Sobras de um amor

8

 

         Depois daquele “mico”, Márcio percebeu que todos no bar o olhavam, já que ficou algum tempo buscando algo no fundo do copo. Mentalmente xingou até a enésima geração de Amadeu. Depois foi até o balcão e pediu um uísque, na tentativa de entender o colega amalucado que o deixou falando sozinho, ou melhor, vendo uma mulher inexistente no fundo do copo.

O garçom olhou para ele e não conseguiu conter o riso. “Do que vocês estão rindo Rodolfo? Reconheço que fiz papel de idiota. Esse Amadeu é tresloucado e eu sou mais do que ele para entrar em suas paranoias. Mas amanhã eu pego ele de jeito”, vociferou saindo em direção à porta do bar, tentando adivinhar o lado para o qual Amadeu havia corrido.

Depois de andar um quarteirão, escutou alguém lhe chamando.

– Ei doutor do jornal! Estou aqui, preciso conversar com você um bocadinho.

Márcio viu que se tratava de Amadeu e entre bravo e intrigado foi ao seu encontro. Quando chegou, a primeira pergunta que recebeu foi se havia encontrado a mulher de lingerie azul no fundo do copo e se ela ficava trocando de roupa na medida em que as moléculas da bebida se movimentavam dentro do copo.

– Não tinha nada no fundo daquele copo. Você está de sacanagem comigo, me fez de idiota na frente dos fregueses do bar. Estou farto dessas suas histórias de lingeries e mulheres que trocam de roupa no fundo de copos cheios de bebida. Você está é alucinado.

– É! Como se vê, o moço não passou no teste e ainda quer comer todas as mulheres do mundo!

– Quem foi que lhe disse isso?

– A sua insistência em falar comigo quando não quero lhe dirigir a palavra, apenas degustar minha birita diária sem ninguém querer saber nada a meu respeito. De onde eu venho, para onde eu vou, por que bebo todos os dias e tenho, ou sou fissurado por lingerie azul, verde ou sei lá de que cor for, e ficar olhando insistentemente para as minhas meias. Perguntas que não estou nenhum pouquinho interessado em responder.

– Como você sabe que fazemos isso?

– Ora doutor, eu tenho dois olhos, dois ouvidos e um cérebro que ainda funcionam muito bem. O senhor tem tudo isso, mas estão falhando. Quer que eu lhe dê a receita para encontrar a mulher ideal, mas continua buscando ela lá fora, entra todas as que passam diante de seus olhos e aquelas que o senhor já levou para cama, ou entre uma masturbação e outra. Daqui a pouco seu pau estará gasto de tanto atrito, na maioria das vezes realizado com as mãos, porque buceta mesma, é como carne na mesa do pobre: rara!  Tchau. Até amanhã!

Enquanto Amadeu desaparecia na escuridão daquela noite, Mário ficou no maior breu da sua existência, pois um alcóolatra alucinado sabia mais dele do que ele próprio. “Que desgraça! Não sei nada de mim e nem da vida. Então para que escrever, se não sei o que estou colocando no papel, apenas reproduzindo tecnicamente o que os outros dizem e os fatos me mostram ou acho que vejo. Estou fodido mesmo!”

Chegou em sua casa, tentou pesquisar tudo sobre o amor, mas não encontrou nada que pudesse lhe dar uma resposta rápida e pegar Amadeu no contrapé na sexta-feira. “Que droga, não encontrei nada! O que farei? Preciso desforrar as humilhações que aquele bêbado safado, pilantra e gozador, está me fazendo passar”.

Dormiu. Desta vez não foi assombrado pelas musas de Amadeu, mas sim pela imagem do bêbado amalucado saindo de trás das árvores e rindo dele às gargalhadas. “Vai lá doutor das letras, me entenda ou o seu medo do amor vai lhe devorar pedacinho por pedacinho!”.

No outro dia, ao chegar ao bar, quando viu Amadeu sentado à mesa de costume, foi logo falando alto com ele. Estava profundamente irritado, decidido a colocar um fim naquela confusão toda. Só não sabia de onde vinha a confusão: do mundo externo ou de seus fantasmas.

– Escuta aqui seu Amadeu. Estou cheio de seus enigmas. Se hoje você me aprontar outra como a de ontem, com certeza sairá daqui direto para o hospital.

– Se acontecer isso, quando for me visitar, vai me levar uns lingeries. Já que estarei no hospital, prefiro as vermelhas. Pedirei às enfermeiras que as usem para eu ver enquanto eu me recupero de sua truculência.

Disse isso e deu uma enorme gargalhada que todos do bar escutaram. Depois mais calmo disse ao repórter: “sente-se aqui, vou te contar a história e, quem sabe, você pode publicar o que quiser sobre ela no seu jornaleco de embrulhar peixe”.

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