Olhar Crítico

Escritas

A semana que se encerrou ontem foi marcada por duas datas importantes para serem lembradas sempre. A primeira diz respeito ao escritor e ocorreu no dia 13, designado como sendo “Dia Mundial do Escritor”. Por conta disso, solicito aos meus leitores licença para escrever algumas coisas sobre esse ofício, de significativa importância, todavia relegado à segunda, terceira categoria em virtude de estarmos num país em que seus moradores não são muito afeitos à leitura e ainda de quebra, há um governo federal querendo taxar ainda mais o ato da leitura e o livro, mas, deixando essa querela tributária para outro momento, é preciso que os pais ajudem seus filhos a se tornarem cidadãos-leitores. Neste sentido, sempre tenho dito que uma criança aprende mais pelos hábitos de suas famílias, ou seja, por ver mais do que pelo ouvir e, neste sentido, um dos maiores nomes das letras brasileiras, tinha razão ao afirmar que é preciso mudar os hábitos antes das leis.

 

Escritores

“De qualquer sorte a referência ao escritor é sempre uma referência aos escritores: o escritor, no singular, é uma abstração, um ‘tipo ideal’ [no sentido weberiano], obtido com as notas e os traços que se encontram nos escritores – tal como ocorre quando falamos no político, no artista ou no empresário. Há um mundo de implicações e de ideias, de dentro do qual temos de tirar algumas coisas mais viáveis e mais coerentes para dizer”[Nelson Saldanha. O escritor e o livro. In. Nelson Saldanha. Filosofia, povos, ruínas: páginas para uma filosofia da história. Rio de Janeiro: Calibás, 2002, p. 17]. Esse é um pequeno fragmento desse significativo livro, cuja leitura nos leva a refletir sobre os olhares que devemos desenvolver em relação ao mundo em que vivermos e os escritores têm vital importância nesse sentido, portanto, os chamados cânones da literatura universal têm muito a nos dizer, faltando somente as pessoas terem querença em dialogar com Tolstói, Machado de Assis, Lima Barreto, José de Alencar, Castro Alves, etc.

 

Máquina de escrever

“[…] qualquer narrativa de ficção é necessária e fatalmente rápida porque, ao construir um mundo que inclui uma multiplicidade de acontecimentos e de personagens, não pode dizer tudo sobre esse mundo. […] todo texto é uma máquina preguiçosa pedindo ao leitor que faça uma parte de seu trabalho. Que problema seria se um texto tivesse de dizer tudo que o receptor deve compreender – não terminaria nunca” [Umberto Eco. Seis passeis pelos bosques da ficção. Trad. Hildehard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 9]. Segue-se a esse olhar, o do pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), para quem “o poeta só é poeta porque se vê cercado de figuras que vivem e atuam diante dele e em cujo ser mais íntimo seu olhar penetra” [Friedrich Nietzsche. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Companha das Letras, 1992, p. 59].

 

Poeta e o historiador

“Segundo o que foi dito se apreende que o poeta conta, em sua obra, não o que aconteceu e sim as coisas quais poderiam vir a acontecer, e que sejam possíveis tanto da perspectiva da verossimilhança como da necessidade. O historiador e o poeta não se distinguem por escrever em verso ou prosa; caso as obras de Heródoto fossem postas em metros, não deixaria de ser história; a diferença é que um relata os acontecimentos que de fato sucederam, enquanto o outro fala das coisas que poderiam suceder. E é por esse motivo que a poesia contém mais filosofia e circunspecção do que a história; a primeira trata das coisas universais, enquanto a segunda cuida do particular. Entendo que tratar de coisas universais significa atribuir a alguém ideias e atos que, por necessidade ou verossimilhança, a natureza desse alguém exige; a poesia, desse modo, visa ao universal, mesmo quando dá nomes a suas personagens. Quanto a relatar o particular, ao contrário, é aquilo que Alcibíades* fez, ou aquele que fizeram a ele” [Aristóteles. Poética. Trad. Baby Abrão. São Paulo: Abril Cultural, 1999, p. 47] *O nome Alcibíades, aqui corresponde ano nosso ‘fulano’.

 

Professor

Seguindo-se ao dia mundial do escritor, no dia 15, portanto, na última sexta-feira, a data dizia respeito a esse importante e singularíssimo profissional tão desprezado pela sociedade brasileira: O PROFESSOR! Não adianta as pessoas dizerem coisas e escreverem faixas, cartazes, outdoors com agradecimentos aos docentes, se não mudarem suas posturas em relação aos educadores. A primeira alteração é enviar filhos portadores de valores éticos e morais para as instituições de ensino. Interessante notar como uma sala de aula pode se tornar o reflexo das residências dos alunos, principalmente por ser consequência da socialização primária. É durante esse processo que os pais devem externar suas visões de mundo quando fornecendo aos rebentos, filhos e outros seres menores que estão sob suas responsabilidades ferramentas que utilizaram durante a vida em sociedade. Esse é o primeiro passo para concretizar as tão sonhadas transformações no interior das unidades escolares. Muitos cobram do Estado, como se este fosse um pai-patrão, mas e aqueles que pariram os alunos, o que estão fazendo?

 

Valorização

Claro que todo profissional se sente melhor em seu exercício profissional quando estiver sendo valorizado. Entretanto, no campo educacional é como se a docência fosse encarada como custo e não investimento. Portanto, o salário daqueles servidores que colocam uma unidade escolar em funcionamento não pode ser compreendido como despesas e sim investimento. Já que o cidadão entende que o filho é aquilo que sua residência deseja que ele seja, então, por que quando se está na condição de eleitor, escolherá sempre aqueles que destroem a educação, usando verborragias e armas silenciosas que sucateiam justamente aquelas ferramentas que deveriam ser utilizadas para ajudar o sujeito que será um ente social a ser um cidadão de fato e de direito? Parece-me que a pergunta tem sentido em virtude do que se assiste no campo educacional brasileiro e esse procedimento não é de hoje.

 

Leitor

Um leitor atento, entenderá que a República brasileira já nasceu excludente, portanto, os procedimentos que seriam utilizados para tornar os brasileiros conscientes de suas atuações enquanto povo, já eram classificatórios, pautados no econômico. Entendo que o processo é longo, mas a reflexão precisa ser feita e neste sentido, fico por aqui parabenizando a homenagem que a equipe pedagógica, técnica e corpo docente da EE Professor João Teixeira Sampaio realizou na última quinta-feira, 14, para o diretor Edison de Abreu Rodrigues que faleceu, vítima da pandemia do Covid-19, no começo deste ano. Quem conheceu o professor-doutor em Letras pela USP (Universidade de São Paulo) compreenderá o significado de tal ação e o desejo de valorização da carreira que todos nós educadores sonhamos em ter.  gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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