Sobras de um amor … parte II

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No dia seguinte acordaram lentamente, viraram de um lado para o outro e cochilaram mais um pouco. Angélica abriu os olhos e perguntou ao repórter. “- Não é sonho! Você está aqui comigo. Obrigado por me amar incondicionalmente, meu Marzinho delicioso”.

Márcio beijou-a e saindo da cama. “- Ele nunca dorme?”, pergunta Angélica olhando para o pênis do repórter. Ele arregala os olhos para ela, sem saber o que dizer. Pensou e respondeu: “- Depois do banho, ele voltará a dormir”.

“- Mas quem diz que eu quero ele cochilando”, disse a arquiteta se agarrando ao pescoço do amado. Em seguida foram para o chuveiro. Já embaixo d’água, Angélica deu um profundo beijo no jornalista e fitando bem no fundo de seus olhos, pede a ele para ajudá-la a chegar lá. “- Vamos tentar? Se não for assim, acho que nunca conseguiremos romper essa barreira”.

– Tudo bem! Você me diz até onde pode ir.

Assim que Márcio terminou de falar, Angélica ficou de costas para Márcio que pousou os braços sobre o corpo da arquiteta. Com uma mão, acariciava os seios da empresária e com a outra mão, lentamente fazia suaves movimentos na vagina dela, sentindo ela se soltar. Mordiscava a orelha dela, enquanto seu membro ereto ficava entre as pernas de sua amada. Às vezes, ele introduzia lentamente um dedo, depois retirava, voltar a fazer o mesmo movimento acariciando os lábios vaginais da arquiteta que não demorou muito, chegou ao êxtase, dizendo coisas desconexas com o corpo todo tremendo e rebolando no membro de Márcio que não demorou a gozar.

Chorando, Angélica o abraçou beijando lentamente e às vezes com sofreguidão. “- Amor, muito obrigado por esse gozo. Eu senti ele vindo d’alma e incendiando todo o meu corpo. Fiquei exausta. E você”, lhe pergunta a empresária.

– Fui ao céu tendo você comigo. Ainda não tenho palavras para dizer o que estou sentindo, mas é pleno, tranquilizador. O corpo inteiro se enrijeceu quando ejaculei, mas não foi um gozo só de prazer, mas de amor, de paixão. Obrigado por me proporcionar esse momento.

Terminaram de tomar banho. Resolveram sair para tomar café na mesma padaria, que agora se chamava Confeitaria da República, em que Angélica, dias antes, havia terminado com ele. Quando chegaram foi a arquiteta quem recordou do fora que deu no jornalista. “- Lembra-se amor quando terminamos aqui? Não sei o que me deu para agir daquele jeito. Te jogando nos braços da primeira que aparecesse em seu caminho”.

– É verdade e olha que apareceu naquela manhã mesmo. Você precisa de ver como ela estava linda. Sai daqui e não percebi. Ela me seguiu até o apartamento. Quando estávamos quase lá. Ela me disse que precisava ir embora.

– Quem foi essa filha de uma puta. Se ela cruzar no meio caminho, com certeza estará morta.

– A tua mãe por ventura, frequentou algum cabaré?

– Porque está me perguntando isso?

– Ué! Você chamou filha de uma puta aquela mulher que me seguiu naquela manhã. Achei que Eleanora tivesse sido dama em casa de má fama.

Ao entender a conversa de Márcio, Angélica caiu na gargalhada e ele a abraçou, dizendo baixinho no ouvido dela. “- Se eu já era doido por você, agora que fiquei mais pirado ainda”. Ao dizer isso, o jornalista percebeu o quanto os pelos do corpo dela ficaram eriçados e a ponta dos seis entumecidos. Para provocá-la ele olhou firme para os seios dela. “- O que foi que tanto olha. Você os viu ontem à noite, tocou neles a noite toda e ainda os acariciou agora pela manhã”.

– É que estou aqui tentando entender para onde você vai viajar?

– Viajar? Por quê?

“- Porque os faróis estão acesos”, disso isso e gargalhou até os olhos, a deixando mais doida de tesão.

– Quer parar? Olha que eu tiro a minha calcinha molhada e a enfio na sua goela. Você gosta de me ver doida assim, sem poder fazer nada, né?

– Se contenha amor. Em casa repetiremos a dose.

– Meu deus, mas que jornalista mais tarado.

Entraram na padaria, escolheram uma mesa de canto e bem no fundo para não serem vistos por ninguém. Comeram, conversaram sem nenhum compromisso com as horas. Ela tinha dito para Judith que o dia era somente dos dois. A conversa com a mãe de Marzinho tinha a deixado mais leve, tranquila, podendo se dedicar inteiramente ao amor. Eram dez horas quando se preparavam para deixar a Confeitaria e o telefone de Márcio tocou. A arquiteta já ficou atenta. Se fosse uma mulher, não deixaria a conversa render.

“- Márcio! Fui demitido”, dizia Roberto. “- O que eu faço agora? O que digo para Danisa?”

– Ué! Diga a verdade! Que o João Marcelo te mandou embora.

– Mas ela está grávida e vai ficar toda boladona.

– Acalme-se. Aproveite vá para casa e curta sua esposa. Explique que você entrou em férias para curtir a gravidez dela. E o dinheiro, não se aborreça. Eu tenho um pouco na conta. Dá para vocês segurarem a situação, além do que estão morando no meu apartamento.

– E a ricaça?

– O que tem ela?

– Como vocês estão?

– Do mesmo jeito de sempre. Qualquer coisa diferente eu te digo. Passarei pelo médico hoje à tarde.

– Fiquei sabendo que tua mãe está na cidade. Onde ela está? Na casa da Fê que não é! Vem me dizer que está contigo na casa da família de Angélica?

– Caralho! Se sabe porque pergunta.

– Desculpe-me amigo. É que gosto muito de sua mãe e ainda não a vi desde que chegou a cidade.

– Tudo bem, meu amigo. No momento certo, vocês vão conversar. Pode ser? Agora vá para casa e tire o dia para curtir a Danisa. Ela merece. Saiam para almoçar fora ou faça comida para ela. Deixe um pouco a tomada e depois vamos ver como tudo se processa. No final do dia eu passo lá no apartamento para saber como estão.

– O que aconteceu amor?

– Roberto foi demitido e não sabe como dizer isso a esposa.

– É só dizer!

“- Tu não sabes que é a Danisa. Aliás, vocês se parecem um pouquinho: mandonas, autoritárias e cismam com a pobre da Fê que só tem amores para comigo e o Roberto”, lhe explica o jornalista.

– Essa Fê que fique longe de você. Se ela te chamar de Marzinho de novo perto de mim, eu não respondo pelas consequências. Isto é, faço ela morar num féretro por toda uma eternidade.

“- Olha! Eu vou lhe ser sincero. Se a Fê se parecesse um tiquinho com você, não sei não”, arrisca um palpite o repórter.

– Você quer sair daqui direto para o cemitério e me deixar viúva e encarcerada antes mesmo de me casar com o meu Mar?

– Eu desconheço alguém que te ame mais do que eu. Para aguentar tudo o que suportei e ainda um coma alcóolico. É preciso muito amor. Você não acha?

“- Você quer fazer comparações, seu fujão, medroso”, lhe pergunta Angélica.

Márcio fez aquela cara de quem sabia que vinha jumbo grosso, então, se levantou da cadeira, a beijando sem a menor preocupação se alguém estava vendo ou não.

A funcionária do caixa viu, mas fingiu que não enxergou nada. Angélica e Márcio passaram e se despediram, enquanto a funcionária dava aquela conferida na bunda do repórter. A arquiteta se virou, surpreendeu a empregada com aquela cara de desejosos para o jornalista. “- Cuidado, minha filha, os olhos podem cair da cara. Não convêm aos meus empregados ficarem olhando a bunda dos clientes”.

A garçonete ouviu aquilo e deu risada baixinho. Em seguida se dirigiu ao caixa e conversou com a amiga. “- Você é doida de olhar para esse cara. Ninguém sabe ao certo qual é o rolo dos dois. Ela anda com aliança, mas ele não. Ela estava casada com uma professora da universidade. Chegou a vir umas vezes aqui quando você estava de férias. Ela já fez uns escândalos porque ele estava com uma mulher numa lanchonete. Eu vi. Ela jogou chope na cara dele e dela. Esse cara pode ser bonitão, gostosão, mas é um capachão. Homem assim não serve para mim”, disse Jordana, voltando a limpar as mesas, inclusive a que estava o casal.

Dentro do carro, foi a vez de Márcio dar os primeiros passos, beijando a arquiteta e percorrendo as mãos pelo corpo dela. “- Calma meu taradinho delicioso. Ninguém precisa saber que queremos nos devorar. Chegando em casa vamos dar uma ajeitada nas coisas, mas não podemos abusar. Você tem médico a tarde”, lhe disse a empresária colocando o carro em movimento.

Ao chegarem no apartamento, o telefone de Angélica tocou. Era a mãe querendo saber notícias do Marzinho. “- Judith está aqui impaciente”, explicou Eleanora. “- Diga-lhe que o filhinho dela está ótimo. Não tirei nenhum pedaço dele. Se bem que vontade não me faltou. Acabamos de tomar café da manhã. Vamos ficar por aqui e depois do almoço, iremos à terapia e ao médico. Assim que terminarmos isso, decidiremos sobre o que a noite nos promete”.

– Você quer a Judith durma aqui? Pelo menos vocês dois ficam a vontade no apartamento.

– Sim mãe! Preciso ficar mais tempo com esse homem sem que caia alguma tempestade, na maioria das vezes, provocada pela minha infantilidade e inexperiência sentimental.

– Judith está dizendo que não é para deixar o bebezinho dela sem alimentação. Ele não está totalmente recuperado.

– Pode lhe dizer que o Marzinho dela está bem alimentado, inclusive de amor.

Enquanto Angélica falava com a mãe, o futuro esposo da empresária estava na cozinha, procurando algo para fazer um rápido almoço para os dois. Nada pesado, já que tinha se alimentado bem durante o café da manhã. “- O que meu amor está fazendo aqui? Não vem me dizer que já está com fome? Imaginei que desejasse se fartar de outra coisa, mas se a comida vem em primeiro, então vamos a ela”.

– Paixão! Eu só vim dar uma olhada para ver o que se tem por aqui. Não podemos passar a tarde fora sem comer nada. Mas se você tiver algo de especial a ofertar ao nosso amor, com certeza me fartarei na degustação compartilhando tudo com esse lindo coração que faz essa trintona viver somente para nós dois. Te amo!

O repórter disse isso já tendo a amada nos braços. Quando ela sente algo pulsando no meio das pernas de Márcio, matreiramente ela responde: “- Era sobre isso que eu falava. Algo mágico que fazem nossos olhos brilharem mais do que as estrelas no firmamento”.

– E o que minha amada, prestes a se tornar imortal, sugere?

“- Curtir, amar e sentir tudo isso”. Ao responder, a empresária puxa Márcio pela mão até o sofá. Sentam-se. Ela passa a mão pelo rosto dele, sentindo a aspereza da barba por fazer. Em seguida começa a dar pequenos beijos por onde havia passada a mão e surrando no ouvido dele. “- Amor! Se você tivesse morrido naquela UTI, acho que eu iria junto. Se ficasse viva, seria uma morta-viva. Eu sei o quanto fui chata contigo, mandona, ciumenta”.

Quando completaria a frase com a famosa promessa, Márcio a interrompeu lhe dizendo: “- Amor! Não prometa! Faça. Eu jamais foi prometer te amar. Prefiro sempre te amar aqui e agora do que ficar na promessa. Olha só! Teu ciúme é gigantesco e tudo dependerá se a minha paciência for do tamanho ou maior do que ele. Sinceramente eu quero que seja gigante, porque não quero passar um dia sem você, mas isso não significa que não vou me relacionar com outras pessoas, inclusive mulher”.

– Se estiver comigo do seu lado, não vejo problemas. Mas se tiver com alguma “sirigaita”, é melhor que ela esteja com um crachá indicando que está ali por conta do trabalho ligado à sua editora. Se não se explicar, rodarei a baiana.

O futuro empresário do ramo livresco começa a gargalhar. “- Pare de rir desse jeito. Sabe que eu piro e fico ensopada quando dá essas gargalhadas de felicidade”, disse Angélica.

– Está vendo porque não adianta prometer.

– Você é de fato o meu primeiro amor e é lógico que não conseguiria agir diferente. Então, terei que me acostumar com tudo isso. Amor, paixão, ciúmes, não ser possessiva. Será que consigo, meu Marzinho?

“- Se desejar profundo, como diz aquela canção, é capaz de conseguir. Eu sempre me imaginei vivendo uma paixão que fosse ao mesmo tempo um avassalador amor. Em que o meu maior desafio fosse controlar meu ciúme e o de minha amada”, revela o jornalista.

– Mas eu não te dou motivo algum!

“- Até chegarmos a Alemanha. Sabemos que enquanto não conversar e encerrar o seu relacionamento com Rosângela, o nosso amor corre risco de não se concretizar. Mas confio em você e voltaremos de lá mais apaixonados do que antes e prontos para colocar uma aliança nesse dedo aqui e com meu nome e outra neste dedinho com o seu nome”, explica Márcio.

Ao dizer isso, o ex-repórter envolveu a arquiteta em seus braços, lhe dando um beijo de tirar o fôlego. Na medida em que a temperatura do corpo da arquiteta subia, ela se deixava levar, com uma das mãos percorrendo o corpo de Marzinho e a outra o abraçando. Ele fazia a mesma coisa, quando as mãos de ambos encontraram seus sexos, os dois sentiram os corpos estremecerem, os beijos foram mais intensos. Os dedos do jornalista afastam a calcinha da empresária, iniciando uma rápida massagem em seus lábios vaginais. Enquanto ela correspondia às carícias, fazia movimentos semelhantes no pênis do parceiro. Estavam tão conectados um com o outro que após passado uns cinco minutos, os dois explodiram no gozo sincrônico, indicando a sinergia do casal.

Quando a arquiteta viu o resultado de suas massagens, perguntou ao repórter: “- Amor tudo isso é consequência do tesão?”. Ele fixa seu olhar no dela e responde: “- Não! É um dos somatórios do que a dona Keka faz com o meu coração. Quanto a você, nem preciso perguntar, né?”

– Se essas são as suas preliminares, fico imaginando o jogo principal e seu resultado. Por enquanto estamos apenas nos treinos, podendo fazer tudo com cuidado para que não tenhamos nenhuma contusão e os jogadores possam estar inteiro para a partida oficial do campeonato da paixão. Quando for, você me avisa, amor?

– Por que não deixemos tudo acontecer naturalmente? Afinal somos virgens um do outro, sendo assim, nada melhor do que descobrirmos juntos essas coisas.

Angélica o beijou novamente e ambos observaram o relógio e viram que já passavam das onze. A sessão estava marcada para às 14 horas e o médico às 16h. “- Vamos ficar um pouco na banheira amor. Depois você prepara aquela comida rápida e vamos aos nossos compromissos da tarde”

– Enquanto preparas a banheiro, separarei os ingredientes para a nossa refeição.

Passados dez minutos, Márcio escutou Angélica lhe chamar. Quando entra no quarto, ela o esperava completamente nua. Entraram na banheira. Ficaram colocados um no outro em completo silêncio, apenas escutando as batidas do coração e as respectivas respirações.

Depois de vinte minutos, saíram. O jornalista foi preparar o almoço e Angélica escolher as roupas que cada um iria colocar. “Ainda bem que dona Judith não está aqui para dizer que roupa o Marzinho deveria colocar”, pensou a empresária.

O quase namorado-noivo entrou no quarto. Olhou para a roupa dela, fazendo aquela cara de quem não gostou do que ela escolheu para si, mas não falou nada. Quanto a dele, também silenciou, se limitando a dizer que o almoço estava servido.

Enquanto se alimentavam, Angélica observou o silêncio dele e quis saber o motivo. O repórter tentava se manter de boca fechada. Não queria dizer nada, mas não gostaria de vê-la usando aquela roupa que parecia ser um pouco transparente demais. Diante do mutismo do quase namorado, a arquiteta explode.

“- Caralho Márcio! Que cara de merda é essa? O que fui que fiz de errado agora?”. Ao vociferar para o repórter, a arquiteta já estava de pé. “- Vai me dizer o que é ou não? Não gosto que fiquem assim comigo sem dizer o motivo.”

– Está bem! Não acho aquela roupa que escolheu para ti seja adequada para irmos à terapeuta e ao médico. Não precisa usar burca, mas também não vejo necessidade de deixar em evidência certas protuberâncias. Será que pode ser algo mais simples?

– Porra amor! Por que não me disse? Era só falar que não gostou e eu vejo algo que não seja tão chamativo assim. Desculpe-me. Eu ainda não me atentei direito com a sua maneira. Ainda mantenho alguns hábitos de quando estava com Rosângela. Ela adorava que eu me vestia assim.

– Ela gostava porque queria te exibir como troféu. Eu não! Não quero mostrar para ninguém que estou com uma significativa pessoa. Quanto menos exibicionistas formos, melhor!

– Esqueci que o meu Marzinho é todo retrógado. Acho que tu devias ficar com a Fê. As vestimentas dela estão de acordo com o seu gosto cafona, de gente antiga que usa sapato que está sempre pedindo graxa.

– Ninguém está pedindo para você ficar com essa peça de museu que anda e fala. A escolha é sua. Talvez esteja sentindo saudades da Rosângela por isso. Ela sempre queria que você andasse atrás dela como uma cachorrinha. Te colocava a coleira, te vestia vulgarmente e te expunha àquela turma dela.

Angélica não pensou duas vezes e soltou a mão no rosto de Márcio que, engoliu em seco pedindo apenas para ela liberar a porta de entrada. Precisava de ar para respirar. Ela estava tão possessa que não pensou duas vezes e destravou a porta. O repórter entrou no elevador e saiu, desaparecendo sem seguida.

A arquiteta entrou no quarto e picou toda a roupa dela e a de Márcio, depois se jogando em cima dos retalhos. O jornalista saiu a esmo, sem rumo. Sem saber para onde ir. “Meus deus do céu. O que essa mulher tem. Quando tudo parece caminhar bem, ela vira uma locomotiva descarrilhada”, pensou o jornalista, sentando num banco próximo ao rio que cortava a cidade.

Fechou os olhos, deixando o pensamento flanar, visitando o passado, passeando pelo presente e se arriscando a planejar o futuro, mas como e com quem desejar um amanhã de paz. Ficou ali por uma meia hora escutando o som dos pássaros e o barulho da água corrente. Quando ficava assim, se desligava completamente do mundo e das coisas materiais. Voltou a terra no momento em que sentiu alguém lhe tocar, o chamando. “- Vem! Vamos amor! Agora mais do que nunca precisamos dessa ajuda. Acho que eu mais do que você, mas sei que se não estiver comigo, não conseguirei ir adiante”, lhe disse Angélica.

Entraram no carro em silêncio. O tempo era curto, mas dava para se arrumarem rapidamente. Quando Márcio viu as roupas em retalhos, perguntou o que foi aquilo. “- Consequência do meu descontrole. Fiquei furiosa porque o que me disse é verdade. Tenho que me acostumar com a simplicidade que você me propõe”.

Ele só meneou a cabeça, enquanto ela lhe perguntava o que achou da maneira como estava vestida. Márcio olhou e adorou o que viu. A arquiteta estava com uma camiseta lisa marrom claro, calça jeans e tênis. Para que o quase marido não surtasse, quando ia dizer sobre a roupa intima, ele fez menção para Angélica dizer nada. “- Não precisa. Você está linda! Mas quero saber se estais do jeito que você gostaria de estar?”

– Amor! Eu entendi o que quis me dizer. Para uma simples consulta, não há necessidade de tanto rococó. Vamos. Não podemos nos atrasar.

Saíram ainda influenciados pela briga e as roupas todas picotadas em cima da cama. Márcio optou pelo silêncio e a arquiteta seguiu o desejo dele. Depois de andarem mais ou menos meia hora, Angélica disse: “- É aqui!”. O jornalista olhou para ela, dando lhe um beijo carinhoso, respondeu: “- Vamos lá amor.  Início de uma nova jornada”, afirmou o repórter.

Durante a conversa com a terapeuta, o casal falou muito sobe suas vidas separadas, os momentos depois que se conheceram. A arquiteta disse que era casada com uma mulher, mas também gostava de homens e a prova era o que estava sentindo por Márcio. A psicóloga disse que o caminho era longo e a empresária precisava entender o que lhe acontecia para não confundir atração física com o amor.

“- Depois que a euforia passar, o que vai ficar?”, lhe perguntou a terapeuta. “- E o senhor? Sabe que tudo pode ser passageiro?”. Angélica e Márcio se entreolharam e ficaram pensando. “- Não é a mim que vocês devem dar essas respostas e sim a cada um de vocês e depois para o outro”, explicou a terapeuta.

O repórter disse saber das dificuldades que enfrentará dali para adiante. “- Vamos à Alemanha para ela resolver tudo isso. Somente depois é que pretendendo oficializar algo de mais concreto. Mas também estou ciente de que posso voltar de lá sozinho”, ao dizer isso Márcio sentiu a arquiteta lhe apertar a sua mão. “- Também tenho consciência de que estamos no começo de uma jornada que poderá proporcionar muitas felicidades a nós, desde que estejamos propensos a enfrentar nossas diferenças, em diversos campos e a sexual é uma delas”, finalizou o jornalista.

“- Bom! O nosso tempo terminou. Se possível quero vê-los depois que voltarem da Europa, então verifico se devemos continuar assim ou se trabalharemos separadamente”, explicou a psicóloga.

Saíram de mãos dadas do consultório. Resolveram parar numa sorveteria. Teriam um tempinho antes da consulta de Márcio com o médico que o atendeu na clínica e atestara a sua alta. Ambos pediram chocolate com morango. Assim que o alimento chegou, o casal trocou olhares cumplices e tomaram seus respectivos sorvetes em silêncio, até que a arquiteta o quebrou. “- Amor! Não sei como te agradecer por estar atravessando tudo comigo. Sei que não tenho facilitado as coisas. Compreendo que, às vezes, tudo parece ser uma calmaria só, para no momento seguinte parecer um furacão. Eu piquei todas as roupas que havia escolhido para nós dois porque eu deveria ter te consultado antes, pelo menos sobre o que você vestiria”.

– Eu sei, Keka.

– Não estou acostumada a agir diferente do que eu vinha fazendo. Depois você me jogou na cara o meu casamento e como ele é uma bosta, além de ter sido usada por Rosângela para ela ascender socialmente, enquanto eu queria justamente outra coisa: não aparecer. Ficar no meu universo. Mas não está fácil para mim. Vem tudo de uma vez e as vezes estou completamente nua. Você me entende né?

-Entendo sim. Compreendo, como já lhe disse outras vezes, enquanto o fantasma de sua esposa estiver entre nós, vai ser complicado. Por isso que precisamos ir a Alemanha o mais rápido possível.

Deixaram a sorveteria sem pegar na mão um do outro. Estavam na rua e não queriam chamar a atenção sobre si. Preferiam sempre andar como se fossem amigos. O sentimento que os unia não dizia respeito a ninguém. Eleanora sabia e Judith também, então, para os dois, o que o mundo pensava pouco importava. Lógico que os olhares dos curiosos estavam sempre passando sobre eles. O casal estava de pé, perto do carro conversando e Angélica percebeu duas mulheres vindo na direção deles e falavam deles. Ela não pensou duas vezes: deu um beijo profundo no rapaz e em seguida disse bem alto: “- Amor não vejo a hora de o nosso apartamento ficar pronto. Estou louquinha para ficar sozinha com você e fazer coisas gostosas”.

Inicialmente Márcio não entendeu nada, porque é totalmente desligado, mas ela lhe explicou. Entraram no carro em seguida e saíram, mas a arquiteta passou bem devagar perto das senhoras, dizendo-lhes: “- Por que não se metem com a vida de vocês? Porque não vão dar essas xerecas cheia de teia de aranha?”.

Chegaram ao médico no horário marcado e logo foram atendidos pelo médico que fez uma série de perguntas ao jornalista. A cada resposta dele, o médico olhava para Angélica como quem pergunta a ela se a resposta era verdade. Márcio surtou: “- Por que a cada resposta que eu dou, o senhor olha para ela. Está afim dela é? Se tiver é só falar que eu saio da sala e espero na antessala. O paciente aqui sou eu”, vociferou o jornalista.

– Calma. Eu não estou interessado em sua amiga, mas se tivesse tenho certeza de que o senhor não teria a menor chance com ela. No máximo só conseguiria engraxar os sapatos que eu usaria no meu casamento com a moça.

Márcio não pensou duas vezes e acertou um soco no rosto do médico. “- Por que o senhor fez isso?”, perguntou o médico.  “- É que achei que poderia começar a engraxar a sua cara, antes de ficar se engraçando com aquilo que não lhe pertence. O senhor tem que me clinicar, me examinar e não ficar paquerando a minha esposa. E tem sorte deu não lhe processar por racismo. Agora vamos aos resultados dos meus exames. É para isso que estou lhe pagando a consulta e não é pouco”.

Ele deu o diagnóstico dizendo que estava tudo bem, mas para evitar excesso com o álcool. O fígado estava no limite. Enquanto o médico falava com Márcio, ele nem ousava olhar para Angélica que assistiu a tudo atônita. Não esperava uma reação daquela proporção. Ela entendeu que o médico estava mais interessado em saber qual era a relação dela com o repórter, mas não achava que o repórter partiria para ataque.

Ao saírem do consultório, Angélica pede desculpas ao médico pela agressão do marido. “- Ele está um pouco nervoso. Além de ser ciumento”, explicou a arquiteta. “- Eu que peço desculpas. Acho que sai do meu espaço”, justiça o médico

– Angélica! Vamos! Acho que já conversou o suficiente com ele. Mas se quiser ficar, estou partindo.

– Calma amor. Já estamos indo.

Pagaram a consulta e deixaram o consultório em silêncio. Quando entraram no carro, a arquiteta pulou no repórter beijando-o loucamente. “- Se alguém me contasse, eu não acreditaria. Você socou o médico porque ele me olhava insistentemente. Fiquei louca de tesão. Meu homem dando murros por conta do ciúme. Agora você sabe o que eu sinto”.

Márcio só disse: “- Mil desculpas amor, mas quando vi já estava com a mão fechada no rosto dele. Esse nunca mais coloca a mão em mim e vai pensar duas vezes antes de olhar para a mulher que não seja a esposa dele”.

Angélica observou o relógio, dizendo ao jornalista que precisava ir a empresa. Deveria providencias as três passagens para a Alemanha. “- Hoje é quinta-feira. Que tal viajarmos na segunda-feira e voltarmos no outro domingo?”

“- Pode ser!”, confirmou Márcio com ares de preocupado.

– Meu amor! Voltaremos juntos, pode ter certeza.

Chegaram a empresa e Márcio ficou dentro do carro. Quando Angélica voltou encontrou Márcio encostado na parede sendo revistado por dois policiais e tinha mais duas viaturas paradas.

“- O que está acontecendo aqui?”, pergunta a empresária.

– Encontramos esse meliante dentro daquele carro e obviamente não é dele. Veio com uma conversa mole. Coisa de preto ladrão. Claro que roubou o veículo. Estamos checando os antecedentes dele e o levaremos para a delegacia. Mas o que a senhora tem a ver com isso?

– Não tenho nada.

Angélica tirou da bolsa um bloquinho e anotou os prefixos das viaturas. Pediu o nome dos policias. “- Para que a senhora quer saber?”

– Talvez esse rapaz possa querer que eu testemunhe a favor dele quando vocês o levarem para a cadeia.

“- E preto lá precisa de testemunha! Aqui está a testemunha dele”, disse o policial apontando a arma para Márcio enquanto este permanecia calado.

– Então vamos todos para a delegacia e lá veremos como a coisa se processa, meu senhor.

Márcio permaneceu calado, pois sabia que poderia apanhar se falasse alguma coisa. Entrou na viatura e quando Angélica entrou no carro de onde os policiais o tiraram. Frearam o veículo imediatamente. Desceram e tentaram justificar, mas Angélica falava ao telefone com alguém passando todas as informações sobre a ação dos policiais, nomes e prefixos das viaturas.

O policial que apontou a arma para Márcio foi falar com Angélica, está só lhe disse. “- Esse rapaz que o senhor humilhou por ser preto, é meu marido e eu sou presidente das Organizações Oliveira. Ele estava em nosso carro apenas me aguardando enquanto eu resolvia um problema burocrático. Desta forma, acho que agora a conversa muda de tom e formato”.

Márcio, completamente transtornado, suando frio e com gagueira, mal conseguia falar. “- Calma meu amor. Tudo ficará bem. Foi só um susto. Mas eu entendo como os pretos são tratados. Vamos ver como eles vão se livrar disso. Vamos para casa”.

Assim que chegaram ao apartamento, a arquiteta ligou para a mãe e lhe contou a história toda. “- Não vou falar nada para a mãe dele. Como ele está?”

– Mãe o policial colocou o revólver no rosto dele dizendo que a testemunha que ele precisava era uma bala daquela arma.

– Você pegou todas as informações?

– Peguei sim!

– Deixe ele descansar um pouco e depois venham para cá. Vamos jantar juntos. Amadeu gostará de saber que viajará segunda-feira para encontrar Tarsila.

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