Sobras de um amor … parte III …

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            A empresária e seu marido passaram aquela tarde de segunda-feira, primeiro dia depois do casamento da dupla, toda no apartamento dele. Local do primeiro encontro entre os dois motivados por uma crônica publicada pelo jornalista na edição de um domingo chuvoso. Entre vários gozos, lembranças, promessas, Márcio e Angélica se desligaram do mundo existente fora do imóvel. Quando o casal percebeu a noite já tinha sido iluminada pela luz das estrelas e os celulares cheios de mensagens.

“- E agora o que faremos, amor”, perguntou a esposa ao marido.

“- Vamos para casa, nos prepararmos para jantarmos. Quero continuar o que fizemos a tarde inteira e somente depois responderemos as mensagens. Precisamos dar um pouco de paz ao nosso amor”, respondeu Márcio.

O que o casal não esperava era que havia uma comitiva os esperando na saída do prédio. Como eles não respondiam as mensagens, Fernanda propôs ao novo diretor de comunicação das Organizações Oliveira fazer uma pequena recepção à sua patroa e ao amigo.

O grupo contava ainda com Ricardo, Débora, Esdras, Judith e Eleanora. Danisa, por estar grávida ficou esperando dentro do carro. Sabia que Marzinho não conseguiria escapar dos amigos. “- O que estão fazendo aqui”, inquiriu a empresária.

Foi Fernanda quem respondeu: “- Estávamos preocupados com vocês. Nenhum dos dois respondeu nossas mensagens, então sua mãe, depois de entrar e sair do seu apartamento um milhão de vezes, deduziu que estaria aqui escondida com o Marzinho”.

“- E de fato eu acertei”, informou a mãe de Angélica.

Márcio tentou argumentar, mas Judith já foi dizendo que havia sobrado muita comida do casamento e do almoço e que desperdiçar alimento era pecado, então todos estavam convidados para jantarem na mansão.

“- Será que podemos dar uma passada em casa para tomarmos um banho”, perguntou timidamente o editor, já sabendo que a resposta era negativa. “- Vamos amor. Quero mesmo saber como foi o dia desses dois nas empresas e como a minha secretária e futura sócia está se saindo no escritório de arquitetura”, disse a esposa.

– Tudo bem pessoal, mas amanhã a vida tem que começar. Preciso dar vida à minha editora. Tem um vate para ser publicado e fazer o mundo caminhar com ele pelas estrelas poéticas, tendo como parceiro seus verbos tornado versos motivados por um amor incondicional de uma certa musa chamada Tarsila.

Todos se acomodaram em seus respectivos automóveis e chegaram à mansão. Roberto, por se achar o mais íntimo de Márcio perguntou como foi a tarde do casal. “- Como todas as outras tardes meu amigo. Eu e minha esposa estivemos onde tudo começou e foi maravilhoso sentir o ontem no hoje e melhor ainda: saber que o presente fornecerá elementos para o futuro”.

“- Tem certeza que é só isso que tens para me dizer, meu amigo”, perguntou o novo executivo das Organizações Oliveira.

“- Amor! Se Marzinho está dizendo isso porquê é só isso que há para ser falado”, disse Danisa cortando a curiosidade do marido.

Eleanora, Judtih, Fernanda e a mulher de Roberto chamaram Angélica para conversarem. Todas estavam curiosas para saber como foi a tarde da dupla, pois sabiam que houve problemas entre eles no domingo à noite. A exemplo de Márcio, Angélica também foi bem reticente: “- Foi do jeito que o Marzinho acabou de dizer. Simples assim”, explicou Angélica se encaminhando para a piscina.

Sua mãe e sogra se dirigiram à cozinha para providenciar o jantar, enquanto a empresária era seguida por Danisa, Fernanda e Débora. O trio tentou ainda saber mais, contudo, a recém-casada se esquivava, mudando de assunto e um dos preferidos foi o relacionamento bombástico entre Débora e Esdras. A secretária relutou, mas acabou revelando algumas coisas, inclusive o desejo do irmão de Márcio em pedir o apartamento emprestado para que os dois ficassem mais à vontade.

– Se eu conheço Márcio, esquece e se essa história chegar no ouvido de Judith, a situação vai desandar. Por que você não dissuade o seu namorado dessa querença?

– Eu já falei, mas fica com aquela conversa de que vai embora no domingo e quer levar com ele uma lembrança nossa?

Sem pensar, Angélica deixa as mulheres e entra na casa, chamando Márcio e Esdras. “- O que foi amor”, perguntou o editor. A empresária foi categórica: “- Seu irmão deseja colocar o carro diante dos bois. Quer o seu apartamento emprestado para ficar com a minha secretária e está com uma conversa de que quer levar uma lembrança dela no domingo”.

– Porra Angélica! Que traíra você está me saindo. E por que Débora foi falar essa história para tu. Eu é quem ia conversar com o Marzinho aqui, mas já até sei que a dona Judith ficará sabendo e me passará um corretivo.

– É assim que você quer conquistar o coração dela? Levando-a para cama antes de ter encontrado a alma dela? Esquece! Você não vai com ela a lugar nenhum. Ou você se comporta como um homem capaz de ser o amigo dela, o companheiro, ou nunca chegará a cama.

Judith e Eleanora chegaram bem no momento em que Márcio chamava a atenção do irmão. A mãe pegou carona na fala do editor e acabou sepultando as esperanças de Esdras de ter uma noite com Débora antes de voltar para a sua cidade. O caçula da família fechou a cara e saiu bicudo quando Débora se dirigia ao grupo.

“- Por que o Esdras saiu emburrado”, perguntou a secretária de Angélica.

– Por que eu revelei ao Marzinho aqui as intenções dele para contigo e levou uma reprimenda do irmão e da mãe.

– Dona Angélica! Eu achei que podia confiar na senhora. Agora, com certeza, ele não vai querer falar comigo.

“- Se não quiser falar contigo, então não é homem para ti e também não é o filho que eu eduquei”, informou Judih, completando. “- Seja firme se quiser ser minha nora. Ele está fazendo caso para ver se você cede. Ele ainda não sabe ao certo o que sente por ti e já quer chegar chegando. Não vai brigar com a tua patroa e amiga por conta de um homem que só pensa no próprio prazer”, explicou a mãe de Esdras.

Angélica abraçou Débora e voltaram para a piscina. Ao se juntarem às outras duas mulheres, Danisa perguntou o que havia acontecido. Foi a empresária quem relatou a conversa e todas caíram na gargalhada. Fernanda acrescentou: “- Eu aguentei essa dupla de generais no meu pé por cinco anos e olha o presente que você me levou na noite do noivado do Marzinho, Debora”.

Enquanto as mulheres dialogavam na beira da piscina, Judith chamava a atenção do filho. “- Você gosta da moça? Se é isso, então não precisa apressar o bonde. Não pense com a cabeça de baixo e sim use o intelecto para fazer a coisa dar certo. Se teu irmão emprestasse o apartamento para ti, quem ia se ver comigo era ele. Faça a coisa direito meu filho. Olha o orgulho que teu irmão deu à nós”.

– Por que tem que ser do jeito que vocês querem? Eu não sou bundão como o Marzinho.   Não tenho vocação para santo e não vou ficar fazendo joguinhos e cenas de ciúmes. Quero a Débora e pronto”.

– Imagina então se ela fosse sua irmã? Você gostaria que um homem chegasse e tentasse colocar o carro diante dos bois? Observe seu irmão e o amigo dele. Aquela desmiolada da Fernanda é amiga deles e os dois não pensaram duas vezes em protege-la das investidas de homens que pensam como você.

Esdras escutou tudo em silêncio. “Se ela falou com Angélica de suas intenções é porque confia na patroa e amiga. Achei acertadíssimo ela contar isso ao marido. Agora faça como o homem e busque a sua namorada para conversarmos como adultos e não como adolescentes”, ordenou Judith.

Quando Esdras chegou com Débora que estava toda acanhada, Márcio quis participar da conversa e foi espinafrado pela mãe. “- O assunto não lhe diz respeito, Marzinho. É entre eu, esse senhor e essa bela moça aqui. Eles não se metem nos assuntos que tenho contigo, então os respeite”.

– Está certo mãe. Peço desculpa aos dois.

Márcio deixa a mansão em companhia de Roberto e Ricardo indo em direção à piscina onde as mulheres estavam juntamente com Eleanora. Como sempre Fernanda é a mais atirada, por conhecer bem a natureza de Márcio. “- Caralho Marzinho! Tu és general mesmo! O que é que tem o seu irmão ter uma noite de amor com Débora?”

Ao perguntar isso, Fernanda leva um beliscão de Ricardo. “Fê! Esdras é meu irmão, Débora é secretária de Angélica e irmã aqui do seu Rick. Tenho certeza de que ele está de acordo com o que fiz. Se meu irmão quer ficar com Débora tem que conquistá-la primeiro e tenho certeza que ao propor isso a ela, começou errado”, sentenciou o editor.

Angélica abraçou o marido concordando com ele. A amiga ficou ali tentando achar um argumento contrário, mas foi o irmão de Débora quem falou. “Estou de acordo com Márcio. Eu sei o que ele e o Roberto fizeram comigo. Então seria paradoxal se não agissem da mesma forma com Esdras”.

“- Vocês são todos quadradões”, exasperou Fernanda.

Márcio olhou bem para ela e perguntou: “-Ah é! E o que os redondos fizeram de bom? Pergunte a Danisa se ela deixa o quadradão dela para outra mulher? Pergunte ao quadradão do Rick o que ele me perguntou hoje à tarde no apartamento”, disse Márcio querendo rir.

Danisa disse que naquela noite em que discutiram e Roberto saiu de casa, achou que o mundo ia acabar. O quadradão dela é devagar, mas o melhor homem do mundo e deve isso a ela que usou o Márcio para apresentar os dois. Ricardo falou que encostou Márcio na parede para saber se teve um caso com a amiga. Também contou que já tiveram algumas discussões por conta do ciúme que ele tem do amigo da namorada.

Todos caíram na gargalhada, deixando Fernanda envergonhada, justamente porque estava experimentando a intensidade dos ciúmes que Angélica tinha dela. Eleanora por sua vez afirmou que a filha havia casado com um caretão e tinha um diretor de comunicação também meio antiquado. “- Como pode bem ver, minha cara Fernanda: tu estás cercada de quadradões e tem um que pela forma como te olha, te levará para ver as estrelas num barquinho de papel”.

Ao ouvir isso da boca da patroa, abraça Ricardo, se sentindo protegida e amada. “- Te amar é o preço que estou pagando por satanizar Márzinho e o Roberto pela caretice deles, mas não te troco por nenhum deles, embora você seja parecido, mas é muito melhor, pois é a minha joia rara”, explicou Fernanda.

Nesse momento chega Judith, Débora e Esdras. A mãe de Márcio chama Eleanora para deixar tudo pronto para o jantar. “- Antes de começarmos a comer, quero falar com Amadeu e Tarsila. Só vou sossegar quando esses dois estiverem aqui. Preciso acompanhar de perto a gestação do meu neto”, informou a mãe de Angélica.

Como buscando abrigo entre as mulheres, Débora foi para perto de Angélica e Esdras chamou Márcio para uma conversa e Ricardo o acompanhou. O irmão do editor olhou para o namorado de Fernanda, enquanto Roberto se aproximou do trio. Procurou, tentou achar alguma coisa para começar, mas foi direto: “- A mãe me disse que vai embora amanhã cedo se eu continuar com essa conversa de querer o seu apartamento para passar uma noite com Débora. Ricardo, me desculpe por querer atravessar as coisas. De fato, acho sua irmã especial, mas a dona Judith entende que por ela ser assim, devo agir de forma correta. Não sou como Marzinho, mas compreendo que preciso conversar com os seus pais e é aí que entra o meu irmão aqui. Será que é possível promover uma reunião com eles, antes de você ir para a sua lua de mel”, perguntou Esdras.

– Não vejo problema algum meu irmão. Se for desta forma, podemos organizar sim, mas quero Rogério nessa barca e se ele vier, sabe que Leônidas aparecerá com a esposa dele. Se Judith for, Eleanora vai. Pode ser assim? Se for assim, podemos ajeitar para o sábado.

– Pode ser sim. Acho que não haverá problema, né Ricardo?

O namorado de Fernanda assentiu com a cabeça e Márcio já falou sobre trabalho. “Dona Judith disse que está sem trabalho lá e por isso ficou aqui com ela”.

“- É! Não quero trabalhar com o papai. Eu sinto que não vai dar certo. Leônidas tem a mesma natureza dele, então, não tem problemas”, informou Esdras.

– Então, antes de falar com os pais de Débora, tu precisas arrumar algo, lá ou aqui. Não convém conversar com eles sem nada em vista. Vamos pensar juntos e até sábado teremos algo para ti. Não quero ninguém com laços sanguíneos comigo trabalhando nas empresas da família de Angélica.

Ao terminar de dizer, Márcio escutou a esposa lhe chamando. Então deixou Ricardo e Esdras conversando. “- Caralho Esdras! Esse teu irmão é osso duro de roer”, disse o namorado de Fernanda.

– Você ainda não viu dona Judith e Rogério. Ele ficou de cara virada com o meu irmão por cinco anos por conta de uma besteira que Marzinho fez. Se Márcio considera Fernanda como irmã, então se prepara que vem chumbo grosso para o teu lado. Nunca levante a mão para ela, pois vai arrumar confusão com cinco homens.

– Cinco? Por quê?

– Márcio, Roberto, Rogério, Leônidas e eu.

Ao dizer isso, os dois saíram abraçados em direção à mansão para jantarem e cada um se dirigir à sua casa.

Quando estavam à mesa, Eleanora fez um pequeno discurso agradecendo a presença de todos, pois estavam levando uma nova vida à casa dela. “- Gostaria imensamente que meu filho, minha nora e futuro neto estivessem aqui, mas eu sei que o patrão dela, depois da sua lua de mel transferirá Tarsila para o Brasil e novamente faremos um encontro assim para celebrar a vida, jamais a briga e o ódio”.

Assim que a mãe de Angélica terminou o seu pequeno discurso, a mãe de Esdras disse que precisavam organizar um almoço com os pais de Débora. “- Será que posso contar com o seu auxílio minha amiga?”.

– Obviamente que sim Judith. Ainda bem que vai ficar aqui essa semana, então trabalharemos nisso. Quando será?

Desta vez foi Márcio quem informou: “- No sábado, pois no domingo, Esdras voltará com a minha mãe, meu pai e o Leônidas”.

Encerrado o jantar que, na cabeça do editor, seria o último relacionado ao seu casamento. Esdras abraçou o irmão agradecendo o apoio e a orientação. Estava começando a entender porque Fernanda acha que todos os seus amigos eram quadradões, contudo, eram unidos. Ninguém precisava ser como o outro ou concordar, mas era necessário respeito.

Débora entrou no carro e enquanto aguardava o irmão, ficou conversando com Angélica. “- Peço-te desculpas por ter ficado exasperada contigo ao falar direto com o Márcio sobre o desejo do Esdras”, explicou a secretária à patroa.

– Me diga uma coisa: o que sentes pelo Esdras? Desde a sexta-feira que está com ele. Sei que é cedo, mas creio que já é possível vislumbrar alguma coisa.

– Como a senhora mesmo disse: é muito cedo. Lógico que eu fico toda desconcertada quando estou com ele. É como se não tivesse amanhã e nem ontem, mas com essa história de querer passar uma noite comigo no apartamento do irmão, preciso ficar mais ligada.

– E como foi a conversa com Judith?

– A mãe dele é osso duro de roer. Pensei que minha mãe era sargentona, que meu pai era casca de ferida. Mas acabei de ver que a coisa é dureza. E acho que o senhor Rogério é um general de dez estrelas.

– Imagina se essa história chega no ouvido dele?

– É! Agora pensando com calma, se Esdras quer algo sério comigo, terá que percorrer o caminho que considero correto. Deverá respeitar o meu tempo e não vir com conversa disso e daquilo.

Ricardo chegou, agarrado com Fernanda que não queria deixá-lo ir embora. “- Que grude hein Fernanda”, exclamou Angélica dando gargalhadas. “- É! Levei ferroada da mesma abelha que acertou o seu coração e do Marzinho”, disse Fernanda caindo na risada.

“- Angélica! Somos gratos pelo jantar, inclusive por Márcio ter enquadrado o irmão em relação à Débora”, disse Ricardo.

“- Roberto e o Marzinho fizeram isso contigo e não foi bom”, inquiriu a arquiteta.

“- Meu irmão achou que a Fernanda era como as moças e mulheres com quem tinha saído antes. Pensou que era pegar, usar e dispensar”, informou a secretária.

– Bom! Amanhã conversaremos mais sobre isso no escritório. De qualquer forma, já sabe mais coisa sobre Esdras e, com certeza, tem o apoio de Márcio e da família dele. Portanto, não tem como ele colocar o carro diante dos bois.

Enquanto a esposa do livreiro se despedia da secretária, Márcio se aproximava com Judith. “- Vamos amor. Quero tomar um banho e me desligar de tudo, só deixando um espaço para ti dentro do meu coração”, informou o editor.

– Deixa eu me despedir de minha mãe.

– Dona Judith, fique atenta com o Esdras. Pensarei em como ajustar algo para ele trabalhar. Não quero ele zanzando com a Débora e depois deixá-la a deus dará. Ela não é dada a ter esse tipo de comportamento e se realmente tem apreço por ela, saberá aguardar o momento oportuno das coisas acontecerem.

– Está certo filho. Vou ajustar aqui com Eleanora o almoço de sábado. Você acha que pode ser aqui na mansão mesmo?

– Mãe! Esdras não tem nenhuma ligação com ela. Então não podemos falar nada agora. Quero conversar mais sereno com o Esdras.

Quando Márcio terminou de falar, chega a esposa abraçada com a mãe. Foi Eleanora quem disse que o almoço de sábado seria ali mesmo. A casa estava em festa, recebendo tanta energia dos visitantes. “- Fazemos o almoço no sábado e no domingo vocês dois saem para a lua de Mel. Vai ser na fazenda mesmo”, inquiriu a mãe da arquiteta.

– Se o Marzinho quiser, será.

– Sim, Eleanora. Só que sem celular, sem ninguém. Uma semana somente em prol do meu egoísmo. Quero Angélica só minha.

Todos riram e o casal entra no carro, se dirigindo à Torre da Rainha Diaba. O trajeto foi realizado em plena harmonia com Angélica e Márcio falando da tarde que passaram juntos no apartamento onde tudo começou. “-Marzinho fiquei preocupada com Débora e seu irmão”.

– Minha mãe enquadrou Esdra. Ela fez assim porque sabe que Débora é uma excelente pessoa e será uma ótima esposa para o filho. E eu entrei porque não acho justo ele pensar que poderia ir transando com ela como se o sentimento não contasse, mas apenas o desejo.

– Conversei bastante com Débora. Tentei trazer-lhe um pouco à razão. Sei que não sou muito boa nisso, pois eu mesma fiz muita coisa apenas pela força do coração e do desejo. Durante a nossa conversa na área da piscina, a mulherada deixou ela a vontade e o teu irmão sabe que a situação ali é diferente.

Chegaram ao prédio e antes de deixarem o automóvel, Angélica olha para o marido, perguntando sobre a possibilidade de fazerem mais vezes o que realizaram naquela tarde.

– Sempre que quisermos. Podemos também enforcar umas tardes para não fazermos nada e deixarmos o tempo passar. O mais importante é eu estar contigo e te fazer feliz. Estamos apenas no começo. Somos dois corpos, cujas almas estão se ajustando.

Dentro do elevador, Márcio abraça afetuosamente a esposa que se sentiu protegida de tudo e de todos, inclusive dos próprios transtornos que a acometia por conta da violência sexual sofrida na adolescência.

– Amor! Amanhã eu tenho terapia a tarde. Você vem comigo?

– Vai ser com aquela terapeuta que a secretaria me ofendeu?

– É! Mas ela não estará lá. A psicóloga não a demitiu, mas acertaram que nos dias de minhas consultas, haverá uma outra atendente.

– Está certo! Eu vou contigo.

No apartamento, Angélica pediu para se banhar sozinha, enquanto o marido se deixou ficar ali na sala olhando as estrelas pela janela do imóvel. Ficou pensando no irmão e na reprimenda que levou da mãe que praticamente o obrigou a se encontrar com os pais de Débora. “Acho que agiu mais como mulher do que mãe. Ela está certíssima”, pensou o jornalista.

Escutou o som do celular e quando foi atender, viu que era uma mensagem de Amadeu. “- E aí meu caro mosquito e irmão! Como andam as coisas com a Rainha Diaba? Agora é tarde. Ela, Eleanora e sua mãe tomaram conta do seu ser e nenhum poeta do mundo será capaz de confeccionar uns versos para você se agarrar e respirar diferente. Abraços, do seu Amadeu. Arruma logo as coisas aí porque minha Tarsilinha, depois que fez as pazes com a minha mãe, quer abraçá-la”.

Assim que terminou de ler a mensagem, Márcio deu um longo sorriso silencioso. Estava com saudades do amigo. E seria bom tê-lo ali perto e Eleanora cuidando de Tarsila com muito carinho.

– Posso saber o motivo desse belo sorriso que meu marido está portando nesse momento?

– Recebi uma mensagem do seu irmão. Estou com saudades dele. Me disse que é para eu transferir logo Tarsila para o Brasil. Agora que ela fez as pazes com a sua mãe, está louca para abraçá-la.

– Amor! Tudo isso só foi possível porque você não só disse, mas sobretudo faz. Tenta não reagir, mas agir e com certeza o resultado é sempre diferente. Meu irmão está feliz e agora será pai. Dona Eleanora vive transformando a mansão em ambiente de festa. Sua mãe parece ser a melhor amiga dela. E agora Tarsila está bem próximo de fazer as pazes com ela.

Márcio abraçou a esposa dizendo que tudo aconteceu por uma predisposição das pessoas a mudarem suas rotas existenciais. “- Claro que o meu encontro com seu irmão no bar foi muito significativo e o fortalecimento de nossa amizade. Eu e ele não somos iguais em nada, exceto no desejo de respeitar o outro e receber o mesmo do companheiro de jornada. Lá do jeito dele, Amadeu foi abrindo os caminhos para que o amor brotasse dentro do meu coração. As sementes estão vá lá, só precisavam ser regadas e a cuidadora também. Lembre-se que temos que nos esforçar muito para o nosso amor dar certo. Nem todos os dias serão como a tarde que tivemos, mas isso não significa que minha alma ficará tristonha. E por isso que sou grato pelo amor que me tens. Deixe-me tomar um banho. Amanhã teremos um dia abarrotado de trabalho”.

Enquanto o marido se dirigia ao banheiro, Angélica ficou ali pensando em tudo o que tinha acontecido até aquele momento. Bem como na tarde maravilhosa que teve com o esposo e o resultado só podia ser esse por conta do carinho, do amor, da amizade que Márcio tinha para com ela. Ele a amava de fato, mesmo ela tendo aprontado tudo, cenas de ciúmes, briga, inclusive na noite anterior ter tocado no nome da ex.

“- Vamos amor. Já estamos quase chegando perto da meia-noite”, convidou o editor.

Já no quarto repassaram o que fariam no dia seguinte. Ela iria ao escritório de arquitetura. Fecharia a compra do percentual de sua sócia, inclusive passando uma pequena parte para Débora, ressalvando que não poderia ser comercializada com ninguém, exceto a própria arquiteta. Seria uma forma de estimulá-la a terminar o curso e aos poucos aumentando o percentual dela na empresa.

Angélica tinha em mente que não deixaria Márcio sozinho na editora. Sempre pode haver um rabo-de-saia querendo dar em cima do homem alheio, principalmente se ele for portador de muito mais qualidade do que defeitos, como era o caso do seu Marzinho. “É uma pessoa de ouro, mas não posso facilitar. Dona Judith sabe muito bem o que passa com o Rogério. Se deixar jogam farinha em nossos olhos e vão observar a horta vizinha”, pensou Angélica enquanto ouvia Márcio expor como seria a sua terça-feira.

Dormiram como nas noites anteriores. A arquiteta abraçada ao editor como quem pedia proteção ao seu amado contra os pesadelos e o medo de perde-lo. Acordaram com o sol dentro do apartamento, enquanto lá fora os jornais circulavam contendo imagens e matérias sobre o casamento entre a herdeira do grupo Oliveira e o futuro dono da editora Jardim da Leitura. Sobre ela havia muitas informações, mas no que diz respeito ao marido apenas que tinha sido repórter do jornal Tribuna do Vale que encerrou as atividades há um mês.

O casal chegou à confeitaria bem-disposto. A empresária vestida de maneira que não chamava atenção para si, mas, quem a conhecia de outros tempos, desejava saber o motivo da mudança em seu vestuário. Nada de transparências, decotes excessivos, calças e blusas justas ao corpo.  Os olhos estavam como antes, de uma cor beirando o verde esmeralda.

A garçonete se dirigiu aos dois perguntando o que pretendiam comer. Márcio pediu suco de frutos, torradas, geleias. A esposa pão integral, iogurte desnatado e suco. Quando ia saindo a atendente fez questão de falar sobre o casamento dos dois. “-Dona Angélica. A senhora estava divina naquele vestido em tons laranja e detalhes em verde parecido com as cores dos seus olhos. O senhor também, senhor Márcio. Ambos são pessoas de sorte”.

“- Do que você está falando”, perguntou Angélica. Nesse momento, a funcionário mostra os jornais para os dois que sorridentes, olham um para o outro como dizendo: “- Não dava para evitar”.

Enquanto Márcio e Angélica tomam o café distraidamente, entrou no estabelecimento uma mulher. Ela fica com um assento próximo ao balcão e pede um pingado com pão de queijo e enquanto aguardava, observou o jornal que estava próximo dela, enxergando a foto do casal. Imediatamente olha para a mesa mais ao fundo da confeitaria e reconhece os dois que ilustravam a reportagem, mas sobretudo, o homem. Recordou-se do momento em que disse a ele, há dez anos, que não queria ficar desfilando pela universidade com um estudante a tiracolo.

“Como esse mundo é pequeno. Mas não é que é o Márcio. Como poderia me esquecer daquele seu sorriso que a deixava fora do ar porque parecia que ria com os olhos”, pensou a professora universitária.

Como o editor era totalmente desligado não percebeu que estava sendo observado com certa insistência, mas a ação dela foi captada por Angélica que ficou incomodada com tanta atenção que a mulher dedicava ao esposo. A empresário disse ao esposo: “- Você conhece aquela pessoa ali no balcão? Ela não para de olhar para você. Estou para levantar e ir dar na cara dela”.

Ao levar os olhos para ver melhor, o editor não acreditou no que estava vendo e sua mudança foi percebida pela esposa. “- Pelo teu jeito tu a conhece. Você a comeu é? Diga logo, antes que eu vá perguntar a ela o que perdeu aqui para os nossos lados”.

“- Nunca imaginei que fosse reencontrá-la um dia. De fato, esse mundo é pequeno”, disse Márcio.

– Quer me falar quem é essa quenga? Só pode ser puta para ficar te paquerando assim na cara dura.

– É a professora com quem tive um rolo logo nos meus primeiros anos de universidade.

– Aquela que falou que não queria ficar desfilando com um estudante pelo campus?

– É. É ela. Mas o que faz aqui?

– Se tu for lá falar com ela, a coisa vai ferver para o seu lado e o dela. Ela já teve a chance contigo e te dispensou. Vamos embora. Não quero estragar o meu dia.

– Está bem amor.

O casal se levantou, deixando o estabelecimento e ao passarem perto da professora, Angélica abraça Márcio o beijando, o chamando de amor e dizendo que desejava repetir a dose da noite passada.

A fala da empresária não passou despercebida por Rafaela que, discretamente perguntou se o casal era o mesmo da foto. Jordana disse que sim avisando a cliente que não ficasse olhando em demasia para o marido. Angélica era esquentada e bem capaz de partir para a briga. “- Ainda bem que você me avisou. Acho que fui a primeira namorada dele na universidade, mas não deu muito certo”.

Rafaela que estava na cidade para participar de um seminário sobre as consequências psicológicas nas mulheres que sofreram violência sexual em suas adolescências, pediu um transporte e ficou aguardando a sua chegada do lado de fora da confeitaria.

Ao olhar na direção em que se encontrava Angélica e Márcio, percebeu que o casal discutia dentro do automóvel. Ela gesticulava e ele tentava acalmá-la. “Com certeza ele me reconheceu, mas não porque me viu primeiro, mas porque ela percebeu e chamou a atenção e somente aí Márcio viu de quem se tratava”, pensou a psicóloga.

Assim que concluiu seu raciocínio, Rafaela viu quando Márcio ameaçou sair do carro, mas a mulher o puxou, lhe dando um beijo como para serená-lo. Ligou o carro e seguiram o destino deles.

No apartamento-empresa enquanto Márcio conversava com Tarsila sobre os contratos que ela havia conseguido para a editora, totalizando dez livros que seriam traduzidos ao longo do ano pela Jardim da Leitura, Angélica no escritório tentava se concentrar no trabalho, mas virava e mexia o pensamento ia até Márcio e na sua ex-namorada que se materializou do nada naquela manhã na confeitaria.

– Dona Angélica! Está acontecendo alguma coisa? Estou sentindo a senhora meio longe. Ocorreu alguma coisa com o senhor Márcio?

– Débora! Me diga uma coisa: o Ricardo te falou algo sobre as brigas dele com a Fernanda por conta do meu marido?

– Falou sim! Ele tem um ciúme ferrenho do seu marido com a namorada dele. Acha que os dois são muito íntimos e ela o chama sempre de “meu” Marzinho. Fê jura que os dois não tem nada e eu acredito nela justamente por estar com vocês nos últimos dias. Mas meu irmão é inseguro, já levou vários foras estando apaixonado, mas sei que com o tempo, deixará isso de lado. Mas por que a senhora está me perguntando isso?

– Eu acho que entendo o seu irmão. Ficamos mesmo inseguro quando amamos. Quando você descobrir o que sente pelo Esdras saberá disso. Haverá um medo de que ele venha te deixar ou encontrar alguém do passado que possa atrapalhar o nosso presente.

– Eu ainda não entendi onde a senhora quer chegar.

– Eu discuti com Márcio hoje de manhã porque cruzamos na confeitaria com uma ex-namorada dele nos tempos de universidade e ela ficou o tempo todo olhando para onde estávamos.

– Dona Angélica. Perto da senhora, não tenho experiência nenhuma, mas pelo que conheço do irmão do Esdras, acho pouco provável que ela tenha dado alguma atenção a ela. O Márcio é doido pela senhora. Em seu casamento, eu via como ele ficava enciumado quando a senhora estava conversando com os diretores da empresa. O Roberto teve que segurá-lo várias vezes, pois queria sondar o que a senhora tanto conversava com eles. Eu não me espantaria se o seu marido aparecesse na sede das empresas, se sentisse que havia algo de errado. Márcio tem um ciúme enorme da senhora. Pergunte ao Roberto.

Angélica ficou pensativa, enquanto Débora concluía o raciocínio. “- Se foi a mulher quem terminou com ele, deve ter imaginado que Márcio não seria homem o suficiente para acompanha-la e quando se deparou com vocês dois, deve ter entendido que se equivocou ao dispensá-lo lá atrás. Não se preocupe com isso. O irmão do Esdras viajaria os sete mares para ter a senhora nos braços”.

– Obrigado querida. Me tirou um peso das costas. Eu estava quase ligando para ele, achando que poderia de alguma forma ter tentado entrar em contato com ela.

– E porque o Márcio faria isso? Se tem uma pessoa encantadora como esposa?

– É! Você tem razão! Insegurança minha.

As duas continuaram a conversa, mas o assunto era a empresa e o futuro de Débora ali dentro. Além de aconselhava a não fazer como ela, Angélica, levar os problemas da vida pessoal para o trabalho. “-Isso aqui só não rodou porque você segurou as pontas enquanto eu surtava por conta do meu marido. Tu sabes que eu comprei a parte da Maria aqui. Pois bem! Uma parte passarei para ti, mas somente se se comprometer a não vendê-la para ninguém, contudo, se for fazer isso que me oferte primeiro. Tudo bem”, inqueriu Angélica.

– Nossa dona Angélica. Com um presente desses, não tem como recusar. Mas, e nossa clientela? Quando souberem, por conta da cor de minha pele, poderá nos abandonar.

– Ninguém precisa saber. Enquanto eu estava resolvendo as minhas coisas, você não finalizou alguns projetos meus? Continuemos assim. Eu assino o seu estágio e tu continua trabalhando aqui comigo. Por enquanto para o pessoal alienado, você, apenas é a minha secretária.

– Vou contar aos meus pais.

– Não diga nada ainda. Espero para fazer o anúncio no almoço entre seus pais e os pais do Esdras que vai ser lá na mansão no sábado. Que horas são agora?

– Quase que meio-dia.

– Depois do almoço vamos fazer umas compras para ti. Nada chique, mas apenas algumas coisinhas básicas para o almoço de sábado. Assim que Esdras sentir a corda no pescoço colocada pelos próprios pais, vai entender como a coisa funciona para os lados de você.

Assim que terminou de falar, o celular de Angélica toca. “-Alô amor! Você aqui, o que há”, perguntou a arquiteta.

– Estou aqui para levá-la para almoçar.

– Suba aqui para me buscar então. Já que veio até o meu trabalho. Só saio daqui se me carregar no colo.

Márcio desligou o telefone e para surpresa de Angélica, abriu a porta do escritório, dizendo: “-Foi daqui que uma arquiteta pediu um jato para levá-la ao almoço”, inqueriu o editor.

– Boa tarde Débora! Tudo bem contigo? E meu irmão?

– Oi Márcio. Tudo bem sim. Ainda não falou comigo hoje. Será que desistiu?

– É provável que sim. E se fez isso, não é homem para ti. Mas creio que está apenas amedrontado. Judith pegou pesado com ele e ainda com a história do almoço sábado.

– Vamos amor. A tarde vou sair com essa mocinha aí, minha nova sócia aqui no escritório. Preciso prepará-la para o almoço de sábado e domingo, eu e você juntinhos na fazenda.

Dentro do elevador, Angélica agarrado ao marido lhe perguntou se tinha ficado algum resquício do passado com aquela professora. A resposta foi um sonoro não. E para evitar de ficarem batendo naquele assunto, Márcio mudou de assunto, querendo saber como andava o projeto para a editora. “- Amor. Se as intenções de Esdras com a sua secretária forem realmente sérias, terei que ajustá-lo aqui, onde posso ficar de olho. Neste sentido, penso em estender as atividades da editora, transformando-a em livraria também. Desta forma, eu coloco ele para trabalhar lá como vendedor. O que você acha?”

– Por que não ajustamos algo para ele nas empresas?

– Não quero ninguém de minha família trabalhando lá. E desejo que meu irmão comece a ralar do chão e construir algo que possa dizer que é dele. E nas suas empresas, ele será sempre o meu irmão. Não quero isso para ele e nem para nossas famílias.

– Te entendo Marzinho. Podemos dar uma mão, nunca o corpo inteiro.

– Exato.

Já dentro do automóvel decidiram almoçar no restaurante do shopping que pertencia a família de Angélica.

Ao entrarem no estabelecimento, o casal se deparou com um grupo de professores ocupando o espaço central do estabelecimento e entre eles estava Rafaela que olhou novamente para Márcio, porém, desta vez a observação foi diferente e a esposa sentiu que havia cobiça naquelas insistentes observações.

Rafaela cochichou algo com um dos professores e se levantou para falar com o casal. “- Olá Márcio. Que coincidência. Encontrar contigo duas vezes no mesmo dia. Pela manhã achei que não tinha me reconhecido lá na confeitaria e agora aqui no restaurante. Como você está? Fiquei sabendo que se casou recentemente”.

Angélica pensou em levar e descer o braço na ex-namorada de Márcio, mas foi contida por este com um leve toque no braço. “- É professora que mundo pequeno. A senhora continua elegante, vistosa como outrora, mas não estou vendo nenhum intelectual junto de ti ou nenhum estudante quis carregar a sua valise?”

– Vejo que ainda não me esqueceu. Pelo jeito que fala, parece que ainda tem interesse nesse corpo aqui que não foi desfrutado por ti.

– Tem certas coisas, ofensas e humilhações que a gente não esquece, ainda mais vindo de alguém com um cabedal refinado como o seu.

Diante da resposta de Márcio, a psicóloga ficou pensativa, dizendo logo em seguida: “- Peço-te desculpas pelo meu atrevimento. Estou de passagem pela cidade. Fui convidado para participar de um seminário e queria me encontrar com uma antropóloga que estava desenvolvendo uma pesquisa sobre Iracema, mas fui informado de que ela está na Alemanha”.

– Desculpas aceita.

Quando Rafaela voltou para a mesa, alguém lhe informou que a mulher que estava com Márcio era ex-esposa da antropóloga. “- Ela largou Rosângela para ficar com esse jornalista de quinta categoria. Deixar uma pessoa culta para desfilar com um zé ninguém como aquele homem ali, é para fechar a tampa do caixão”, disse o interlocutor da palestrante.

Assim que Rafaela se levantou para ir ao banheiro, Angélica fez o mesmo. Quando a professora estava deixando o sanitário, a empresária trancou a porta. “- Por que a senhora fez isso? Está achando que quero dar para aquele moleque que você chama de marido? Esquece. Ele não me serviu ontem e o fato de tu estar aqui agora comigo, evidencia que continua sendo um inútil. Agora se me der licença, preciso voltar para a mesa onde tudo faz sentido. Faço bom proveito do gaguinho carola”.

A arquiteta não pensou duas vezes e sentou o braço em Rafaela que gritou de dor ao sentir o murro desferido por Angélica. Quando tentou revidar, a professora teve os cabelos agarrados pela empresária que esfregou o rosto dela na porta do banheiro, dando-lhe um golpe na perna que Rafaela gritou de dor. “ – Agora você pode voltar para a sua mesa. Lembre-se não subestime as pessoas a partir da sua própria arrogância. Você tem razão: meu marido não é homem para você e ainda bem, pois faz o meu tipo e sabe por quê? Porque me ajuda a ser melhor do eu era antes. Você, pelo que ele me contou, continua a mesma pessoa que a exemplo dos cachorros, corre atrás do próprio rabo, no caso aqui, do seu ego”.

Quando Angélica abriu a porta do banheiro, havia algumas pessoas ali esperando e Márcio estava chegando. “- O que foi que aconteceu? Escutei uns gritos vindo do banheiro e observei que Rafaela não estava na mesa. O que foi fazer lá?”

– Encerrar o teu caso com aquela professora.

Márcio ameaçou dizer algo, mas a esposa lhe deu um beijo cinematográfico e se dirigiu com ele para a mesa em que estava. Rafaela demorou para voltar, pois o estrago feito pela esposa de Márcio foi grande. Quando os ânimos estavam mais ou menos ajustados, a arquiteta se aproximou da mesa em que a ex-namorada de Márcio estava dizendo a todos que aquela psicóloga tentou ofender o marido dela e por isso teve o que mereceu.

Os parceiros de Rafaela ficaram sem saber ao certo o que dizer, pois ela ficou em silêncio. Antes de se sentar junto à Márcio, Angélica afirmou aos presentes que não precisavam pagar a conta. “- As despesas de vocês, pode deixar aí que eu pago. Minha contribuição financeira para ajudar no seminário que vocês estão promovendo em nossa universidade”.

Aqueles que estavam se alimentando se apressaram, pois estavam receosos de que a coisa poderia piorar. O garçom que atendia aquela mesa ouviu um dos consumidores, que não era da cidade, perguntar em forma de arrogância: “- Quem essa mulher pensa que é?”. “-Ela é a dona do restaurante e presidente das Organizações Oliveira”, respondeu o funcionário.

O homem olhou para Rafaela e para a mesa em que Márcio estava com Angélica e quis saber o que tinha acontecido, pois tudo virou do avesso depois que ela foi até a mesa em que o casal estava. “ – Não aconteceu nada. Apenas eu que achei que estava tratando com um mosca-morta com quem tive um pequeno caso há coisa de dez anos. Mas observei que de morto não tem nada, pelo contrário, está bem vivo e acompanhado. Vamos embora”, disse Rafaela.

Enquanto o pessoal se preparava para ir embora, Márcio chamava a atenção da esposa que fazia ouvido de mercador. Ele falava, dizia, esbravejava, até que ela não suportou mais, dizendo: “- Quer calar a boca Marzinho. Eu não tenho que te dizer nada, pois aquela vagabunda teve o que merece. Você deu um murro na cara do médico e eu não fiquei te azucrinando, então chega. Enquanto ela sentir dor na perna, saberá o motivo”.

Ouvindo tudo aquilo, Márcio optou por ficar em silêncio. Sabia como a mulher ficava quando tentavam humilhá-la de alguma forma. O melhor era deixar o clima esfriar. A noite conversaria com ela.

O garçom chegou, entregando o cardápio e informando a proprietária que ouviu a professora dizendo que iria à polícia registrar uma ocorrência contra a proprietária. “- Está bem Jeremias, obrigado. Agora nos traga aquele estrogonofe de jiló e para acompanhar um suco verde. Eu e o maridão aqui comemos muita carne nos últimos dias”.

– Perfeitamente senhora.

O casal ficou em silêncio, e foi Angélica quem o quebrou falando. “- Estava com ela engasgada desde de manhã quando ficou te encarando na confeitaria e agora vem te humilhar na minha frente. O que ela enfrentou não foi a minha reação, mas pelo contrário, minha ação. A agressão dela foi puro despeito. Achava que estava em condição superior e levou um direto na fuça para quebrar aquela arrogância”.

– Está bem amor, não falemos mais disso.

Ao término do almoço, o casal deixa o restaurante e quando estava no piso do shopping, João Garcia, um dos organizadores do evento na universidade veio ter com Angélica, depois que descobriu que uma de suas empresas patrocinava o ciclo de palestras na Universidade.

– Dona Angélica e senhor Márcio, espero que aceitem minhas sinceras desculpas pelo ocorrido entre o seu esposo e uma de nossas professoras-palestrantes. Rafaela tentou contar só a parte do que ocorreu dentro do banheiro, mas quando soube que tem câmeras pelo restaurante, nos disse a verdade.

– Quanto à minha pessoa, não vou arrastar essa querela para muito longe daqui, até porque o motivo foi um pequeno namoro que eu e a professora tivemos há mais de dez anos e ela quem colocou fim no relacionamento. Agora é preciso ter claro que as ofensas que me dirigiu não havia necessidade alguma. Do outro lado, a minha esposa aqui é quem vai dizer da parte dela. Jamais vou ficar contra ela.

– Vamos Márcio. A minha resposta já está na cara dela. Não sou de ficar com muita conversa. Vou direto ao ponto e dei a ela o que achei que merecia. Da próxima vez, tenho certeza que pensara duas vezes antes de agredir quem quer que seja.

– Outra coisa, senhor Márcio. Soubemos que o senhor fundou uma editora. Se é fato, espero que a sua empresa possa colaborar com os nossos professores. Há muitas pesquisas e trabalhos acadêmicos que gostaríamos de divulgar, como por exemplo, os anais desse encontro. Podemos contar com o senhor?

– Obviamente que sim, senhor João Garcia. Envie-me os materiais para eu dar uma olhada e ver o potencial.

– O senhor pode ver um pouco em nosso repositório na internet, mas vou conversar com os nossos chefes de departamento para fazer uma seleção prévia dos conteúdos.

– Tudo bem. Fico no aguardo senhor. Tenha uma ótima tarde.

Quando Márcio entra no carro, a esposa está transtornada. “- Por que tinha que dar trela para eles? Já não havia dito que não alimentaria essa situação”, perguntou entre os dentes Angélica.

– Não vou transformar uma coisa pessoal em algo maior. Estou no ramo de livros e precisarei desse pessoal para divulgar o material e falar da editora. Se eu me fecho pensando em ser o dono da verdade, posso decretar falência do meu negócio antes mesmo de começar a andar.

– Desculpe-me amor. Não havia pensado nisso.

– Rafaela apanhou duas vezes: uma vez através de suas mãos e agora com certeza terá problemas entre os seus pares que detestam chamar atenção sobre eles a não ser que seja relacionado aos seus trabalhos acadêmicos.

No caminho de volta ao escritório, Eleanora ligou perguntando o que tinha acontecido no restaurante. “- Não aconteceu nada mãe. Apenas eu tive que mostrar para uma certa pessoa o lugar dela. Só isso”.

– Minha filha, você não pode sair por aí dando porrada em tudo quanto é desafeto seu.

– Mãe! Aquela vagabunda ofendeu o Marzinho e teve o que merece. Mas como a senhora ficou sabendo?

– A professora que você surrou no banheiro me ligou se retratando. Sofreu sanções na universidade e também para saber se as nossas empresas não patrocinariam mais os eventos da instituição como fazemos sempre.

– E o que a senhora disse?

– Quem decidiria sobre isso seria você e seu marido. Eu marquei um encontro entre vocês amanhã cedo lá no campus.

– Tudo bem mãe. Estaremos lá.

– O que vocês farão a noite, filha?

– Estava pensando em curtir o meu marido.

– Ainda bem que disse “estava pensando”. Que tal sairmos para jantar? Eu, você, o Marziho, Judith e Esdras?

– E onde vamos?

– Num restaurante que um amigo abriu perto da lagoa. Prometi dar uma força a ele.

– Que amigo é esse, mãe?

– Deixa de ser enxerida menina.

– Posso levar a Débora?

Eleanora confirmou que sim e passou o endereço para a filha, dizendo que era para estar lá às 19h.

Ao desligar o telefone, Márcio olha para a esposa e fala: “-Está vendo porque temos que sumir na fazenda sem telefone? Desse jeito não vamos conseguir ficar sozinhos um dia se quer”.

Chegaram no escritório de arquitetura e Márcio estava louco para voltar à empresa. Quando Angélica percebeu a pressa, disse: “- Está louco para ir ver se o ex-amor está precisando de alguma coisa? Vai lá, procure para ver em que hospital ela está e a coma logo. Ela te humilhou só para disfarçar”.

Ao dizer isso, a arquiteta entrou apressada para dentro de sua sala e trancou a porta, deixando Márcio ali sem saber o que fazer. Nisso Débora chega do almoço e pergunta o que foi.

– Sua patroa, sócia, tendo mais um ataque de ciúmes. Então eu fico aqui sem saber se volto para casa ou espero o chilique passar.

– Márcio! Hoje pela manhã ela estava apreensiva com alguma coisa, inclusive me falou de ciúmes. Uma conversa sem pé nem cabeça. Aconteceu alguma coisa entre vocês?

– Sempre ocorre.

– Acho que entendo as rusgas do meu irmão com a Fernanda. Ele tem um ciúme dos infernos dela. E agora deu para fiscalizar as roupas que ela veste. Não quer nada transparente, nada chamativo. Estavam lá em casa agora e para variar, o assunto foram as tais vestimentas e o seu nome apareceu.

– Como assim?

– Quando Ricardo falou da roupa, Fernanda gritou que ele estava parecendo o Marzinho. O meu irmão subiu no salto e disse que ela tinha que transar contigo, se é que já não tinham feito isso e estavam escondendo de todo mundo.

Quando Débora falou isso, Márcio deu aquela gargalhada. “- Pode deixar, depois eu converso com o seu irmão. E como terminou a coisa”, perguntou o editor.

– Fernanda se levantou e foi embora e ele ficou lá com um bico enorme. Aí eu disse a ele: ‘Vocês dois estão parecidíssimos com a minha patroa e o marido dela. Vai lá atrás dela. Essa mulher é doida por ti, seu bunda-mole’. Ele saiu, mas não a achou mais.

Assim que Débora terminou de falar, o telefone de Márcio tocou. Fernanda chorando desesperadamente. “- Onde você está? Débora acabou de me contar da briga entre você e o Ricardo”.

– Estou defronte ao seu prédio. Você pode vir aqui?

– Sim! Agora se acalme. Deixe-me resolver uma coisa e já estou indo.

Ao desligar o telefone, Márcio pede para Débora falar com Angélica. Ele estaria no apartamento. Fernanda estava precisando dele.

Já na rua, Márcio ligou para o Roberto. “- Meu caro, segura a onda da Fernanda aí na empresa. Ela está defronte ao meu apartamento. Brigou com o bunda-mole do Ricardo. Vou lá ter com ela”.

Márcio pediu um transporte. Chegou rapidinho e subiu com Fernanda. “- Marzinho. Eu amo aquele homem, mas o cara é doido de ciúmes. Você acredita que agora deu para implicar com as minhas roupas. Não quer nada transparente, sem decotes ousados. Disse que não tem necessidade de me apresentar como troféu. Ele ainda acha que temos um caso. Que eu e você já transamos e estamos escondendo isso dele e de Angélica”, desabafou Fernanda.

O editor ficou em silêncio, deixando a amiga pensar sobre o que falou e o que estava acontecendo em sua recente vida. “- Agora eu sei as barras que tu enfrentou e enfrentará com a sua galega. Me diga meu amigo o que eu faço”, perguntou Fernanda abraçando Márcio em busca de proteção.

– Espere um pouco, vou pegar água para você.

Quando Márcio se levantou para ir à cozinha, Ricardo entra no apartamento feito um furacão. “- Eu sabia que você estava aqui com esse ‘seu Marzinho’. Não estou dizendo que vocês têm um caso”.

“- Você quer calar essa boca do caralho Ricardo”, berrou Márcio. “- Acho que tu está ficando paranoico meu caro. Acho melhor esfriar essa cabeça. Do contrário, vai levar umas porradas e uns chutes nessa sua bunda”.

Ao terminar de falar, entra no apartamento Angélica, querendo saber o que estava acontecendo e porque Márcio a deixou sozinha no escritório. Ao olhar para Fernanda, a briga estava armada. A arquiteta partiu para cima do marido que precisou contê-la.

– O que está acontecendo com vocês? Estão malucos? A Fernanda me ligou dizendo que estava aqui defronte ao meu apartamento. Brigou com esse bunda-mole aí por conta das roupas que ela usa. Ele não quer vê-la com trajes que mostram além do que deveria. Aí o panaca entra achando que eu tenho algo com a Fernanda. Deixa de ser idiota.

Angélica se senta no sofá totalmente envergonhada. “- Ricardo. Eu fui parar na UTI por conta dum porre que porque minha esposa tinha me deixado. Essa mulher atravessou o estado para me trazer de volta para os seus braços. Eu conheço Fernanda a mais de cinco anos. Quando eu não estava legal, ia até a casa dela e o Roberto fazia a mesma coisa. Ela segurava nossas ondas. Ela queria bater em Angélica quando fui hospitalizado. Agora, você sabe o que ela está fazendo? Mudando todo o guarda-roupa porque, assim como tu, não acho que ela deva evidenciar além do que deveria ser mostrado. Mas isso é entre eu e ela. Então saiba dizer e pedir as coisas para Fernanda. Ela te ama, seu merda! Agora! Se você não é homem o suficiente para fazê-la feliz, então desista, mas se ficar e fizer merda, vai se ver comigo, Roberto, meus dois irmãos e meu pai”, desabafou Márcio indo para a cozinha.

Ao chegar no compartimento, sentiu Angélica que foi em seu encalço. “- Amor. Entendo que estou completamente errada. Sei que não deveria ter espancado a professora no banheiro do meu restaurante. Eu fico cega de ciúmes. Eu entendo Ricardo. Tudo é muito novo para ele. Tenho certeza também que está assustado, principalmente por não compreender como é amizade entre homens e mulheres. Agora se acalme”, pediu a arquiteta.

Quando chegou na sala, percebeu que Ricardo está catatônico. “- Márcio, mil desculpas. Eu sou doido por essa doninha aqui e não consigo entender essa amizade de vocês dois e de Roberto. É tudo muito novo dentro da minha cabeça e coração. Tentarei me equilibrar. Vamos Fê. Te deixo em casa. Preciso voltar ao trabalho”.

Márcio olhou para Ricardo e vocifera: “- Se encostar um dedo nela que não seja em forma de amor, se prepara, nós vamos te achar”, avisou o editor.

Ricardo e Fernanda deixaram o apartamento, conversando e tentando ajustar os ponteiros, enquanto Angélica fica ali sem saber o que fazer. Olhou para o relógio e viu os ponteiros iam adiantado. Ligou para o Roberto para saber se era necessária a presença dela lá.

– Pode ficar tranquila dona Angélica. Está tudo sob controle. A senhora tem uma reunião amanhã à tarde com um grupo de empresários interessados em firmar parceria com a nossa organização. Antes do encontro, a senhora terá um point com todas as informações.

– Obrigado Roberto. Estou aqui com o seu amigo. Vou passar o resto da tarde com ele.

– Aconteceu alguma coisa com o Marzinho?

– Nada que o mundo não saiba. Os velhos ciúmes de sempre e agora tem o Ricardo achando que o meu marido está comendo a Fernanda.

– Será que terei que dar uns puxões de orelha naquele moleque?

– Pode deixar, Roberto. Márcio já deu uns esculachos nele, dando o ultimato. Bom, querido deixa eu cuidar aqui do meu amor que está uma pilha.

Ao desligar o telefone, a empresária vai até onde Márcio está. Na janela do apartamento olhando para o nada. “- O que deu em ti Angélica? Achou mesmo que eu estou transando com a Fê? O Ricardo achar isso, é até aceitável porque está chegando agora e nunca amou ninguém, então é até entendível que enxergue coisas onde não tem. Mas você? Te amo tanto que o símbolo químico do meu oxigênio está mudando de nomenclatura”.

A esposa permaneceu em silêncio, enquanto o tempo lá fora ameaçava desabar. “- Sente-se aqui”, chamou Márcio. “- Ontem à tarde transformamos esse apartamento em nosso paraíso. Foi tão belo, sublime que hoje quando entrei aqui para trabalhar ainda tinha a energia de nosso amor. Agora me responda: tu achas mesmo que vou atrás de outra mulher? Passei a manhã toda trabalhando, ansioso para te ver na hora do almoço. Quando estou contigo é como se estivesse andando entre as estrelas. Se você ainda não viu isso, por favor, deixe eu te mostrar”.

– Eu sei disso tudo Mazinho, mas às vezes eu não consigo me controlar.

– É! Dona Judith tinha razão!

– Razão em quê?

– Você é uma dinamite prestes a explodir. Espero sempre poder apagar o pavio antes de tu detonar tudo. Te amo com dinamite e tudo.

Angélica deitou a cabeça no peito do esposo e ficou ali, sem dizer nada e o marido entendeu que o amor que ela lhe sente ainda o assusta e em virtude disso, vem as reações como da hora do almoço e quando chegou aqui prestes a tirar a Lua do lugar porque achou que ele estaria transando com Fernanda.

O casal voltou para terra com o som do telefone. Era Fernanda querendo falar com o seu Marzinho. “- O que aconteceu? Não vem me dizer que Ricardo ousou levantar a voz pra ti?”.

– Não! Só liguei para te agradecer a dura que deu no rapagão.

– Agora vê se faz algumas coisas que ele pede. Eu que te veja com roupas coladas no corpo, calcinha marcado e com decotes além do que deve ter. Faça isso, anote e depois cobre a contrapartida.

Assim que Márcio desligou, Angélica, olhando para o relógio o chamou para irem para a Torre. “- Precisamos nos aprontar para o jantar com a minha mãe. Estou desconfiada desse amigo dela. Quando estávamos na Alemanha eu liguei para falar com ela, mas me disse que não podia conversar comigo naquele momento”, explicou a empresária.

– Está bem amor. Tudo o que eu tinha organizado para fazer agora a tarde foi para o espaço. Amanhã eu finalizo. Tenho que deixar tudo pronto para a nossa lua de mel e trazer Amadeu e Tarsila para o Brasil. Se eu não fizer, sua mãe me deixará no toco.

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