Sobras de um amor… parte II

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Quando chegaram em casa, Márcio e Angélica estavam esgotados, cansados, mas ainda sobrava um restinho para uma noite a sós. A arquiteta dependurou no pescoço do amado dizendo: “- Hoje você me surpreendeu. Não querendo que eu usasse biquíni e depois não deixou eu tirar uma foto só de biquíni, pedindo para eu sempre colocar a saída de praia. Por que isso, amor?

– Não gosto de exibir o que meu para o mundo. Não é desejo de controlar, mas não vejo necessidade de minha futura esposa ficar se expondo além do que seja necessário. Detestaria ouvir conversas do tipo: “meu irmão Márcio casou com uma gostosona” e ficar mostrando suas fotos.

– Quem faria isso?

– Meus irmãos.

– Acho que Esdras não, porque não tirou os olhos de Debora. Ela me falou de um certo olhar que a deixava sem roupas. Se eu não conhecesse essa espiada vinda de um certo alguém, estranharia. Vocês são iguais ao seu pai. Vê sem enxergar, coloca a mão sem encostar um dedo em nosso corpo.

– Estou falando mesmo do Léo. Ele é igual ao meu pai. Gosta de ficar contando vantagem. Então que faça isso com as coisas dele e não com a minha esposa.

“- Jura que disse isso meu amor”, pergunta a arquiteta.

– Disse o quê?

– Que não ficará se ufanando por conta da esposa que terá?

– Bom. Para que eu ficarei dizendo para todo mundo que te amo, se basta eu te amar todos os dias do meu devir? Só tem uma pessoa que eu quero que saiba disso e ela está comigo nesse exato momento. O resto lá fora não me interessa muito. Gosto de coisas simples e, se eu complicar ainda mais o meu relacionamento contigo, nós dois vamos enlouquecer. Então, será que posso te amar assim, sem muito barulho? Te amar em silêncio, ouvindo apenas as batidas de nossos corações e a sonoridade de nossas respirações?

– Claro que pode meu amor. Aliás é o que eu mais quero e hoje tive um dia imensamente feliz. Minha mãe disse que no domingo fará uma chamada de vídeo com Tarsila e Amadeu para que possamos conversar com eles durante o nosso casamento.

Márcio fitou a empresária bem dentro dos seus olhos, lhe dizendo: “- Querida, vamos tomar banho. Amanhã eu não vou te ver e pelo que sua mãe falou: todas as mulheres vão dormir lá na mansão e nos homens no meu apartamento. Vai ser uma festa”.

– Roberto que experimenta levar mulheres para lá. Ele ainda não meu funcionário e antes mesmo de começar eu já o demito.

Márcio não aguentou a fala dela e começou a gargalhar do jeito que a deixa muito excitada. “- Quer parar de rir assim. Quer me deixar em situação sem volta. Minha mãe pediu para eu não transar contigo hoje. Só depois do casamento”.

Ao ouvir essa então, o jornalista não parava mais de gargalhar, enquanto Angélica lhe dava leves socos. Então, do nada, ele a pega no colo e carrega para o quarto. Entre gritos de surpresa, a arquiteta pergunta o que o noivo estava fazendo: “- Ensaio para o domingo, depois do casamento. Já que não vamos nos divertir hoje, por conta das ordens de minha sogra, então tenho que ensaiar para o grande dia”.

Ao chegar perto da cama, Márcio se senta com Angélica no colo, começando a beijá-la profundamente, como se quisesse que seus corpos se fundissem num só, como dizia Platão no livro O banquete. Lógico que o casal naquela noite estava pouco interessado num filósofo da Grécia antiga. Tanto Márcio, quando Angélica, queria estar nas estrelas enquanto um estivesse nos braços do outro.

Quando o jornalista fez menção de se levantar para levá-la ao chuveiro, a empresária deu um leve toque em seu peito e Márcio desabou sobre a cama. Angélica caiu sobre ele, beijando, mordiscando, dizendo que o amava ternamente e o queria por toda a vida. A noiva estava tão intensa no momento que, bastou o noivo passar a mão em sua bunda para tirar o seu short, já sentiu o primeiro orgasmo com o corpo todinho apresentando vários espasmos.

Ela disse baixinho no ouvido do futuro marido. “- Não pare, me leve com você para passear entre as estrelas”. Ao dizer isso, volta a beijá-lo, e com uma das mãos massageia o pênis do noivo que também estremece ao sentir o contato dela. Lentamente ele tira a bermuda que a noiva usava e desata a parte de baixo do biquíni, levando-a a loucura.

Angélica o ajuda com o seu calção, mas ao contrário dele, ela puxa tudo de uma vez, tirando bermuda e cueca juntos, deixando o falo dele livre para ser acariciado pela arquiteta que faz movimentos para cima e para baixo, enquanto o jornalista amplia suas carícias com os dedos entre os lábios vaginais da noiva. Ela lhe dá uma chupada no pescoço, de tanto prazer que estava sentindo com ele.

Ao sentir o noivo posicionando o seu membro na entrada da vagina, a arquiteta tem outro orgasmo que a deixa com os olhos esgazeados. “- Amor! Se eu soubesse que seria tão bom assim, teria te atacado de outro jeito naquele domingo em seu apartamento”, choraminga a empresária, passando a gemer assim que sente o falo do noivo todinho dentro de si.

Novamente numa sincronia perfeita, o casal atinge o clímax no mesmo instante. Em seguida, Angélica fica deitada sobre o corpo do jornalista, façlando e rindo ao mesmo tempo. “- Eu disse para minha mãe que hoje seria difícil te resistir meu amor. Ainda bem que eu não prometi nada. Sabia que ia acabar a noite em seus braços e gozando muito. Te amo meu Marzinho”.

Depois de meia hora o casal se levanta para tomar banho e descansar. O dia seguinte seria corrido para todos. Nenhum dos dois imaginava que as mulheres e os homens preparavam para cada um deles. Novamente o céu estava carregadíssimo, prometendo um sábado chuvoso. Ao escutar os primeiros trovões, Márcio silenciosamente agradeceu por não ter caído água naquela tarde e todos puderam se divertir à beira da piscina.

Angélica pediu para tomar banho sozinha. Queria curtir o momento dela com ela mesma. O noivo entendeu e ficou deitado na cama, mas depois vestiu o roupão foi para a sala. Gostava de ver os relâmpagos cruzarem os céus, iluminando tudo. E naquela noite se sentia relativamente muito leve. Estava noivo de uma mulher espetacular, mas isso não significa ausência de problemas. Ela era doida e não mudaria só porque a aliança sairia de uma mão para a outra. Teria que ter muita paciência.

“Ainda bem que conseguir reconquistar o meu espaço no coração de meu pai. Não sei como seria se continuássemos com uma briga besta que se arrastou desde a adolescência. Não sem quem era mais turrão”, pensou o jornalista, enquanto se abraçava.

– Nunca vi ninguém se abraçar. O meu Marzinho pode me explicar o motivo?

O noivo se vira, afirmando à noiva que o gesto era uma tentativa de não deixar o amor que sentia por ele mesmo se esvaísse. “- Como é isso? Você está me dizendo que está se amando mais? É isso”, pergunta Angélica.

Ele a puxa para si e diz: “- Se eu não me amar, como posso te amar? Quero te dar o meu melhor e se eu não souber o que é isso, jamais poderia dar-te o que existe dentro do meu coração. O meu amor por mim mesmo não é egoísmo, mas um encontro do meu ser corpóreo com a minha essência. Ah deixa para lá, acho que estou filosofando de tanta felicidade”.

– Não pare! Continue. Quero entender esse homem que se ama e quer me passar esse amor. Aliás, ele já me faz isso todos os dias e aos poucos estou captando esse sentimento, acalmando meu coração.

– Como meus irmãos viviam me dizem: viajo tanto que acabo saindo da Terra. Melhor irmos dormir. Vou tomar um banho e já estarei na cama para esquentar o seu corpo e sua alma. Isso se a madame quiser!

– Exijo! Mas quero que saiba que adoro suas viagens. Me ensinam muito sobre a minha própria essência e observo o quanto minha mãe está aprendendo contigo. Eu sinto que ela gostaria de ter te conhecido antes. Talvez não tivesse prejudicado tanto os filhos.

– Amor. Naquela noite quando ela me expulsou daqui e você não fez nada parta impedir e eu fiquei feito um sem-teto naquele banco de praça debaixo de chuva, finalmente eu compreendi que estava perdendo você para mim mesmo. E que nenhum racismo do mundo poderia me separar de você, exceto a minha ignorância e discursos vitimizadores. O racismo existe talvez porque as pessoas acham que deveriam ser assim ou porque não se dão a oportunidade de conhecer melhor os seres humanos que o cercam, se detendo apenas ao seu mundinho normalmente recheado de presunções e penduricalhos que enferrujarão por falto de amor. De certa forma, meu pai também era portador dessa truculência e sabe-se lá o motivo.

Ao abraçar a futura esposa para ir ao banho, o jornalista disse que também foi infantil em muitos momentos daquelas brigas e confusões. Afirmou que poderia ter esperado ela se acalmar, mas não, optava sempre a melhor saída: fugir, até que com a ajuda dela percebeu que se não mudasse o seu comportamento, poderia contribuir para o fim de algo que estava apenas no começo.

Entraram no quarto. Enquanto Angélica colocava seu baby doll para dormir, Márcio se banhava. A arquiteta tirou da bolsa um pijama composto por bermuda e camiseta que a mãe dele tinha comprado e solicitado que a noiva o entregasse. Quando ele deixa o banheiro, chegando ao quarto, estava estendido sobre a cama a roupa com um bilhete escrito pela mãe: “Ao meu Marzinho para tenha sorte na primeira noite com o seu amor”.

O casal, como nas noites anteriores, dormiu depois de ficarem ouvindo a sinfonia realizada pelas batidas do coração e da respiração. Despertaram no dia seguinte com uma barulheira danada no interior do apartamento. Eleanora e Judtih batiam panelas dentro do imóvel, berrando para que os noivos acordassem. Estava na hora de a filha ir para a mansão e Márcio ser cuidado pelo pai. Sem saber o que poderiam ver dentro dos aposentos de Angélica, as duas mães entram e surpreendem o casal já vestindo o roupão.

Todos saem e quando a arquiteta e o jornalista chegam a sala, vêm o amontoado de gente. Eleanora tinha colocados todos para dentro do prédio. Até a secretária estava lá. “-Mãe o que é isso? Que horas são”, pergunta a noiva.

– Horas de vocês dois se separarem e só se encontrarem amanhã no casamento. Deixa que Judith, Rogério e Roberto cuidam da roupa de seu noivo. Agora se arrumem.

Em menos de meia hora, Eleanora tirou a filha do apartamento e Márcio seguiu com seu pai, os dois irmãos, Ricardo e Roberto para o apartamento que era do jornalista. Lá chegando, o pai piscou para os filhos e começaram a sabatinar o noivo, querendo saber tudo e mais um pouco. Enquanto ele tentava desviar do assunto, começou a sair mulheres do quarto onde ele dormia. Rogério berrou: “- O filho de uma puta que fizer fotos, não sairá vivo daqui”.

Roberto também disse que as mulheres não podiam tocar no noivo. Se a futura esposa descobrisse uma marquinha diferente nele, se tornaria um eunuco logo depois da noite de núpcias. “- O Marzinho não pode ser tocado, mas ele pode tocar vocês”, disse Leônidas dando gargalhadas.

Durante o dia todo a festa rolou no apartamento do jornalista, enquanto na mansão a situação era a mesma. Eleanora contratou uns garçons que serviam os drinks só de cueca e gravata borboleta. Débora ficou de boca aberta quando viu tudo aquilo. “- Não é para tocar, só para olhar, pois você já encontrou a sua metade então não precisa de mais nada, apenas saber que isso tudo agora lhe é proibido”, ordenou a matriarca.

No final do dia, tanto no apartamento quanto na mansão, tudo parecia começar a voltar ao normal. As mulheres não voltariam para as suas casas. Eleanora queria todas lá para ajudar a filha se arrumar. “- Mãe! Marzinho quer coisas simples. Por favor, não vamos contrariá-lo”, dizia Angélica.

“- Depois que essa aliança mudar de mão, aí sim, minha filha, você pode até aceitar as manias dele, mas agora, não. Deixe Marzinho comigo. Quando ele chegar aqui, estará tudo pronto e não poderá dizer nada. Só casar e pronto”, disse Judith.

– Dona Judith, seu filho é temperamental. Se não for do jeito dele, é capaz de fugir.

– Eu pego ele de cinta, mas acho que os dois são assim, temperamentais. A tampa e o balaio. Agora temos a parte da noite e é só nossa. Uma festa à beira da piscina e todas sem roupa, mulheres.

No apartamento, quando Márcio pensava que tudo ia se normalizar, Roberto apareceu com outras mulheres. Arrastaram o jornalista para o banheiro, dizendo que iam dar o último banho de solteiro da vida dele. Encomendaram comida, tinha uma caixa de uísque para beberem. Quando o noivo fez menção de pegar um copo, Roberto vetou.

– Não se esqueça! Amanhã, a noite é toda sua e de Angélica e ela não vai ter mais os chiliques de ciúmes. Não deixe ela tomar conta de sua vida, do contrário, não terá nem cueca para vestir. Se ela achar engraçado te ver vestido com as calcinhas dela, terá que usar.

Eram mais de meia-noite quando tudo sossegou no apartamento e na casa em que Angélica estava. As mulheres bem cansadas dormiram umas nos quartos de hóspedes, outras na sala.

A oficialização se daria às 10h, então todas tinham que estar acordadas por volta das 8h. A primeira a fazer o alarde de que o grande dia havia chegado foi Eleanora e Judith. Entraram pelos quartos batendo panela e assoviando. “-Acordem dorminhocas, temos um casamento para realizar daqui a pouco”, disseram as duas em uníssono.

A futura sogra de Márcio deixou todas se preparando, indo verificar como estava a arrumação para que os noivos trocassem as alianças. De forma inovadora, quem faria isso seria as duas mães, como aconteceu na terça-feira, quando uma colocou a aliança no dedo do outro nubente.

No apartamento, quando Márcio viu a roupa que era para usar, teve um surto. “- Quem trouxe essa porra de roupa para cá? Eu não vou usar essa merda. O casamento é meu e não quero nada de rococó. Era para ser algo simples e rápido. Olha só no que vocês transformaram isso: num circo”.

Ao ver o irmão exasperado, Leônidas disse que era coisa de Judith e da futura sogra dele. “- Meu irmão. Você sabe como é a nossa mãe. Gosta de estar no controle de tudo e ainda juntou com aquela bacana. Agora tu nem imagina como Angélica estará vestida”.

– Vou ligar lá e acabar com toda essa palhaçada.

Rogério chegou e deu uma dura. “-Seu merda! Quando na vida vai dar uma alegria dessas para a sua mãe? Deixa de ser idiota. São apenas uns minutos para agradar aquela que te carregou no bucho. Deixa de ser egoísta. Achei que tivesse virado homem. Está parecendo uma maricona. A tua noiva é linda e não quer vê-lo dando chilique. Então para de fricote e veste logo essa porra roupa ou vai apanhar de cinta e vai pra lua de mel com a bunda toda marcada”, lhe o pai para alegria geral dos amigos.

– Desculpe-me pai. O senhor tem razão. Não me custa nada ver e sentir minha mãe feliz.

– Moleque. Ela está para cá faz quase um mês e tu quer ficar de fricote porque tem que ser do seu jeito. Você não vai se casar mais. Essa é a única vez. Aquela galega é doida por ti. Então coloca logo essa porra de roupa aí e rápido.

Quando faltavam meia hora para o início da cerimônia que era para ser simples, pois teria apenas o pessoal do cartório que oficializaria a união dos dois, todos estavam prontos, exceto o noivo. “- Mas é uma maricona esse seu irmão. Leônidas apressa a moça aí. Diga-lhe que quem se atrasa é a noiva e não o noivo”

– Pronto pai! É que estava nervoso.

– Tinha que ter ficado nervoso quando aceitou se casar com ela. Agora a coisa vai com mais serenidade.

Assim que Márcio apareceu na sala, todos saíram do prédio. Ao vê-lo chegando na mansão, Judith abriu um largo sorriso. “-Ficou lindo esse meu filho”.

Quando ia dizer que não havia gostado do jeito que estava vestido: calça jeans, gravatas e terno, Rogério olhou para ele, indicando que era por algumas horas. Ao chegar na área onde trocarias as alianças, o jornalista viu aquele amontoado de gente, quis fugir. A mãe lhe sentindo a pressão, beliscou-o, como para estimulá-lo a seguir em frente.

Tudo tinha sido organizado sem a participação dele e de Angélica. As duas senhoras sabiam que se eles soubessem, não aceitariam. Então enquanto os dois brigavam por coisas bobas relacionadas ao ciúme dela e as criancices de Márcio, Judith e Eleanora arrumaram tudo, inclusive a lista de convidados. O noivo não queria ninguém, mas quem disse que sua mãe se importava com a sua opinião. Os desejos de Judith foram corroborados pela mãe da noiva.

Ao ver a noiva vindo em sua direção, o jornalista não teve dúvidas de que iria até o fim do mundo por conta do amor que lhe sentia. Ela estava com um vestido em tons de laranja claro e verde esmeralda. Ele a olhou como a tinha visto da primeira vez em seu apartamento e ela sentiu se esmorecer, o sangue esquentar e o ar querer lhe faltar. Por mais que a noiva pedia mentalmente para o amor de sua parar de olhá-la daquele jeito, ele não conseguia evitar. Era como se a estivesse desnudando, a deixando em brasa.

O cerimonial não demorou mais do que meia hora e Eleanora repetiu o gesto do noivado, colocando a aliança com o nome de Angélica no dedo de Marcio e Judith no dedo de Angélica a que continua o nome do jornalista. Depois foram todos cumprimentar o casal. E não teve como o agora esposo fugir das fotos. Ele sabia que na segunda-feira aquelas imagens estampariam os jornais da cidade e da região, inclusive nas emissoras de televisão.

Márcio e Angelica falaram com Amadeu e Tarsila através de uma chamada de vídeo. Todos os convidados assistiram o diálogo e puderam conhecer a esposa de Amadeu e compreender porque ela tinha virado a cabeça do poeta. “- Já que todos os convidados do casamento de minha irmã estão nos olhando, quero apresentar a todos a minha adorável Rainha. Aquela que reinará até o fim da eternidade dentro do meu coração: Tarsila”.

Eleanora não se conteve e perguntou à nora quando voltariam ao Brasil. A tradutora disse que assim que o patrão a transferisse ao país. “-E quem é seu patrão? De repente eu o conheço”, perguntou a mãe de Amadeu. Tarsila responde, dando uma gargalhada: “- Esse ser aí que está se tornando seu genro agora. A pessoa responsável por fazer com que eu e o meu poeta estejamos tão felizes aqui ou em qualquer lugar do Brasil, dona Eleanora”.

“- Então vai ser fácil, minha querida Tarsila. Pode deixar que logo, logo vocês estarão por aqui e olha lá hein, quero netos para breve”, disse a matriarca sem saber o que o casal iria apresentar em seguida.

É Amadeu quem apresenta o resultado dos exames laboratoriais, confirmando que serão pais. “- Os padrinhos já foram escolhidos: minha irmã e o marido dela e não adianta dizerem que serão padrinhos de outra criança”. Ao saber da notícia, a sogra de Tarsila fica imensamente feliz.

– Tudo bem Tarsila e Amadeu, não posso falar por Angélica, mas quanto a mim acolherei com muito prazer o filho de vocês como afilhado. E quanto a sua transferência, será providenciada imediatamente. A vovó coruja quererá acompanhar essa gravidez de perto e no que está imensamente correta. Parabéns ao casal.

Depois de posarem para as sessões de fotos, Márcio e Angélica foram trocar de roupa para ficarem mais à vontade diante dos executivos da empresa. Oportunidade em que Angélica aproveitou para apresentar Roberto como o novo diretor de comunicação. Ao ser interrogada sobre a lua de mel, a noiva respondeu que só iriam pensar nisso durante a semana. Primeiro precisava organizar tudo nas empresas e no seu escritório de arquitetura.

“- Talvez não viajaremos para longe, até porque acabamos de retornar da Alemanha, então não tem sentido viajar novamente”, explicou o marido de Angélica. “- Mas quando decidirmos, avisaremos”, finaliza Márcio.

Angélica chama Roberto para conversar. “- Não sei se conseguirei chegar cedinho nas empresas, mas já está tudo organizado para você iniciar logo pela manhã. Tem uma sala já com o seu nome na porta e eu, sem te consultar, coloquei Fernanda como sua secretária. Sei que se Danisa souber disso, subirá pelas paredes, contudo, só fiz isso para a Fê começar de algum ponto, mas amanhã mesmo vamos ver em que lugar será útil para todos nós e para ela mesma. Pelo jeito que Ricardo olha para ela, não sei não, creio que desta vez ela entra na linha”.

“- Ela só fala nele. É Rick para cá, Rick para lá. Já até deu apelido para o moçoilo”, afirma Roberto.

– Roberto. O que ele faz mesmo?

– Disse que é designer gráfico.

– Ótimo. Precisarei dele na editora para fazer as capas dos livros. Chame ele aqui.

Enquanto Roberto foi buscar Ricardo, Angélica fita o marido com os olhos mais brilhantes do que o esposo já tinha vista antes. Ele lhe pergunta se havia algo de errado. A arquiteta responde que só estava conferindo para saber se de fato Márcio era real, ou estaria vivendo um sonho.

– Aqui é real, mas há também a ficção, mas está só pode existir se o real estimular a mente criativa do poeta. Então tudo o que consta nos livros, novelas, romances, pode ter certeza, meu amor, tem muito do concreto e do desejo de quem escreveu o texto torná-lo real através do ficcional, pelo menos para quem está lendo.

– Amor! Fico imensamente feliz por saber que, apesar de parecer utopia, isso que me disse, sei que é o seu desejo com a editora. Levar leveza, prazer e entretenimento para aqueles que lerão as obras que você e sua equipe lançarão.

– É! Pode ser um misto de utopia e um quantum de realidade. Não é tarefa fácil ser editor de livros num país de analfabetos, em que as pessoas acham sacrilégio comprar uma obra e passar horas agradáveis em companhia de significativas personagens. Mas o que eu seria se não acreditasse nos meus sonhos e no amor que eu tenho por ti?

– Queria estar mais inteira contigo nesse seu projeto.

– Amor! Você tem os seus e defenderei eternamente o direito de tê-los. O seu escritório de arquitetura, suas empresas e agora temos que organizar essa fundação que deverá funcionar aqui na mansão. Sua mãe me disse que quer morar num apartamento pequeno. Isso até saber que será avó. Agora eu já não sei mais de nada.

Ricardo apareceu, mas não sozinho. O que valeu um sorriso de Angélica. Márcio conversou com ele e propôs o trabalho não em tempo integral, mas por obra. “- Não posso assumir esse compromisso contigo, porque estamos no começo, mas como trabalha em outra empresa, essa posso ser uma forma de você aumentar a receita e fazer o seu pé de meia, porque do jeito que a minha amiga te olha, não vejo saída para ti que não seja colocar um desses objetos nos dedos. Eu e Angélica queremos ser padrinhos de uma união desse amor.

Fernanda ficou toda corada e Ricardo olhou para o chão. A arquiteta tirou ela do meio da conversa e disse: “- Agora saberá o que sinto pelo seu amigo”. Sem pensar, Fê responde: “- Eu já sei. Eu percebi isso naquela noite do nosso jantar. Fiquei completamente sem chão ao perceber que se ele não aparecesse subiria pelas paredes. Obrigado pela sua amizade e compreensão. Por conta de minha infantilidade quase estraguei a sua felicidade”.

Ao escutar chamarem o seu nome e o de sua esposa, Márcio a pegou pela mão e foram ao local onde o almoço seria servido. Antes de saírem, Ricardo agradeceu a oportunidade. “- Assim que começarmos a ficar em pé, com certeza te contratarei para se efetivar na editora”, informa o editor.

Quando chegaram no espaço destinado às comensalidades, Eleanora pede a palavra para falar um pouco sobre aquele momento em sua vida. “- Prometo ser breve, pois sei que se demorar muito vossos estômagos devorarão os órgãos adjacentes. Hoje o dia me é duplamente maravilhoso. Primeiro, porque a minha filha está se casando com o homem que ama e fez loucuras que vocês nem queiram imaginar para tê-lo do seu lado como marido a partir de agora. Segundo porque serei avó e esse fato tem ligação direta com o meu genro. Numa noite de segunda-feira, feito uma mosca de bar, ele entra num boteco para afogar as diversas mágoas que trazia dentro d’alma, mas acabou cruzando o caminho de um poeta que também estava no mundo da lua por ter o seu amor incompreendido pelos pais.”

Todos olhavam para Márcio, enquanto Eleanora prosseguia no seu pequeno discurso. “- E não é que esse jornalista que lançará sua editora em breve, conseguiu o que ninguém havia tentado: se tornou amigo daquele poeta e tudo porque queria publicar umas matérias sobre ele. Entre uma matéria e outra, eis que aparece a irmã do escritor querendo protegê-lo da sanha jornalística desse homem que é chamado carinhosamente pelos seus familiares de Marzinho, mas que não é um pequeno Mar, mas um oceano de integridade. Não é perfeito, ainda bem, porque se fosse seria um tremendo pé no saco. Eu mesmo já andei dando uns puxões de orelha nele. Obrigado Márcio por me auxiliar a enxergar e entender que nem tudo o dinheiro pode comprar”.

Quando os convidados estavam se movimentando nas cadeiras, a matriarca finaliza seu pequeno discurso: “- Sei que esses dois têm uma longa jornada pela frente. Minha filha não é fácil e pela convivência que tive com o marido dela, o homem aí não é flor que se cheire, mas tem algo importante: um amor incondicional pela minha Angélica. Agora podem servir o almoço”.

Angélica olhou para a mãe e a abraçou. “- Obrigado mãe. Te adoro.”

– Filha quero que saiba contornar as situações adversas. Seu marido estará sempre do seu lado e os familiares dele também. Está começando uma nova etapa em sua existência.

Eleanora pediu para conversar pessoalmente e a sós com Márcio. A filha estranhou, mas deixou sogra e genro à vontade para conversarem. “- Meu rapaz, tenho uma enorme dívida contigo e sei que dinheiro nenhum no mundo pagará. Também sei que não me perdoará tão cedo pelo modo grosseiro como te tratei a primeira vez que te vi. Mas sou gratíssima por ter me devolvido meu filho e agora, com um grande presente: meu neto. Eu sei que você e Angélica vão demorar para ter filhos, pois ela precisa estar mais inteira, equilibrada com relação ao passado que você está ciente. Mesmo sem o seu perdão, vou te dar um presente e não aceito não como recusa.

– Eleanora! Não perdoou da boca para fora, mas sim da boca para dentro. E se eu não tivesse te perdoado, com certeza não teria me tornado seu genro. A porrada que me deu naquela noite no apartamento de sua filha, arrancou de dentro de mim um medo terrível de ser feliz e um apego excessivo ao passado. Entendo que o perdão não vem com palavras, mas ações e espero que tenha percebido isso. Eu sei que trabalhou muito para que eu e meu pai nos reconciliássemos. Sendo assim, como eu poderia guardar magoas de uma pessoa que agia daquela maneira por conta de hábitos que agora teve a chance de os modificar.

– Obrigado meu querido pelas palavras. Quando naquele almoço a Keka te defendeu, entendi que você era especial para ela. Quando atravessou o estado para te procurar no Pontal, percebi que devemos sempre observar primeiro, antes de julgar e condenar.

– Sou grato por ti ter me recebido tão bem como genro e também minha família e se tornado amiga de minha mãe.

– Bom! Deixe-me ser direta. Olha lá sua esposa te olhando. Se demorar mais um pouquinho ela já vem saber o que tanto quero contigo.

Os dois deram gargalhadas da colocação dela. “- Amanhã farei um aporte financeiro à sua editora. Ela não precisa ser grande no início, mas uma pequena que se aguenta em cima das pernas. É preciso saber ser pequeno para quando se tornar grande, não seja arrogante. Aprendi isso com um certo jornalista. É o meu presente de casamento para você e para a minha filha. Te amo, meu jovem. Obrigado por ensinar mais um pouquinho a essa velha que teve mais emoções nos últimos 90 dias mais do que em toda a vida dela”.

Angélica não aguentava mais esperar e já chegou perto da mãe agarrando o marido, evidenciando o que o esperava. Não desgrudaria dele. Márcio entendia bem o comportamento dela, mas sabia que teria muito trabalho para controlar aquele ciúme todo. “-Posso saber o que meu marido tanto conversa com a minha querida mãe”, pergunta a arquiteta.

– É sobre o meu presente de casamento ao Márcio. Como sei que é um homem de hábitos simples, o que me torna sua admiradora, resolvi fazer um aporte financeiro na editora dele. Assim, não precisará ficar quebrando a cabeça enquanto faz a empresa caminhar, ainda mais nesse ramo de livros num país de poucos leitores.

– Obrigado mãe. Agora posso ficar uns minutos a sós com meu marido?

– Não sei por que a pressa. Vai passar a eternidade ao lado dele.

Todos riram e Judith se aproximou pedindo: “- Me falem, quero rir também. Esse moleque que não para de me surpreender. Eleanora obrigado pelas palavras dirigidas ao meu filho”.

– Judith estava conversando com Marzinho sobre o meu presente para ele. Aí fica a critério dele se te fala ou não.

– Ele não vai falar, mas também não precisa. Eu estou vendo pelos 0olhos dele como sua alma está em festa e como essa mocinha amalucada o faz imensamente feliz. Quero vocês em minha casa um final de semana. O ambiente é pequeno, mas podemos ajeitar as coisas.

“- Mas quem disse que a senhora vai embora agora”, pergunta Márcio. “- O poderoso doutor Rogério e meus irmãos que voltem sozinhos. Quero-a aqui mais uma semana. Eu e Angélica só vamos para a fazenda no próximo domingo e, aí sim, eu deixo a senhora voltar para os braços do senhor meu pai”, disse o editor para a sua mãe.

Angélica o puxa para um lado. “- O que foi amor”, pergunta à mulher. “-Saudades dos seus beijos”, responde a arquiteta já beijando o esposo quando sentiram um flash de um fotografo que registrava a cena.  Quando o jornalista fez menção de falar com o repórter, a esposa lhe disse: “- O mundo precisa saber o quanto estou feliz contigo e como sou louca por ti e seus beijos, meu amor”.

Depois chegaram os irmãos e Esdra já foi perguntando a Angélica sobre a sua secretária. “- Achei que eu é quem deveria ser o centro das atenções”, disse a arquiteta ao irmão mais novo de Márcio.

– Você até o fim eternidade será o centro gravitacional do meu irmão mosquito. Mas a sua secretária bem que poderia encontrar outras estrelas, ou quem sabe um astro-rei que estava passeando por aí a esmo e se esbarrou na beleza dela.

– Não sabia que meu cunhado era poeta. Tenho um irmão poeta. Então entrei para a família certa. Mas, mudando de assunto, diga isso para ela ou tu és como o Marzinho, tira a roupa da mulher sem colocar as mãos nela?

“- Como é isso? Não sei do que está falando”, indaga Esdras.

“- Mas eu sei muito bem e ela também sabe, então não faça de desentendido”, sentencia Angélica.

– Você sabe Marzinho?

– Do quê?

– Da secretária de sua mulher. Não consigo parar de olhar para os lados onde ela está. Até parece uma estrela cadente que me encanta a cada passagem. Mas não sei como me aproximar dela.

“- Ela já te viu ou são coisas de sua cabeça”, pergunta Márcio.

– Eu perguntei aqui para a tua mulher, mas ela não disse nada.

– Meu querido Esdras. Você sabe que eu nunca fui mulherengo, mas acho que não pode ser atirado. Pedi para dona Judith ficar aqui mais uma semana até eu ir para a minha lua de mel. Fique com ela e podemos ajeitar um jantar em nossa casa, pois Angélica quer passar umas coisas para ela. Lógico que dona Judith não vai te deixar ir sozinho e se Judith for, dona Eleanora vai. Então já sabe. Tem uma parada dura pela frente. É pegar ou largar. Não quero ninguém com conversa de azarar mulheres.

– Está certo irmão. Vou seguir o seu conselho, mas Angélica arruma um jeito deu conversar com ela ainda hoje.

Sem dizer nada, a arquiteta sinalizou para a secretária que chegou rapidinho onde ela e o marido estavam. Começaram a conversar e do nada ela falou que precisava apresentar o Márcio para um diretor e saiu com o marido, deixando Esdras com Débora.

“- Por que deixou meu irmão lá com a Débora”, pergunta o marido.

– Teu irmão já é bem crescido e se quer ficar com a minha secretária, precisa fazer a parte dele. Ela já tinha notado ele. Ficou a festa inteira me perguntando dele e isso e aquilo. Débora queria que eu arrumasse um jeito dela conversar com o seu irmão. Pronto o jeito foi dado.

Enquanto caminhavam em direção aos convidados, Márcio deu um jeito de desviarem o caminho e foram para um espaço em que não tinha ninguém. Encostou a esposa na parede, deu uma mordiscada na orelha dela dizendo: “- Isso é porque tu estavas linda naquele vestido. Se soubesse como ficou meu coração aqui dentro do peito. Percebi como às vezes fui infantil ao não te entender direito e quase te perdi”.

– Amor! Eu poderia fazer qualquer coisa, menos não estar aqui contigo, como agora. Estou louca para terminar tudo isso e poder me sentir de fato sua esposa. Eu sei que o nosso amor é enorme, que teremos problemas. Não quero viver um conto de fadas e foram felizes para sempre. Isso não existe, mas quero ter sabedoria para contornar as nossas adversidades. Não sou inocente ao ponto de achar que não teremos que enfrentar o racismo de muita gente que dizem não ser racista, mas na primeira oportunidade externam a sua ignorância.

Ambos se abraçam e quando se beijavam mais profundamente, Eleanora e Judith aparecem. “- Encontramos os dois. Seus fujões. Deixem para fazer isso na casa de vocês. Aqui está cheio de convidados e querem a atenção do casal”, diz Eleanor.

Judith chama atenção do filho. “- Não precisa pressa. Terão a eternidade para se transformarem num só corpo, como é desejo de suas almas. Tem visita nova para os dois”.

“- Já não estava todo mundo aí”, pergunta Márcio aborrecido.

“- Não! Faltavam uns primos seus que moram aqui perto e precisavam chegar um pessoal das empresas de Angélica e as sócias dela apareceram”, explicou Judith.

“- Isso foi arte de quem, dona Judit”, pergunto o marido de Angélica.

“- De nós duas”, afirmou Eleanora em tom de afronta. “- Terá que bater em nós duas”. Nisso chega Rogério. “-E se relar a mão na sua sogra e na sua mãe, te pego de cinta moleque e vai para a noite de núpcias com a bunda marca pelas cintadas. Agora vamos lá receber seus convidados. O que querem fazer, podem esperar. Terão a noite toda”.

Todos caíram na gargalhada e foram recepcionar os novos convidados e atender a curiosidade de suas sócias no escritório de arquitetura. Quando olharam para o marido de Angélica ficaram espantadas e uma delas disse baixinho no ouvido da empresária: “- Onde você encontrou esse homem belo, não tem mais”, pergunta Ana Maria.

Angélica nem se ocupou em responder. Optou por dizer que elas ficassem à vontade. Iria conversar com uns parentes de Márcio que acabavam de chegar. Uma das amigas de Maria Helena, lhe disse: “- Com tanto dinheiro, você foi escolher um preto para ser seu marido? Com tanto homem maravilho que sua grana pode trazer para sua cama”.

A arquiteta não respondeu nada. Saiu e voltou em seguida com um segurança e pediu para ele colocar a convidada para fora da festa. “- Ela não é bem-vinda em minha casa. Pessoas que falam mal dos convidados e do meu marido, não são dignas de compartilhar nossos momentos”.

Quando Lúcia ia saindo, Maria Helena quis saber o motivo. “- Melhor perguntar à sua amiga racista e, se você pensa como ela a respeito do meu marido, amanhã posso comprar a sua parte na empresa e presentear a minha secretária que é preta com muito orgulho”.

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