Essência e aparência no reino brasileiro

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Será que a razão deve sempre sobrepujar a emoção ou esta estar acima da primeira? O que deverá prevalecer nas relações humanas: aquilo que é de fato ou o que aparenta ser? Recordo-me aqui de uma enunciação mítica envolvendo Midas. Ele adorava ouro e, em virtude desse apreço, solicita aos deuses ter muito desse minério: desejo aceito, tudo o que o sujeito tocava virava ouro, sendo assim, um simples abraço fazia com que o indivíduo que recebia essa confortante ação se transformava no que o tal homem pediu aos governantes do universo. Como em tudo há uma ideia posta nas entrelinhas, o ser em si deste começo de minha narrativa, conquistou o que acalentou, mas estava sempre só. Recuperando as interpelações com as quais sempre começo o meu diálogo semanal com os leitores que se predispõem a acompanhar minhas tentativas de compreender esse mundão que está virado do avesso, por conta da pandemia que ganha características catastróficas, a exemplo da Peste Negra Medieval e a Gripe Espanhola, na medida em que as pessoas se recusam a olhar de dentro para fora, optando insistentemente por colocar o dedo em riste na cara de seu semelhante, sempre pautando seus argumentos através de falácias que a ciência já comprovou serem meros palavrórios demagógicos e eleitoreiros. Sendo assim, não ficarei batendo nessa tecla, mesmo sabendo que há um adágio, segundo o qual, “água mole em pedra dura bate até que fura”.

No momento em que estava cosendo essas linhas, o Brasil tinha ultrapassado a marca das quatro mil mortes provocadas pelo Covid-19, enquanto Penápolis registrava 136 óbitos – convido-vos meus caros leitores a percorrerem as páginas do livro Contagio: infecções de origem animal e a evolução das pandemias (Cia das Letras, 2020), escrito por Davi Quammen. Entendo que muitos dizem não ter tempo hábil para ler, mesmo que seja uma hora por dia, mas me parece paradoxal que o mesmo que afirmar não ter disponibilidade para uma leitura instrutiva passe horas em redes sociais divulgando Fake News enviados por pessoas interessadas em disseminar ódios e desinformações e, por conseguinte, o caos, tendo como premissa a ideia de que somente a partir daí é possível enganar aqueles que ainda têm dificuldades em discernir essência e aparência. Acho interessante aqui entender que a palavra essência tem origem semântica numa tribo primitiva de judeus do Oriente Médio, segundo pesquisas, que se recusaram a seguir os ditames oficiais de seus colegiados, mais ocupados com as suntuosidades dos templos do que realmente com o encontro de si mesmos a partir de significativas reflexões. Neste sentido trago aqui um singelo olhar, escudado num certo poeta revolucionário que, por ser assim e pregar a igualdade entre os homens, foi crucificado. Segundo ele, numa certa passagem das Boas Novas, isto é, os evangelhos, quando o sujeito adentrar uma casa deve dizer aos seus moradores: “Eu voz deixo a minha paz, eu vos dou a minha paz”. Compreendo esse pequeno excerto como essencial para esses momentos pandêmicos, e por assim dizer, entender o pretérito humano. Como é possível enviar a alguém aquilo que não se tem. E para saber-se possuidor dessa paz, é necessário deixar o campo da aparência e enveredar pelo universo da essência, como dizia um certo pensador grego: “conheça-te a ti mesmo”. Sócrates é considerado o criador da Metafísica, isto é, a investigação para além daquilo que parece ser. Em outras palavras, ele não se importava muito com o sujeito em si, mas com aquilo que o torna o ser em si a partir do que lhe dá sentido, ou seja, seus predicativos.

Há um filósofo, do qual tenho muito apreço, Immanuel Kant (1724-1804), que não constrói seu pensamento a partir do objeto dado ou da coisa em si, mas sim dos valores utilizados pelo homem para definir aquilo como sendo importante. Desta maneira, entendo que só será possível fazer tal compreensão a partir da viagem ao centro de si mesmo, conforme propõe o escritor Xavier de Maistre (1763-1852) em seu pequeno livro Viagem ao redor do meu quarto (SP: Editora 34, 2020). Posto isso, fico aqui com a seguinte interpelação: imaginemos que, depois da passagem do temporal Covid-19 será dado a cada um de nós a oportunidade de reconstruir o mundo externo, como cada um erguerá sua morada: com a paz ou com a guerra? Com a serenidade ou com o caos? Parece-me que aqui a questão se torna emblemática, pois como nos diz em sua significativa obra formada pelas críticas a priori e a posteriori, o pensador iluminista alemão, quais os valores serão usados para edificar esse novo orbe. Interessante notar que, apesar de já estarmos no Terceiro Milênio, ainda há o famoso dote que as pessoas levam para suas vidas nupciais. Uns acreditam que esse valor deve ser em espécie, ou seja, dinheiro, posse e demais propriedades, outros atribuem aos dotes os valores morais e éticos. Entendo que ao se pensar na sociedade pós-pandêmica, a ideia contida na pecúnia deva prevalecer, isto é, o que cada um de nós colocará na casa que será edificada. Na saga dos três porquinhos: um faz a sua morada a partir de palhas, o segundo com madeira e o terceiro de alvenaria. Qual lobo irá soprar e derrubar essas construções?

Lá no título dessa tentativa de missiva, consta que o meu escopo é de abordar a essência e a aparência num reino chamado Brasil. Claro que o adjetivo reino pode ser substituído pela República, que significa Coisa Pública, contudo, desde os seus primórdios vem sendo tratada como elemento de ordem privada que arrecada recursos de forma coletiva, mas a partilha não é equânime entre os pagadores de taxas, tributos e demais impostos. Desta forma, me parece que muitas das parábolas contidas num dos livros mais lido do mundo, mais especificamente no Novo Testamento, colocam o dedo na ferida de vários dos seres humanos que se querem demasiadamente humanos. O filósofo russo Mikhail Bakunin (1814-1876) afirmava que o ser em si que diz e propala brados revolucionários, mas não faz de sua vida um ato de mudança, tem na boca um cadáver. Aqui se adentra no campo das diferenças entre essência e aparência e, se preferirem meus caros leitores, também no que separa as teses de Platão e Aristóteles, continuadores da maiêutica socrática. O primeiro, parte do princípio de que no universo das ideais tudo é perfeito, portanto, o homem chega ao orbe, contendo dentro de si uma suposta perfeição, todavia, ao se relacionar com os demais, pode ter perdido parte desse ideal, conforme nos fala o genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) quando aponta a educação como ferramenta importante para se estabelecer na sociedade a harmonia. Sendo assim, se faz necessário compreender a essência de cada um de nós e, nesse ponto, retorno ao poeta galileu e a sua ideia de paz contida não no outro, mas sim naquele ser em si que a transporta. Qual é então o ideal de paz que cada ser pratica? Será que seja possível viver em paz enquanto milhares morrem de fome, não por vontade própria, mas por conta dum sistema injusto em que os amigos do rei têm tudo e aqueles que não possuem a chancela real, ficam fora do castelo amargando o vácuo estomacal e, quando reclamam, são levados ao calabouço? Penso que o romance Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, pai (1802-1870) pode dizer algumas coisas para aqueles que se dizem seguidores do galileu, mas adoram os bezerros de ouro e as benesses que o poder afere. Ou seja, na aparência, todos são bonzinhos, fazem caridade, mesmo que seja com o chapéu alheio, se apresentando como virtuosos à patuleia desvairada, mas no privado, na essência, comprazem com os recursos desviados dos cofres públicos. Neste ponto, todos já sabem do que se trata. Portanto, encerro aqui minha tentativa de entender a essência do ser que escolhe seus representantes com a aparência, seja de si como do seu indicado.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

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