Machado de Assis e seus enunciadores

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Se o escritor Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) fosse vivo no Brasil dessas quase três décadas do Terceiro Milênio, seus narradores andariam de metro, Van e outros transportes alternativos e com certeza não estariam empregados em nenhuma repartição pública, mas provavelmente seriam vendedores de balas, doces e águas nos faróis das grandes capitais e depois a noite usariam um rádio de pilha para ouvir o programa a Voz do Brasil. Será que acertei meus caros leitores, ou o famoso Bruxo do Cosme Velho revestiria suas personagens com as mais belas casacas, fazendo-as andarem em possantes veículos adquiridos com recursos oriundos das mais diversas jogatinas, propinas e outros atos delituosos para se apropriar dos recursos públicos? Independentemente de como e qual seriam as ocupações dessas enunciações, podemos dizer que suas narrativas conteriam o fina da ironia, bem a lá Sócrates, o filósofo grego responsável pela criação da metafísica e das desarticulações sociais que envolvem os predicativos que tanto têm consumido a consciência da maior parte da população brasileira.

Seria interessante especular sobre o que iria na mente desses construtores de enredos dissimuladores que confundem ao afirmar algo para no próximo parágrafo mudar tudo, conforme nos alertava o crítico literário Antônio Cândido (1918-2017) em um de seus vários textos analíticos da obra machadiana. Recordo-me aqui de um texto em especial que me chamou muito a atenção por conta do local em que o cronista estava: uma festa imperial num dos imóveis da monarquia: a Quinta da Boa Vista. É interessante notar que o evento tinha como escopo arrecadar recursos para as entidades assistenciais que existiam naquele período e, para que a atividade social fosse abrilhantada, haveria no final, um leilão com prendas doadas pela Coroa. Reparem, meus caros leitores, no nome do leiloeiro: Augusto República que faria o pregão dos objetos doados pela família imperial, entretanto, haviam apenas frangos. Hilário que em um evento social de significativa importância, uma das personagens tinha o nome ufanando a República que ainda não existia.

Se esse mesmo cronista estivesse hoje, meio que suspenso no ar, assistindo os acontecimentos de nossa República – que mais parece uma continuação monárquica, tendo em vista que as sedes governamentais estão atreladas aos brados imperiais: palácios e demais paços municipais – será que Lélio, que também aparece num livro Da República, de Marco Túlio Cícero, diria que tudo continua como dantes, isto é, Monarquia e República são a mesma e única coisa personificada na tabuleta da confeitaria do Custodia, bem como na fala de Cláudia ao seu marido, o advogado Batista que batia o pé dizendo ser conservador, mas foi convencido pela esposa de que era liberal. Essas trocas aconteceram no penúltimo romance machadiano Esaú e Jacó e dizem respeito ao universo ficcional, entretanto, se o Conselheiro Aires, o narrador deste e da última enunciação machadiana Memorial de Aires, estivesse andando pelas ruas de Brasília, com certeza, encontraria uns tipos que hoje são de um lado e amanhã, de acordo com os ventos, estão do outro lado do rio, como o ex-deputado Roberto Jefferson. O escritor José Martiniano de Alencar (1829-1877) já alertava sobre os plutocratas e seus asseclas que não escolhiam a banda do rio para estar, exceto se no outro lado, as margens estiverem secas, marcadas principalmente pela ausência de recursos públicos.

Será que encontraria um Custódio preocupado com as questões do presente, principalmente porque o país é governado por um presidente cujos índices de aprovação derretem mais do que sorvete em tarde de verão e ainda assim, diz que é isso e aquilo, mas bastou o puxão de orelha dado pelo ex-presidente e constitucionalista, Michel Temer, para que a fervura fosse contida. Até quando não se sabe, mas no momento em que eu escrevia essas linhas, as cargas de abóboras políticas se ajustavam às carroças eleitorais. Contudo, não se sabe até quando já que tudo é muito poroso e escorregadio nesse Brasil varonil, como dizia meu amigo Amaury Pavão. Em 2022, os brasileiros serão chamados às urnas para escolherem quem desejam ver governando a Nação e é preciso que todos comecem a deixar o fígado de lado, a bílis para outro tipo de contenda, pois o ressentimento prejudica todo mundo, a exemplo do que aconteceu quando o ex-deputado Severino Cavalcanti (1930-2020) ocupou a presidência da Câmara Federal ao ganhar, em 2005, a eleição contra o candidato do governo Lula, Luís Eduardo Greenhalgh. Ele foi obrigado a renunciar, pois não tinha nenhum traquejo para o púlpito presidencial.

Como podem compreender meus caros leitores, os enunciadores machadianos, ao desembarcarem direto do século XIX neste Terceiro Milênio, sem dar uma boa olhada no cenário passado, talvez escreveria sobre as mesmas coisas, mesmo mudando o vernáculo, tornando o texto mais palatável aos seus leitores, criando personagens como o Zecamunista, construído pelo escritor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), autor de clássicos da literatura brasileira como Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro. Prefiro nem tentar imaginar como seria a escrita desses narradores, mas é possível vislumbrar um quantum de sátira, não somente das personagens que entrarão para a História do Brasil, a exemplo do ex-presidente Jânio da Silva Quadros (1917-1992) que morreu dizendo que forças ocultas o depuseram do cargo presidencial no começo dos anos 60 do século passado, mas todos sabem que o objetivo dele foi outro, entretanto, o Congresso aceitou sua renúncia e as consequências disso: um quarto de século de truculências, ausências de liberdades, torturas, guerrilhas, enfim, feridas que estão abertas até o momento em que essas linhas eram confeccionadas. E o que dizer então de Getúlio Vargas (1882-1954)? Esse vale, a exemplo dos demais citados aqui, uma dissertação a parte, principalmente quando disse que deixava a vida pública para entrar para a história, se matando com um tiro no próprio peito.

Seguindo ainda o bonde narrativo no universo machadiano, será que teríamos personagens como Flora, que é disputada pelos irmãos gêmeos Pedro e Paulo, sendo que o primeiro era fervoroso monarquista e o segundo, republicano. Aquele era médico e o outro era advogado. A moçoila, sem conseguir escolher um dos dois, acaba morrendo de causas estranhas e enterrada no dia em que o ex-presidente da jovem República brasileira, Marechal Floriano Peixoto (1839-1895) que decretou “estado de sítio”. No presente há uma peleja entre Deus e o Diabo, como dizia o cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981), entretanto, resta saber quem é o coisa ruim e o lado bom da rusga política. Eu do meu lado aprendendo alguma coisa, fazendo um paralelo com uma música do cantor e compositor baiano Raul Santos Seixas (1945-1989), só olho com a devida acuidade, pois o momento é periclitante. Todavia, posso vos afiançar, meus caros leitores, que a última coisa que desejo é viver numa autocracia que desaguará num sistema totalitário quase que uma teocracia medievalista. Portanto, me parece que o momento é para que os nossos agentes políticos, principalmente aqueles escolhidos democraticamente por intermédio das urnas, sejam imensamente prudentes.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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