela ressaltava aquilo que, no ponto de vista era um defeito, uma mania do marido: ser chato, metódico e querer tudo do jeito dele. Como a tempestade não dava trégua e os dois estavam ali sozinhos, para onde ele iria? Seria obrigado a dissipar aquele amuo por conta do que Angélica lhe disse.

– Eu fiz leite de soja com aveia e beterraba!

– O quê?

– Isso mesmo que o senhorito ouviu: leite de soja dissolvido na água com canela, batido com aveia e beterraba. E não adianta dizer que não vai tomar e isso e aquilo. Eu tranquei a porta da cozinha e engoli a chave, portanto, se não ingerir esse vitaminado, ficará com fome.

Para não arrumar confusão ou agir como menino mimado, Márcio pegou o copo para delírio da esposa e começou a beber. No início fez aquela careta por conta do gosto da soja e da beterraba que sobressaiam. Terminou de ingerir e como não falou nada, Angélica trouxe mais, despejando o restante no copo do marido que mesmo a contragosto, bebeu o líquido.

– Você vai ver como só sentirá fome no final do dia. Se bem que se sentires vontade de outra coisa, podemos pensar em como resolver isso. Agora deixe-me higienizar e organizar a cozinha. Deixamos louça de ontem para lavar.

Enquanto Angélica se voltou para a cozinha, o editor foi até o quarto pegando uma mala onde tinha colocado vários livros publicados em Alemão, Italiano, Francês e Português para ler. Por mais que tentou organizar mentalmente o que faria naqueles dias, não foi possível e a segunda-feira ficou toda comprometida por conta da chuva que caia sobre a fazenda.

Se na roça o tempo era chuvoso, na mansão o sol dava o ar da graça. Tarsila foi a primeira a se levantar. Não queria deixar a sogra ou os empregados da casa arrumar o café da manhã para o seu marido. Ela pretendia manter as mesmas atitudes de quando estava morando na Alemanha, primeiro sozinha e depois com Amadeu.

Assim que começou a preparar tudo, a sogra chegou até a cozinha e sem que a nora esperasse, ela o abraçou. “- Obrigado minha filha por fazer o meu filho feliz e trazê-lo para nós. Sei que eu e Jô fomos ignorantes, mas penso que a culpa é muito mais de minha pessoa do que dele. Eu desejava tirá-lo daquele labirinto, mas achava que tinha que ser só para o meu desfrute”.

– Eleanora, eu não sei o que se passava entre vocês dentro dessa casa, mas creio que tenho uma parcela de culpa também. Fiquei apavorada com o racismo e o poder de seu marido e não tinha onde me esconder, então resolvi me afastar do seu filho, esperando que tudo passasse. Contudo, mesmo distante, eu cuidava dele, sabia tudo o que acontecia, exceto a dor que tinha por conta do meu desaparecimento.

– Onde está Amadeu?

– Dormindo e acho que vai levar mais um tempinho ainda no mundo dos sonhos.

– Depois do que eu vou te contar, deixo a seu critério me avaliar, bem como o homem que poderia ser seu sogro.

Tarsila assentiu com a cabeça e a sogra continuou. “- Jô só amou uma mulher na vida e posso te afiançar com segurança que não fui eu. Só apareci depois que a tragédia havia sido consumada, mas meu marido nunca superou a dor. Na juventude ele foi apaixonado por uma moça que era secretária nas empresas do pai. O problema maior, não era ela não estar na mesma posição social, mas a tonalidade da pele. Lourdes, era preta assim como você e Jô começou a se encontrar as escondidas com ela, mas foi descoberto pelo pai que mandou violentá-la e depois assassiná-la e uma semana depois do sepultamento, o filho recebeu fotos ilustrando as sevicias que ela sofreu e depois o corpo todo crivado de balas. Essas fotografias estavam aqui até outro dia, mas eu dei cabo nelas.

Tarsila ficou surpresa com o que ouviu. “- Conheci Jô tempos depois e acabamos nos casando mais por minha vontade do que dele. Eu passei a vida tentando tirar Lourdes do coração daquele homem. Ele sabia que era impossível, por isso me cobria de luxos e presentes e tentava comprar tudo, numa espécie de não pensar na amada. Eu achava que podia levar aquela vida, afinal de contas, não precisaria olhar para lugar algum, só desfrutar do que recebia”.

Diante do olhar atônito da nora, a sogra continuou. “- Para não perder tudo aquilo, acabei cegamente abrindo mão do meu filho que se opôs ao pai. Eu achava que agindo assim, conseguira finalmente um lugar no coração daquele homem que parecia ser de gelo”.

Quando Tarsila fez menção de dizer algo a sogra pediu para continuar. “- Eu e Angélica estávamos rompidas por vários fatores e um deles foi o casamento dela com a sua irmã, mas o motivo principal foi eu não ter ficado ao lado do Amadeu que se perdia pelas ruas da cidade. Ela fez de tudo para resgatá-lo, mas foi em vão. Angélica acreditava que do nada, o irmão recuperaria o juízo”.

“- E foi aqui que o Márcio apareceu”, perguntou a nora.

– Ele só queria escrever umas matérias sobre o Amadeu, por conta do jeito dele andar, se vestir, falar. Ele fazia tudo igual. Era como se vivesse o mesmo dia. O Marzinho embarcou nas alucinações de seu marido e começou a decifrar a cabeça dele, percebendo que havia alguém no meio daquilo tudo. Márcio publicou dois textos, forçando Angélica a sair das sombras de onde tentava proteger o irmão sem que ele soubesse.

– Eleanora o resto da história eu sei mais ou menos, mas onde entra você? Pelo que me consta tu também não gostavas de pretos.

– Sim! Mas foi preciso alguém me desse um grande murro na cara, sem precisar levantar a mão e a morte de Jô, para eu ver o quanto estava errada. Essa pessoa que conseguiu trazer o seu marido de volta, não reagiu aos insultos que eu dediquei a ele.

“- Eu também o ofendi em sua integridade moral e caráter e ele me mostrando que o caminho era outro”, acrescentou Tarsila.

– Eu lhe pedi perdão, mas até hoje eu não sei se consegui e também fiz o mesmo contigo logo quando conversamos naquela chamada de vídeo e assim que chegou aqui na manhã do sábado.

Ao dizer isso Eleanora estava com os olhos cheio de lágrimas e envergonhada por quase ter arruinado a vida dos filhos por conta da presunção, vaidade e um desejo pessoal de conquistar um homem que havia levado um forte golpe da vida desferido pelo próprio pai.

A nora deixou o assento, indo em direção à Eleanora o abraçando. “- Minha sogra! Não posso lhe apontar o dedo e lhe sentenciar de nada. Quando Amadeu precisou do meu amor, eu não fui forte o suficiente para encarar tudo o que viria pela frente. Então, penso que podemos começar daqui para diante. Eu amo o seu filho. Não tenho interesse nenhum no dinheiro dele ou de vocês. Minha maior ambição é fazê-lo feliz. Se eu conseguir isso, essa vida terá valido a pena”, explicou a nora que via na fala da mãe de Amadeu uma voz vinda lá d’alma.

– Obrigado minha filha. Espero ajudá-la a continuar fazendo o meu amado poeta e filho feliz. Não desejo arrastar o passado para os nossos presentes. Temos muito que aprender uma com a outra. Não tem como mudar o ontem. Jô se foi e eu sinceramente espero que tenha encontrado o grande amor da vida dele. Pode sim ter sido uma pessoa complicada e eu dentro do meu egoísmo não me esforcei para ajudá-la a ser diferente, mas apesar de tudo, me deu dois filhos maravilhosos e agora vem um netinho por aí. Eu só tenho a agradecer.

Amadeu que, sorrateiramente tinha assistido toda a cena envolvendo a esposa e a mãe, chegou perguntando se o café estava pronto. Tarsila olhou para ele, pedindo desculpas pelo atraso, mas providenciaria. “- Nada disso, meu amor. Continue aí com o que estava fazendo. Eu prepararo o café para nós três. Sei o quanto dona Eleanora está precisando do seu colo e da sua compreensão”, explicou o poeta se dirigindo ao fogão para terminar de fazer o que a esposa tinha começado.

Depois de tudo pronto, a mãe colocou a mesa e os três se alimentaram e receberam com felicidade um pedido do poeta. “- Mãe! Adoro fazer o que faço, mas não gostaria de ficar ocioso enquanto a inspiração não chega, então gostaria de desengavetar o meu diploma de administrador e ajudar minha irmã em nossas empresas. O que a senhora e minha adorável esposa acham”, perguntou o vate.

Desta vez foi a mãe quem levantou e abraçou o filho toda feliz, principalmente porque a iniciativa partiu dele, não havendo necessidade da intervenção de ninguém. “- Acho que a Keka tem muita coisa para equilibrar, principalmente o casamento com o mosquito que parece ser todo coração, mas eita homem turrão! E o ciúme dela é maior que o amor que tem pelo jornalista”, explicou Amadeu.

Tarsila se manteve onde estava e esperou o marido terminar de falar. “- Amor, fico imensamente feliz que tenha feito essa escolha. Será excelente para ti e à sua própria arte. Eu na editora e você nas empresas de sua família, poderemos começar a construir o nosso espaço, conforme conversamos várias vezes na Alemanha e também a nossa casa”.

– Mas vocês vão ficar aqui na mansão até o filho nascer, conforme combinamos, não é Tarsila?

– Sim, Eleanora, mas penso que podemos já ir pensando em nosso espaço e construindo aos poucos, inclusive pedir para o escritório de Angélica fazer o projeto conforme o desejo meu e do Amadeu.

– Mãe! Será que a senhora não me levaria a tarde para eu tomar um pouco de ciência sobre aquilo tudo? Mas só vou retornar depois que Angélica chegar. Não quero tomar decisão alguma sem que ela esteja comigo.

– Pode sim meu filho. Ligarei para o Roberto que ficou responsável por algumas questões lá. Marcarei lá pelas três horas e nos reunimos com ele. Eu você e sua esposa.

Ao término do café, a matriarca liga para a empresa, conversando com Roberto informou da notícia alvissareira. “- Dona Eleanora, será muito tê-lo aqui conosco. Dona Angélica tinha conversado comigo e com o Márcio para tentarmos trazê-lo de volta às empresas. Prepararei uns slides e um fluxograma para ele se inteirar”.

– Meu caro Roberto, eu que sou a mãe estou imensamente feliz por isso, mas o Amadeu disse que só quer voltar depois que Angélica chegar da lua de mel com o amigo mosquito dele.

– Se ele quiser vir antes um pouco a cada dia para se ambientar, estarei à disposição. Será muito bom tê-lo aqui na vice-presidência.

– E Fernanda, como está? Aquele noivo dela é amalucado de ciúmes como a Angélica.

– Conversei bastante com ela e com Ricardo. Expliquei que ter ciúme é bom, mas roupa suja se lava em casa. E ter ciúme do Márcio é a coisa mais absurda que ele pode imaginar. Acho que de todos nós, ele é que mais paparica aquela doida.

– Roberto! Seja sincero comigo. O meu genro e Fernanda nunca tiveram nada mesmo? Estou te perguntando, porque Márcio não é de ficar falando da vida íntima dele e bem podia fechar essa história e ficar só entre os dois.

– Dona Eleanora! Eu conheço aquela dupla faz cinco anos e posso garantir: se tivesse rolado alguma coisa entre eles, a Fê não estaria com o Ricardo e nem o Marzinho com a sua filha. Os dois se fechariam de tal forma que nem com pé-de-cabra abriríamos. Seu genro é apaixonadíssimo pela sua filha. No casamento dos dois tive que contê-lo umas duas ou três vezes enquanto dona Angélica conversava com um dos diretores aqui da empresa.

“- Obrigado Roberto. E como vai Danisa? E o bebê”, pergunta a matriarca.

Antes mesmo do diretor dizer algo, ela já vai adiantando: “- Fico feliz pelos dois. O meu presente para os três já está guardado. Só esperando o filhão chegar ao mundo. Ah! Não deixe ela ficar em casa não. Precisa trabalhar, voltar a estudar. Vamos organizar uma situação para ela. No momento, deixe-a curtindo a gravidez”.

– Obrigado dona Eleanora.

– Então tudo bem, meu caro. A tarde nos falamos mais. Deixe-me paparicar o meu filho, minha nora e curtir a gravidez dela.

Ao desligar o telefone, a matriarca se dirige à beira da piscina onde Amadeu e Tarsila estavam. Cada um com um notebook e no seu universo profissional. O filho tentando achar o verbo correto para combinar com a rima objetivando compartilhar aquele momento que há 90 dias era impossível de ser pensado, pois todos o queriam de volta, mas para colocá-lo dentro dum terno, enquanto ele corria desesperadamente de lingeries que desejavam enforcá-lo.

Eleanora sabendo que ele costumava se desligar do mundo, a exemplo do que fazia o seu genro, ficou em silêncio enquanto Tarsila começava a trabalhar numa tradução, mas parou para não deixar a sogra sozinha. “- Pode continuar minha filha. Embora eu seja de outra geração, sei que esse mundo tecnológico não necessita de paredes e nem prédios para que se realize o trabalho”.

– Comecei a trabalhar na tradução de um livro que o Márcio trouxe da Alemanha. Eu consegui negociar os direitos de traduzi-lo aqui no país. Então quero ver se quando o meu patrão voltar, esteja pelo menos metade mais ou menos esquematizado para ele dar uma olhada.

– Marquei reunião com Roberto às três horas. Já pedi aos empregados que cuidassem do nosso almoço. Amanhã iremos ao médico e começar a acompanhar mais de perto essa gravidez.

Ao fazer menção de se levantar, Tarsila percebeu que alguma coisa incomodava a sogra. Salvou o que já tinha feito e fechou o equipamento para dar atenção à matriarca. “- Eu fico preocupada com a Angélica. Vocês estão aqui comigo e perto do Márcio você é mais serena. Ele é um bom homem, mas é pavio curto e ela adora uma confusão. Não dá trégua para ele. Tem um medo lascado de que ela a deixe”.

– Eleanora! Eu o conheço pouco e muitas das vezes que nós conversamos, eu mais o ataquei do que deixei Márcio se apresentar, mas posso dizer-te com convicção: Angélica está segura com ele. A senhora acha que um homem que bebe até perder os sentidos, vai parar na UTI porque quer esquecer uma mulher, é capaz de deixá-la e ir atrás de outra? E fosse para fazer isso, não teria tomado um porre daqueles e sim tentado encontrar outra mulher. Aquela imbecil da Márcia jogou fora um ser fantástico que seria capaz de ofertar-lhe o paraíso. Melhor para Angélica que encontrou no marido a pessoa para lhe serenar a alma.

– Como você via o casamento dela com a sua irmã?

– Você disse bem: o casamento das duas! Eu nunca me meti nas coisas de minha irmã, mas aquele relacionamento cedo ou tarde ruiria. As duas eram temperamentais e viviam disputando para ver quem mandava mais. E não vou entrar no mérito da relação sexual das duas: Rosângela era assumida e uma homossexual resolvida e isso não é nada de outro mundo. A sua filha é bissexual e não escondeu de ninguém nem de minha irmã, mas acho que o elemento fundamental aí para Márcio surgir foi justamente esse jeito dele: quietão, tímido querendo sempre fugir, não aparecer, mas que sabe muito bem delimitar, silenciosamente, o seu espaço sem fazer alarde algum.

– Então você acha que Márcio não roeria a corda?

– Acho mais fácil a Angélica fazer isso do que o meu patrão, principalmente por ele ser meio espartano, metódico, querer os dias do mesmo jeito. Seguir um padrão, assim como Amadeu. Seu filho nunca se recusou a seguir nas empresas, mas apenas não queria que fosse imposto e que a sua arte colocada em segundo lugar ou sufocada como uma flor no meio de um jardim cheio de mato. Por mais que eu o amasse, não conseguia ver isso, porque me ocupei em cultivar algo que estava me matando, bem como o homem que eu amo: o ódio, o ressentimento.

Eleanora a escutava com muita atenção. “- Seu genro foi capaz de trazer o seu filho de volta porque entendia de rotina, de dor, de poesia, de escrita, e da vida. Ele e Amadeu buscavam um sentido para vida e não dinheiro. Se você se recordar, ele preferiu a segurança de estar com Marzinho do que em seus braços e com uma conta recheada de dinheiro”.

– Então tu achas que ele é o prego no concreto da casa sentimental de Angélica?

– Com o jeito quieto, taciturno dele, é na vida de muitas pessoas. Não é perfeito, ainda bem, mas sempre que estamos do lado dele, nos sentimentos em paz e sua filha enlouquece porque ainda não foi capaz de perceber isso. No fundo, ela sabe que Márcio não vai emprestar o guarda-chuva para ela, mas ficar com a esposa na chuva, independentemente de quem tenha provocado a tempestade.

Ao ouvir as explicações de Tarsila, Eleanora pensou no seu general, dizendo em seguida: “- Judith me disse ele não é atirado, chegando a ser totalmente desconectado do mundo. E minha filha ameaçou ficar nua numa rodoviária lá no Pontal para Márcio voltar com ela. Angélica falou que o encontrou completamente desligado de tudo”, explicou a matriarca.

– E o seu general? Como andam as coisas com ele?

– Minha filha. Aquele lá é um Marzinho mais velho. Se fossem pai e filho não se pareciam tanto. Sei que sou impaciente, meio irrequieta, querendo definir tudo e ele não. Quer ir devagar e esperar que a fogueira que está entre nós dois vire apenas brasa.

– Então o ajude. Não acelere nada. Vocês marcaram alguma coisa para essa semana?

– Não! Ele já sentenciou que precisa resolver as coisas do seu restaurante e eu fico aqui como uma adolescente, esperando uma ligação dele.

– Se ele se parece com Márcio, você acha que vai te ligar?

– Não vai! E isso me deixa doida, apavorada.

– Então já sei de onde Angélica tirou essa loucura toda por Márcio.

Ao ouvir isso, Eleanora caiu na gargalha e em seguida convidou a nora para verificarem como estava indo o almoço. Desejava ficar serena para o encontro da tarde com Roberto.

Durante a refeição tudo transcorreu normalmente até que Amadeu perguntou à mãe se havia alguma roupa social para ele usar. Diante da negativa, foi Tarsila que explicou. “- Hoje vai de jeans e camiseta e depois passaremos numa loja e montaremos um guarda-roupas para ti. Até porque dentro de um mês ou dois, o mosquito inaugurará a editora e você será um dos autores a serem lançados na ocasião”.

– Está bem minha Tarsilinha. Ela não é linda mãe. Se não existisse, pediria as estrelas que a criassem para tranquilizar meu coração apaixonado. Não posso nem pensar em ficar sem você um minuto se quer. Foram cinco anos de muitas escuridões.

– Amor! O passado só serve para nos orientar no presente e no futuro, portanto, hoje e amanhã estarei sempre contigo e o nosso filho também. Agora vamos à sua primeira reunião nas empresas de sua família.

Eleanora sugeriu que fossem transportados no carro da família, mas a nora se recusou. “- Angélica deu o carro que era de minha irmã. Se você não se incomodar, minha sogra, vamos nele. Não me importo de os seguranças irem conosco se isso te deixa mais tranquila”.

Quando o automóvel, conduzido por Tarsila deixa a mansão, logo atrás seguiu um veículo disfarçado contendo quatro seguranças, sendo que dois deles era mulher. Depois da experiência com Rodolfo, a matriarca começou a mudar um pouco essa relação com as equipes de vigilâncias. As mulheres também poderiam serem ótimas profissionais, principalmente no que diz respeito à discrição. Isso quando querem, já que a filha, quando o assunto era o marido, virava o mundo de cabeça para baixo.

Ao chegarem na sede das Organizações Oliveira, muitos estranharam o casal que acompanhava a presidente de honra das empresas. A maioria sabia que o homem era o filho dela que ficou cinco anos desaparecido e quando foi localizado ficou um tempo na mansão e depois se mandou para a Alemanha. Agora a mulher, uns diziam ser a esposa dele e outros que se parecia com a ex-mulher da filha dela. Mas de uma coisa todos sabiam, desde que a presidente começou a desfilar para cima e para baixo com um jornalista preto que as coisas estavam mudando nas empresas.

Quando o trio chegou no andar em que ficava as salas dos diretores, Eleanora foi recepcionada pela secretária de Roberto, Fernanda. O amigo de Márcio ainda não tinha arrumado outro espaço para ela. Foi a matriarca quem se antecipou: “- Me esperem na sala, quero ter uma conversa aqui com a nossa funcionária”, disse em tom professoral.         Fernanda ficou sem saber para onde olhar, pois foi pega de surpresa e, de forma desesperada, observava Roberto.

– Calma! Márcio não está aqui para te defender.

“- É que a senhora me pegou de surpresa. Sabia que trabalhar aqui estava muito bom e que no final não haveria um pote de mel”, descarregou Fernanda.

– Pare de pensar no negativo. Só quero conversar contigo. Coisas de mulheres. Agora relaxa. Vamos até a sua sala.

Assim que entraram e se sentaram, Eleanora foi direta. “- Você e meu genro nunca tiveram nada? Nem se deram um beijo”, perguntou a mãe de Angélica.

– Bom. Se a senhora veio aqui para me importunar com essa conversa sem pé nem cabeça, estou indo embora. Pode ficar com o seu emprego. Estou saindo de suas empresas.

– Tudo bem! Pode ir, mas antes me responda o que lhe perguntei e depois te deixo sair de minha organização empresarial: pela porta da frente.

– Porra! Eu e o seu genro nunca tivemos nada! Eu o chamo de “meu Marzinho” porque sempre me sinto segura quando estou com ele. É como se fosse o prego em meu edifício existencial que vivia balançando e ele arrumava um jeito de não deixar nada cair. É uma pessoa especial e fico imensamente feliz em ver que tua filha finalmente criou juízo e resolveu fazê-lo feliz. Um homem como aquele não se acha a qualquer momento.

– Então nunca tiveram nada e você o enxerga como esse prego no concreto?

– Sim senhora! Eu não vou estragar essa coisa bonita que construímos durante esses cinco anos, por uma trepada à toa e depois ele é doido pela Angélica e se fosse um aventureiro, um interesseiro estaria aqui nas empresas. Ele nunca quis isso. Não está no DNA dele. Márcio é de outra linhagem que não sei ao certo como defini-lo para a senhora.

Enquanto Eleanora pensava, Fernanda sentenciou: “- Eu e sua filha não nos entendíamos e isso não quer dizer que nos entendemos agora, justamente porque ela tem junto dela uma joia rara e ficava procurando confusão ao invés de fazê-lo feliz”.

Ao terminar de falar com a dona das Organizações, Fernanda pegou a sua bolsa, pois sabia que estava na rua novamente. “- Mas onde está indo menina”, questionou a matriarca.

– Ué! A senhora não me demitiu porque achou que eu estivesse dando o rabo para o seu genro.

Elanora deu uma sonora gargalhada. “- Só mais uma coisa: como anda o seu relacionamento com o irmão de Débora”, perguntou a patroa.

– Ficamos noivos em sua casa e, se aquele bunda-mole não estragar tudo com o ciúme exagerado que tem do Marzinho, de repente podemos até nos casar. Teu genro até sinalizou com um trabalho futuro na editora, mas aquele cara, como que a metade da cidade, ainda acha que eu e o meu amigo temos um caso.

– Obrigado pela conversa franca minha jovem. Gosto de gente assim e entendo porque tu e meu genro são amigos e não quero que o casamento dele com minha filha estrague isso. Agora você vem comigo, temos uma reunião importante e precisarei de ti.

Fernanda olhou assustada para a sogra de Márcio, mas a seguiu sem fazer questionamento algum. Quando entraram na sala de reunião, a secretária como sempre fazia quando estava com medo, se sentou pertinho de Roberto que estranhou o comportamento da amiga.

“- Roberto! Graças ao meu amigo mosquito que me ajudou a sair do mundo da sandice, trazendo a minha paixão de volta e também ao nosso filho que está chegando, retornarei às empresas da minha família. Tem o cargo de vice-presidente me esperando”, disse Amadeu apressadamente como fazia sempre que estava ansioso.

Roberto percebendo a ansiedade do poeta, ligou o projetor e foi, lentamente, mostrando como tudo funcionava, indicando quais setores ele seria responsável, enquanto a irmã ficaria com o outro. “- Quando conversei com a sua mãe pela manhã, montei algumas coisas que poderão te ajudar, caso queira começar amanhã”.

Desta vez foi Eleanora quem falou. “- Ele só iniciará na próxima segunda-feira quando Angélica estiver aqui, mas caso queira vir amanhã ou nos próximos dias, a Tarsila o trará”.

Todos olharam para ele, pois acreditavam que Amadeu sabia dirigir e teria um carro à disposição. “- O que estão me olhando? Eu não sei dirigir e não tem a menor vontade de aprender”.

Os participantes da reunião caíram na gargalhada e Amadeu quis saber o motivo. Foi Roberto quem falou: “- O seu amigo mosquito também não sabe e nem Cristo faz ele aprender”.

Olhando para Fernanda que continua tensa, Eleanora pediu para Roberto deslocar a sua secretária para assessorar o filho. “- Quero essa mocinha aí sendo assessora do meu filho. Gostei dela! Tem caráter e é franca. Quero gente assim trabalhando em nossas empresas. Ah! Providencie um substancial aumento salarial para ela”.

Aos poucos Fernanda foi se soltando. “- Roberto! Você pode me emprestá-la para essa tarde”, inquiriu Eleanora. “- Vamos comprar umas roupas nova para ela. Um presente meu pelo seu noivado e aí daquele seu namorado que te perder”.  A funcionária ficou mais pasma ainda. “- A partir de amanhã tu e o Roberto organiza tudo certinho para Amadeu retomar na segunda-feira. Mas não ficará o dia todo. Proporei que fique um período e Angélica outro. Tipo assim: ele vem no período da manhã e ela a tarde. Tarsila trabalha com Márcio na editora pela manhã e à tarde se dedicará a essa gravidez”.

Todos deixaram a sala de reuniões e, enquanto Fernanda ia em sua mesa foi seguida por Roberto. “- Está explicado de onde a dinamite pegou gosto pelo mando. Coitado do Marzinho! Se não fizer do jeito que a Rainha Diaba determinar, dormirá no fosso do elevador”, disse a secretária rindo baixinho. O diretor de comunicação as acompanhou até o térreo se despedindo de todos.

Assim que Roberto entra em sua sala, o seu celular chama. Ele sabia que não era o amigo que tinha ido para a fazenda se desligando de tudo para curtir a lua de mel com a esposa mandona. Ao ver o número, não o conheceu de imediato, mas quando falou alô reconheceu a voz de Ricardo querendo saber da noiva. “-Acabou de sair. A patroa veio aqui e a levou para fazer umas compras. Na próxima semana, ela deixará de ser minha secretária e trabalhará com outro diretor”.

– Você sabe quem é o cara, Roberto?

– Não sei! Mas mesmo que soubesse não te falaria.  E esfria essa cabeça. Acho que você está louco para jogar a felicidade fora ou está querendo levar uma surra minha e do Márcio.

– Calma meu amigo! Eu só perguntei, pois achei que tu saberias quem é.

– Meu caro Ricardo, se tem uma coisa que nós respeitamos é a individualidade e intimidade de cada um de nós. Jamais Fernanda levará para casa problemas que tem no emprego ou vice-versa. Ame-a antes de ficar policiando os passos dela. Olha só o que aconteceu no sábado, levastes problemas para quem não tinha a ver com a situação.

– Vou fazer o que todo mundo está me dizendo, inclusive meus pais que me deram uma dura, dizendo que apesar da Fê ser meio desparafusada, é uma excelente pessoa e que se eu a perder por conta do meu ciúme, não encontrarei mais ninguém.

– Por que não espera a noite. Vocês não marcaram de se verem hoje? Então.

– Estou atolado de trabalho, sendo assim não sei se conseguirei sair a tempo de fazer um programa com ela.

– Faça o seguinte: vou convidá-la para jantar comigo e Danisa e aí você aparece por lá assim que ficar livre do seu trabalho. Vou segurá-la até umas onze horas. Se tu não chegar até esse horário, eu a levarei para casa. Mas veja bem! Nada de aparecer por lá depois.

– Tudo bem, Roberto. Eu sei que o coração dela é guardado por dois marmanjões.

– Fazemos isso por simples fator: contigo, ela não quer apenas um pau, uma trepada numa noite qualquer, mas sim um homem que a acompanhe em sua jornada terrena. Se entender isso, terá uma excelente companhia. Agora se ficar com frescuras, principalmente em relação ao Marzinho, com certeza a perderá e terá que aguentar a bronca de todos nós.

– Entendi sim, meu amigo. Meus pais me falaram isso. Sei que tenho medo de perdê-la, mas se isso acontecer a culpa é toda minha. Tenho que contornar isso e acho que sei quem pode me ajudar.

– Quem?

– A própria pessoa de quem tenho ciúmes: o Márcio. Me diga uma coisa: se eu falar em casamento com ela, será que haverá um sim da parte dela? Lembro-me que o Marzinho me afirmou durante uma conversa de que poderíamos morar no apartamento dele.

– Se ele falou, está falado. Mas tu tens que fazer por merecer. Sei que ele tem um lugar para ti na editora dele. Então não cague no pau e só ame Fernanda e o resto vai acontecendo naturalmente. Olha como ela ficou no primeiro jantar que fez para ti. Se a perder, além de ficar eunuco, sabendo que sua mãe emprestou a faca.

Ao dizer isso, Roberto caiu na gargalhada, como para deixar o noivo de Fernanda mais tranquilo e trabalhar internamente aquele temor todo. “- Roberto! Obrigado pelas suas palavras. Deixe-me voltar ao trabalho aqui. Ficarei no aguardo do retorno da patroa de Débora e conversarei com Márcio, inclusive sobre aluguel do apartamento em que ele usa para ser escritório da editora. Minha irmã está empenhada no projeto e na fiscalização das obras”, explicou o noivo de Fernanda.

Assim que terminou de falar com Roberto, ligou para Fernanda que atendeu prontamente e quando ouviu a voz dele, os olhos brilharam imediatamente. “- Oi amor! Que surpresa agradável! O que manda desse seu coração que adoro tanto”, disse a noiva.

– Saudades de ouvir a sua voz e desejo de te ver. Estou atolado de trabalho aqui, mas quero conversar contigo sobre o nosso futuro.

– Se não tiver ciúmes no meio, eu topo. Também tenho coisas para te contar. Estou aqui no shopping com a mãe de Angélica, o irmão dela e a cunhada. Pessoalmente eu te conto. Tchau. Te amo, meu nego ciumento.

Assim que desligou o telefone, Fernanda percebeu que estava sendo observada por Eleanora que lhe lançou um sorriso e em seguida uma pergunta: “- Você ama esse rapaz, o irmão de Débora”.

– Sim. Apesar de ser meio bundão como o seu genro, o Marzinho. É um homem especial.

– Então não deixe que o ciúme atrapalhe esse sentimento. Encoste ele na parede e assuma o controle deste amor. Você me parecia tão independente, mas agora perdeu as garras.

A futura secretária de Amadeu ficou observando a presidente de honra das Organizações Oliveira sem saber ao certo o que falar. Ela parecia tão autoritária, mandona, mas tão amiga quanto Judith. “- Às vezes fico sem saber o que dizer, pois acho a senhora tão mandona, autoritária, mas no fundo sei que não é nada disso”.

– Menina. Olha aquele casal ali. Por ignorância minha e nunca por falta de dinheiro e talvez por excesso dele, por cinco anos eu impedi a felicidade dos dois. Mas hoje posso recuperar o tempo que perdi entre um mundo que, ao mesmo tempo eu tentava copiar para ser aceita e, sem perceber, ajudava a reafirmá-lo e da pior forma possível. Contudo, há 90 dias, levei várias porradas da vida. Não perdi dinheiro, mas acabei observando que tudo aquilo que eu primava não tinha a menor importância para as pessoas que começaram a fazer parte do meu círculo e isso tudo aconteceu porque esses indivíduos estavam se lixando para o meu dinheiro, minha posição social.

– Sei como é isso dona Eleanora.

– Pode me chamar de Eleanora. Só seremos mais formais quando o momento exigir. Penso que assim podemos ficar mais à vontade.

– Grato pela amizade. Não precisamos abandonar o dinheiro que temos para sermos felizes. É possível conciliar as duas coisas quando temos posturas. Por exemplo, no casamento do Marzinho, a sua filha, sem alarde nenhum, indicou que está em outro momento da vida. Quando expulsou aquela amiga de sua sócia por um comentário racista sobre o esposo dela, delineou quem ela quer para a vida dela.

– Então você me entendeu querida. Antes eu achava que podia tudo, fazer e desfazer das pessoas, mas naquela manhã em que eu ofendi o Márcio e meu filho optou por ficar com ele, comecei a compreender que perderia novamente Amadeu. Se o Marzinho fosse morar na rua, com certeza meu filho estaria junto dele, pois não eram coisas materiais que ele queria, mas o afeto que havia perdido quando Tarsila desapareceu.

– O Marzinho é essa pessoa especial. Por isso que o considero “meu”. Desde que nos conhecemos, vive me tirando de enroscadas. Bastava eu chamá-lo e ele vinha em meu socorro e sempre acompanhado de Roberto. Nunca me perguntaram se eu estava certa ou errada. Nunca me apaixonei por nenhum dos dois: são muito certinhos, mas o que adiantou eu correr do deles, me apaixonei por outro que além de ser certinho, tem um ciúmes maior do que o que a sua filha tem do seu genro.

As duas deram risadas e continuaram nas compras enquanto Tarsila ajudava o esposo a escolher o guarda-roupa que ele usaria a partir da próxima segunda-feira. “- Amor! Não vou ficar parecendo um careta com aquela cara de burocrata e executivo que só pensa em dinheiro”, inquiriu Amadeu.

A esposa olhou ternamente para ele e devolveu a pergunta com outra: “- O que achas que seu filho diria”. O vate fitou Tarsila dizendo que só queria ouvir uma pergunta: “- Pai, o senhor está feliz com o trabalho”.

– E o que responderia?

“- Com você e tua mãe do meu lado, estarei feliz em qualquer lugar do mundo”, afirmou Amadeu.

– Amor! Lembre-se que no final do dia estaremos um juntinho curtindo a expectativa da chegada do nosso primeiro filho. Eu não vou a lugar nenhum sem o seu amor. A partir de segunda-feira começamos uma nova etapa em nossas existências e isso é o mais importante. Você quererá que eu te leve até a empresa?

“- Claro que sim”, informou o esposo.

– Te deixo na empresa e de lá vou à editora e assim que terminar o meu trabalho, passo de volta e te pego, ficando todos à tarde em casa. Dá para continuar as atividades da mansão, mas com ritmo mais lento.

– Obrigado Tarsilinha. A última coisa que quero é não estar do jeito que tu gostas.

– Amor a única em que me ocuparei daqui para frente é te fazer feliz e fiquei imensamente feliz quando decidiu voltar a trabalhar com a sua irmã nas empresas de sua família. O Marzinho me disse que eu ocuparei o cargo de vice-presidente na editora. Então poderemos dar a cara que desejamos para o negócio de livros no Brasil.

Assim que terminaram as compras, quando o quarteto deixava o shopping, o telefone de Fernanda toca. “Alô Roberto! O que é que está pegando”, perguntou a secretária do diretor. “- Não é nada não! Só estou te ligando para tu ir jantar conosco. E pelo horário, se quiser indo para lá, pois estou terminando aqui de preparar umas coisas para tu providenciar amanhã”, explicou o chefe.

– Tudo bem, Roberto. Pedirei para Tarsila me deixar na sua casa. Tchau.

Assim que desligou o aparelho, Fernanda observou que os ponteiros se aproximavam das seis horas. “- Tarsila você pode me deixar na casa do Roberto. Ele me convidou para jantar com eles. O Ricardo vai ficar até mais tarde no trabalho, então será legal eu curtir um pouco a expectativa da chegada do meu primeiro afilhado, um certo Alexandre”.

Durante o trajeto, o tagarela foi Amadeu. Estava empolgado com o retorno ao trabalho, depois de seis anos afastados e de muita briga com o pai que insistia com ele para ser o que não desejava fazer naquele momento. Com medo das ameaças de Jô, que vivia dizendo que ela poderia ter o mesmo fim que Lourdes, Eleanora se calava e, diante da fraqueza da mãe, o filho-poeta desapareceu.

– Filho! Controle a ansiedade. Está tudo sobre controle. Tu retornarás na segunda-feira e terá todo apoio de sua irmã, dos empregados e sobretudo dos amigos e de tua esposa.

– Mãe! Quero que meu filho entenda que podemos conciliar as coisas. Trabalho e arte. Se conseguirmos fazer as duas coisas numa só, melhor ainda. E agora que tenho do meu lado a melhor pessoa do mundo, desejo começar o mais rápido essa nova existência, unindo o Sol e a Lua num mesmo ambiente.

Tarsila, de olho no trânsito, observou de soslaio o marido que estava no banco do carona e lhe aperta a mão. “- Meu amor! Não vou a lugar nenhum sem ter o seu coração a iluminar o meu caminho. O que mais desejo é ver seus olhos brilhantes refletindo as levezas que lhe vão n’alma e refletidas em seus versos e poemas”, disse a esposa o tranquilizando, reduzindo os níveis de ansiedade de Amadeu que foi se acalmando e para logo depois perguntar a mãe sobre o general dela.

“- O general não tem mais farda; não tem mais quartel e está aprendendo a ser civil novamente. Espero ajudá-lo a se ajustar aqui com a gente e sei que todos vocês me ajudaram nessa tarefa”, explicou Eleanora.

Fernanda para colocar uma pimentinha no relacionamento da patroa com o militar, disse: “- Ele tem muitos quilômetros para rodar ainda, minha cara patroa, mas é um presentão para a senhora”.

– Menina. Tu já tens o seu sargento e que sargento. Então deixe o meu general comigo. Aliás, Tarsila, depois que deixarmos a Fê lá com os dela, que tal passarmos no restaurante do Lê para jantarmos?

“- Que inveja de vocês! Eu vou comer a gororoba que Danisa preparará”, disse Fernanda respirando fundo.

“- Uê! Sua amiga está gravida. Faça tu a comida para ela e para o seu chefe. Eles vão gostar”, orientou Tarsila.

– Legal! Tarsila.

Chegaram à casa de Roberto e Fernanda desceu agradecendo a tarde em companhia deles e das roupas. “- Eleanor, sou grata pela sua amizade e por compartilhar comigo esse coração que eu pensei que era feito de tijolo, mas me enganei. Não deixe o general escapar. Sua filha não pensou duas vezes e foi atrás do Marzinho dela que virou oceano com o amor que ela lhe tem. Amadeu, vou preparar tudo certinho para o seu retorno na segunda-feira; espero ser a secretária que a sua competência merece. Beijos a todos”.

Ao deixar a futura secretária do filho lá com os seus, Eleanora, já com os olhos brilhando diante da possibilidade de fazer uma surpresa para o general, seguiu o caminho em silêncio. Apenas Tarsila dizia alguma coisa sobre a editora, e o trabalho de tradução que vinha realizando e a expectativa de mercado.

– Tarsila! O Márcio disse que você será a vice-presidente na editora dele?

– Sim Eleanora!

– E você entrará com algum capital ou só com a mão de obra?

– Não falamos nada a respeito, mas acho que somente com a mão de obra por enquanto e depois poderemos pensar em dinheiro.

– Então   quando ele voltar, mudaremos essa relação. Colocaremos mais água nesse feijão e tudo será dividido em 50% para ti e os outros 50% para o meu genro. Assim vocês dois poderão trabalhar com serenidade para fazer o negócio fluir sem atropelos.

“- Obrigado Eleanora, mas será que o Márcio aceitará”, perguntou a tradutora.

“- Deixe o meu amigo mosquito comigo. Não haverá divisão do que se tem, apenas um aporte maior ao que já existe e ai a divisão será feita”, explicou Amadeu quando Tarsila estacionava o automóvel no restaurante do namorado de Eleanora.

Quando o trio entra no estabelecimento, o general ficou surpreso, pois a empresária não avisou que iria. “- Que bela surpresa nessa segunda-feira, querida. Achei que só iria te ver na semana que vem”, disse Alexandre.

– É que tive uma tarde de trabalho nas empresas e acabou muito tarde, então achei que seria interessante jantar aqui com o meu filho e minha nora. Na verdade, viemos comemorar um presente que Amadeu nos deu hoje pela manhã.

– Se não quiserem falar, entenderei.

“- Ele voltará a trabalhar nas empresas da família a partir da próxima segunda-feira quando Angélica estiver de volta da lua de mel”, explicou Eleanora.

– Parabéns meu rapaz. O porco engorda sob o olhar dos donos.

Sentaram-se e Alexandre perguntou o que desejavam. Foi Tarsila quem falou primeiro: “- Como Angélica não está aqui, eu quero picanha na pedra e uma cerveja sem álcool”.

Todos estranharam que a esposa não escolher o que Amadeu pediria. “- Eu desejo o mesmo que Tarsila, só que antes quero um uísque”, explicou o futuro executivo das Organizações Oliveira acrescentando a marca da bebida.

O general lembrou-se de que Eleanora tinha lhe dado uns quatro litros, pedindo para ele guardar, pois o filho gostava só daquela marca. Quando retornou com a garrafa, Amadeu ficou surpreso. “- Agora sim começamos a conversar. É bom saber que no restaurante do meu general tem a bebida de que gosto”, disse o poeta.

Não foi preciso Tarsila dizer nada, pois o esposo sabia que não podia extrapolar. Amadeu pediu gelo feito com água de coco. “- Nós não temos neste formato, mas há em líquido e gelado. Pode ser?”

– Pode sim. Obrigado Alexandre.

O jantar no estabelecimento do militar seguiu estritamente aquilo que a matriarca esperava. Alimentação de qualidade, Amadeu não extrapolando, Tarsila conversando com ele, mas prestando atenção nas maneiras como Alexandre se dirigia à sogra. Tudo para encerrar uma segunda-feira de muito trabalho na cidade, enquanto na fazenda a chuva foi dar uma trégua para o casal em lua de mel somente no final da tarde, quando a fome chegou ao estômago de Márcio.

“- O que teremos para o jantar amor”, inquiriu o marido.

– Se você for para o fogão, acho que teremos algumas coisas interessantes. Você passou a tarde toda em cima desses livros. Quando não estava com os olhos metidos neles, dormia e nem me deu atenção. Então, a resposta é uma só: se quiseres comida, que tu faças ou peça aí para o livro.

Ao dizer isso, Angélica se trancou no quarto, repetindo a mesma atitude de quando estavam no apartamento e havia sido contrariada em seus desejos. Como não tinha para onde ir, o jeito foi Márcio aproveitar que a chuva tinha arrefecido em sua intensidade. Sentou-se no mesmo lugar da noite anterior e ficou vendo como aquilo tudo era belo. Observou os sapos passeando pelo quintal da propriedade e se deixou levar por aquele movimento dos batráquios.

O editor ficou sentando na cadeira por mais de uma hora, pensando em tudo. Compreendeu que a esposa teria que aprender a compartilhar energia e não a querê-la só para ela.  Era daí que advinha a maior parte do ciúme dela. Recuperou mentalmente às vezes em que ele tentou conversar com a mãe sozinho, mas não conseguiu ficar mais do que vinte minutos e lá estava ela, com a desculpa de ciúme para ficar do lado dele.

Nesse tempo em que permaneceu na varanda, terminou de ler o livro do escritor francês Marcel Proust sobre a importância do hábito da leitura. Pela extensão da obra, ficou pensando na possibilidade de publicá-lo em forma de brinde para quem comprasse mais de dois exemplares dos livros lançados pela sua editora.

Entre um pensamento, outros coaxares dos batráquios e a ameaça de voltar a cair chuva forte, Márcio se desligou de tudo e nem percebeu que havia sido observado silenciosamente por cerca de vinte minutos pela esposa. Angélica ansiava para tentar entender o que lhe ia n’alma, a ponto de não notar o mundo à sua volta.

“Meu deus, como vou conviver com um homem desses que é capaz de deixar a terra sem precisar abandonar o corpo. Hoje à tarde ele mergulhou no livro e falava em monossílabo comigo. Era como se estivesse falando com as personagens do livro e não com a mulher que ama. É como se colocasse uma armadura que o protegesse de tudo e de todos”, pensou a empresária, tentando não lhe chamar a atenção.

Quando o marido fez menção de se levantar, foi que percebeu a esposa. “- Desculpe-me amor! Não vi que estava aí. Vou preparar o meu jantar e arrumar as minhas coisas. Penso que amanhã poderemos voltar. O nosso primeiro dia juntos já demonstrou que a nossa convivência será torturante”.

– Por que tu és tão covarde? Passou a tarde toda com a cara enfiada nesses livros. Ficou sentado aqui nesse banco e nem notou que fiquei aqui te olhando por meia hora. Não acha que é muito egoísmo de sua parte ou você é de outro planeta e eu não sei.

– Dona Angélica! Saímos da cama quase ao meio dia. Você fez eu tomar um vitaminado sem mesmo me perguntar se era isso que eu queria. A tarde toda caiu uma chuva danada. Para onde iríamos? Voltar para a cama? Sair correndo pelados debaixo da chuva? Combinamos de desligar os celulares e tudo que nos conectasse ao mundo lá fora e nos concentrássemos em nós dois.

A empresária se manteve em silêncio. Enquanto ele, marido dizia tudo calmamente ela já queria derrubar tudo, chegar socando. “- E o que você gostaria de fazer? Quando fui perguntar sobre o jantar, qual foi sua resposta e sua ação?”

– Não precisava jogar na minha cara que sou uma dondoca, mimada e egoísta. Eu sei disso tudo, mas eu pensei que …

Angélica não terminou de falar porque o esposo descarregou tudo o que tinha observado naquela hora em que ficou ali sozinho reorganizando tudo. “ – Pensou que ia me colocar numa coleira ou que eu ficaria lambendo o chão que pisas. Achou que eu ficaria jogando confete 24 horas sobre o seu ego. Não sei fazer isso, não aprendi e não tenho a menor intenção de saber como se bajula pessoas que acham que tem que ser tudo do jeito delas. Ao invés de me perguntar o que havia de interessante no que eu lia, você optou pelo que mais gosta de fazer: centrar o mundo a partir do seu próprio umbigo”, disse Márcio, tentando passar para chegar a cozinha.

– Resultado: você acaba de perceber que se casou com uma mulher mandona e egoísta. É isso? E que não gostou do que viu no primeiro dia de lua de mel.

– Me casei com a mulher que eu amo e não com uma pessoa que desejo que faça tudo o que eu determino. Não quero em hipótese alguma que ela se transforme numa provável mulher que eu idealizei durante toda a minha vida. A minha única vontade é que olhe para dentro de si mesma e pare de se esconder, correr e se trancar no quarto quando as coisas não acontecem do jeito que tu queres.

A empresária ouviu calada, enquanto o marido pede licença para ir à cozinha. “- Será que apenas eu sou egoísta e penso em satisfazer as minhas vontades, meu caro marido arrogante, prepotente, que se acha o dono da verdade e o senhor da razão? Agora eu entendo porque é um ermitão solitário e ninguém lhe faz companhia, exceto o babaca do Roberto e a Fernanda que beija o chão e lambe a sua bunda. Eles são iguais a você, seu idiota”.

Em silêncio, o editor caminhou até a cozinha, preparou algo para comer, tentando controlar as lágrimas que teimavam em cair por mais que ele se controlasse. Do mesmo modo como se dirigiu ao fogão, Márcio fez a refeição: quieto, enquanto a esposa voltou a se trancar no quarto em prantos. Os ponteiros do relógio apontavam quase oito horas quando o editor terminou de organizar tudo, retornando para a sala, enquanto a chuva desabava novamente sobre a propriedade. Com o temporal que caia não tinha escolha: ficar onde estava, pensando no que a esposa lhe disse.

Recordou que Judith lhe falou sobre Angélica: uma dinamite que poderia explodir a qualquer momento e por um motivo banal. Lembrou das brigas na Alemanha e no que Rosângela lhe disse: “basta afagar o seu pior defeito que se consegue tudo o que se deseja”. E agora estava lá trancada dentro do quarto justamente porque ele não fez o que ela queria: que ficasse falando dela, das qualidades que tem, da sua beleza. Enfatizando aquilo que para ele não tinha a menor importância: o dinheiro dela.

Tentou ler outro livro, mas a cabeça não ajudava e tinha ainda aquela ofensa que ela lhe proferiu, externando que ele era tão mandão quanto ela, contudo, como não tinha dinheiro, vivia sozinho em companhia de dois amigos que lhe eram iguais. Tenho essas coisas em pensamento, o editor adormeceu profundamente no sofá, sendo despertado pelo choro meio que silencioso da esposa.

Acordou, mas optou por não falar nada. Esperou que Angélica disse alguma coisa. Ela não estava de todo errada, pois ele também queria coisas que a esposa fazia para não viverem brigando. A situação não tinha virado mais confusão porque tanto Judith quando Eleanora funcionavam como bombeiros, auxiliando-os a baixarem a fervura e o calor das discussões.

– Amor! Não vá embora amanhã e nunca mais diga isso. Fiquei pensando nas coisas que me falou e também no que te disse. Eu compreendo o nível do meu egoísmo, mas não é você se afastando do meu coração que conseguirei equacionar tudo isso e essas novidades todas em minha vida. Achava que nunca conseguiria trepar contigo, contudo, com a terapia e a sua compreensão, conseguimos avançar bastante.

– Dona Angélica. Eu tinha tanta coisa para te dizer, mas acho mais proveitoso vivê-las contigo do que ficar verbalizando. Sei que se sair por aquela porta sem tê-la ao meu lado, arrependerei pelo resto de minha vida. Também fiquei pensando em tudo o que me falou e tenho certeza que não é puxando a corda para o meu lado que conseguiremos ser felizes em nosso casamento.

– Vem! Vamos para cama. Ela fica enorme e gelada sem você comigo. Não vou pedir desculpas e nem prometer nada, mas só quero uma coisa de ti: não me deixe em hipótese alguma. Não conseguirei andar lá fora sem a sua mão para me amparar, sem o seu abraço para me dar segurança.

– Você já comeu?

– Já! Eu fiz outro daquele vitaminado enquanto você dormia e eu meditava sobre tudo e nós. Agora vem, preciso do teu amor dentro do meu coração. Não o deixe vazio como uma roseira sem flores.

– Está bem! Tomarei um banho e já estarei lá.

O casal entra no quarto abraçados, porém, em silêncio. Quando o editor deixa o chuveiro, terminando por se enxugar no quarto, observou que a esposa já estava em baixo dos cobertores e de costa para os lados onde ele estava. Colocou o pijama e entrou debaixo dos cobertores, sentindo que Angélica não usava nada. “- Fique assim como estou. Quero sentir o calor do seu corpo no meu, amor”, pediu a empresária.

Márcio atendeu à solicitação da esposa que, logo em seguida fez movimento como pedindo proteção ao marido através do seu corpo. “- Não vou a lugar nenhum sem você, minha paixão. Preciso tanto de ti quanto você de mim”, disse baixinho o marido, notando as lágrimas da mulher molhar seu tronco. Ao sentir as gotas, o editor optou pelo silêncio e a apertando com os seus braços.

Desta forma o casal dormiu, sendo que cada um teve o seu sonho particular e lógico que mais parecia pesadelo. Enquanto o corpo descansava, a alma do editor corria sem parar, olhando para trás vendo lingeries o perseguindo. Novamente, na fuga não percebeu a sarjeta, tropeçando e torcendo o tornozelo, enquanto um homem vestido com roupas íntimas femininas apertava sua garganta para que abrisse a boca, mas o editor tentava frear o movimento. Sabia que se o fizesse seria asfixiado por calcinhas. Quando sentiu a jugular apertada em seu limite, começou a berrar e pedir socorro. Acordou gritando, assustando a esposa que estava do seu lado perguntando o que acontecia.

– Nada amor! Desculpe-me! Tive um pesadelo. Agora está tudo bem. Vou tomar um banho e já volto.

– Estou te esperando. Quero saber que pesadelo foi esse.

Ao retornar, Angélica o inquiriu sobre o que sonhou. Mas para não alongar a conversa, disse apenas que acreditava que havia sido por medo de perde-la e sua alma estava sendo perseguida para não a deixar sozinha. “- Está certo amor! Vamos dormir novamente. Te amo”.

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