Sobras de um amor … parte II

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Angélica acorda e como sempre fazia desde que Márcio entrou em sua vida, procura-o em sua cama, mas o seu corpo não estava onde deveria. Talvez a alma sim, mas a matéria se encontrava na sala, dormindo no sofá com o livro caído sobre o seu colo. Ela vai no encalço e, ao enxergar a cena, se senta na outra poltrona e fica observando aquele homem de hábito simples, quase espartano, que se desliga com facilidade do mundo material.

Pensou na conversa com Rosângela, no tapa que lhe deu na cara por esta ter dito que seria feliz com Márcio apenas se ele a estuprasse como o pai fazia na sua adolescência. Olhando ali para o jornalista, naquela noite berlinense e imaginando onde queria passar a lua de mel com ela. Realmente, na sua cabeça, o repórter só surgiu em sua vida, mexendo com o todo dela, por ser assim, uma espécie de Amadeu só que preto.

“Impossível para esses dois se ajustarem a esse mundo de ganância. É como se a felicidade para eles não estivesse nas coisas materiais, mas na essência do próprio existir. Tarsila foi a única capaz de acalmar o mar agitado que existe dentro do meu irmão. Será que tenho condições de fazer o mesmo com esse homem que aparece como um furacão em minha vida”, se pergunta a arquiteta.

Permaneceu olhando para o repórter que dormia de maneira totalmente desordenada na poltrona, mas como se tudo aquilo pouco importasse. “Ele pode ser flexível, mas jamais vai se quebrar e se deixar dominar pelo dinheiro que tenho. Tenho que me policiar mais, cuidar mais do nosso amor e controlar meu ciúme. Ele também é bastante ciumento, deu para perceber no consultório médico”, tendo essas palavras em pensamento, Angélica levantou e, ao retirar o livro que estava prestes a cair das mãos do repórter, ele despertou.

Olhando para ela, completamente envergonhado lhe pede desculpas. “-Amor. Acabei dormindo com o livro na mão. Mil desculpas, isso não vai se repetir”.

– Querido fique sereno. Estava aqui já algum tempo te observando e tentando me entender em ti. Querendo saber mais sobre a pessoa que me encanta cada vez mais e, na medida em que isso acontece, fico mais insegura e ciumenta. Te comparei com o meu irmão. A Tarsila é a única que consegue acalmar a tormenta que ele carrega dentro dele. Será que atingirei o mesmo objetivo contigo?

– Não sei. Nem mesmo sei se tenho alguma tormenta para ser serenada.

– Você é um homem de gestos simples, quase espartano. Não almeja dominar o mundo, ter dinheiro, status, holofotes. Pelo contrário, detesta aparecer, quer ficar longe das badalações. Tudo isso é muito estranho para o meu mundo. Sempre achei que tinha que ser assim ou de outro jeito para ser feliz. Aí aparece você, com camisas ensebadas lavadas no vaso sanitário, sapato que pede graxa, calças que há semanas não viam água, me tirando completamente do eixo e de minhas certezas. Agora estou aqui contigo no meu apartamento em Berlim, montado do jeito que eu pensei, gastei uma grana para que ficasse assim, mas você não dá a mínima para isso.

– Amor! Não sou apegado as coisas materiais, mas isso não quer dizer que eu seja um doidivanas. Eu apenas acho que tem coisas mais importantes na vida do que dinheiro. Claro que se puder comer bem, eu farei isso, mas se não puder, não me acharei o pior ser do mundo. Também fui atropelado por uma madame acostumada a ter todos aos seus pés, lamber o chão que ela pisa. Ela é completamente amalucada, doida, mas portadora duma loucura que me desnorteia, me deixando mais e mais apaixonado por ela. Mas não é uma paixão que queima, e sim, um amor sereno. Estou muito feliz em estar com ela e por ser desse jeito.

– Vem amor! Vamos para cama. Amanhã temos um dia cheio. Se conseguirmos resolver tudo, penso que podemos pensar em nosso retorno. O que você acha?

– Primeiro precisamos saber o que faremos amanhã.

– Já sabemos que Amadeu está bem. Tarsila aceitou o trabalho contigo. Só vou ajudá-los a abrir duas contas correntes: uma para cada um. Lógico que a dela, não terei acesso porque é você quem vai enviar os recursos, mas a do meu irmão, quero inicialmente ter um controle. Preciso saber como ele está gastando. E não adianta vir me dizer que está errado. Farei isso e pronto, pelo menos nos próximos seis meses.

– Você quem sabe amor. Como eu te disse, o dinheiro é da sua família. Use-o da melhor forma possível. Lógico que não vou deixá-la fazer besteiras, mas não me envolverei. Daquele dinheiro que depositou em minha conta transferirei, em forma de adiantamento pelo trabalho dela, uma soma considerável que dará para começarem a vida.

– Está certo amor, agora vamos. Quero resolver tudo isso e voltar ao Brasil. Penso em fazer uma surpresa para as nossas mães. O que acha?

– Interessante. Passaremos o final de semana com elas?

– Talvez. Mas quero algo só para nós dois.

Dormiram, sempre do jeito que a arquiteta desejava, abraçada por ele, como se Márcio a protegesse do mundo e dos pesadelos que deixaram de atormentá-la desde que o conheceu. Quando estava com ele, se desligava de tudo, como naquela primeira noite sozinhos no quarto de seu apartamento instalado na capital alemã.

Despertaram com Amadeu ligando dizendo que já os esperava para irem ao banco e depois tinham que comprar as alianças. “- Márcio pode ser meu padrinho e você Keka ser de Tarsila”, disse o irmão atropelando tudo, como era próprio dos corações apaixonados e em plena tempestade.

– Calma Amadeu. Falarei com Márcio. Estou esperando ele acordar. No caminho eu converso com ele e quando chegarmos aí já teremos uma resposta.

O repórter estava do lado dela, mas não poderia deixar transparecer nada. Só oficializariam a união quando voltassem para o Brasil. Não queria que Tarsila falasse alguma coisa antes de que tudo estivesse pronto. Chegaram rápido ao apartamento da irmã de Rosângela. Foram ao banco, abriram as contas para os dois e Márcio chamou Tarsila num canto para conversarem.

– Tarsila, Angélica te levará e o Amadeu para escolherem as alianças. Depois vamos tratar do seu aluguel. A editora, como forma de adiantamento para que possa trabalhar calmamente, pagará seu aluguel nos próximos seis meses. Depois ficará sob a sua responsabilidade. Pode ser?

– Por que está fazendo isso? Acha que eu e o Amadeu não temos condições de nos mantermos aqui na Alemanha?

– Sinceramente, não estou nem aí para vocês. Só te ofereci um trabalho. Prefiro você que tem competência para isso do que sair procurando a esmo. Só estou lhe oferendo algo que, se eu estivesse em seu lugar, gostariam que fizessem por mim. Agora, se quiser um conselho, esqueça a família de Amadeu, dona Eleanora, Angélica, Jovelino que até já não está mais entre nós e se concentre no amor que tens por Amadeu. Ele é doido por ti e sei que o ama muito. Não deixe que ódios pretéritos atrapalhem o seu futuro com o homem que atravessou o Oceano só para sentir o sabor dos seus lábios e o calor de seus braços.

– Desculpe Márcio! É que já levei tanta porrada dessa gente que uma gentileza vinda deles eu até estranho.

– Não tem gentileza alguma. Você é a primeira funcionária de minha empresa e trabalhará aqui na Alemanha traduzindo inclusive os textos de Amadeu para o alemão e também autores alemães que comprará os direitos de tradução. Você é quem vai tratar disso tudo. Então, não veja tudo isso como esmola, mas apenas uma questão de profissionalismo.

Resolvida todas as questões burocráticas, os quatro resolveram jantar num restaurante brasileiro indicado por Tarsila. No dia seguinte, Márcio e Angélica tratariam da viagem de retorno ao Brasil.

Durante a comensalidade, enquanto Amadeu e a irmã conversavam animadamente, Tarsila pergunta a Márcio qual é o lance da arquiteta com ele. “-Ela te olha de um jeito especial que nunca a vi fazendo com a minha irmã.  Veja bem: elas moraram juntas por cinco anos. Esse jeito dela contigo, tem algo de mágico. Posso estar enganada, mas essa aí está apaixonadíssima por você, que de agora em diante é meu patrão, então devo tratá-lo por senhor”.

– Nem pensar. Pode ser você mesmo. E quanto a Angélica, não existe nada do que está imaginando. Somos apenas amigos e eu fiz um favor a ela, trazendo Amadeu de volta. Ela me pagou por isso e estou usando o dinheiro para realizar um sonho antigo: abrir a minha editora. E como seu noivo fez questão que eu viesse com eles à Alemanha, aproveitei para agilizar essas coisas. Voltando ao Brasil, ela seguirá o mundo dela e eu o meu. Sua irmã não voltará para lá daqui uns dez meses? Não são casadas?

– Minha irmã já tem outra pessoa. Veio para cá para consolidar esse novo relacionamento, inclusive já até mora com a nova esposa. A família dela, ao contrário da de Amadeu, a recebeu muito bem. Tratam-na como se fosse um deles. Enfim, mas isso não diz respeito à minha pessoa e nem a você. Temos vidas independentes dessas duas.

– Ah sim.

– Adoro minha irmã, mas o casamento dela com Angélica não iria longe. As duas são arrogantes, pensam que podem mandar no mundo, comprar pessoas, venderem ideologias, mas se esquecem que nem todo mundo é assim. Sou preta e isso não vai mudar nunca. Quem não me gosta por conta da tonalidade de minha pele que vá tomar no cu. Eu simplesmente me afasto. Não vou me apequenar para que me aceitem. E agora tenho comigo o melhor homem do mundo, o meu poeta amado. Quem precisa de opinião de gente pequena, invejosa e infeliz?

– Você tem razão, Tarsila. Não se pode perder tempo em tentar dar respostas a quem se acha portador da verdade absoluta. Fico ditoso em saber que está no céu com Amadeu e o fará imensamente feliz.

Assim que o repórter terminou a conversa com a futura esposa de Amadeu, Angélica olhou para os dois e o chamou para irem embora. “- Vamos. Temos que começar arrumar nossas bagagens para voltar ao Brasil. Quero ver se retornemos, no máximo, na sexta-feira”.

Sem fazer objeção alguma, Márcio se levanta. Essa atitude não passou despercebido por Tarsila. “Ou esses dois querem esconder algo, ou Márcio é um puta dum capacho. Detesto homem que fica lambendo as botas da mulher. Espero estar enganada”, pensou a tradutora.

Angélica se despediu do irmão, dizendo que no dia seguinte passaria no apartamento levando as alianças do casal e comemorariam o casamento dos dois. Deu um beijo na face de Tarsila que não se levantou para compartilhar a ação da arquiteta. Márcio abraçou o amigo que lhe cochichou no ouvido. “- Obrigado cunhado por nos fazer felizes. Vejo minha irmã nas nuvens, assim como eu estou. Te adoro, meu Rei de Ébano”.

O editor lhe devolveu o comentário da mesma forma: “- Amo em demasia a sua irmã. Obrigado por ter me trazido ela. O nosso amor ainda é um segredo. Conto com a sua discrição. Te amo, meu poeta”.

Saíram do restaurante e Tarsila ainda olhava na tentativa de pegá-los em contradição, mas não viu nada de estranho. “- O que tanto olha para o Márcio e minha irmã, Tarsila?”

– Esses dois são muito estranhos. Tem algo além da amizade, mas eu não consigo ver. Ela parece mandar nele ou coisa parecida. Não sei não! Acho que ele está comendo a sua irmã e não quer que ninguém saiba. Bom, deixa para lá. Não é problema nosso. O meu é te fazer feliz e o seu, meu amor, qual é?

– Te fazer a mulher mais feliz do mundo minha Rainha de Ébano.

– Gostou das luzes ontem?

– Adorei. Fiquei esgotado e você?

“- Subi pelas paredes como lagartixa”, informa Tarsila.

Enquanto o casal se deixa ficar no restaurante, Angélica e Márcio entravam num táxi em direção ao apartamento dela. “- Que história foi aquela de virmos embora para arrumarmos nossas coisas°, pergunta o jornalista.

– Por que não estava afim de segurar vela, quando posso estar fazendo algo tão gostoso ou melhor do que o meu irmão e Tarsila fariam. Além de não querer mais ficar aqui na Alemanha. Prefiro o meu canto, minhas coisinhas e providenciar tudo para o noivado com o neguinho mais charmoso do mundo”.

Quando Angélica beijou Márcio, o motorista viu pelo retrovisor. Parou o automóvel e expulsou os dois, vociferando que não iria transportar dois imundos. Ambos ficaram sem entender, contudo, o repórter compreendeu que a ação dos dois dentro do carro pode, de alguma forma, ter agredido o taxista.

Já na calçada, procuraram se localizar, mas observaram que estavam longe do apartamento. Pediram um novo transporte e se ocuparam em não evidenciar que estavam juntos como namorados. Entraram e chegaram ao destino rapidinho. Quando entrou em seu apartamento, Angélica estava em prantos, enquanto Márcio tentava acalmá-la.

– Aqui, como em outros lugares da Europa, os indivíduos não escondem o seu xenofobismo, racismo e qualquer outra forma de preconceito. No Brasil, a coisa é diferente, pois é estrutural e as pessoas negam que não são racistas, usando muitas vezes a explicação de que até têm um amigo preto.

– Amor! Eu não entendo porque as pessoas agem desta forma. Está doendo muito aqui dentro. A ofensa também recai sobre a minha pessoa. E você não diz nada, não se revolta?

– A minha dor, talvez seja maior do que a sua, porque se você não estivesse comigo, não sentiria isso. Mas mesmo que eu não esteja contigo, o meu ser por estar se manifestando num corpo preto, sente e não tem lenitivo algum para amenizar. Outro dia eu te falei disso: quando chego num estabelecimento, muitas vezes é para resgatar a minha alma, minha condição, vilipendiada por alguém que me sentencia pela tonalidade de minha pele. E isso eu não consigo mudar.

– Quero ir embora daqui o mais rápido possível.

– Se acalme. Amanhã finalizaremos as coisas com Amadeu e na sexta-feira voltamos ao Brasil. Vamos fazer uma surpresa para Eleanora e dona Judith. Que tal um almoço só para nós quatro no domingo? Poderemos anunciar nossas intenções e na segunda-feira comprar alianças? Ou achas muito cedo?

– Não sei Márcio. Depois decidimos isso. Agora quero tomar um banho. Me senti humilhada por aquele homem.

– Humilhada pelo que ele falou ou porque estava comigo?

– Porra quer calar essa boca! De novo essa conversa de racismo e vitimização.

– Vai tomar no seu cu. Eu tenho que aguentar todos os dias que fui comprado por você. Tenho que suportar as suas nóias, seus acessos de ciúmes. Chega. Fica aí com a sua zanga, sua irá, sua revolta de branca indignada por que foi ofendida por estar em companhia de um preto. Estou farto!

Enquanto Márcio dizia isso Angélica fazia ouvido de mercador. O jornalista olhou no relógio e viu que ainda era cedo. Mesmo sabendo que poderia ser agredido por xenófobos, sairia. Não conseguia ficar dentro daquele apartamento com a arquiteta daquele jeito.

Ao sair do banheiro, a empresária foi procurá-lo, mas ele já tinha saído. Vestiu a roupa de maneira apressada. Chegou no térreo, perguntou ao porteiro se não tinha visto um homem com as características de Márcio. “- Minha senhora, aquele homem tem uma pronuncia alemã marcante. Ele seguiu essa rua aí. Se apertar o passo acho que o encontra ainda”.

– Se ele aparecer aqui não deixe sair.

Apesar do frio que fazia na noite berlinense, Angélica não o sentia, tamanha a sua preocupação. Tinham acabado de ser vítima de racismo dentro do táxi e Márcio resolveu, por birra, sair, andando a noite pela cidade, sem saber para onde ir.

O encontrou comprando ingresso para assistir um filme. “- O que o senhor está pensando em fazer”, pergunta a empresária. “- Ir para qualquer lugar onde você não esteja. Estou de saco cheio desses seus ataques histéricos. Já tenho que enfrentar um mundo que é indiferente às nossas dores, agora suportar suas infantilidades, não dá! Cheguei ao meu limite. Não tem amor que aguenta tanto egoísmo. Volte para o seu apartamento. Depois do filme, vou procurar uma pensão por aqui e amanhã compro minha passagem e volto ao Brasil. Fique aqui com o seu orgulho. Vocês se merecem”.

Ao dizer isso, Márcio entra para ver o filme. Ela compra ingresso e entra atrás dele e como não o acha, começa a gritar o seu nome dentro da sala de projeção. Aquele escândalo que o jornalista tanto odeia e ela parece adorar a chamar a atenção para si, como fazia na pré-adolescência e na adolescência quando dava aquelas risadas para todo mundo vê-la ou quando um garoto a pedia em namoro, ela o humilhava em voz alta para todos saberem que o garoto estava recebendo um fora dela.

O funcionário a coloca para fora e o serviço de alto-falantes afirma que era para o tal de Márcio sair, caso contrário, não começaria a exibição do filme. Pronto. Ela conseguiu o que queria. O jornalista todo encabulado, sai de fininho do cinema e ela o agarra. “- Vem cá seu bobo! Está pensando que ia dormir num hotel? Nem pensar! Você veio comigo para a Alemanha e voltará do mesmo jeito e vamos nos casar sim”.

– Não aguento mais. Chega. Não adianta. Você não vai crescer nunca. Cada dia uma atitude infantil diferente. Não aturarei mais isso.

Ao dizer isso, se desvencilha dos braços dela e segue em frente, mas para ao escutar barulhos de buzina e o pessoal gritando. Ele se vira e Angélica está deitada no meio da rua, começando a juntar pessoas. Márcio corre para os lados de onde a arquiteta está, achando que tinha sido atropelada. Quando a empresária percebe que ele está voltando, corre em direção a Márcio. “- Se não voltar comigo, me jogo na frente do primeiro automóvel. Não retorno ao Brasil sem você.”

Márcio a puxa pelo braço, muito irritado. “- Caralho! Todo mundo nos olhando, achando que somos um casal de amalucados. Já fez escândalo dentro do cinema e agora para o trânsito. O que você está pensando da vida?”

– Que não posso ficar sem você e tu tem que parar de ser de vidro, todo maricona. Não posso falar nada, não posso me exasperar que ameaça ir embora. Quando é que vai crescer também? Não vou ser nenhuma cordeirinha em sua vida. Agora se quiser ir embora, vá, mas vá de uma vez e pare de ficar ameaçando, nervosinho só porque a esposa querida teve um ataque.

– Porra Angélica, não teve um só dia aqui na Alemanha que tu não deste chilique e esse agora, superou todos.

– E vou fazer isso sempre enquanto você não parar com essa frescura de querer ir embora. Vive me dizendo que quer ficar comigo, mas está sempre querendo sumir. Começo a entender que as minhas suspeitas sobre a Fê procedem. Vai lá fica com ela. Talvez esteja com saudade de dormir bunda com bunda e ela peidar na sua cara!

Desta vez não foi ela quem partiu para cima dele, mas o contrário. Agarrou-a beijando-a e para provocá-la a chamou de Fernanda. Foi como jogar 100 litros de gasolina num incêndio. Ela o empurrou o chamando de nojento e asqueroso. Desferindo um tapa na cara e saiu em direção ao apartamento. Ele a seguiu em silêncio. Entraram no prédio sem dar uma palavra um com o outro.

Márcio foi direto para o quarto que estava ocupando desde que chegou em Berlim. Tomou banho e se largou na cama com um dos livros que havia adquirido no primeiro dia na capital alemã. Como na noite anterior, acabou dormindo durante a leitura. Acordou na manhã seguinte com a sensação de que alguém esteve ali, pois não se lembrava de ter posto cobertor sobre o corpo.

Levantou-se foi ao banheiro se higienizar, mas escutou quando Angélica lhe dizendo. “- Vamos rápido. Quero terminar tudo hoje. Meu irmão quer fazer o ritual de colocar aliança no dedo de Tarsila e depois quero arrumar as minhas malas e sair dessa cidade o mais rápido possível. Se apresse. Não temos o dia todo. Deixe suas coisas mais ou menos organizada. Pegaremos o primeiro voo de volta ao Brasil”.

Quando deixou o banheiro, o jornalista não viu a arquiteta dentro do quarto. Se arrumou, encontrando com ela à mesa pronta para tomarem café. “- Por que a pressa em ir embora de Berlim? A senhora pode me explicar?”

– Ué! Para o maricão se encontrar com a Fê e pedi-la em casamento. Não é essa a sua vontade? Não é ela a mulher madura, segura, adulta que serve para você? Eu sou infantil, criançola, imatura. A burguesa cheia da grana, mas que não consegue manter o seu pinto junto dela. Não é a xereca da Fê que te satisfaz, então, apressemos logo isso, assim não terá mais o suplício de ficar comigo e meus chiliques.

Quando Márcio ia dizer algo, mas optou pelo silêncio. Ela dá outra chicotada nele. “- Sou frigida e fazer o quê? Estou cheia de problemas criados num passado que não me abandona e agora o homem que eu amo também fará isso, por conta duma buceta que funciona. É demais! Quem não aguenta mais sou eu. Chegando ao Brasil, vá a loja e se case com ela e esqueça que um dia me conheceu ou eu entrei em sua vida”, diz Angélica aos prantos.

O editor se levanta em silêncio, fica atrás da cadeira dela e pega-lhe as mãos. Agacha perto dela, dizendo. “- Quero ir embora logo, mas não é para ficar com fulana ou beltrana, mas sim para começarmos logo a nossa vida, principalmente para te transmitir paz. Eu vejo como sofres com tudo isso. Eu só falei aqui para te provocar, você conseguiu me tirar do sério”.

– Você tem certeza de que quer ficar mesmo comigo?

– Naquela tarde no churrasco na casa de sua mãe, entre as nossas rusgas eu percebi o quanto te amo. Também preciso encontrar um jeito de fazer esse amor funcionar, porque sei que sem ti não sei como será o meu amanhã. Entendo que só haverá ordem no meu mundo se você estiver nele. Do contrário, ficarei andando de um canto a outro sem achar um espaço para me abrigar da solidão do mundo.

Ele beija as mãos dela, depois o rosto, a testa e por fim lhe dá um carinhoso beijo. Em seguida a tira da cadeira, a abraçando bem forte como quem quer dizer que não a deixará sozinha.

– Márcio! Eu te amo, mas não estou sabendo lidar com essa revolução aqui dentro do meu ser e eu acabo metendo os pés pelas mãos e enxergando fantasmas em todos os lugares.

– Façamos o seguinte: vamos ao apartamento de Tarsila, festejamos o casamento dos dois, afinal era o que queriam há cinco anos. Ela trabalhará comigo e o seu irmão publicará os textos pela editora. Depois providenciaremos as passagens e retornamos ao Brasil. Almoçaremos no domingo com a sua mãe e a minha. Na segunda-feira, providenciaremos as alianças, assumindo o nosso amor. É o que mais quero nesse momento e sei que o que desejas também. Talvez essa realidade está te dando medo.

– Pode ser isso e muito mais. Nunca imaginei que teria medo de ser feliz. Eu sempre comprava tudo e entendia que cada coisa adquirida me traria felicidade. Mas um meteorito chamado Márcio tirou meu mundo da órbita. É! Você tem razão! Estou com medo de você, do seu amor, da paz que está me proporcionando e o cagaço é tanto que sempre acho que vai embora e eu acabo contribuindo para que isso aconteça, mesmo você dizendo o contrário.

– Vamos lá despedir do seu irmão e tirar umas fotos para enviar à sua mãe. Depois seguiremos em frente para acertar nossas vidas. Precisamos tomar café da manhã, almoço, jantar, programa com os amigos, enfim, curtirmos esse amor que nos une agora. Chega de confusão, brigas e xingamentos. Rosângela é passado e que venha o futuro que estamos aguardando.

Se higienizaram e foram buscar as alianças que Tarsila e Amadeu haviam encomendado. Chegaram no apartamento, Amadeu estava todo embonecado. “- Angélica, ele já falou com a sua mãe. Queria que eu conversasse com ela, mas não consegui. Me desculpe por isso”, se justificou Tarsila.

– Tarsila! Minha mãe só deseja que faças o queridinho dela feliz. Com o tempo vocês se ajustam. Não precisa ter pressa.

– Estou preparando um almoço rapidinho para celebrarmos a minha união com o meu poeta amado.

“- Tarsila vá se arrumar, deixe que eu cuido da comida”, disse Márcio. “-Acho que você e Angélica terão muito o que conversar. Então deixe tudo aqui comigo”.

Dentro do quarto, enquanto a arquiteta ajudava a cunhada a se preparar para a foto oficial de união, Tarsila não conseguiu conter a curiosidade. “-Angélica, se não quiser me responder não precisa e eu entenderei, mas acho que entre você o Márcio tem mais coisas do que o simples favor que ele lhe fez em resgatar o Amadeu e possibilitar essa nossa união”.

A arquiteta ficou em silêncio, indicando que as suspeitas da musa de Amadeu procediam. “- Eu não me meto na vida de minha irmã como ela não se intromete na minha. Ela apenas me ajudou a me estabelecer aqui e me arrumou os primeiros alunos e daí em diante foi comigo e agora com esse trabalho com o Márcio, ficarei mais tranquila”.

– Minha cara Tarsila. Se eu te dizer que esse homem não mexe comigo, estaria mentindo, mas daí a dizer que há algo entre nós dois há uma grande distância.

– Então falta alguém dar o primeiro passo, pois eu vejo como ele te observa e não é de hoje. Desde aquele dia lá no Bar da Net. É um olhar de quem quer proteger o ente fitado. Um querer te abraçar inteira. Eu sei porque é assim que Amadeu me olha e eu fico sem chão. É como se ele me tirasse toda a roupa sem me colocar a mão. É um desnudar poético, sem vulgaridade, de pura paixão, devoção. Esse é o olhar do repórter para contigo. Se ainda não viu, repare e esqueça a história com a minha irmã. Aquilo foi passado e não um erro das duas. Desculpe-me por me intrometer na vida de vocês, mas é o que eu acho.

Aquela fala de Tarsila tirou uma tonelada de peso das costas de Angélica e os olhos ficaram vidrados. A esposa de Amadeu fingiu não ver, mas sabia que havia alguma coisa, mas nenhum dos dois queria admitir. Quando o repórter terminou o almoço chama o pessoal e o poeta para sacaneá-lo diz; “- Minha irmã que vai passar bem com um cozinheiro desses na Torre eletrônica”.

Enquanto ele gargalhava, Márcio e Angélica não sabem o que dizer. “- Não te falei minha Tarsilinha que os dois estão se acabando de paixão, mas brigam muito. Olha só! Se eles não tiveram umas três brigas desde que chegamos aqui na Alemanha eu não me chamo Amadeu e estou mortalmente apaixonado por ti, minha Rainha de Ébano”.

Foi Angélica quem caminhou até Márcio e disse que tinha muito ciúmes dele. “- Também, minha cunhada, com o olhar que ele tem para ti, e se fizer isso para outra mulher, tu vais ter muito trabalho.  Se eu não tivesse meu olhar particular, o meu sol, minha lua, minha estrela, minha vida aqui chamado Amadeu eu o disputaria contigo”, disse dando gargalhadas.

– É! Esse Marzinho aqui me deixa sem chão. Já fiz muita loucura por ele. Espero que sejamos serenos a partir de agora.

– Vamos almoçar gente, antes que a comida esfrie.

– Mas o meu patrão só ouviu e não disse nada sobre essa loira que acabou com um casamento de cinco anos com a minha irmã por sua causa.

– Vocês já falaram tudo, então para que dizer alguma coisa se posso fazer melhor que é amá-la indistintamente. Te amo minha galega esmeraldina.

Todos sentaram, comeram, Márcio tomou umas cervejas sem álcool semelhantes às produzidas no Brasil. Ele e Amadeu lavaram a louça e organizaram a cozinha enquanto as duas rainhas se falavam na sala. “- Angélica! O Márcio só apareceu porque a relação com a minha irmã já tinha chegado ao final e nenhuma das duas queriam dar o primeiro passo na separação. Ela já tinha essa mulher aqui na Alemanha. Se conheceram num evento lá no Brasil, porém Rosângela tentou levar o casamento, mas estava difícil, e você se envolvendo de corpo e alma na recuperação do seu irmão, tudo contribuiu. Não fique magoada com ela. Você sabe que ela não sabe agir com a razão. Sempre se defende atacando. A nossa vida foi foda”.

– Eu sei Tarsila. Mas como você mesma disse a pouco: minha história com Rosângela ficou no passado, não tem erros ou acertos, mas apenas vivenciamos aquilo que queríamos viver e depois acabou por si só. Se essa alemã apareceu foi porque ela estava descontente comigo, mas não sabia como dizer.

– Esse meu patrão te fará feliz, se deixares que ele o faça. Ele é amigo do Amadeu porque são iguais n’alma. Não deixe pra outra aquele que o Universo colocou em suas mãos.

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