Sobras de um amor… parte II

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Do jeito que estavam depois do banho, adormeceram. Sem se falarem. Não havia mais o que um podia dizer ao outro. Entenderam que era necessário deixarem a teoria e partirem para a prática, sobretudo Angélica, a mais insegurança na relação. Parece que finalmente entendeu que o jornalista não iria a lugar nenhum. Estava até o último fio de cabelo enterrado na história e, sair agora, sem ter uma solução definitiva só os machucaria mais do que o necessário.

Ele acordou antes que ela. Tomou banho e ficou sentado no sofá, ocupando o mesmo lugar no sofá. A arquiteta acordou bem depois, e como das outras vezes, o procurou na cama. Ao sentir a falta dele, imaginou que este tinha partido. “Eu o entendo. Não quero segurá-lo aqui contra a própria vontade. Apesar de me amar, estou o tornando um homem infeliz”, pensou Angélica saindo da cama e se arrastando até o banheiro.

No chuveiro, chorou como criança e pensou numa música em que o refrão dizia que a pessoa sofreria, mas libertaria o ser amado do amor que recebia. Ficou ali um tempo, enquanto Márcio na sala, pensava silenciosamente como chegou até aquela situação. Achava que nunca sairia daquele poço sem fundo que se tornou a véspera do seu casamento com Márcia. Agora ela estava presa, Rodolfo o segurança, travestido de garçom, estava morto.  Ele sabia que tudo isso tinha dedo da família dela, ou melhor da manhã dela.

“Por que será que tudo isso está acontecendo? O que essa linda mulher, com dinheiro que não acaba mais, viu em mim? Ela pode ter o homem ou a mulher que quiser. Tem presença, é culta, bem situada socialmente, deveria estar sendo cotejada por vários pretendentes, mas não. Quer ficar comigo, sonhar em viver um amor que ela nem sabe direito o que é. Preciso saber o que é isso. Ela age como uma criança que deseja um brinquedo e os pais fazem de tudo para que tenho o que acalenta. Depois ela se enjoa, deixando de lado, optando por algo já antigo que sempre teve”, pensou Márcio.

Ele na sala e ela no quarto, separados alguns metros um do outro, tendo entre eles uma noite maluca em que ela fez sexo oral, mas parecia um ataque e não uma ação prazerosa. O repórter não entendia aquilo como fonte de prazer, mas sim uma fúria, uma espécie de vingança. Parecia que a arquiteta o estava atacando para se livrar de algo que lhe estava fazendo mal, causando repulsa.  “Acho que ela se sentiu forçada a fazer isso, pois creio que pensou que eu estava com Fernanda porque precisava de sexo, de me esvaziar. Meu deus o que fazer?”, pensou Márcio.

No quarto a irmã de Amadeu, estava totalmente envergonhada por conta do ataque que fez ao amor de sua vida. Como olhar para ele agora? Tudo seria diferente. Na cabeça da empresária, embora tenha dito a ele que tinham um encontro à tarde na casa de Eleanora, não podia lhe dizer nada. Ele não era obrigado a viajar até o outro lado do mundo em sua companhia só para ela resolver seu casamento. “E seu eu ver Rosângela e ela me sorrir, pedindo para ficarmos na Alemanha, dizendo que foi um erro ficarmos separados? Que ela entendeu que Márcio foi apenas a pessoa que ajudou a trazer Amadeu de volta. Não sei se resistirei a um beijo dela, a um toque dela. Não posso forçá-lo a fazer isso. Melhor deixá-lo decidir por ele mesmo”, raciocinava a arquiteta, enquanto se arrumava repassando mentalmente a sua agenda para aquele dia.

Enquanto a empresária se martirizava no quarto, na sala o repórter recordava o que o irmão dela tinha lhe dito dois antes. “Surpreenda-a Márcio! Faça diferente do que ela imagina que faria. Mas não a deixe escapar. Ela é louca por você. Eu conheço minha irmã”.  Tendo essa ideia em mente, o jornalista se dirige ao quarto para acordá-la, mas não dizer nada em relação a decisão que tomou. “Mais ação, menos teoria”, sentenciou mentalmente.

Quando bate na porta do quarto, escuta a voz dela. “- Entre Márcio, já estou pronta para te levar à sua casa e ir ao meu trabalho”. Ao vê-la vestida, com uma saia e uma espécie de terno de um verde que combinava com os seus olhos. Ficou em silêncio, só curtindo aquela beleza singular. “Gostou? Estou bem para o primeiro dia de trabalho e para uma nova vida?”.

– Está sim. Vamos! Quer tomar café em nossa padaria?

– Vamos. Mas a padaria não é nossa. Assim como eu não sou sua e nem você é meu!

Quando Márcio fez menção de lhe dar um beijo, Angélica lhe vira o rosto e coloca na mão dele. “- Um presente para você, meu caro. Acho que sempre quis isso e eu tentava negar-lhe a liberdade”. Era a chave de seu apartamento. Desceram e um silêncio sepulcral se fez entre eles. O repórter entendeu que não deveria dizer nada, absolutamente nada. Compreendeu que todos haviam passados dos limites que se colocaram.

Na padaria, a empresária fez o seu prato e o repórter o dele. Sem um pio. No completo silêncio. Terminaram a refeição, assim como começaram: sem trocar palavras, sem olhares, sem segurar nas mãos. Internamente, Márcio foi se encolhendo como um caracol. Entendeu que finalmente, a arquiteta compreendera o quão complicado havia sido a relação dos dois até ali e era hora de cada um seguir o seu caminho.

Angélica pediu o celular dele e desativou o GPS que o localizava. Ao fazer isso ela se lembrou do que Fernanda havia lhe dito. “Ame-o, mas sem precisar colocar coleira. Faça-o feliz. Ele merece”. Devolveu o equipamento para o repórter, dizendo que todo mês os R$ 10 mil seriam depositados na conta dele. Deu um beijo no rosto de Márcio, dizendo-lhe adeus. “- Meu amor. Você é um homem, uma pessoa sensacional, mas não é para mim. Agora eu entendo a Fernanda. Tchau. Tenha um ótimo dia. Sei que sabe voltar para a sua casa sozinho. Se quiser jogar fora as roupas que te dei, sinta-se à vontade. Não posso te transformar naquilo que não é para tê-lo ao meu lado. Siga o seu caminho, mas saiba que você sempre será o amor de minha vida. Disso eu tenho certeza. A conta está paga. Aliás, essa padaria pertence à minha família”.

Saiu do estabelecimento, mas voltou só para agradecer pelo irmão. “- Obrigado por ter devolvido o meu irmão à minha mãe. Pode deixar que daqui para frente eu resolvo. Afinal o problema é nosso e não seu. Te amo. Adeus”.

Márcio escutou tudo sem dar uma palavra. Ela o derrubou com um soco bem no queixo. Deixando-o sem palavras e sem reação. Não podia dizer nada. A não ser que tivesse algo novo, mas o velho chavão: “é uma fase, vamos superar isso. Estou aqui contigo”, não adiantaria nada. O repórter olhou no relógio e passava um pouco das nove horas. Nunca se sentira tão vazio, sozinho. “Posso beber o mundo, posso encharcar a cara, mas nada vai preencher esse vácuo”, pensou o repórter, recordando Amadeu procurando uma mulher no fundo do copo. Entendeu que não era o amigo que estava procurando um amor, e sim ele.

Deixou-se arrastar até o apartamento que parecia gigantesco. E como numa reprise de filme, tudo o que passou ali dentro desde o dia que Angélica chegou ofendendo-o; o chamando de cachaceiro e emporcalhado, até aquele momento. Sabia que deveria retomar a sua rotina, mas como fazer isso, sem a arquiteta? Como olhar o laranja do céu nos finais de tarde sem ter os olhos esverdeados da amalucada irmã de Amadeu? “Não vai ser fácil colocar a locomotiva Márcio nos trilhos e seguir em frente”. Desabou no sofá e perdeu a vontade de tudo. Sabia que a arquiteta estaria sempre ali dentro do apartamento, preenchendo o seu coração, no interior de sua mente, de sua esfera astral, mas passou a ser alguém intocável. Ela voltou a ser a madame da manhã daquele domingo chuvoso que havia mandado pastar, tomar no rabo.

Enquanto Márcio se chicoteava por dentro, sendo acusado pelas próprias memórias de ser um fracasso como homem incapaz de tranquilizar um coração que só pedia o seu amor, essa mulher tentava retomar a vida, se concentrando no trabalho. Tinha muita coisa para fazer, organizar, deixar tudo pronto antes de ir para a Alemanha. Não sabia o que a aguardava. Mandou uma mensagem para a esposa, enquanto olhava a aliança que havia recolocado no dedo. “Meu amor, na semana que vem, estarei aí para resolvermos nossa vida. Talvez eu passe mais tempo com você até equacionarmos tudo”.

Recebeu logo em seguida uma mensagem contendo apenas uma foto. Na imagem ela apresentava a imensamente felicidade de estar com Márcio naquela noite num barzinho na cidade vizinha. Alguém tirou, mas não foi o fotógrafo, pois a imagem estava um pouco longe. Depois da fotografia, tinha um breve texto. “Espero que explique isso também”. Se irritou, jogou o aparelho na parede. Trancou a porta de sua sala e chorou, berrou. “- Caralho. Baguncei a vida de um homem genial, forcei-o a passar dos seus limites, agora como se não fosse nada quero retomar meu casamento com Rosângela”, falou para si mesma. Ao mesmo tempo em que chorava, transpirava, berrava, gritava e pedia explicações para Deus.

Levantou-se foi ao banheiro. Tomou banho, trocou de roupas. Sempre deixava ali duas ou três trocas. Não achava correto participar de várias reuniões usando o mesmo manequim. Quando voltou para a sua sala, a secretária avisou que precisava entrar na sala. Ela destravou a porta e Débora adentrou ao recinto e já recebeu uma saraivada de veneno destilada pela raiva de patroa. “- Espero que seja importante. Se não for, pode ir embora. Não quero falar com ninguém nesse momento”.

A servidora olhou e simplesmente disse que poderia voltar depois quando ela estivesse mais disposta. Angélica ficou pensando, irritadíssima. Havia perdido o controle de sua vida, mesmo que fosse uma existência de fachada que escondia aquela criança amedrontada quando via o pai, com medo que ele a agredisse com o seu membro. Travou a porta novamente, deitou sobre a mesa e chorou. Depois foi para o sofá e se deitou, dormindo. Acordou sentindo o estomago roncando, indicando que precisava almoçar, mas apesar da fome, estava sem vontade. Optou por permanecer deitada olhando para o teto.

Foi tirada dos seus devaneios por Débora. “O que você quer novamente?”.

A funcionário pediu para que ela abrisse. Precisava falar com urgência. Quando já estava dentro da sala, a secretária lhe disse que no térreo havia alguém que queria fazer uma entrega pessoalmente para ela. “-Eu não recebo entrega pessoalmente. Só com os mensageiros e deve ser deixada na portaria. Não converso com ninguém, Tchau”.

– Será que a senhora me deixa explicar o que ele quer?

– Pode e saia. Estou exausta e não quero ver ninguém.

– Dona Angélica. É esse homem aqui. Ele pediu para eu mostrar a foto e dizer a senhora que quer lhe entregar algo especial.

Quando Angélica viu que a imagem era de Márcio, o coração quase lhe sai bela boca. “- Ele pediu para lhe dizer que não vai subir, mas que a senhora precisa descer para pegar a encomenda. O que eu digo a ele?”.

– Não diga nada! Deixe-o esperando. Eu vou descer pelas escadas. Onde ele está não vai me ver chegando por trás. Se estiver com más intenções, estaria em posição de ataque.

Antes mesmo de terminar de dizer isso à secretária, a arquiteta quase correu até o térreo, mas controlou a ansiedade e a afobação. Desceu em silêncio, pois sabia que Márcio vivia no mundo da Lua e a aguardava na porta do elevador. “- Pois não! O que o senhor deseja falar comigo? Não costumo conceder entrevista para nenhum jornal. Sempre envio uma nota à imprensa. Eu quis contratar uma pessoa para fazer isso, mas ela declinou do convite. Então seja rápido que estou abarrotada de trabalho. É sobre algo importante para a nossa sociedade.

Márcio não esperava tal recepção. Ficou sem chão. Tentava olhar para ela, mas virava os olhos, buscava as palavras, mas elas morriam antes de sair da boca. Não conseguiu esconder a gagueira. “- N…ão… se… i… por… o…nde… i…nici… arrr!”, disse com muita dificuldades.

A arquiteta, bem séria, foi se aproximando dele que começou a suar frio, não sabia para onde olhar. Ficou completamente gelado. Quando Angélica chega bem perto dele, sente toda a tensão contida em Márcio, observando como a musculatura do rosto do jornalista estava tensa, retesada. Ela diz bem baixinho no ouvido dele: “- Po… r… que não… co… me… ça… me be… i… jan… do, meu gaguinho amado?”

Márcio desmonta, deixando cair as flores que levava para a empresária. Quando ela vê, o jornalista fica todo sem graça, dizendo que era para ela, junto com um convite para almoçarem juntos. A arquiteta pula no pescoço dele, perguntando o que deu nele. Não esperava vê-lo tão cedo. “- Saudades de você, desse seu jeito, enfim. Se eu te amo, tenho que lutar para que esse amor seja pleno. Sei lá. Ensaiei um monte de coisa, mas ficou tudo pelo caminho. Não sei o que dizer. Só sei que não quero ficar longe de você, minha madame esmeraldina. Mesmo que não tenha me respondido se aceita ou não se casar comigo”, falou tudo de uma vez só.

– Sem promessas? Sem cobranças?

Márcio pegou as flores do chão e entregou a ela, dizendo que no meio tinha um presente que desejava entregar em mãos para a dona do seu coração. Era um pequeno saquinho. O mesmo em que ela tinha colocado a calcinha naquela sorveteria quando estiveram no Pontal do Paranapanema. A arquiteta ficou vermelha de vergonha, achando que seria a calcinha, mas percebeu que pelo volume era outra coisa. Quando abriu, viu que era a chave do apartamento dele.

– Por que?

– Porque lá tem um cheiro especial deixado pela senhora esmeraldina. Como não posso aprisionar o aroma, pensei em não deixar a dona dele sair de lá, ou pelo menos que ela passe lá para regá-lo com seu aroma, com seu corpo, com seus olhares e com a sua alma.

Ficaram se observando e o silêncio foi quebrado por Márcio. O pedido de casamento eu posso aguardar a eternidade, agora o convite para o almoço já não dá. Meu estômago começa a olhar de modo diferenciado para os órgãos adjacentes.

– Você sobe comigo para eu pegar a minha bolsa?

– Não! Eu te aguardo aqui.

Angélica voltou de elevador e, ao chegar no seu escritório já era outra. Pegou as flores e pediu para Débora colocar na água gelada e deixar na sala dela. “-Estou saindo para almoçar e não sei se volto a tarde, mas eu aviso caso não venha”.

Debora olhou para a outra funcionária e mais duas arquitetas que estavam na sala e uma delas perguntou: “- O que aconteceu?”. A secretaria só disse que não sabia. A patroa estava azeda como limão, mas bastou aparecer um cara dizendo que queria entregar-lhe pessoalmente uma coisa e ela voltou assim. Uma das arquitetas e sócia perguntou quem era a pessoa. Débora mostrou a foto e a arquiteta disse: “- Esse é o cara que falei para vocês com quem ela anda desfilando para cima e para baixo, armando barracos. Ontem à noite naquela lanchonete próximo da lagoa. Esse cara estava numa mesa com uma mulher. Ela chegou e jogou chope na cara dos dois. Vocês já viram ele?” Antes mesmo que alguém respondesse, Maria Helena já respondeu: “- Eu nunca vi, pelo menos não é do nosso círculo social”.

Quando Angélica chegou ao térreo do prédio onde trabalhava, estava toda radiante, parecia outra pessoa. “-Vamos”, disse a Márcio, perguntando onde iam almoçar. “- Em minha casa, caso você aceite”, informou Márcio. Deixei mais ou menos a coisa adiantada. “Coloquei um vinho branco para gelar. Aquele apartamento vai perder a vida se você não passar uns dias lá comigo”, lhe explicou o repórter.

– E o que mais, meu neguinho gostoso preparou?

– Sei que a minha adorável arquiteta não é muito de ingerir carne vermelha, então tomei a iniciativa de fazer uma carne branca para combinar com o vinho. Espero que goste.

– Já está tudo pronto?

– Não! Farei enquanto conversamos e degustamos o vinho.

Já dentro do carro, Angélica, tenta se controlar para não avançar o sinal, deixando tudo fluir. Antes que ela colocasse o carro em movimento, Márcio olhou para a arquiteta dizendo que a amava muito. “- Olha só! Tu precisas deixar umas roupas suas em casa. Também vou querê-la dormindo em minha cama”, falou a beijando no rosto.

Fizeram o caminho do escritório ao apartamento de Márcio numa serenidade. Sem música, sem nada. O jornalista sentindo o aroma que emanava do corpo da irmã de Amadeu, que o vento trazia até seu nariz. Se recordou da primeira que sentiu aquele cheiro. “Não dizem que tem amor à primeira vista? Acho que tem também amor no primeiro cheiro”, pensou o carona.

– Amor é a primeira vez que te vejo gaguejando e todo gelado. Todo tenso, parecia outra pessoa.

– Você já sentiu medo de ser rejeitado?

– Já! E sei bem o que é isso.

– Primeiro que eu te esperava pelo elevador ou um chute no traseiro. Depois, você aparece de onde eu nem imaginava, me trata com uma frieza que nem naquele domingo chuvoso eu senti.

– Eu queria dizer aquilo tudo e voltar para a minha mesa. Passei a manhã toda me achando a pior pessoa do mundo. Cheguei a mandar uma mensagem para Rosângela, achando que, de repente, poderia haver alguma reconciliação. A pessoa que recebeu a mensagem respondeu com uma foto minha com você naquela noite que fizemos o fotógrafo apagar as fotos. Na mensagem da imagem tinha um pequeno texto: “me explique isso”. Ali eu percebi que não tinha explicações, só faltando mesmo sacramentar e retirar a aliança de forma oficial.

Márcio escutou a narrativa em silêncio. Não queria tocar no assunto Rosângela, pois ela não havia posto um fim naquele relacionamento de sete anos. Então o melhor, na cabeça do jornalista, era não alongar conversa sobre aquilo.

“- Eu posso saber o que deu em você para se arriscar e vir em meu trabalho com aquelas rosas”, questiona Angélica.

– Vim salvar o meu amor. Não deixar que uma mulher encantadora sumisse no mundo, como eu tentei fazer. Não quero correr para lugar nenhum que não seja para os braços dela.

Ao terminar de dizer isso, o jornalista apertou firme a mão dela, indicando que não a deixaria mais. Continuaram o caminho e logo estavam diante do prédio em que Márcio residia. Próximo dali havia um estacionamento privado onde a arquiteta deixou o carro. Sob o olhar do funcionário, o casal saiu de mãos dadas. “O que esse negão fez para pegar um peixão desses?”, pensou o porteiro Jeremias.

Percorreram os cerca de 50 metros, sem se falar, apenas curtindo a temperatura das mãos e o pulsar do coração que estava na ponta dos dedos de cada um deles. Dentro do elevador, Márcio arriscou uma adiantada, encostando Angélica na parede e beijando-a. “- Amor que beijo foi esse”, lhe pergunta a arquiteta. “- Minha tentativa de beijar a sua alma. Será que consegui?”

“- Quer tentar novamente. Acho que quase conseguiu”, disse Angélica partindo para o ataque e o beijando. Nisso o elevador parou no andar deles. Ao saírem, esbarraram num casal de meia idade que fitou os dois, emitindo aquele olhar de reprovação.

– Você viu amor o olhar daquela dupla.

– Vi e daí? A opinião deles não vai mudar em nada o que sinto por você. Se eles não aprenderam a ver caráter, valores éticos e morais antes da cor da pele, com certeza também não são portadores desses princípios. Não ligue para eles. Cada cabeça uma sentença e o universo devolve ao indivíduo aquilo que ele recebe.

Chegaram ao apartamento e Márcio aguardou. “- O que você está esperando neguinho” pergunta a arquiteta. “- Você abrir a porta com a sua chave”. Angélica se apressa em pegá-la dentro da bolsa e como uma adolescente que acaba de ganhar o primeiro beijo, abre a porta e entra como se aquele lugar sempre a tivesse a esperando.

Ela se jogou no sofá enquanto Márcio foi se higienizar para terminar de preparar o almoço para os dois. Tomou um banho rápido, mas foi surpreendido por Angélica que tirou rapidamente toda a roupa e entrou. “-Obrigado amor, pela surpresa. Você tirou uma tonelada de culpa de minhas costas. Fernanda tinha razão, você é um homem especial. Te amo”.

Nenhum dos dois falou sobre o futuro ou sobre o passado. Apenas queriam ficar juntos naquele momento. O depois, como o próprio termo já diz “depois” não seria naquele presente. Márcio saiu primeiro e procurou umas roupas e recordou da mala que a lavanderia tinha enviado. Ele não havia retirado toda a roupa. Ficou surpreso com o que viu.

– Amor pega uma calcinha aí dentro dessa mala da lavanderia.

Pensou em dizer alguma, mas optou por curtir o momento. Levou a peça para Angélica, que também não disse nada. Dirigiu-se à cozinha para terminar o almoço. Angélica aparece logo em seguida vestida com uma camisa de botões que ele tinha usado no dia que buscaram Amadeu. Ela fechou os botões de modo a deixar parte dos seios amostras. O jornalista, ao vê-la vestida daquele jeito, berrou: “-Essa mulher diaba quer me fazer queimar a comida!” Ambos caíram na gargalhada.

Como se já mandasse na casa, a arquiteta abriu a geladeira pegou o vinho, destampou, despejado o conteúdo em duas taças, entregando uma a Márcio e levando a outra consigo para a sala. Encontrou um aparelho de som muito antigo que não se recorda de tê-lo visto ali antes. Enxergou uns discos na parte de baixo do aparelho, achando interessante a coleção. Só tinha visto coisas semelhantes quando criança.

Olhou para o equipamento. Mexeu, mexeu até que o colocou para funcionar. Como já tinha um disco na vitrola, Angélica deixou-o tocando e Márcio escutou. Veio até a sala e encontrou a empresária sentada no sofá ouvindo a música, deixando a alma passear. Ele ficou ali olhando-a por uns minutos até que perguntou onde ela estava. “- Bom, meu corpo estava aqui, já minha alma, estava ao lado do meu amor, enquanto ele prepara o meu almoço”, ao termino do que dizia, Angélica foi até Márcio e o agarrou. “-Anda logo, estou morrendo de fome”.

– Estava ouvindo essa música hoje pela manhã. Gostou?

– Sim! Eu não conhecia.

O jornalista voltou para a cozinha, concluindo o almoço. “- Querida, daqui uns dez minutos almoçamos”, usando um tom de voz que Angélica pode ouvir. Deu mais uma grande golada no vinho, enchendo o copo novamente. Em seguida foi até a sala para completar a taça de sua visita.

Ela se levantou, abraçando-o com os olhos brilhantes. “- Obrigado pelo presente”. Márcio a fitou, perguntando qual presente: “- A chave do seu apartamento e o pedido para eu deixar umas peças de roupas aqui. Isso significa que me queres aqui e em sua vida”.

– Eu desejo estar com você em todos os lugares e em todos os momentos. Queria muito almoçar contigo, mas não em um restaurante e sim aqui nesse apartamento. Meu canto que tem impregnado o seu cheiro.

– E depois do almoço? O que faremos?

– Vamos à casa de sua mãe para falar com ela sobre o passaporte e se já soubermos a previsão de quando ficará pronto, comprarmos as passagens para Alemanha. Quanto mais rápido resolvermos essa sua situação com Rosângela, mais rápido oficiaremos sermos namoridos, depois noivos e em seguida, esposos. O que acha?

– Uma bela sequência, mas quero curtir o aqui e o agora. Não desejo pensar muito lá na frente. Não quero tomar a sopa quente, posso queimar a língua. Prefiro saboreá-la junto com o meu amor.

– Então vamos ao almoço! Espero que esteja a seu gosto. O jantar hoje é por sua conta e não vem com essa de comer fora. Quero comer na torre e ficar aprisionado nos braços de minha adorável Rainha Diaba. Amanhã cedo quando viermos para cá, você traz algumas de suas roupas. A não ser que queira que eu compre umas coisas para ti.

– Eu não acredito! Você faria isso mesmo?

– Não há dúvida. Vou comprar com base no achismo.

– Essa eu quero ver!

– Está certo então.

Almoçaram, conversaram bastante. Em seguida foram para a sala aproveitar o momento, até que o telefone dela tocou. Era Eleanora. “- Estou esperando vocês aqui para resolvermos o problema do passaporte do Márcio”.

– Já estamos indo mãe!

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