Grilhões e seus pretéritos

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Outro dia uma aluna me perguntou qual é o real significado do termo grilhões. De chofre, lhe disse que poderia se assemelhar a correntes, laços e é comumente usado para fazer referências ao passado escravagista brasileiro. Mas será que somente a esse pretérito se refere esse substantivo? Parece-me que não! Mesmo porque o país, conforme aponta um dos clássicos das ciências sociais do Brasil, Os donos do poder, do pensador nacional Raymundo Faoro (1925-2003), ainda baila com o patrimonialismo, com o filhotismo e um típico específico de populismo, próprio das sociedades com forte viés ibérico, segundo Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), autor do livro Raízes do Brasil.

Mas se não foram apenas às raízes do cativeiro africano que ainda dão a tônica nas relações sociais do Brasil contemporâneo, o que é possível detectar no presente, que tem um quantum significativo de simbiose com o pretérito repleto de privilégios a partir de uma corte e, posteriormente, uma República amorfa? Acredito que o fim do escravismo, da maneira como ocorreu, trouxe ao país uma desordem institucional, econômica, social e política. Em primeiro lugar, porque os descendentes de africanos foram colocados à disposição da exploração vil e baratíssima do arremedo de capitalismo com lampejos de liberalismo que campeava pelos recônditos brasileiros naquela época. Dessa prática, deriva a ideia de que o trabalho alheio não tem valor, pois se crê que qualquer cidadão pode fazê-lo, portanto, porque remunerar bem algo que é possível encontrar aos borbotões espalhados pelas praças, ruas e avenidas da cidade a gorjearem umas migalhas que caem do trono republicano.

Essa problemática, como é de conhecimento de todos, tem início nas relações estapafúrdias entre capital e trabalho num pais recém-saído do escravismo em suas diversas fases: industrial, rural, urbana, doméstica ou monopolista. Acostumados a não pagar pelos prestadores de serviços em suas propriedades, muitos fazendeiros, pequenos comerciantes, entre outros, entendiam que o trabalho do africano, bem como de seus descendentes, também não tinha valor algum e o que deveria reembolsado seria o suficiente para ele se reproduzir enquanto produtor de uma mercadoria especifica, conformem nos aponta o pensador alemão Karl Marx (1818-1883) em vários de seus escritos.

Se nas esferas socioeconômicas do pretérito brasileiro encontramos as raízes endêmicas das desigualdades sociais, do etnocentrismo, da hipocrisia e da péssima educação legada aos integrantes das camadas mais baixas da sociedade – qualidade que inviabiliza o sonho de qualquer criança de atingir os estratos superiores através da educação e do trabalho [existem casos e mais casos, entretanto, eles não são a tônica na terra de Machado de Assis] -, o que dizer então do universo da política? Sobre essa categoria não precisa gastar tinta e nem palavras para descrever o descalabro que está sendo a vida nacional, com políticos corruptos acostumados a todo tipo de cooptação para continuarem na crista da onda – como se diz no jargão popular. Não se pode deixar de ressaltar o discurso – sempre inflamado – buscando encontrar um culpado pelas mazelas sociais do presente, tendo como causa primeira, o passado das elites, entretanto, quando assumem o poder, fazem tudo do mesmo jeito – isto é, conforme manda o figurino, ou seja, associação com a plutocracia que sempre reinou nesse país atrelada a uma casta de burocratas que se enriquece com dinheiro desviado dos cofres públicos e dos tribunos do povo.

Seguindo o exemplo dos decretos governamentais, segundo os quais, as quotas têm como escopo tentar fazer reparações e equívocos cometidos lá no pretérito nacional, bem que poderia ter uma lei definindo que político corrupto deveria ser banido do universo nacional. Os meus leitores lembrarão que essa legislação já existe e recebe o nome de “Lei da Ficha Limpa”. Todavia, se ela de fato está ai para todos, como é que um cidadão que foi condenado em segunda instância, fica pelos quatro cantos do Brasil vociferando isso e aquilo, acusando tudo e a todos, principalmente a chamada classe alta e média de não querê-lo ver candidato à presidência da República? A ação desse sujeito, cuja aprovação da tal lei conta com o seu aval – e olha que o seu partido não é signatário da Lei de Responsabilidade Fiscal e nem da Constituição Federal -, beira o acinte e suas toscas verborragias só servem para acalentar o sono de seus séquitos, desesperados para continuarem atrelados a máquina pública da forma mais vil possível – o famigerado “favor” de legenda e de ideologias para lá de estapafúrdias.

Não me canso de escrever e apontar que a origem de tais mazelas políticas é encontrada antes mesmo de a República quase que Monárquica dar o ar da graça pelas paragens brasileiras, lá pela década de 70 do século XIX. Ela começa bem antes, quando da chegada da família real ao Brasil em 1808 e com a Corte, tendo a reboque a necessidade de se criar instituições para dar vida à realeza e a nobiliarquia que atravessou mares bravios e acossados pelas forças napoleônicas, tendo como proteção as caravelas inglesas. De lá para cá, saiu governo, entrou governo e a bazofia, fanfarronice com dinheiro do povo permaneceu. Talvez seja interessante uma passadinha de olho no livro Cartas de Erasmo ao Imperador, de autoria do escritor e político brasileiro José Martiniano de Alencar (1829-1877). A obra é composta por uma série de cartas destinadas ao imperador Don Pedro II (1825-1891). Nas linhas confeccionadas, o autor de Iracema faz uma série de denúncias e alertas ao monarca que, com o passar do tempo, em virtude de não ter havido ações para evitar que as condutas se enraizassem, elas se petrificaram e ditam as regras palacianas, seja em Brasília, ou nas capitais estaduais e nos mais de cinco mil cidades brasileiras.

Desta forma, os grilhões do início de minha pequena enunciação que se propôs a ser reflexiva, não podem ser associados apenas ao universo da escravidão, mas, sobretudo sobre o mundo da política e das relações simbióticas, inicialmente dos cortesãos e depois do povo, de um modo em geral, com as entranhas do poder. De modo que para se chegar a ele, conforme já aventei várias vezes, se faz pacto com om diabo, seguindo o enredo que integra o romance O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (1854-1900). O grande problema não é o pacto em si, mas suas consequências. Sabe-se que um dos lados formuladores do pacto se enriquece e a fatura fica por conta do povo, principalmente aquela parcela com pouco conhecimento de política, economia, ou seja, dos sem cidadania que, em virtude disso, aguardam que o Estado faça tudo em suas vidas, ficando reféns de políticos oportunistas recheados de discursos raivosos apoiados por uma massa de pelegos, que de amorfa não tem nada, ávida pelas benesses que caem do alto do trono, seguindo a narrativa do capítulo Ideia fixa, do romance Memórias póstumas de Brás Cubas.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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