Olhar Crítico

Humanidade

“O poder do homem parece ter aumentado desproporcionalmente à sua sabedoria. Nunca esteve antes em melhor posição de construir um mundo sadio, alegre e produtivo; contudo, as coisas nunca pareceram tão difíceis”. Começo meus olhares de hoje, data dedicada aos primeiros habitantes da terra em que havia em abundância madeiras da cor de brasa – daí o nome Brasil, com um pequeno excerto do livro Ciência e comportamento, do cientista B. F. Skinner (1904-1990). Interessante notar que a obra é de 1953 e o autor diz ainda que “Duas exaustivas guerras mundiais em apenas meio século não trouxeram a segurança de uma paz final” (São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 4). O escopo é fazer com que todos reflitam com acuidade sobre o momento tenebroso pelo qual o Planeta vem passando, pois como nos diz o filósofo Baruch Espinosa (1632-1677) não precisamos zombar, nem lamentar, bem como não detestar, contudo, apenas compreender.

 

Pandemia

Penápolis está, dentro do possível, fazendo um trabalho significativo, pois até o momento em que este colunista traçava as linhas que se seguem, apenas um óbito oriundo da pandemia do Covid-19 tinha sido confirmado, sendo que duas pessoas que haviam sido contaminadas já estavam curadas e em casa se recuperando do problema de saúde e, ao que tudo indica, duas mortes registradas não tiveram sintonia com o vírus letal. Ainda assim, há muito barulho, conversa, disque-me-disque, abre e fecha comércio, empresário quebrando, e a sociedade caminhando para a loucura da informação e contrainformação. Creio que o momento é para todos serem sensatos e não caírem nas pegadinhas de governo federal versus governo estadual e prefeitos. O STF (Supremo Tribunal Federal) já deu a sentença e entendo que cada chefe de paróquia sabe onde o sapato aperta, como se diz no jargão popular.

 

Sob controle

A questão é mais emblemática, pois embora a problemática pode estar, ao que tudo indica, meio que sob controle, bastará cinco casos e mais uns óbitos para o pânico se instalar e todos quererem correr do invisível e culpar fulano, beltrano e sicrano. Mas aí, como se diz no jargão popular, “Inês já é morta” e as famílias das vítimas sem poderão velar seus mortos, devido a urgência do sepultamento, quando o certo era cremar o corpo contaminado. Parece-me que o momento é para todos buscarem, no campo da solidariedade saídas para os problemas oriundos do isolamento social. A questão pandêmica não está afetando apenas um segmento, mas toda a sociedade envolvida, pois o professor não está na sala de aula, entretanto no final do ano o seu aluno precisará ter aprendido um determinado conteúdo para seguir sua vida escolar ou ter condições de prestar o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). E como fazer isso em meio a pandemia global? Os pais querem que seus filhos voltem a estudar, pois perceberam que não possuem conhecimentos pedagógicos adequados para suprirem a ausência do docente, tão vilipendiado, satanizado, chamado de doutrinador e outras coisas mais!

 

Interpelando

A pergunta que fica é a seguinte: se um aluno, que estiver contaminado, porém, ainda não apresentou os sintomas da gripe mortífera, levar o vírus para dentro das salas de aulas superlotadas e disseminar as partículas malignas, a culpa vai ser de quem? E olha que estou falando de salas com 35 a 45 estudantes. Há aqueles que vão rezar para que nada semelhante aconteça, todavia, a ciência, que é pura razão como dizia meu professor de Ética e Filosofia nos tempos de UNICAMP, não garante que a contaminação não ocorrerá. Bom! Já sei, como é de praxe aqui e alhures: culpem os outros, prefeito, vereador, diretor da escola, professor e não sei mais quem, até chegar ao governador, enquanto os parentes enterram seus mortos. Lembre-se que estamos adentrando em temporadas com os termômetros caindo, clima propício para o vírus se propagar, justamente por conta de as pessoas ficarem em lugares fechados para se protegerem do frio.

 

Inquietações

Enfim, essa é apenas a minha singela opinião, contudo, de alguém que está tão preocupado com a situação, assim como o comerciante que, a cada dia que passa enxerga o seu estabelecimento fechado e as contas não parando de chegar, salários de seus colaboradores precisando serem pagos, até porque o servidor também tem lá suas despesas para equacionar e comida para colocar na mesa. Como eu disse para um amigo empresário, o momento não é para demitir, mas, juntamente, com os funcionários, encontrar soluções. O governo federal liberou linhas de créditos para os patrões quitarem a folha de pagamento. Como dinheiro não dá em árvore, mesmo com um período significativo de carência, os códigos de barras precisam ser quitados. Creio que o presente é para que esses financiamentos sejam liberados o mais rápido possível e neste sentido entendo que os sindicatos das categorias, atrelados às prefeituras e demais órgãos se unirem e atuarem nesse sentido, pois o desemprego será grande e o efeito será em cascata. Pelo tamanho da problemática provocada pelo vírus, as consequências, se colocar fim ao isolamento social agora que os termômetros desceram, poderão ser muito mais terríveis.

 

Prevenção

É o que entendo dessa peleja, entretanto, como não estou no olho do comando das decisões, tenho apenas que olhar com certa acuidade e fazer a minha parte na condição de cidadão: proteger-me do tornado que se chama Covid-19, auxiliando aqueles que estão sob meu guarda-chuva emocional e torcendo para que as autoridades, empresários, comerciantes tenham sensatez para que os profissionais da saúde possam continuar realizando seus trabalhos com qualidade e, depois de passado o furacão, voltem para seus familiares que também estão amedrontados e assustados com a morte rastejante, que pulula aqui e ali, atingindo o indivíduo, independentemente do seu credo religioso, ideológico e pertencimento étnico.

 

Equipamentos

E em meio a pandemia, tem-se ainda a problemática envolvendo o desaparecimento de equipamentos de um prédio, onde funcionou um hospital particular e que está sendo preparado para o período mais agudo da doença em Penápolis. De acordo com o governo paulista, entre os meses de maio e junho será o período mais crítico da contaminação e é preciso estar preparado, dentro das limitações das finanças públicas. Desta forma, creio que, mesmo contra a vontade, deve-se pensar seriamente no isolamento social e só sair quem realmente precisa deixar suas casas. E depois, todos têm consciência do trabalho que precisa ser feito, objetivando a recuperação do país. Por hoje é só pessoal, fico por aqui com o seguinte verso do poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa, dedicado aos habitantes das terras conquistadas pelas naus lisboetas. “Quando o descobridor chegou/e saltou da proa do escaler varado na praia/enterrando/o pé direito na areia molhada/e se persignou/receoso ainda e surpreso/pensando n’El-Rei/nessa hora então/nessa hora inicial/começou a cumprir-se/este destino ainda de todos nós” [Prelúdio. In Poesia africana de Língua Portuguesa: antologia. RJ: Lacerda, 2003, p. 128]. E-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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