Sobras de um amor… parte II

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         Enquanto o veículo percorria a distância entre a casa de Fernanda e o apartamento de Angélica, a arquiteta quis saber mais da relação dos três. Durante o noivado observou como Márcio e Roberto se revezavam na marcação sobre a amiga e no irmão de Débora.

– Por que agiram assim com ela? Precisava ser desta forma? Não tinha outro jeito?

– O rapaz me pareceu ser sensato, mas se deixarmos por conta dela, joga tudo pelo ralo. Ela tem pressa em achar a pessoa certa e antes de conquistar o coração do outro, ela quer convencê-lo pelo sexo. E está na hora dela parar com isso, afinal já vai fazer 30 anos.

– O quê? Fernanda fará 30 anos? Eu não dava mais de 25 anos.

– Ela tinha essa idade quando a conhecemos, ou melhor, eu a conheci de maneira desastrada. Estava sentado no mesmo barzinho de sempre. Só que lendo um livro e quando estiquei a perna, ela acabou tropeçando nela. Do jeito que é desbocada, me xingou de tudo e mais algumas coisas. Eu pedi desculpas e segui lendo o meu livro. No dia seguinte, uma segunda-feira a encontrei na fila do banco e ela me chamou de o perneta leitor. Começamos a rir.

– Você nunca se interessou por ela?

– Não! Ela tinha um cara, depois outro e vivia me falando deles e que nenhum prestava. Todos eram uns frouxos. “- Tipo você assim”, disse ela e acabamos rindo e as nossas águas foram buscar outras paragens. Eu encontre a minha e não deixo mais e parece que Ricardo é o tanque em que ela pode finalmente ser feliz e sossegar aquele coração ansioso.

– É! Meu ciúme não deixava ver como ela é encantadoramente doida, varrida. Mas não tem maldades, não tem ambição assim como você. Acho que o mais ambicioso é o Roberto.

– Roberto? Ele vai aceitar o emprego para sossegar a Danisa. Ela é osso duro de roer, mas morre de amores por ele. E vem um filho aí, então, não se pode dar ao luxo de entrar na minha empreitada. Eu ainda tenho o dinheiro daquela famigerada indenização que me arranjou e minha mãe que pode me dar um respaldo. Ele não tem ninguém. Foi criado por um casal de tios que deixaram bem claro que depois da Universidade era ele e o mundo.

– Fico feliz em poder dar um pequeno norte a ele, a esposa e o filho. Quanto ao senhorito, poderia fazer muito mais, mas sei que não é do seu feitio misturar amor e profissão.

– Amor! Você já me deu hoje um significativo presente. O seu coração, sua amizade, a confiança no meu profissionalismo e estamos dando os primeiros passos em nossa vida sexual. O que mais eu poderia querer?

Chegaram ao apartamento de Angélica que seria também a morada definitiva de Márcio a partir do domingo, quando os dois tornar-se-iam esposos. Antes de mesmo de deixarem o carro, o editor abraça a noiva, a beijando ternamente e quando ia passar para carícias mais ousadas, a empresária lhe conteve o ímpeto.

– Amor! Por que fazer aqui, se podemos esperar mais uns segundos e estaremos em nossa Torre da paixão?

– Você tem razão, minha adorável arquiteta, mas é que agora ninguém pode nos separar. Seus ciúmes devem estar sobre controle e os meus mais equilibrados ainda. Você está lindíssima nesse vestido laranja. Só não fui mais além no jantar por conta dos convidados.

“- E eu não senti a pressão no meio dessas pernas divinas que meu neguinho tem”. Ao dizer isso, Angélica lhe aperta o membro, experimentando toda potência e força que Márcio carregava ali junto à cabeça de baixo. “- Será que a de cima aguanta esperar mais um pouquinho”, perguntou a empresária.

O noivo anui com a cabeça, saindo do automóvel no mesmo momento em que a arquiteta deixou o assento do motorista. Fecha a porta, pegando rapidamente na mão do editor que a observa novamente. Angélica não resiste, fazendo um comentário incendiador.

– Se me devorares assim novamente, treparemos aqui mesmo no estacionamento. Então pare de me comer com os olhos. Espere-me que também quero te degustar inteirinho, meu neguinho delicioso.

Entraram no elevador e desta vez foi Angélica que partiu para o ataque, beijando-o avidamente, se esfregando, passando a mão por boa parte do corpo do noivo, mordiscando a sua boca e dizendo baixinho dentro do ouvido do amado: “-Quero-o todinho dentro de mim. Quero minha buceta devorando tudinho isso que guardastes só para mim, meu amor”.

Ao ouvir isso, Márcio está prestes a explodir, quando chegam no andar em que está o apartamento da arquiteta. Saem apressadamente e caem no sofá com Angélica indo por cima e Marcio beijando-a, massageando as partes da bunda da noiva que vai ao delírio com a ação do noivo que avança nas carícias. Seguindo nas ações, o jornalista retira lentamente as alças do vestido de Angélica que começa também a tirar a parte de cima da roupa do editor. Primeiro o blazer e em seguida, ela arranca a camisa, espalhando botões por toda a sala.

Quando Márcio olha para o sutiã da amada, fica com os olhos arregalados, pois ela usava um com as cores dos seus olhos quando estes estão bem esverdeados como as esmeraldas. “- Gostou”, pergunta Angélica, dizendo que aquela noite será para responder uma pergunta formulada por eles, semanas atrás relativa à cor dos olhos e os tons de laranja que o Sol tinge o céu nos finais de tarde.

O repórter responde que adorou e continua acariciando o corpo de Angélica que responde aos toques e massagens recebidas das mãos de Márcio. Enquanto ele é todo delicado, ela já é mais atirada, mordiscando, beijando, apertando o membro do editor que está a cada momento mais excitado e ela também. Quando o noivo começa a massagear o sexo dela, usando dois dedos da mão, Angélica explode num orgasmo incontrolável, se agarrando mais ainda ao corpo do amado que continua, a deixando mais sensível e apaixonada. Angélica olha firme para o noivo, pedindo que ele continue a fazer o que está fazendo. Em que questão de segundo, a arquiteta deixa a terra novamente.

Respiração acelerada, coração disparado e ainda assim, suspirando ela pergunta ao jornalista: “- Amor! O que é isto? Me deixou completamente extasiada. Quero mais, sempre mais”, disse encantada a arquiteta, sem saber que tinha mais. “-A nossa noite só está começando, meu amor. Você merece mais do que isso. Te amo de paixão”, afirma Márcio a beijando novamente.

A empresária deitada em seu peito, suspirando. lhe afirma. “- Isso porque você me falou que o sexo é apenas uma parte do relacionamento entre duas pessoas e não a principal. Imagina então do que tu serias capaz se o colocasse em primeiro lugar”.

Após lhe beijar, a noiva pede que se dirijam ao quarto. Ao se levantar o jornalista observa que a camisa estava com todos os botões arrancados. “- Olha o que fez com os botões”, mostra os objetos espalhados pelo chão. “- Quem mandou meu neguinho ser tão delicioso”, afirma Angélica, o puxando para o quarto. Chegando lá, empurra Márcio para a cama, dizendo: “- Amor, deixa eu tentar lhe dar um pouco do prazer que me destes no sofá”.

Quando ela tira o vestido laranja, ele pode ver sua roupa íntima composta pelo sutiã que já tinha visto quando retirou a alça do vestido e ao olhar a calcinha, ficou mais passado de tesão. Uma minúscula tanga também da cor da parte de cima. “-E agora? A combinação responde aquela sua pergunta, meu amor”, interroga a arquiteta, se deixando cair do lado e subindo ele, fazendo movimento de vai e vem enlouquecendo o noivo que sente o coração querendo sair pela boca.

Quando ele tenta se movimentar para acariciar os seios da amada, ela o repele: “- Agora é comigo. Só vou parar quando esse braseiro que tu tens no meio das pernas, esfriar”. Antes de terminar de dizer, Angélica está beijando, mordiscando a boca, o rosto e o tronco e Márcio aproveita a oportunidade para voltar a massagear o sexo da noiva que, pega de surpresa, inicia um rebolado nos dedos de Márcio e se esfregando no pênis entumecido dele.

Com os olhos gaseados, a arquiteta tem outro orgasmo mais intenso do que os dois anteriores. Automaticamente, se vira para abrir o zíper da calça que Márcio está usando e este aproveita para lhe abaixar a calcinha e puxar o sexo da noiva até sua boca, iniciando uma nova carícia. Angélica não aguenta e arfa de prazer. “- Quer me matar, paixão? Não pare, está muito bom. Delicioso amor”, choraminga de prazer a noiva.

Márcio, sem mandar aviso, passa a língua por toda a extensão dos lábios vaginais de Angélica e ao acariciar o ânus com os dedos, ela explode em novos orgasmos, desabando do lado do noivo. “- Amor! Se continuar assim, não conseguirei te dar prazer. Eu nem consegui chegar ao seu pau e já perdi a quantidade de vezes que me fez gozar”.

“- Se você estiver tendo prazer, eu também estou. É uma relação de troca. Eu dou e recebo ao mesmo tempo”, disse Márcio, subindo sobre a noiva, inclinando em direção ao rosto, a beijando. Se aproximando do ouvindo disse suavemente: “- Tanguinhas verde esmeralda combinam muito bem com os olhos de minha amada e o vestido tingindo de laranja pelo nosso astro-rei, mais os detalhes esmeraldinos me enlouqueceram, antes mesmo de deixar o apartamento para irmos ao nosso jantar de noivado”, disse em pleno êxtase o jornalista.

Márcio volta a se deitar do lado e fica olhando a aliança em seu dedo. “- Só sairá daqui para a outra mão no próximo domingo”, falando como que se dirigindo para o adorno no dedo e a noiva responde que se depender dela, ficará lá pela eternidade. Enquanto dizia isso, entre um beijo e uma mordiscada, a arquiteta abria o zíper da calça do amado. Ao tocar com a mão esquerda o falo de Márcio, ela se surpreende com o tamanho. “- Amor! Ele parece maior do que das outras vezes”.

– Não! É que você está sentindo toda a pulsação dele.

A empresária usa as duas mãos para acabar de arrancar a calça e cueca do noivo, deixando seu membro completamente livre. Sem dizer nada, ela começa a beijá-lo lentamente até colocá-lo na boca e o noivo volta a se dedicar a vagina dela, fazendo massagens com a língua e os dedos. Quando Angélica estava para gozar, aumenta o movimento no pênis do amado que também está prestes a explodir, mas segura o orgasmo e a noiva explode num novo gozo, sabendo que o noivo tem em mente. Ela se vira, sentando no membro de Márcio que deixa que ela dite o ritmo. O jornalista ainda aguenta umas 15 estocadas dada pela empresária, mas acaba ejaculando na vagina da amada que atinge o orgasmo mais uma vez.

Ainda sentido o membro de Márcio dentro de si, Angélica se deita sobre o corpo do editor e chorando, agradece aquela noite de amor proporcionado por ele. “- Por que está chorando amor”, pergunta o noivo. “- Por que achava que não ia conseguir trepar contigo, mas agora estou vendo que posso ir mais além. Eu só preciso apagar de minha mente coisas que não tem mais sentido e me concentrar aqui contigo”, explica Angélica.

Márcio se limitou a abraçá-la, enquanto ela dizia “- Amor! Prometo de amar sempre”. O jornalista responde de forma bem simples: “- Não prometa, meu amor, apenas me ame como estou te amando desde aquela manhã de domingo”, ao encerrar o que estava dizendo, ele a aperta em seu corpo, a fazendo estremecer de amor, paixão, segurança.

Ficaram em silêncio por cerca de 10 minutos, quando o telefone dela toca. “-Alô! Mãe! O que foi”, pergunta a arquiteta a Eleanora.

– Só liguei para saber se está tudo bem com vocês e se está feliz. Agora noiva e prestes a se casar com a pessoa que virou seu mundo de cabeça para baixo, acho que pode se acalmar.

– Eu sei o que a senhora quer saber. E estamos bem sim. Ele está aqui do meu lado. Vamos tomar banho e dormirmos. Amanhã tenho sessões com minhas terapeutas à tarde e à noite podemos jantar juntos aí na mansão. Veja com Judith se pode fazer aquela chamada de vídeo com o pai do Marzinho. Pode ser antes ou depois do jantar.

– Está bem filha. Parabéns. Estou muito contente em te sentir feliz. Tenho certeza que Márcio é uma pessoa compreensiva e te ajudará nessa transição toda.

– Mãe! Hoje foi maravilhoso, mas eu não posso garantir amanhã e que a rotina será sempre assim.

– Uma coisa de cada vez. Os dois precisavam disso para acalmar o coração e você ter certeza de que ele não te deixará e nem que o sexo será tudo entre vocês dois.

– Obrigado mãe. Diga a Judith que está tudo bem conosco e que o filho dela é um amor de pessoa. Não estava errada em brigar por ele e fazer tudo o que fiz. Ele cuidará de mim, tenho certeza disso dona Eleanora. Amanhã ficaremos em casa pela manhã. Se sairmos, será apenas para tomar café. Tchau.

Ao desligar o telefone, Angélica sentiu uma mãozinha explorando-a em lugares que estavam sensíveis. “- O moço não acha que já me levou para passear na Via Láctea inteira hoje? Não tenho mais forças. Se gozar novamente, terei um sincope. A mente quer mais, mas o corpo pede cama. Orgasmos intensos requer descansos na mesma proporção. Vamos tomar banho e dormirmos. Tenho terapias a tarde e quero que o senhor venha comigo”.

Angélica se levanta, indo ao banheiro, tendo Márcio como parceiro. Entram no chuveiro e ambos ficam olhando as alianças, feito dois adolescentes que colocam os adornos para indicar ao mundo que estão compromissados. Só que ali, ele tinha 35 e ela 33 anos, portanto, passaram muito tempo da época da adolescência, mas quem disse que precisa ter idade para se sentir como naquela fase mágica da vida. O mais importante era a magia que os envolvia naquele momento.

Ao deixarem o banho, Angélica o colocou para fora do quarto. “- Ué! Para que isso? Quer que eu vá dormir no quarto de hóspedes? Se for, já estou indo”, disse Márcio querendo rir, mas tentando fazer cara de sério.

– Pode ir. Eu não ligo. Só não posso te garantir que acordará amanhã com esse pau gostoso no meio das pernas. Quero que espere. Preparei uma surpresa para ti e assim que estiver pronta eu te chamo.

O editor entendeu, vestiu um roupão e foi para a sala. Sentou-se e ficou vendo os botões todos espalhados pelo chão, ficando de joelho para pegar um por um. Quando estava apanhando o terceiro, enxergou a sombra de Angélica. Ao levantar a cabeça, viu que ela estava vestida numa microcamisola  que ressaltava todas as suas curvas. A peça tinha tons verde esmeralda com detalhes em laranja. Com o reflexo da luz no corpo da arquiteta, Márcio percebeu que ela não usava nada por baixo. Por conta disso, não conseguiu segurar a ereção que foi observada por ela.

– Caralho amor! Mas que homem tarado. Já está de pau duro novamente. Está insaciável hoje.

– Não! O nome desse fenômeno é efeito Angélica.

Ao terminar de dizer isso, o noivo já estava abraçado a ela que pode sentir toda a sua virilidade.

– Meu amor! E se amanhã eu não conseguir repetir o desempenho de hoje. O que faço?

– Esperamos o outro dia. Não se preocupe. Vamos viver o agora. Adorei te dar prazer e ver o quanto você pode transmitir prazer para ti mesmo. Vamos lá. Tu estais linda nessa camisola. Obrigado por ter a escolhido para usar comigo.

Quando o casal entra no quarto, Márcio olha em cima da cama e vê um pijama da mesma cor e com detalhes semelhantes à vestimenta da empresária. “-Amor! Você realmente não existe. Te amo”

O casal se deitou, deixando apenas as luzes dos abajures acesas e bem fraquinha. Logo, em virtude do cansaço do dia e da união dos corpos que se encontraram para regozijo das almas, Angélica e Márcio adormeceram. Durante o sono, foram presenteados por uma chuva leve que caiu pelo resto da noite, se mantendo na manhã seguinte quando a dupla acordou.

O casal foi despertado por volta das 10 horas pelo barulho do celular de Márcio. Ele sonolento, atende a ligação. “- Alô! Oi Fernanda! O que foi? Me ligando a essa hora. Aconteceu alguma coisa”, pergunta o amigo.

– Sim! Marzinho. A cidade está em baixo d’água, mas acabei de receber flores do Ricardo! Meu amigo! Nunca me enviaram flores antes.

– Parabéns! Não entrega a xereca para ele, antes de fazê-lo merecer. Te adoro sua diabinha. Parabéns! Já falou para o Roberto?

– Já! Junto às flores veio um pedido para jantarmos, mas eu que decido o dia. O que acha?

– Diga que essa semana está muito corrido para ti. Você tem que ajudar no meu casamento e na mudança de casa do Roberto. Diga que Danisa está grávida e eu e você somos padrinhos. Assim terei tempo de levantar tudo sobre esse Ricardo. Eu sei que ele é irmão da secretária de Angélica. Assim que eu der o sinal verde, marque o dia.

– Mas e se ele desistir?

– Então ele não te merece, bem como o seu corpo.

– Obrigado amigo. E como está você e sua galega?

– No céu. Nos amamos e isso vai nos ajudar a superar certas coisas das quais você já sabe. Agora vai lá e aproveite a chuva e durma. Saia um pouco da tomada.

Ao desligar o telefone, Angélica abraça o noivo pelas costas e quer saber quem estava ao telefone com o seu amor.

– Era Fernanda. Está toda empolgada, o irmão de sua secretária mandou flores para ela e com pedido de jantar. Detalhe: ela é quem escolhe o dia. Lógico que não será hoje e nem amanhã. Precisamos saber mais sobre esse rapaz.

– Meu deus do céu, quanta proteção. Queria ser protegido assim pelo meu macho.

– Você já é mais do que protegida. É o meu tudo, meu céu, minhas estrelas, meu sol, minha vida. Enfim, tanto é que não vamos sair nessa chuva em hipótese alguma. Vem! Vamos dormir mais um pouco, depois veremos o que se tem para matar as fomes.

“- Fomes? Posso saber quais, meu marido gostoso”, pergunta a arquiteta.

– Prefiro não dizer no momento. Agora quero apenas ficar aqui deitado com a minha paixão, enquanto a chuva lá fora tira todo o pó do ar, deixando a tarde limpinha para nós.

A arquiteta voltou a deitar, puxando o noivo para perto de si. “- Vem aqui meu neguinho delicioso. Deixa eu sentir o seu cheiro, seu amor, sua luz, sua paz. Dê-me sua harmonia”.

Embalados pela música entoada pela sinfônica chuva daquela manhã seguinte ao noivado, Angélica e Márcio mergulharam novamente no silêncio da casa, sendo o sono conduzido pelas batidas do coração do casal. O acordar aconteceu por volta do meio-dia e desta vez o despertador foi o celular da arquiteta. Era a mãe querendo saber mais sobre os dois e se iriam mesmo jantar a noite com as duas. Judith estava falando com o pai de Márcio que, com muita relutância aceitou conversar com o filho por volta das oito da noite.

– Estamos bem mãe. Acabamos de acordar. Sairemos para almoçar e depois tenho terapia as duas e às quatro. Verificarei o que Márcio quer fazer, mas tenho certeza de que o endereço é a casa do Roberto. Estão cuidando daquela maluca da Fernanda. Não sabia que os dois pareciam seguranças dela.

– Está certo filha. Então espero vocês dois a noite. Precisamos acertar tudo para o casamento. Será no domingo e hoje já é quarta-feira.

– Mãe! Márcio não quer nada gigantesco. Apenas um cerimonial simples. Para que fazer festa para quem vai no dia seguinte falar mal do evento que participou.

– Sim. Mas os dois irmãos dele virão.  O mais velho trata a esposa. Quem está relutando é Rogério, mas vamos dobrá-lo.

Ao desligar, Angélica foi abraçada pelo noivo e já foi dizendo. “- Hora de deixarmos a cama, mocinho. Temos compromissos a tarde. Almoçaremos e em seguida vamos a terapia. Você fica me esperando lá e depois iremos à sessão das quatro da tarde.

– Nem pensar. Hoje eu não preciso ir. Então me deixe na casa do Roberto. E depois que terminar o primeiro encontro eu te pego lá.

– Mas as das quatro horas, quero que esteja comigo. Não abro mão disso, amor.

– Está bem!

Márcio entrou no chuveiro e Angélica foi em seguida. Ficaram um bom tempo debaixo d’água, se beijando, se olhando, se prometendo, se tocando, avançando os sinais, recuando, pois sabiam que se continuassem não teriam como cumprir com os compromissos da tarde. Então as promessas ficaram para a noite.

Novamente para se arrumar, Angélica colocou Márcio para fora do quarto depois deste estar pronto e aprumado do jeito que a empresária gostava. Nada de rococó, mas algo que a deixasse deslumbrante do seu lado. Quando ela o chamou na sala, estava com a mesma roupa daquele dia quando se conheceram. Pela cara que o jornalista fez, a empresário entendeu que havia acertado em usar aquele modelo e com os mesmos saltos que custaram R$ 1000.

Entraram no elevador, com o noivo em silêncio. Olhando para ela com cara de bobo, perdidamente apaixonado. “- O que foi? Nunca me viu assim antes”, pergunta a arquiteta.

– Já, inclusive vestida assim. Um dia para entrar para a história. Naquela manhã entra sorrateiramente em minha vida uma mulher que conseguiu me roubar de mim mesmo. Desde aquele instante não consegui mais parar de saboreá-la com os olhos de tão divina que era e agora o sagrado se faz humano para regozijo do meu coração. Só consigo dizer-te: TE AMO!

Angélica não sabia, mas pelo calor que sentiu no rosto ficou toda vermelha diante de tamanha declaração de amor. O jornalista acabara de recitar, não um poema, um verso, uma receita de bolo, mas uma ode ao que o seu coração sentia por ela. Entendeu que cada ato que fez desde aquela manhã de domingo a levou estar diante de uma pessoa singular, de atos espartanos, mas de um coração gigantesco.

Restou a arquiteta apenas chegar bem pertinho dele e dizer baixinho em seu ouvido: “- Também te amo muito meu neguinho lindo. Obrigado por seu amor e me fazer uma pessoa melhor para mim mesma”.

Almoçaram no mesmo restaurante. Rotina que começariam a partir daquilo dia, levando em conta os hábitos metódicos de Márcio. Angélica adorava aquela rotina. Lhe dava segurança, pois sabia exatamente onde ele estaria e o que fazia. Depois ela o deixou na casa de Roberto, dizendo que não precisava ir até o consultório. Ela o pegaria ali depois de uma hora e quinze minutos mais ou menos.

Naquela tarde no apartamento de Roberto, Márcio contou quem seria a nova moradora depois que eles voltassem para a casa deles. “- Quem Márcio?”,

– Nossa amiga Fernanda. Arrume um bom lugar para ela lá nas empresas. E o que sabe sobre Ricardo?

– De boa índole. Não é bandoleiro. É sério e ficou a noite toda falando de Fernanda com a irmã. Ela sabia pouca coisa, mas disse que era protegida por nós dois e que se fosse só por farra, era melhor nem começar nada, que inclusive poderia prejudicá-la no trabalho.

– Ela me ligou dizendo que recebeu flores dele hoje pela manhã. Pedi para segurar a onda um pouco. Se ele estiver interessado mesmo, virá falar conosco. Aí vamos chamá-lo para uma conversa a três.

Quando ouviu isso, Danisa surtou. – Vocês dois são dois mariconas. Entendo porque Fê disse que não se casaria com nenhum de vocês. Parecem dois irmãos mais velhos dela. Agora querendo encostar o cara na parede. Lógico que vai fugir”.

– Que fuja. Se não é homem para conversar conosco, não terá pinto para comê-la, disse Roberto.

Danisa saiu xingando os dois, mas entendia a situação. A Fernanda só tinha eles na cidade e estava na hora de sossegar o facho e arrumar um homem descente para chamá-lo de seu.

Angélica chegou dizendo: “- Voltei para buscar meu noivo. Será que Roberto o libera”, perguntou a arquiteta.

Antes que falassem alguma coisa, Danisa contou a ela o que os dois estavam tramando para cima do Ricardo. A arquiteta já antecipou. “- Falei para irmã dele agora a pouco para abrir o olho do irmão que se fosse fazer graça com a Fernanda, se daria mal. Esses dois aí quebrariam as duas pernas dele. Mas pelo que ela me falou o cara está encantado. Vamos ver até onde vai com esses dois carrapatos no rastro dele”.

Todos riram e Márcio e Angélica deixaram o apartamento, indo para a outra sessão de terapia. “- Sinceramente eu não acredito que você e o seu amigo são esses dois empata-fodas”, exclama Angélica já dentro do carro. “- Sabe quem nos ajudou em nossas cries”, lhe pergunta Márcio. A motorista fez ouvido de mercador, pois sabia exatamente o que o carona queria saber.

– De qualquer forma, Fernanda precisa encontrar alguém que a ame e cuide dela. Sem essa de ficar podando-a para que Ricardo faça o que está iniciando. Dando a ela o dia seguinte e não uma cama vazia e uma foda que, provavelmente, uma masturbação seria bem melhor.

“- Realmente acho belo essa atitude de vocês três: um cuidando do outro, sem atravessar o caminho, a vida do amigo. Nunca vivenciei uma relação assim. Era sempre tudo motivado pelo dinheiro, pelo corpo, pela posição social. O ser em si era o que menos importava. Tudo para dizer ao amigo do lado como foi no dia anterior. Amor sou grata pelo que vocês estão me proporcionando, além de tê-lo aqui comigo, me ajudando a atravessar esse terreno pantanoso de minha vida”, desabafa a arquiteta dando um beijo no rosto do amado.

Quando chegaram ao consultório, Márcio pensou em ficar dentro do carro esperando, mas a lembrança da truculência dos policiais imediatamente fez ele mudar de opinião, entrando com a noiva. Enquanto ela conversava com a sexóloga, o jornalista a esperaria na antessala. Por isso que sempre andava com um livro. Queria terminar a obra que tinha adquirido durante a viagem a Berlim.

Angélica entrou e como estava na hora marcada, apenas se fez anunciar e Márcio entrou logo em seguida, se sentando numa das poltronas. A secretária perguntou o que ele fazia ali. “- Estou acompanhando a senhora que acabou de entrar”.

-Ah sim. Fique à vontade. O senhor quer água, café, alguma bebida?

“- Não! Obrigado! Estou bem. Não precisa se incomodar com a minha presença”, disse Márcio retomando a leitura de seu livro, se desligando do mundo à sua volta. Passados uns vinte minutos, secretária ficou incomodada porque ele não lhe dirigia palavra alguma, estando com os olhos metidos naquele livro que parecia não ser escrito em Língua Portuguesa.

“- O senhor me desculpe a curiosidade, mas vejo que esse livro que o senhor está lendo não está escrito na nossa língua”, argumenta Elizabeth.

– Exato. Qual é o seu nome? Gosto de chamar as pessoas com converso pelo nome.

– Elizabeth.

– Pois bem, Elizabeth. Você tem razão, é um livro escrito em alemão e estou muito interessado na leitura. Se não se incomodar, gostaria de voltar a ela. Tudo bem para você?

– Sim Senhor! Mas que é estranho é: um motorista de madame que sabe alemão e ainda por cima lê nessa língua. Eu nunca vi. É a primeira vez.

O jornalista fez de conta que não tinha ouvido o insulto e retomou a leitura e se manteve em silêncio. Quem o conhecia, sabia que ele não era dado a reações, mas pensava bem antes de tomar uma atitude. Então deixou a ofensa de lado.

Vencido o horário da sessão, Angélica deixa a sala da sexóloga e diz ao noivo: “- Vamos amor! Tenho um montão de coisa para te contar. Acho que vamos avançar muito mais”.

Ele se levantou beijou a arquiteta e olhando para a secretária, sentenciou: “- Estaria tudo bem, se a moça aí não me chamasse de motorista culto, porque estava lendo esse livro aqui em Alemão que pretendo traduzir pela minha editora”, disse Márcio olhando direto para Elizabeth.

Ao ouvir o que Márcio tinha acabado de dizer a sua noiva, a funcionária entrou em pânico, quando Angélica bateu na porta e ouvi que podia entrar. Ela chama a terapeuta para conversar na frente da servidora. “- Quero que tome uma providência para com a sua atendente. Meu noivo estava aqui me aguardando e enquanto isso estava lendo e sua funcionário lhe disse que nunca tinha visto um motorista culto. Seu trabalho é excelente, mas penso que escolhe mal seus empregados. Na minha próxima consulta se eu for atendida por ela, haverá problemas, pois eu e meu noivo podemos processá-la por racismo e o seu nome e sua clientela irão parar na latrina”.

Ao dizer isso, Angélica se despede da terapeuta, saindo com Márcio da clínica. “- Por que você fez isso amor”, pergunta o jornalista. “- Eu poderia resolver tudo de uma forma mais serena para a funcionária que provavelmente será mais uma desempregada amanhã”.

– Não fiz por você, mas por mim. Estou cansada de observar os olhares das pessoas quando estou contigo. Parece que sou uma ET porque estou muito feliz estando com uma pessoa negra que amo muito. O racismo não afeta só os pretos, mas sobretudo quem está com vocês.

Quando a arquiteta liga o carro, a secretária saiu desesperada da clínica pedindo para o casal voltar. “- Dona! Não posso ficar sem esse emprego e a doutora quer me mandar embora por justa causa. Por favor, me dê uma chance”, desabafa Elizaneth chorando.

– O problema não é nosso e sim seu e de seu racismo. Acha que todo preto só serve para ser limpador de chão, faxineiro. Achando que está nos tempos da escravidão. Tenha uma excelente tarde”, completou Angélica, mas quando ela ia colocar o carro em movimento, o jornalista segurou-a pela mão e falou algo no ouvido dela.

Ambos desceram e entraram novamente na clínica. Diante da terapeuta e do casal, a secretária pede mil desculpas aos dois e Angélica fazendo caras e bocas, pois não acreditava em nada do que Elizabeth estava dizendo. O racismo dela era a personificação da clientela que frequentavam a clínica.

Foi Márcio quem falou pelo casal. “- Minha senhora, eu até poderia deixar para lá sua ofensa, mas sei que não foi a primeira vez que agiu assim e se não receber a devida reprimenda, continuará a fazer. E não adianta vir com a desculpas esfarrapadas que tem amigo preto que isso não cola mais. Pelo contrário, só vai ressaltar aquilo que tenta encobrir. Contudo, não acho que a sua sanção seja a sua demissão. Vou contar com a sensatez de sua patroa que saberá fazer as devidas correções em sua conduta. Mas como conheço bem a mulher que amo, espero que não a atenda da próxima que ela estiver aqui”, disse o jornalista tentando amenizar a situação.

– Vocês podem ter certeza absoluta de que ela os atenderá mais. E vou pensar sim, numa forma dela se redimir do enorme equivoco desta tarde. Tenho claro que chegaremos a um denominador comum e depois eu o informarei da decisão que chegamos.

“- Obrigado. Vamos amor. Temos um jantar em família hoje para organizarmos o nosso casamento”, disse Márcio a Angélica, olhando para Elizabeth que não sabia para onde virar o rosto de tão envergonhada que estava, principalmente depois que soube quem era o homem que tentou humilhar porque era detentor de um conhecimento, além de não fazer parte do seu mundo.

Ao entrarem no carro, Angélica dá uma dura no noivo. “- Eu sei porque foi bonzinho com a moça. Está pensando em sair com ela e por isso não quis que ela perdesse o emprego”, pergunta Angélica enquanto Márcio permanece em silêncio. Não estava disposto a começar uma discussão sem pé nem cabeça no dia seguinte à oficialização do noivado com a arquiteta.

– Você sabia quem cala consente. Então acho que era isso mesmo. Então se quiser sair do carro e ir lá combinar tudo com ela, mas deixe a aliança aqui, seu filho de uma puta paquerador barato.

O jornalista permanece em silêncio e Angélica já está para ter uma crise porque percebeu o jeito que Elizabeth olhava para o seu noivo. “- Vamos! Estou esperando você deixar o meu caro”.

– Tudo bem. Estou saindo. Não sou dado a fazer guerras, muito menos para mudar hábitos de pessoas que não fazem parte do meu convívio. Eu só achei que não seria tornando-a mais uma desempregada que acabaria com o racismo que está transfixado em seus hábitos e nos clientes da clínica. É acho que ficar noivo, não arrefeceu sua insegurança. Adeus.

Márcio desceu do carro, mas antes tirou a aliança do dedo, beijando a joia e a colocando no painel do carro, enquanto a motorista estava com a cabeça debruçada sobre o volante. Quando voltou do transe de ciúme, o jornalista já havia desaparecido e, além da aliança, havia deixado sobre o banco do carona o aparelho de celular, indicando que não o encontraria mais.

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