“Reuniões emocionais”

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Grafei o título do artigo de hoje entre aspas porque foi retirado do livro O culto da emoção, do filósofo francês Michel Lacroix, mais especificamente no capítulo As catedrais emocionais.  Desta forma, as reflexões de hoje, ou tentativa delas, se devem a este livro, bem como de alguns excertos presentes no texto Teoria social: um guia para entender a sociedade contemporânea, de William Outhwaite e uma a terceira fonte, a entrevista concedida pelo filósofo e cientista político camaronense Achille Mbembe, criador do termo necropolítica. Acrescento a esse rol de reportórios, o romance Através do espelho, do professor e filósofo norueguês Jostein Gaarder. Apresentado o cardápio, esmiuçarei, na medida do possível, qual é a contribuição de cada um para que seja possível pensar o momento em que o orbe terrestre vem passando por conta dum funeste vírus, cuja letalidade tem provocado a retirada forçada dos homens de circulação, mais especificamente, de não frequentarem mais reuniões emocionais, nos dizeres de Lacroix.

No romance de Gaarder, o enfoque é dado ao diálogo entre uma criança que está em vias de ir a óbito por conta de uma gravíssima enfermidade e um “anjo” enviado, a exemplo daquele que anunciou a Maria que esta geraria um ser portador da bia nova, o evangelho, e também a Maomé como precursor de uma outra religião monoteísta: o islamismo. Mas para não ser digressivo, deixe-me voltar ao texto contemporâneo e o ponto que me interessa aqui, qual seja, o de auxiliar o meu leitor a refletir sobre o momento pelo qual todos passamos e o que será possível construir a partir dos escombros desta sociedade gravemente enferma, contudo, sem que os prédios e os bens materiais sejam dissolvidos como na II Guerra Mundial e nas duas bombas atômicas lançadas sobre duas cidades japonesas. Neste sentido, carros, imóveis, roupas, sapatos e outros penduricalhos eletrônicos de uma última geração só se tornarão mortíferos a partir do toque das mãos contaminadas dos mortais atingidos pelo vírus oriundo da Ásia. Da enunciação em tela, destaco um pequeno excerto pela profundidade de seu conteúdo. Em determinado ponto do diálogo, a garotinha diz ao “anjo”, seu ouvindo-confessor: “Já fiquei na frente do espelho me olhando nos olhos. Daí eu imagino que sou um poço tão fundo que não consigo enxergar lá dentro, nas profundezas mais profundas” (GAARDER, 2017, p. 41).

Quando cada um de nós fazemos um exercício desses, proposto pela personagem da enunciação norueguesa, o que será que encontraremos pela frente? Embora a interpelação seja na terceira pessoa, a resposta será sempre na singularidade, isto é, “eu”, já que a pandemia afetará de forma diferente cada um de nós que a responderemos de determinadas formas a partir de nossas formações e o mundo que praticávamos antes de sermos acometidos pelo medo da moléstia que ronda diariamente nossas residências e nossos entes queridos, bem como a cada um de nós, e daí pode-se aferir o temor e o terror que tal pandemia vem provocando nos viventes que não sabem o que esperar e o que buscar, pois o presente é apenas o hoje, conforme nos aponta o pensador Achile Mbembe na entrevista publicada pelo jornal Folha de S. Paulo em sua edição de terça-feira, 31 de março. Posto isso, recorro a outro filósofo, o francês Lacroix para tentar entender o caráter emotivo deste pavor que vem acometendo a sociedade de maneira global, de forma que um vírus surgido numa província chinesa viajou milhares de quilômetros para encontrar assento aqui e outras paragens menores, maiores e sem levar em conta o caráter ideológico, religioso e étnico dos infectados. Aqui fica-me uma pergunta: o vírus tem força para trasladar voluntariamente pelos continentes? Acredito que não! Portanto, foi transportado pelo homem em seu périplo em busca de determinadas mercadorias, algumas delas já existentes nos desbravamentos de Marco Polo.

É interessante notar que a pandemia que assola o país e o mundo forçou as pessoas a abandonarem as reuniões emocionais das quais participavam avidamente enquanto momentos em que passam a existir não naquele momento, mas a partir do ponto em que viviam para aqueles encontros. Em muitas dessas assembleias societárias o vírus encontrou terreno propício para alastrar-se, andar de um lado para o outro, fixando-se nos pulmões de um e de outro, independentemente do credo religioso, político, ideológico e econômico. Já que essas festividades eram tão importantes assim, cabe, assim como procedeu o pensador francês, fazer a seguinte interpelação: “quais são as causas desses fenômenos emocionais?” E a outra questão é: “por que a sensibilidade coletiva mostra-se pronta para se inflamar?” É o próprio Michel Lacroix quem responde e eu tendo a concordar com ele. “A explicação reside, primeiro, na necessidade de firmar laço social. É que os indivíduos não se contentam em viver a inserção no grupo de maneira simplesmente formal, legal. Não se satisfazem com um vínculo social concebido exclusivamente em termos de reciprocidade e contrato. Têm necessidade de sentir a coesão social nas fibras de seu ser. É preciso que sua alma possa dilatar-se, elevar-se, unir-se por uma espécie de identificação com a comunidade de seus semelhantes” (O culto da emoção. RJ; José Olympio Editora, 2006, p. 97).

Essa convivência emocional que ditava até bem pouco tempo atrás as relações sociais dentro dum contexto pós-moderno e, para alguns cientistas, neoliberais na qual o próprio capitalismo, conforme lembra Achille Mbembe, baseia a sua “distribuição desigual da oportunidade de viver e morrer”, foi esfacelada pela velocidade do vírus, tornando todos passíveis de óbito. Porém, diante da crise provocada no mundo produtivo, a tarefa passa a ser do Estado, bem como o poder de definir quem vai ou não para o cadafalso, ou seja, para o limbo, para o ataúde ou mesmo crematório ou como preferir meus leitores, sepultura, sepulcro. De qualquer forma, usando a expressão do cientista político camaronense, a sociedade está diante de um novo fenômeno: o necroliberalismo, justamente porque “esse sistema sempre operou com a ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado”, diz Mbembe. Sendo assim, “a questão é encontrar uma maneira de garantir que todo individuo tenha como respirar. Essa deveria ser a nossa prioridade política. Parece-me, também, que o nosso medo do isolamento está relacionado ao nosso temor de confrontar o nosso próprio fim. Esse medo tem a ver com não sermos mais capazes de delegar a nossa morte a outras pessoas”, completa o pensador camaronense.

Ainda: “outra coisa é que muitas pessoas que morreram até agora não tiveram tempo de se despedir. Diversas delas foram incineradas ou enterradas imediatamente, como se fossem um lixo de que precisamos nos livrar o mais rapidamente possível. Essa lógica de descarte ocorre justamente em um momento em que precisamos, ao menos em tese, da nossa comunidade. E não existe comunidade sem podermos dizer adeus àqueles que partiram, organizar funerais. A questão é: como criar comunidades em momentos de calamidade?”, pergunta Achille Mbembe. Pelo exposto nas linhas acima, entendo que todos nós, seres humanos, estamos diante da possibilidade de construirmos uma nova sociedade não dos escombros dessas, mas aproveitando o momento para refletirmos em que mundo queremos viver pós-pandemia. Entendo que o momento é para iniciar o desenvolvimento e debate objetivando a construção duma ética racional de solidariedade.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gildassociais@bol.com.br ;gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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