Sobras de um amor … parte II

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O casal acorda quase que em cima da hora. Angélica, de costume, sempre atabalhoada querendo arranjar tudo de uma vez só, enquanto Márcio ainda pensa no que vai fazer quando sair da cama. “- Anda amor. É para hoje. Estou atrasada e quero tomar café contigo”, dizendo e já entrando no chuveiro.

Enquanto o noivo esfrega os olhos como tentando se achar no mundo dos despertos, ela já emenda outro assunto, antes mesmo dele processar o que ela havia dito. “- Quero mais disso que fizemos ontem. Mas a tarde tenho sessões com as minhas terapeutas. Há um intervalo entre uma e outra e gostaria de lhe ver nesse tempo”.

Márcio já de pé, e arquiteta debaixo do chuveiro já diz outra coisa, enquanto o jornalista havia acabado de processar a primeira informação. “- Amor está me ouvindo ou está deitado ainda”, pergunta a empresária.

– Já estou de pé e tentando entender qual foi a locomotiva que me atropelou. Eu só escutei o barulho dela falando, mas não entendi nada.

Ele entra no chuveiro com ela e já vai abraçando, mas é rechaçado. “- Não há tempo. Estamos em cima da hora. Tome banho logo e vamos tomar café. Quero que faça umas coisas para mim agora de manhã. Depois me pegue no escritório para almoçarmos. A tarde quero te ver entre uma sessão e outra de terapia”.

– Mais uma coisa patroa? Em nem acordei e já me encheu de ordens. Não estou acostumado a acordar e já sair andando. Levo tempo para voltar a vida. Será que pode respeitar isso?

A arquiteta olha o seu noivo com aquele sorriso de pedido de desculpas. Ele deixa o chuveiro e se arruma do jeito que mais gosta. Ela olha e sentencia: “-Pode trocar de roupas. Está parecendo o jornalista ensebado que eu conheci naquela manhã de domingo. Vestido assim, você não sai nem daqui de dentro”.

O jornalista respira fundo, começa trocando o calçado e a camisa. Tira a estilo polo que tanto gostava e coloca uma camisete em tons de creme sem desenho algum. Angélica olha e diz: “- Assim está melhor. Meu homem não vai se vestir como um rato de biblioteca. Não se esqueça que hoje começamos uma vida nova. Você é editor e a noite terá nessa mão uma aliança dizendo que me pertence”.

– Estou fodido! Por que será que não ouvi Amadeu e fugi enquanto dava tempo?

– Porque fostes apanhado numa teia do amor que eu aqui armei para fisgar um mosquito desavisado que ficava perambulando pelos bares, se afogando nos copos de cachaças em busca de uma esplendorosa matéria, sonhando com o Politzer. Acho que tenho mais valor do que aquela estatueta. O que você acha, paixão?

– Se a estatueta não me desse tantas ordens, acho que a preferiria.

– Então beija ela, dorme com ela. Agora vamos. A noite você pensa nessa estatueta. Agora quero tomar café contigo e começar a colocar a vida em ordem. Na próxima segunda-feira, você só sairá daqui para o trabalho. Vou te colocar no sistema de vigilância do prédio.

– Que maravilha. Poderei dar uns perdidos, sair e voltar quando quiser.

– Você quem sabe neguinho. Se eu te achar com outra mulher serão dois féretros: um para o mosquito bobão e outro para a mosca que desejou ser mais realista do que a Rainha aqui.

Já pronto, os dois entraram no elevador e Angélica fitando o noivo com olhares de devoção, paixão e tesão. “- Só não te pego agora porque chegarei toda amassada no trabalho e você ficaria todo borrado de batom”.

Chegaram no térreo, entraram no carro e se dirigiram à confeitaria. Quando entraram se depararam com a balconista que olhou diferente para a bunda do Márcio e a atendente que perguntou à arquiteta qual o cardápio do café da manhã. “- O de sempre! Na mesa de sempre, por favor querida”, disse a empresária.

As funcionárias olharam e perceberam a mudança no comportamento do casal. Os dois estavam de mãos dadas e Márcio se vestia diferente da última vez em que lá esteve. Naquela ocasião, os dois pouco conversaram entre si e naquela manhã hoje ela que mais falava e ouviram uma coisa relacionado à aliança.

– Está bem amor. Na hora do almoço eu passo no seu escritório e vamos à joalheria pegar as alianças e a noite estaremos no apartamento do Roberto.

– Querido, prepare com ele e com Danisa o cardápio para o jantar. Convidarei a minha secretária. Aquela que te cantou. Quero que ela veja em qual projeto eu estava trabalhando para você.

Márcio deu aquela gargalhada que chegava aos olhos e a balconista viu e ficou encantada. Não tirava sua atenção dele, comentando com a outra funcionária. “- Veja que negão lindo, delicioso. Que sorriso maravilhoso. Se eu estivesse com um homem desses não deixava ele nem olhar do lado. Deve chover mulher atrás dele. Será que há alguma coisa entre os dois”, pergunta a amiga.

– Só te digo para tomar cuidado. A patroa é ciumenta para caralho. Eu já falei da outra vez o que eu vi ela fazendo com a mulher que estava com ele. Mas acho que olhar não tira pedaço, desde que ela não veja. Da outra vez ela te pegou espiando a bunda dele. Então, acho melhor ficar na tua. Ela é casca de ferida.

Enquanto as duas conversava, Angélica percebeu que Márcio olhava com uma certa insistência para os lados em que a balconista estava. “- Acho que tem alguém aqui que participará da festa de noivado com o pescoço quebrado”, fala entre os dentes Angélica.

– Do que você está falando amor?

– Da funcionária do balcão que está roubando a sua atenção.

Ao dizer isso para Márcio, Angélica se levantou e foi falar com a balconista. “- Está acontecendo alguma coisa? Meu noivo te cantou ou coisa parecido? Se for, por favor venha falar comigo. Agora se a situação parte de você, podemos conversar de uma outra maneira. Não gosto que meus funcionários fiquem de paquera com os clientes”, falou firme a arquiteta, voltando à mesa.

Quando ela sentou, Márcio se levantou e deu um beijo para borrar o batom dela. “- Pronto! Agora ela sabe com quem está falando e para quem está olhando e o meu amor, terá que retocar a maquiagem”.

– Por que fez isso?

– Ué! Você não foi lá intimidar a sua funcionária só porque os nossos olhares se cruzaram sem querer? Agora ela sabe que eu sou louco por ti e quem não há espaço nem em meu coração e nem no meu pau para ela.

“- Então estavam trocando olhares e com certeza você viria depois para marcar um encontro com ela”. Ao dizer isso, Angélica levantou e sentou o tapa no rosto dele na frente das funcionárias.

– Você está ficando doida. Por que eu faria isso na noite em que vamos ficar noivos? Não combinamos deu te pegar para almoçar e depois buscarmos as alianças e eu preparar o cardápio para a noite? Quer saber de uma coisa? Paro por aqui!

Sem dizer uma palavra, Márcio saiu da confeitaria. Angélica se dirigiu à balconista e vociferou para ela: “- Você conseguiu o que queria, minha querida! Pode ir correndo atrás dele e aproveite vai ao motel e depois para a puta que te pariu. Não trabalha mais comigo”.

As duas funcionárias se olharam e a atendente falou: “- Não te disse que ela é casca de ferida. Você espiou a bunda dele e ela te deu o recado e agora ficou olhando em demasia para ele”.

– Ele não olhou nenhum minuto para esse lado de cá. Só aquele momento que ela levantou e veio falar comigo. E agora o que eu faço?

– Continue no trabalho e reze para ela encontrar esse homem e fazerem as pazes. Parece que hoje ficariam noivos pelo que ele lhe disse.

Angélica foi ao seu escritório e Márcio desapareceu de seus olhares. Enquanto caminhava, pensava em tudo e sem lugar para ir, parou no mesmo recanto de sempre: a praça. Não podia ir ter com Fernanda. Prometera não levar mais seus problemas com Angélica para Roberto e Danisa. Também não podia ligar para a sua mãe. Depois de ficar uma meia hora, se dirigiu à biblioteca da cidade. Lá tinha certeza de que ela não o encontraria.

Entrou e foi atendida pela funcionária que o reconheceu do jornal. “- Bom dia, senhor Márcio! O que o traz a nossa biblioteca”, pergunta Rebeca.

– Vim buscar sossego, minha cara Rebeca. Estou precisando muito.

– O que foi isso em seu rosto? Parecem marcas de mão!

– Não é nada. Me arrume uma das cabines para eu ler.

Em cinco minutos, a funcionária lhe trouxe a chave, abrindo passagem para ele consultar o acervo físico. Passou várias vezes pelas estantes e pegou um exemplar em alemão de Thomas Mann: A montanha mágica. Antes de entrar no compartimento de leitura, informou à servidora que não queria ser interrompido por ninguém.

Enquanto se dirigia à sala de leitura individual, a outra atendente perguntou a Rebeca quem era o homem. “- Nunca tinha visto ele por aqui. É diferente, educado, sereno e o que é melhor: sem alianças. Deve estar solteiro na praça. Ficarei de olho”.

– Eu se eu fosse você, sossegava o facho. O sinal que eu vi no rosto dele, mais parece com um tapa e aposto que foi briga com mulher. Ele era trabalhava num dos jornais da cidade, mas do nada desapareceu ficou só publicando umas coisinhas sem importância aos domingos. Fazia tempo que não o via.

Quando entrou na sala, eram 10h30, tinha certeza de que não seria incomodado. Ninguém sabia que estava lá. Podendo passar o dia todo enquanto pensava no que fazer da vida. Angélica tinha passado dos limites. Mergulhou na leitura do clássico da literatura alemã. Estava tão enfronhado dentro da história que não percebeu as horas se passarem. Voltou ao presente do Brasil quando escutou alguém quase arrombando a porta e o chamando. Lá de dentro respondeu que já iria abrir a porta.

Ao girar a chave, a porta foi aberta de supetão. “- Posso saber o que o moçoilo está fazendo aqui escondido nela saleta”, pergunta Angélica, completamente irada e antes mesmo que Márcio respondesse partiu para cima dele o beijando.

“- Como me achou aqui”, Angélica.

– Segui a sua beleza e o seu jeitão esquisitão de ser. Já revirei essa cidade atrás de você. Liguei para o Roberto que disse não ter te visto desde ontem à tarde. Falei com a sua amiga “Fê” e ela me disse a mesma coisa, além de me acusar de um montão de coisas. Depois de muito te procurar, voltei a falar com o seu amigo e ele me disse para ligar no jornal, talvez tivesse lá.

– E daí.

– Daí que uma funcionária daqui, que te atendeu, conversou com a Joana, falando que achou estranho tu aqui na biblioteca na segunda-feira lendo um livro em alemão. Quando perguntei se você havia passado por lá, ela disse que provavelmente estaria aqui. Era hábito seu, sumir da redação e vir para cá.

– Ah sim!

– Para ela saber desse seu hábito, você deve ter comido ela também. Todos sabem do seu jeito de ser. Menos eu. Realmente estou começando a entender que estou fazendo papel de idiota. Tchau. Esqueça o noivado.

– Quer dizer que vem aqui, faz um escândalo dos infernos para desfazer o noivado comigo? Nem precisava. Depois do tapa em meu rosto hoje pela manhã, não precisava se dar o trabalho. Quer saber de uma coisa: vai para o inferno e me deixa em paz.

Angélica saiu irritadíssima, enquanto ele voltava para o interior da sala. Perdeu o tesão pela leitura. Fechou a sala, entregando a chave e o livro para Rebeca. “- Obrigado por ter revelado meu último refúgio de sossego”.

Saiu sem rumo novamente, mas só tinha um lugar que poderia ir. Foi até a loja onde Fernanda trabalhava e pediu a chave da casa dela. “- De jeito nenhum! Aquela tua noiva é doida. Vai quebrar a minha casa toda e depois a minha cara. Eu te falei para fugir dela, mas tu és teimoso como uma mula. Ela já veio aqui me encher o saco. Chega. Se vira com teus problemas”.

Não teve outra alternativa. Já eram três horas e precisava dum canto para descansar e pensar no que fazer. Angélica tinha passado dos limites. Resolveu se hospedar num hotel da cidade, numa região que não costumava frequentar. Entrou. Tomou um banho rápido e se jogou na cama, se deixando levar pelos pensamentos, acabando por adormecer. Sonhou com muitas luzes com as quais conversavam. Elas lhe diziam que para o homem deixar de se expressar pela matéria, usando só a energia que compõe o corpo físico, precisava passar por muitos estágios, então era preciso paciência.

Acordou assustado com gente batendo na porta. Era Roberto que o chamava. “- Um momento Roberto. Já estou indo”. Quando ele abre quem entra no quarto feito um furacão é Angélica e o amigo estava na porta. “- O que aconteceu? O que ela está fazendo aqui Roberto”, pergunta Márcio.

– Essa doida estava lá em casa, me azucrinando. Come logo! Case-se logo com ela. Estamos ficando cansados dessas suas brigas e da infantilidade dela. Ou casa ou larga. Está um saco! Ela fez a Fernanda perder o emprego hoje. Não dá mais. Estamos segurando a onda de vocês, mas assim, meu amigo, não é possível.

– Como me achou aqui?

– O dono do hotel me ligou. Achou estranho você aqui e ficou preocupado. Tua cara não estava legal e ficou com medo que tu fosse colocar fim à sua vida. Agora se entenda com essa doida de uma vez por toda. Ficou nos enchendo o dia inteiro. Faz as merdas e depois quer que a gente ajude a arrumar tudo. Porra Márcio, abra o olho. Se tua mãe souber disso, o que ela vai dizer? Já chega! Ela não precisa passar mais vergonha por conta das tuas trapalhadas. Você parece para-raios de loucas.

Márcio ficou em silêncio, enquanto Roberto falava sem parar. “- Desculpe-me meu amigo, mas desde que essa mulher se meteu na sua vida, tudo virou de cabeça para baixo. Você foi parar na UTI. A Fê só tinha aquele trabalho. E como ela vai ficar por conta dessa louca? Não queremos mais ver vocês, enquanto essa porra de relacionamento entre vocês não ficar resolvido. EU ACHO MELHOR NEM COMEÇAR. PAREM POR AQUI”, explodiu o amigo.

O telefone de Roberto toca. Era Judith. “- Oi dona Judith. Está tudo bem. O Márcio está atarefado com os preparativos para a editora. É! Ele me falou mesmo, mas vamos deixar para amanhã”.

– A mãe de Angélica também quer falar com ela, mas não consegue. Você sabe de alguma coisa?

– Ela está junto com o Márcio arrumando a documentação. Vou dizer a eles. Tchau. Também adoro a senhora.

Roberto desliga e berra: “- Essa é a última vez que seguro o rojão para vocês. Porra Angélica porque não deixou que cuidássemos dele? Porque não desapareceu? Por que tem que fazer esse homem de idiota? Dar um tapa na cara dela na frente de suas funcionárias na confeitaria. Quer perder o respeito de seus empregados. E por que? Por conta dessa porra de ciúmes! Caralho. Você brigou com a Fernanda, fez ela perder o emprego. Bom. Vocês só voltam a falar com a gente quando tiverem decidido o que querem da vida. E parem de nos atrapalhar”.

Ao sair do quarto, Roberto agradeceu ao proprietário. Pagou a diária e explicou que aquilo foi crise de casais. Márcio já estava indo embora. “- O senhor nos desculpe pelos transtornos”.

– Que é isso senhor Roberto! Estava mesmo em débito com o senhor. Desde aquele episódio aqui no hotel que o senhor suprimiu da matéria o nome do meu estabelecimento que desejava vê-lo.

Márcio chamou por Roberto e o abraçou chorando. “- Obrigado meu amigo. Eu já disse que isso não vai se repetir e não vai mesmo. Nem que eu preciso ir embora desta cidade, trocar de nome, sei lá o caralho que terei que fazer. E quanto a Fernanda verifcarei o que posso fazer. Desamparada ela não ficará. Isso eu lhe garanto”.

– Pelo amor que tens na sua mãe, coloque um fim nisso. E não deixe ela saber dessa confusão de hoje. Adoro dona Judith e sei como ficaria desapontada se soubesse o que essa doida aí aprontou o dia todo por conta desse ciúme doentio.

– Novamente obrigado amigo. Arrumarei toda essa bagunça. Peça desculpas a Danisa pelos transtornos causados a vocês desde que chegamos da Alemanha.

Quando não havia mais rastros de Roberto pelo hotel, Angélica tentou se justificar, mas pacientemente só lhe disse. “- Vamos embora! Em seu apartamento a gente conversa de forma definitivamente”, e foi saindo do quarto e a empresária atrás dele em silêncio.

Entraram no carro e Márcio explodiu. “- Porra Angélica. Não aguento mais. Já te falei que odeio chamar atenção sobre a minha pessoa e desde que entrou em minha vida o que mais eu tenho feito é ficar me exposto por conta dos seus descontroles. Eu já te falei que te amo, mas assim fica difícil continuar nessa jornada. Não faz três dias que estamos no Brasil e três brigas nos expondo ao ridículo. Na Alemanha fez a mesma coisa. Estou cansado de relevar tudo em nome dos meus sentimentos por ti que são os mais nobres, mas parece que tu tens o prazer de ofuscar tudo isso”.

A empresária ficou em silêncio, colocando o carro em movimento e ao olhar no relógio compreendeu que se não tivesse sido tão imatura, naquele momento estariam oficializando o noivado e no domingo o casamento. Agora não sabia mais nada e tudo dependeria dos humores de Márcio que estava esgotado com as infantilidades dela e ainda ter a amizade com Roberto e Fernanda ameaçada por isso.

Chegaram ao apartamento, enquanto ela foi para o quarto conversar com a mãe, ele pegou a garrafa de uísque. Encheu um copo e começou a beber. “Acho que não tem mais importância. Se não morri com a vergonha de hoje, também não morrei com umas doses a mais”. Sentou-se no sofá e o seu telefone tocou. “-Alô! Oi Roberto! Estou aqui no apartamento”.

– Meu amigo me desculpe em ter sido duro contigo, mas ver a Fernanda desempregada, desamparada por conta daquela destrambelhada me cortou o coração e a Danisa ameaçou sair de casa se eu continuasse a me envolver nas suas histórias com Angélica. Sei que peguei pesado com ela, mas essa mulher precisa crescer, do contrário, você casa hoje e separa amanhã”.

– Obrigado amigo. Não sei nem como te agradecer.

– Resolvi tudo com a sua mãe. O que seria feito hoje, transferimos tudo para amanhã. Disse a ela que Danisa está indisposta por conta da gravidez e que amanhã tudo estaria normal e faríamos o evento aqui em casa. Também conversei com Eleanora. Para ela eu disse o que tinha acontecido e me prometeu não falar nada com tua mãe até que tudo seja resolvido entre vocês dois.

– É! Acho que ela está lá no quarto falando com a mãe.

“- O que vai fazer, meu querido”, pergunta Roberto.

– Ainda não sei Roberto. Eu já fiz de tudo, mas ela não se emenda. E também não posso dar uma de durão. Eu amo essa mulher e não quero falar da boca para fora, quando da boca para dentro ficarei em frangalhos, destruído. E para me reerguer será difícil. Não desejo ficar fugindo de um passado que eu sei que no presente, ainda consiga reverter tudo.

– Tudo bem meu amigo. Se precisar estamos aqui. Sei que não virá, mas quero que saiba que sempre há um colchão na sala para tu dormir.

“- Obrigado querido”, agradeceu Márcio.

Assim que desligou, Angélica saiu do quarto em desespero e piorou quando viu Márcio com um copo de uísque nas mãos. “- O que está fazendo? O médico disse que você não podia ingerir álcool”.

Calmamente, Márcio respondeu: “- Depois das baixarias que fez hoje, não é uma dose, uma garrafa de uísque que vai me levar a óbito. Disso você pode ter certeza, minha cara”, disse o jornalista virando o copo todo de uma vez goela abaixo enquanto despejava mais uma quantidade no copo.

– Amor! Pare! Por favor! Se continuar assim não vai terminar bem. O que vou dizer à sua mãe, ao Roberto, ao seu pai e seus irmãos e a Fernanda?

– Diga a verdade. Só isso. Fale da sua imaturidade. Diga que me deu um tabefe no meio da cara que deixou a marca dos seus dedos na manhã do dia em que ficaríamos noivos. Iríamos buscar as alianças, mas só porque olhei para os lados em que a balconista estava, você subiu no salto, rodou a baiana, se achando a superpoderosa, a minha dona e queria me colocar numa coleira, me domesticar e me apresentar como um troféu para as suas amigas endinheiradas. Pronto. Tens aí a resposta.

– Para minha mãe acabei de contar a verdade, inclusive que Fernanda foi demitida porque fui à loja e bati nela de novo na frente dos fregueses. Achei que estava escondendo você porque desejava ficar contigo só para ela.

– Você passou dos limites, Angélica. Aquele era o emprego dela. E não adianta me dizer que perdeu a cabeça. Essa desculpa não cola mais. Acho melhor pararmos por aqui. Amanhã vou ver o que dá para resolver a situação dela. Cruzes. Se não fazem o queres, parte para porrada, humilha e acha que tem que ser do seu jeito. Parece uma colegial mimada.

– Não precisa me dizer mais nada! O Roberto já me humilhou bastante. Minha mãe acaba de fazer o mesmo e sei que não poderia esperar nada diferente de você, mas garanto que tu ias sair com uma daquelas funcionárias da biblioteca.

– Angélica. Quer saber de uma coisa? Vai tomar no seu cu. Você e seu ciúme. Quer saber mais? Eu deveria mesmo ter saído com uma delas. Você está pedindo tanto isso que sou capaz de fazer para ver se para com essa paranoia. Tchau.

Quando ia saindo, a arquiteta se colocou diante dele em prantos. “- Márcio! Pelo amor de deus, me ajude. Eu sei que estou no caminho certo do nosso amor, mas não estou conseguindo me livrar desse ciúme. Não consegui fazer nada o dia todo. Perdi os horários das terapeutas. Revirei essa cidade atrás de você. Fiquei em prantos. Atormentei o Roberto até que o dono do hotel ligou para ele achando que tu tinhas ido para lá para se matar”.

– Sente-se aí e me escute! Eu não sou adolescente. Não estou te disputando com ninguém. Eu não quero outra pessoa que não seja você. Pare de agir como uma aluna secundarista ou caloura universitária que quer ficar passeando com o bonitão da escola para dizer para as suas amigas que tu és capaz de pegar o cara mais popular entre a moçada. Eu não sou nada disso. Não tenho nada. Não desejo ter porra nenhuma. Então pare de ver coisas onde não tem. Se demitiu aquela funcionária, amanhã vai readmiti-la, além de pedir desculpas para ela. É o mínimo que podes fazer. Ser patrão não é apenas mandar no funcionário, é preciso ser digno para comandar. Quem humilha, não sabe comandar e é menos do que aquele que ele está humilhando.

Angélica fez menção de dizer alguma coisa, mas foi contida, pois o jornalista não havia concluído. “- Organize sua vida. Coloque método. Não se pode começar uma coisa e não terminar. Os negócios de tua família estão em suas mãos. Tua mãe depende disso e milhares de funcionários precisam dos empregos que suas empresas geram e para que isso ocorra, tu deves saber comandar, colocar a cabeça no lugar. Eu não vou ser o seu cachorro. Não desfilarei numa coleira. Não te exibirei para ninguém. Nunca fiz isso e não vou fazer agora. Tua vida está sem ritmo. Eu não consigo viver assim, como se cada dia fosse diferente, portanto, não estou aberto aos sopros do vento.

Angélica só ouvia. “- Te acho linda, te amo. Não quero que seja diferente, mas apenas que se controle em algumas circunstâncias, do contrário vira uma espiral como hoje. Eu não sei viver em meio a tempestades, chiliques, birras. Sou metódico. Meus dias sempre foram assim. Se não gosta, entenderei e sairei da sua vida. Agora, antes de me amar, se respeite. Se valorize. Não adianta nada eu te respeitar, ser ético contigo se você não é consigo mesma. Eu só posso lhe dar esse homem que eu sou. Não aprendi a ter duas caras. Portanto, não me force a fingir que está tudo bem, quando não está. Era isso que eu tinha para te falar. Vou tomar um banho no quarto de hospedes e me deixe em paz. Amanhã cedo seguirei o meu caminho. Não posso continuar amando uma pessoa que não se ama e, por incrível que parece, aprendi a me amar para te dar o melhor que eu tenho. Tchau.

Quando Márcio deixou o banheiro instalado no quarto de hóspedes, enrolado na toalha foi surpreendido por Angélica que sentada na cama o aguardava. “- Acho que não temos mais nada para conversar. Pelo menos eu acho isso”, sentencia o jornalista.

– Me escute por favor. Amanhã vamos apenas nos dedicar ao nosso noivado. Vamos a confeitaria de manhã e eu resolvo com a minha funcionária. De lá, vou contigo a casa de Fernanda. Uma coisa são minhas diferenças com ela, outra é ela ficar desempregada por conta de minhas sandices. Arrumarei uma colocação para ela em minhas empresas. Depois pegaremos as alianças e pedirei desculpas tanto a Roberto com Danisa. Me deixe fazer isso, mas preciso que esteja comigo e mais do que isso, do meu lado. Eu sei que não estou me humilhando para ti, pois sou culpada disso tudo, mas quero apenas mais uma chance para tê-lo aqui no meu coração. E pelo nosso amor, não continue a beber.

– Tudo bem! Eu não consigo ficar sem pensar em você mesmo. Sei que posso te dizer muita coisa da boca para fora, mas da boca para dentro estarei me esfaqueando. Vamos tentar mais uma vez. Espero que seja a última. Não quero que Roberto, Danisa e Fernanda sejam seus inimigos. Tenho certeza de que quando a Fê encontrar a pessoa da vida dela, você não terá mais essa implicância com ela. Deixe-a lhe apresentar o seu coração.

– Está bem, amor. Espere um pouco. Se arrume. Eu vou tomar um banho e vamos dar uma saída. Preciso espairecer e voltar para terra. Obrigado por me amar e me ajudar a te me amar também.

Quando Márcio e Angélica deixaram o apartamento, o relógio se aproximava das dez horas. Ela ligou para o pessoal do clube e reservou novamente a cabine 58 e se dirigiram para aquele espaço.

– “Por que lá”, pergunta Márcio.

– “Quero ficar mais à vontade contigo, observando as estrelas e vê-las refletir na água do lago. E desta vez não temos pressa para voltar”.

Enquanto se dirigiam ao clube, o telefone toca e ela coloca no sistema de viva-voz de modo que Márcio pudesse escutar. “- Alô mãe! Está tudo certo sim. Diga que chegamos em casa, exaustos, mas deu certo a burocracia da editora”.

“- Posso falar com Márcio”, pergunta a mãe de Angélica.

– Boa noite Eleanora.

– Obrigado filho, por não abandonar essa moça. Creio que após o noivado amanhã e ver a aliança em sua mão direita e depois na esquerda, ela sossegará.

– Fique tranquila. Dê um beijo por mim em dona Judith.

Angélica desligou o telefone quando já entravam no clube. Arrumaram tudo dentro da casa e pegaram duas poltronas, as levando para próximo do lago. Ele se sentou e ela sentou no colo dele colocando os pés na outra. Os dois apenas ficaram olhando o brilho das estrelas e acabaram adormecendo. Despertaram com a brisa fria que vinha da lagoa. Ao checarem as horas, viram que já passava das três. “- Vamos embora amor”, disse Angélica.

Saíram como entraram. Sem trocar muitas palavras. Ao chegar no apartamento, a empresária pediu. “- Amor durma comigo na cama hoje. Ela vai ficar gigante sem você e meu corpo gelado sem a presença do seu”, pediu Angélica.

– Vamos tomar um banho para nos aquecer e dormiremos juntos sim. Não é dormindo em quartos separados que vamos equacionar nossos problemas.

Ao término do banho, o relógio marcava quase cinco horas. Deitaram e se desligaram da vida.

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