Padrões e critérios de escolhas

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Quando um sujeito social opta por seguir determinado caminho, leva em conta uma série de possibilidades, circunstâncias, mas, em meu entender o principal critério de escolha não está associado ao amanhã, ao devir desconhecido, mas escudado no conhecido, ou seja, no pretérito. Se isso é fato, então cabe àquele que se ocupa em compreender o presente, objetivando indicar setas que poderão ser os vetores que proporcionarão ao homem opções mais ou menos seguras quanto as decisões a serem tomadas, analisar coerentemente a realidade. Mas por outro lado é comum escutar muitas pessoas afirmarem que quem aprecia o passado é museu e o futuro não quer saber nada sobre o que se foi. Sendo assim, se um país almeja se tornar grande, do ponto de vista do social, educacional e econômico, deve entender os equívocos do ontem para que o amanhã não seja tão traumático quanto ao que se vive no momento.

Pois bem, meus caros leitores, entendo que uma pequena viagem ao passado colonial seja interessante para que, tanto eu, quanto vocês, possamos entender a estagnação do aqui e agora. A pandemia que grassa o país é fato e está difícil banir a letalidade do vírus, justamente pelo seu caráter mutável, ou seja, sua configuração a partir do momento em que ingressa no aparelho biológico humano. Desta forma, fica-me uma questão importante: quais são os critérios que o homem usou para não aceitar as explicações científicas? Seria o ser humano um ente de mera previsibilidade, isto é, de comportamento já dado antes de realizado e, sendo assim, seria possível prever a ação futura deste indivíduo racional? Ao buscar uma resposta plausível para esta questão, com certeza, o investigador social deparar-se-á com outras várias possibilidades levando em conta o meio social em que o homem foi gestado e o que ele pretende fazer a partir da realidade conhecida. Quais são as chances de um indivíduo recém-egresso de um ambiente degradado vir ter sucesso em suas empreitadas no campo econômico? A interpelação atém-se ao universo financeiro, pois quando a pessoa questiona ações adotadas pelos governantes, o que vem logo de chofre é: a economia não suportará. Foi assim quando se discutia sobre o fim do escravismo aqui nas terras brasileiras lá em meados dos Oitocentos.

O direito civil foi concedido ao elemento africano e seus descendentes, mesmo que a ele não se somou os outros dois direitos para torna-los cidadãos emancipados e, desde então, tem sido o grande embate, criar projetos e programas para inserir plenamente o preto no mundo global de mercadorias. Mas por que, desde os primeiros dias após o advento da Lei Áurea, o negro foi excluído dos mercados de trabalho nascente no país e do consumo de determinados bens, inclusive os mais necessários para a sua sobrevivência chegando aos conspícuos, conforme nos fala Thorstein Bunde Veblen (1857-192) ao analisar as classes ociosas e suas necessidades? É interessante notar aqui que Machado de Assis (1839-1908), em seu conto Teoria do Medalhão diz que os homens deveriam, primeiro, se ocupar em alterar os hábitos e depois as leis. Se isso é fato e tendo a crer que sim, ao manter o hábito pretérito, o sujeito social do presente objetiva o quê? A manutenção das condições anteriores. Mas como isso é possível dentro do capitalismo que se globaliza diariamente? Parece-me que essa questão tem fulcro no fato de que aqui o sistema se adaptou ao que já havia nos tempos coloniais: o estamento.

Será que o padrão de escolhas e condutas de cada um dos brasileiros está escudado no sistema escravista que perdurou mais de três séculos, sem que o elemento africano participasse do círculo de consumo das mercadorias elaboradas durante o seu processo de transformar a natureza em benefício dos seres humanos? Ao que tudo indica, no Brasil Colônia, aquele que produzia não tinha direito a comer e, caso o fizesse, era severamente açoitado diante dos seus pares como forma de destituir o infrator de sua humanidade, transformando-o em mero objeto que gera valor. Caso viesse a óbito em virtude da violência sofrida dos capatazes, homens livres e em alguns casos do próprio escravagista, havia outra mercadoria humana que o substituiria e já amedrontada pela tortura sofrida pelo seu antecessor. Pode-se tirar dessa prática, o receio que o sujeito brasileiro tem de questionar qualquer coisa que seja, optando pelo aceite por medo do açoite, como se fosse uma migalha que cai do alto do trono, seguindo aquilo que a escrita machadiana apresenta no romance Memórias póstumas de Brás Cubas em seu capítulo IV “Ideias Fixas”.

Posto isso, se a escolha do presente almejando a construção de um amanhã for pautada nesse pretérito violento, seja na esfera física ou simbólica, qual país se quer deixar para as gerações futuras? Uma Nação que vive coagida pelo passado, cujos integrantes de comprazem com líderes que propõem mais letalidade aos seus moradores, ou um lugar em que a paz e a harmonia pode ser a tônica, a mediadora das relações sociais? Daí o sentido da reflexão de hoje a partir do título, isto é, tentar identificar padrões comportamentais dos sujeitos que almejam uma sexta-feira diferente daquela que vivenciaram a semana passada. Por que se violenta o semelhante em sua identidade, seja sexual, étnica, religiosa? Será que o algoz age desta forma porque se crê melhor do que seu semelhante em virtude do aspecto financeiro ou o caráter que foi moldado no seio de uma família preconceituosa, arrogante, prepotente, respaldada em valores ultrapassados para os tempos atuais?

Como podem observar, meus caros leitores, as perguntas são tantas, que muitos dos que me leem acabam desistindo de buscar as respostas, não para fornecer ao outro, o igual a si, mas para tentar se compreender enquanto se constrói como um ser que se quer humano. Novamente aqui o meu objetivo é somente o de tentar entender os critérios que levam um sujeito social a se tornar racista, pois ser preconceituoso não é uma condição inata, ou seja, não nasce com ele, mas lhe foi imposta pelo meio em que vive e passou pelos processos de socialização primária e secundária. Portanto, qual é a verdade do racismo? É a cor da pele ou a condição pretérita dos homens que foram transformados em mercadorias pela ganância humana? Ou sujeito social escolhe ser racista? Desta forma, é possível afirmar que o preconceituoso é sobretudo um ignorante porque se comporta como se soubesse, mas que no fundo não compreende nada e raciocina pelo ouvir dizer, emite opinião através do que se chama senso comum. As mentiras que os políticos apregoam através das redes sociais, as chamadas Fake News se alimentam dessas atitudes previsíveis sempre advindas daqueles que se acham os donos da verdade, escudando o seu devir a partir dum passado que não morre porque é retroalimentado por consciências torpes e visões míopes dos seus semelhantes.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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