Sobras de um amor …

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Depois de devorar a cerveja e com os pensamentos aceleradíssimos, Márcio resolveu que deveria ir dormir. Tinha que estar pontualmente às 8h na casa de Angélica. Já conhecia a frieza dos olhos castanhos dela e a doçura e o enternecimentos quando estes estavam esverdeados. Com certeza adorava o segundo e temia o primeiro. Além disso, tinha essa solicitação da rainha de Amadeu que finalmente resolveu aparecer. “O que fazer?”, pensou o repórter. Falava ou não para a irmã dele? Sabia que se abrisse a boca, com certeza, haveria mil seguranças em volta da praça para acuar a moça. “Melhor não! Inclusive para que eu possa ajudar Amadeu sem que aquela família de doidos atrapalhe!”

Caminhou trôpego para o quarto, se sentindo mais leve, feliz, mas não sabia o motivo. Talvez fosse a quantidade de álcool ingerido naquela noite, mas a adrenalina, a presença de Angélica, a revelação do passado que tanto tentava esconder de si mesmo, o toque dela em sua cueca, enfim, algo aconteceu e ele se manteve sóbrio, inclusive conseguindo captar a alma da arquiteta. “Será que é isso mesmo ou eu estava entorpecido pela bebida, pela beleza e imponência dela, mas ao mesmo tempo doida para ser compreendida em sua essência”, pensava Márcio enquanto ligava o chuveiro. Quando entrou debaixo da água, estava completamente bêbado e não sabia como isso aconteceu.

Um poeta que visse o repórter, completamente alcoolizado, tomando banho num banheiro que cheirava a tudo, menos limpeza e o aroma daquela que estivera ali ainda a pouco e, de alguma forma, encantava o morador, poderia até escrever que um coração calejado e forjado nas decepções amorosas da vida, aguentaria tudo, mas teria que prestar atenção na mudança de cores dos olhos da arquiteta que gosta de açoitar, não o repórter, mas sim a fonte que tantos desarranjos mentais estava lhe causando.

“- O que está acontecendo comigo? Eu devia odiar essa mulher, ofende, me tratando como se eu fosse um cachorro. Tento reagir, porém, quando os olhos dela mudam de cor, é como se todo o meu ser ficasse em plena luz e muita paz, enquanto o mundo desaba lá fora”, pensava Márcio enquanto se enxugava, tentando não desabar antes da próxima ação.

Mas, como ali no quarto não havia poeta algum e em nenhum canto da casa, o jornalista estava só com seus pensamentos e uma fogueira de lascar. Tudo rodava e aquela vontade de colocar o jantar goela afora. Márcio, entre seus devaneios e arroubos de paixão, muito provocado pelo teor que navegava pelo seu corpo, sabia que teria uma noite de cão, caso não resolvesse aquela situação pré-vômito. O jeito foi abraçar o trono e depositar ali as omeletes, misturadas com cerveja, uísque e muita mágoa guardada dentro de si. Com muito tremor e todo molhada pelo suor provocado por conta de condição etílica, o repórter voltou ao chuveiro, se enxugando novamente e programando o celular para despertá-lo às 5h30, pois teria tempo hábil para se preparar e chegar ao compromisso na hora aprazada.

Enquanto Márcio brigava com o seu porre, Angélica em seu apartamento tentava fazer a esposa entender porque não podia ir com ela para a Alemanha. Tinha coisas para serem resolvidas que dependiam dela, além de muito trabalho em sua empresa, projetos que deveriam ser entregues, mas a situação do irmão estava lhe tirando o chão.

– E o coração também!, sentenciou Rosângela.

– Do que você está falando, meu amor?

– Você pensa que não vejo o quanto está distante nos últimos dias. Passa mais tempo com aquele repórter do que comigo! Diz que é para solucionar o problema do seu irmão, mas sempre arruma um jeitinho de estar com ele. Hoje você saiu do escritório para se encontrar com ele. Almoçou com ele. Desde domingo vive a procura dele. Até parece que quer trepar com ele e está usando a desculpa do Amadeu para ficar mais próximo e conseguir o que quer. Aposto que amanhã o dia vai ser todinho dele, enquanto eu fico aqui tentando pensar no meu futuro e no nosso.

– Está sendo injusta Rosângela. Você não tem que segurar rojão nenhum para manter o relacionamento. Essa ideia de cagar e andar pro mundo que não entende a sua sexualidade é fácil de ser mantida quando se esconde atrás do cargo de professora universitária. Por que não sai do seu mundinho acadêmico e vem ver como as ruas dizem para você como a coisa funciona. Aponta o dedo no seu nariz, mas esquece de ver como o seu próprio egoísmo cresce assustadoramente.

– Então, Angélica, doe todo o seu maldito dinheiro e venha ver o mundo a partir do meu ponto de vista. Seu escritório é cheio de frescuras. Você nunca me levou lá. Nunca fez uma festa para me apresentar como esposa. Fez uma pequena recepção para anunciar aos seus parentes reacionários que você havia se casado com outra mulher. Mas agora, bastou aparecer um pau diferente que você já se assanha para ele.

– Nossa! Não sabia que você, Rosangela, a toda descolada da pós-modernidade tinha uma alma tão ferina assim. Mesquinha, egoísta. Só pensa em si mesma. Bastou um não meu para o seu avesso aparecer e tudo o que vivemos juntas, e não com outras pessoas, não significar nada. Não te levo em determinados locais porque não quero que sofra mais, porém, você nunca me perguntou. Mas tudo bem! Fiquemos assim. Eu estava pensando em ajustar as coisas aqui e depois me juntar a você na Alemanha, entretanto, acho melhor abortar essa ideia.

– Você é quem sabe! Eu amanhã vou confirmar tudo, inclusive marcar meu voo para depois de amanhã e despedir dos meus que não dei a devida atenção. Aproveitarei essa temporada na Europa para repensar a minha própria vida e ver se realmente vale a pena continuar com uma pessoa que quando está na cama contigo está pensando em outro.

– Então deixa eu te ajudar com alguma coisa, sei lá. Dinheiro!

– Deus me livre de dinheiro. Já basta morar aqui no seu apartamento e nunca ter visto seus pais pisarem os pés aqui. Pode deixar que eu me viro. Amanhã passarei o dia no campus agilizando tudo isso e no dia seguinte eu embarco para a Europa e aí você poderá experimentar um pau que tanto sonha em ter entre as pernas.

– Novamente você está sendo injusta para comigo e o nosso amor.

– Já não sei mais se existe o nosso amor. Eu só sei do meu. Quanto ao seu, tenho cá minhas dúvidas. E quer saber de uma coisa? Chega dessa conversa! Para mim já deu. Ficar conversando sobre isso será a mesma coisa que se masturbar sem ter tesão. Vou arrumar minhas malas. Fiquei aí com seu irmão retardado e seu jornalista corno. Talvez eles aceitem seu mandonismo. Eu não!

Tentando controlar o choro, Rosângela praticamente correu para o quarto, enquanto Angélica se dirigia para a sala. Estava toda confusa. Colocou uma música para se desligar de tudo aquilo. “Não vou deixá-la desprotegida na Alemanha em hipótese alguma. Vou resolver tudo amanhã”, pensou a arquiteta no mesmo momento em que colocava para tocar a música Confesso. Assim que a voz da intérprete ecoou pela sala, a mente de Angélica saiu do corpo e vagou pelas ruas da cidade em busca do irmão, parando defronte a um prédio. Subiu os degraus e adentrou ao ambiente, flagrando o irmão conversando com as lagartixas. O diálogo era em forma de perguntas, como muitos filósofos gostam de fazer ao se dirigirem aos seus leitores.

Nos devaneios de Angélica animados pela música, Amadeu perguntava ao pequeno lagarto que dominava as paredes do seu apartamento: “que graça tem em grassar pelo mundo, quando o coração não é agraciado por um amor que lhe quer distante, lhe desgraçando a vida?” O bicho, devorador de insetos, não pode responder e a arquiteta foi levada de volta ao mundo material pela voz da esposa Rosângela que lhe pedia perdão insistentemente.

– Rosângela, acho que falamos coisas que não queremos dizer, porém, há muito habita nossas almas. Então, prefiro me manter em silêncio, pois cada um tem lá suas razões para defender seus interesses. Mas só quero que saiba que não gostei desta Rosângela que você apresentou hoje. Tudo bem que lá fora somos obrigados a representar papéis, mas esconder o seu verdadeiro “eu” da pessoa com quem divide o ar, a casa, a cama, a vida, os sonhos. Acho que isso eu não posso suportar. Mas fiquemos assim. Apareceu a Alemanha em nosso caminho. Aproveitemos tudo isso para entendermos se ficar juntos é o que queremos ou se somos egoístas ao ponto de não entender a dor do outro. No mundo tem muitas teorias para pensar o coletivo, o outro, mas, e cada um de nós? Será que existe alguma tese, por exemplo, que explique o seu comportamento que é singular?

A antropóloga escutou silenciosamente sem dizer nada. Depois deu um beijo na testa de Angélica, dizendo que ia se deitar e a esperava na cama, caso fosse esse o desejo da esposa. Enquanto Rosângela encaminhava para os aposentos do casal, a música que enchia a sala da casa tinha o refrão falando de um amor que era semelhante àquele do pescador que se encantava mais com a rede do que com o mar. Enquanto a música ressoava pelo cômodo, Angélica deixou novamente a mente passear pela cidade e foi dar com a cara na porta do apartamento de Márcio. A mente se recusava a entrar, até porque já tinha gravado dentro de si todo o local, o espaço, conhecido o quarto, o banheiro fedorento e provavelmente o morador estava jogado na cama curtido pela bebedeira da noite. Diante da porta fechada, a mente voltou para o corpo, mas o coração lá ficou, aguardando sabe-se lá o quê.

Ao término da música, a arquiteta sentiu vontade de ouvir algo mais animado. Pensou, pensou e acabou optando pela canção em que a cantora fazia uma elegia aos pretos cantando serem eles ébanos com lábios feitos de mel. A irmã de Amadeu se levantou, mostrando ter ginga nos pés e como se estivesse dançando com um príncipe vindo lá das Áfricas. Rodopiou pela sala como se fosse uma porta-bandeiras. Terminada a solitária apresentação, se deixou cair no sofá, arfando, rindo como se de fato estivesse dançando com um Rei que acabava de receber a coroa do seu coração.

“Melhor voltar para terra. Esse negócio de rei, príncipe, ébano não é para meu coração”, pensou Angélica, se levantando da poltrona, colocando Beethoven para tocar. Gostava de ouvi-lo quando estava criando ou produzindo alguma peça arquitetônica. Achava a Nona Sinfonia, junto com Boleros, de Ravel as composições mais impactantes já produzidas pela humanidade. Mal a música começou a ser executada, a arquiteta caiu no sono e finalmente o coração, conduzido pela alma, entrou no apartamento de Márcio onde o dele esperava ansioso.

Ao contrário daquele jornalista alcoolizado, o coração de Angélica encontrou um homem fantasiado de Rei e ela vestia-se como Rainha. Márcio com roupas relativas a tonalidade de sua pele e ela também. No jogo de xadrez, as brancas sempre começam a partida, mas ali quem tomava a iniciava era o Rei preto. Lógico que Angélica adorava ser conduzida por aquele piso quadriculado como num tabuleiro. Ela ansiava por chegar logo aos aposentos de seu rei ébano. Desejava aportar logo nas estrelas, de onde prometia nunca mais voltar. Ali, onde o amor existia e era eterno.

Quando o jornalista havia lhe tirado toda a roupa, faltando apenas o lingerie, Angélica despertou se sentindo tocada por alguém. Era Rosângela que a chamava para ir dormir na cama. Já era tarde. Passavam das duas e tinham muita coisa para resolver naquele dia. Ainda meio sonolenta, caminhava para o quarto do casal, informou à esposa que convidara Márcio para tomarem café juntos naquela manhã.

– Eu sei! Dá para sentir pelos seus olhos. Não precisava nem dizer nada! Terei que aguentar esse aprendiz de jornalista estragando meu café da manhã.

Ao chegar no quarto, a irmã de Amadeu sentiu que havia no meio das pernas, umidade além da que deveria haver. Nem precisou ir longe para saber de onde vinha toda aquela sensação. Ficou desconcertada, porém, com uma felicidade singular dentro de si.

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