Vir a ser do pretérito

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Mais um ano chega ao seu final e este, em especial, é uma sequência do seu anterior, conforme afirmou o professor Guilherme Boulos em seu artigo Adeus, 2021!, publicado pelo jornal Folha de S. Paulo em sua edição do último dia 28. Por considerar significativas reflexões, peço licença aos meus leitores para apresentar aqui um pequeno fragmento daquelas assertivas: “este foi o ano que começou com ensandecidos vestidos de vikings invadindo o Capitólio nos EUA, para tentar reverter no grito a derrota de Trump”. Venceu a democracia e esta será sempre a vitoriosa, principalmente quando as pessoas que tentarem derrubá-la, estiverem ligadas às teocracias, autocracias atreladas à todas as espécies de oligarquias. A brasileira vem sendo vilipendiada há pelo menos quatro anos e não se trata de aleivosias deste que vos escreve, meus caros leitores, e sim os fatos registrados pela história recente desta Nação.

Continuando com Boulos, para quem “este foi o ano em que assistimos, com dor e impotência, a gente morrer por falta de oxigênio em Manaus, diante do descaso das autoridades”. Aqui também os acontecimentos dizem muito mais do que uma pequena reflexão que se propõe analisar o vir a ser do homem no mundo a partir do seu pretérito registrado pelas enunciações construídas levando em conta as ações dos governantes deste país. Mais adiante o professor afirma que 2021 foi o “ano em que perdemos 425 mil brasileiros para a Covid e para a falta de vacina. O ano em que as famílias enlutadas tiveram como resposta o conselho acolhedor de pararem de ‘frescuras e mimimi’”. Reitero aqui não se tratar de mero palavrório de quem escreveu, mas sim dos fatos que dizem muito mais do que as verborragias toscas que infestarão os palanques eleitorais de logo mais, 2022. Portanto, creio que é preciso, antes de olhar para o amanhã, isto é, ao porvir, prestar muita atenção e com profunda acuidade no passado que se faz presente em todos os lares brasileiros, levando sempre em conta uma pequena frase que costumo usar para tentar entender a mente humana que se compraz com políticos que não estão nem aí para a dor alheia e das pessoas que perderam entes queridos para essa pandemia que ainda vai nos acompanhar por um determinado tempo: “para quem os sinos dobram”. Neste sentido, recomendo aos meus leitores, duas obras significativas para entendermos o hoje a partir de um ontem longínquo, contudo, importante para clarear mentes obtusas de sujeitos sociais que, diante da cegueira e do desejo atroz de vingança e ressentimento, não enxergam o mais obvio problema do presente. O primeiro é A grande gripe: a história da gripe espanhola, a pandemia mais mortal de todos os tempos [Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020] e escrito pelo historiador e jornalista John M. Barry. A segunda obra é de autoria das historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling: A bailarina da morta: a gripe espanhola no Brasil [São Paulo: Companhia das Letras, 2020].

Soma-se a essas leituras, o artigo do professor Flávio Bartmann: “Esta crise é diferente”, publicado pelo jornal Folha de S. Paulo em sua edição de 28 de dezembro de 2021. Em determinado ponto de sua narrativa, o docente brasileiro da Universidade Columbia diz que “o país necessita dar prioridade à educação, à saúde, à infraestrutura e à segurança pública, mantendo ao mesmo tempo, uma sociedade democrática, fundada no respeito aos direitos humanos e a na liberdade de expressão. O desafio é enorme, e a situação política é desalentadora. A fragmentação das forças políticas torna impossível a formulação e implementação de um programa consistente de ação econômica. A corrupção sempre presente torna o problema ainda maior”. Novamente, meus caros leitores, a questão aqui gira em torno da democracia e o combate eficaz ao câncer chamado corrupção, doença não existe a partir das últimas décadas deste Terceiro Milênio. Aqueles que leem o pretérito do país sem as lentes ideológicas disso e daquilo que tornam suas afirmativas míopes, entenderão o que indico: ela é fruto de uma simbiose nefasta formada a partir de uma burocracia aristocratizada e uma plutocracia construtora de feudos e outras oligarquias que não deixam a Nação caminhar em mares mais tranquilos. É sempre a busca pelo Salvador da Pátria que eliminará o inimigo vampiresco do momento, além de resolver tudo num passe de mágica como se o país fosse um conto de fadas: eis o espelho da madrasta da Branca de neve a repetir o brado do ser refletido em suas molduras.

Para continuar com Flávio Bartmann, acrescento que para o mesmo “a eleição do próximo ano oferece uma oportunidade única para mudar os rumos do país. Os augúrios, entretanto, não são nada bons. As manobras eleitorais se aceleram, com cargos e privilégios no topo da pauta; nenhum dos candidatos, entretanto, parece se preocupar em definir um programa de governo com uma visão clara para o país, necessário para fazer uma boa gestão. O Brasil não pode passar em branco mais uma vez. As consequências seriam trágicas”. Pois bem, meus caros leitores, depois desses pequenos fragmentos extraídos de reflexões postadas no começo dessa semana, como é possível pensar o vir a ser do brasileiro sem que este faça uma reflexão desapaixonada do mundo em que vive? Será possível construir uma Nação dando outros significados a partir de suas leituras do mundo? Novamente, a exemplo do que fiz em boa parte deste ano, fico aqui com uma nova interpelação: o futuro será igual ao pretérito ou será possível usar o aqui e o agora para mudarmos as situações atuais?

Talvez um pequeno excerto retirado do livro O anel de Giges [São Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 19], escrito pelo professor da USP, Eduardo Giannetti, pode auxiliar a encontrar, ou pelo menos, tatear uma resposta às perguntas formuladas no final do parágrafo anterior. “A tradição filosófica originária do iluminismo grego do século V a.C. – o século de Sócrates e Demócrito, Eurípedes e Tucídides – questionou a moral transmitida pelas gerações passadas, calcada nos costumes e na religião, e buscou fundamentar a ética na razão: o objetivo era mostrar que o nosso bem-estar ou plenitude não só é promovido, como não pode prescindir da conduta ética pautada por um exame crítico, racional e rigoroso da moral herdada”. Espero que meu escopo nesse artigo seja alcançado, isto é, auxiliar aqueles que me leem a buscar uma compreensão sobre um amanhã que nunca chegará, pois se levarmos em conta o castigo dado pelos deuses ao titã Prometeu, tudo não passará de etéreas promessas, mas sobretudo o porvir que todos almejam a partir de ações e atitudes do presente, sempre levando em conta o pretérito conhecido. Sendo assim, conforme nos diz o professor Boulos, “este foi ano da fila do osso em Cuiabá, dos gritos desesperados de um faminto entre os prédios de Brasília, da cena chocante de gente correndo atrás de caminhão de lixo em Fortaleza. O ano em que o terceiro maior produtor de alimentos do mundo viu sua população padecer de fome”. Será que se faz necessário mais recordações de fatos e ocorrências do presente para indicar que o vir a ser do homem no Brasil não precisa repetir o seu pretérito recente? Por isso tenho sempre em mente o poema medieval cujo refrão é: “para quem os sinos dobram”. Que em 2022 predomine uma razão que vença o desejo de vingança e ressentimentos de várias partes da peleja humana.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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