O avesso do avesso do normatizado

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Ei! Psiu! Você aí, meu caro leitor, que resolveu ler as linhas que se seguirão. Como outrora e repetindo sempre, o começo de hoje é semelhante ao de tantos outros ontem, todavia, com uma pitada de futuro, pois o pretérito se esvaiu na troca dos ponteiros do relógio e, nem mesmo aquela sensação, da qual tu eras portador quando iniciastes essa viagem textual, não existe mais! Então o que nos resta, já que também me encontro nessa condição de buscar ser enquanto me conforto no humano que sou? Se levar em conta o que diz o pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e me achar um tanto quanto prosador nesse presente enunciativo, creio que todos que ousam escrever alguma coisa, por mais breve que seja o tal enredo, levará em conta o material que tem à disposição, no caso, a realidade. Mas como ela e o seu real estão no aqui e no agora? Será que se pode considerar interessante reproduzir o que se vislumbra e o que se enxerga a cada manhã quando o Sol, mesmo que timidamente, dá o ar de sua presença entre nós?

Sinceramente não sei se há convicção no que pretendo reproduzir, ou melhor, produzir em forma de enredo a partir daqui. Se não existe tal certeza, como concluir uma assertiva, cujo conteúdo é vazio e sem significado algum? De qualquer forma, parafraseando o pensador inglês John Locke (1632-1704), resolvi que daqui para adiante encararei esse espaço em branco aqui, desenvolvendo algo que considerarei significativo para nós, pois me incluo também no resultado da leitura e do suposto aprendizado, se é que se pode tirar algum das tirinhas, ou melhor, parágrafos que escrevo semanalmente na tentativa de tê-lo como meu amigo de viagem, meu caro leitor, até o fim da jornada que essa escrita promete lhe conduzir. Talvez esteja cá com algumas quase que convicções e tu aí, de sua poltrona, mesa de café da manhã ou, quem sabe, no final deste dia, poderei aprender um pouco contigo e sua realidade. Mas antes de adentrar na sua própria existência, penso que seja interessante colocar sobre a mesa de leitura, como andas cá o meu viver, como poderia ter dito um dos oblíquos narradores de Machado de Assis (1839-1908). Será que poderia algum dia chegar perto da qualidade literária do fundador da ABL (Academia Brasileira de Letras)? Se formos, eu e tu, tentar compreender uma sociedade como a nossa, que só valoriza defuntos, creio que jamais, pelo menos em vida, chegarei perto o suficiente da qualidade de um dos maiores escritores brasileiros.

Se não pretendo, e sei que não tenho nenhuma apetência para isso, já que é possível contar nos dedos os meus leitores – será que estou exagerando, vos pergunto, meus caros. Mas quer realmente saber o que acho disso tudo? Penso que não devo ficar mais aqui me preocupando com questões numéricas, mas tão somente fazer uso do tempo para colocar algo no papel e deixar que a lousa em branco jamais exista na vida de qualquer ser humano, mesmo que nunca tenha lido nenhuma das linhas que venho confeccionando nos últimos 30 anos, e olha que foram tantas que já perdi as contas. Então se não sei mais quantos eram as enunciações, melhor passar para outro ponto desta minha pequena enunciação. Sendo assim, penso que seja interessante escrever algo que de conta do nosso presente, como o crescimento do número de infectados pelo vírus do Covid-19, sendo, pelo menos eu entendo desta forma, necessário o uso de máscaras em lugares fechados, pois é preciso fazer como diz os versos confeccionados lá no medievo pelo poeta jacobita inglês John Mayra Donne (1572-1631), observar que ninguém é uma ilha e que por isso, todos nós devemos analisar os significados por detrás das dobradas dos sinos. Dito de outra forma, perguntar e aceitar a resposta advinda da própria consciência: “para quem os sinos dobram”. Donne diz ainda que ninguém é uma só pessoa, portanto, é preciso entender e se colocar no lugar do outro, sem que essa atitude seja fruto de um imperativo, como aqueles indicados pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) sobre o dever no devir. Mas aí são outras querelas sobre as quais não tecerei nenhuma linha se quer e olha que já passei da segunda, estando na terceira agora.

Se por um lado, se faz necessária a compreensão do momento em que o Globo vem passando, no qual o nada é mais efetivo do que realmente a presença, por assim dizer, física do outro ser que talvez nos queira bem, mas em virtude das adversidades e demais atropelos, resolveu nos deixar no meio da jornada, aguardando dias melhores. Contudo, não nos deteremos naqueles que partiram ou, nem tanto assim, pois tudo deles continuam tão atual como o fora outrora nos libertando do Inferno informado por Dante Alighieri (1265- 1321) e nos confortando no paraíso demonstrado por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu ensaio Visão do Paraíso, tão bem reproduzido pelo escritor José Martiniano de Alencar (1829-1877) nos primeiros passos do seu romance Iracema. Mas analisando bem, penso que seja interessante deixar o ambiente romanesco para outra ocasião e me enveredar pelos campos da filosofia – repare meu caro leitor que abandonei o plural para ficar apenas com o singular, pois ainda me falta elementos para saber se tu continuas ai do outro lado do texto a ler as linhas que começam a ficar escassas e cansadas, sem conseguir te dizer à que veio, entretanto, ainda restam alguns parágrafos ou apenas mais um para tentar te indicar que chegamos até aqui com um propósito: te esclarecer enquanto me conheço a partir da lamparina que acendemos para dialogarmos depois de uma semana fria como foi a última. Será que a próxima será também tão gelada quanto os dias anteriores a esta data? Confesso-te, ou até mesmo para a minha própria escrita, que ainda não seu ao certo, mas provavelmente conseguirei dizer algo até a finalização dessa quase missiva.

Sendo assim, te interpelo meu caro leitor: como está o mundo aí fora? Aqui de dentro do texto é possível sentir o quanto todos estão amedrontados por não saber direito como será o amanhã. Claro que a referência do temor está num ontem que nos garantia um amanhã que é hoje bem mais seguro e farto do que aquele vivenciado pelos nossos antepassados. Mas se o presente nos apresenta uma escassez daquela fartura de outrora, o que teria acontecido lá atrás para que a humanidade produzisse um nível de miséria como temos assistido e não digo apenas miséria, do ponto de vista famélico, mas de consciência, de modo que uns ardentes ardorosos dos tempos medievais, desejam construir, a base de propinas personificadas em barras de ouro, um futuro sem dor e sofrimento. Aqueles que acreditam em tais assertivas, podem estar com significativos problemas, já que poderá beijar a intolerância quando achar que a verdade com a qual lhe povoaram a mente estiver em risco. Quando essa condição chegar, me parece que cabe uma nova interpelação: o que fazer? Claro que há diversos caminhos que podem nos levar à venda, como dizia um célebre escritor brasileiro, resta saber quem está disposto a percorrer as estradas que nos levarão a um maior grau de conscientização, possibilitando aos sujeitos abandonarem o campo da intolerância, seja em que nível for, isto é, religiosa, política, étnica, social e econômica. Mas até que essa estrada surja a partir da leitura que fazemos do mundo, inclusive as ferramentas que serão utilizadas para abrir picada na floresta fechada em que se transformou as consciências obtusas e presas ao passado medieval, precisamos, eu e tu, meu caro leitor, nos esforçamos um bocado para que o futuro bem mais próximo de nós, por exemplo, este que começa quando tu terminares de ler essas linhas, seja pleno e livre de peias alienantes. Enfim, não há necessidade de esperarmos que o outro faça, mas transformemo-nos o mundo como desejava Platão em sua república justa e sem armas.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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