Sobras de um amor … parte II

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Angélica despertou com o som de seu telefone. Era a sua secretaria lembrando-a que tinha uma reunião às 10h com um importante cliente. “ – Acorda amor! Vou me atrasar”, disse a arquiteta chacoalhando Márcio que apenas resmunga, enquanto a empresária entra rapidinho no chuveiro. Ao sair joga a toalha molhada no amigo que desperta, vendo a nua, não acreditava no que estava vendo.

– Acordar com esse belíssimo espetáculo matinal é maravilhoso!

– Vai lá se higienizar para tomarmos café. Tenho reunião com um importante cliente. Passamos naquela padaria e depois eu te deixo em casa. E nada de desligar esse telefone.

Márcio não teve outra alternativa, ao passar pela empresaria deu um tapa na bunda dela dizendo: “-Bom dia, bunda gostosa. É uma pena eu não poder te dedicar mais atenção nesta manhã. Tua dona está cheia de compromissos”. Entra no chuveiro, se deixando ficar lá, pensando em tudo o que aconteceu no dia anterior. Realmente necessitava de um ou dois dias longe dela. “Preciso respirar e pensar o que vou fazer da vida. Ela não me dá espaço e quando solicito para fazer alguma coisa, ela se recusa. Vou começar hoje mesmo esse distanciamento”.

– Vamos amor. Ande logo. Não quero sair às pressas. Desejo tomar café tranquila e aproveitar os últimos momentos contigo, antes de um dia atolado de trabalho.

Márcio deixa o banheiro. Ao terminar de se enxugar, tira da bolsa as roupas do dia anterior, se veste e já pronto, diz a arquiteta. “- Pronto patroa, mas você ainda nem terminou e fica me colocando pressa?”.

– Nem vou te responder.

Angélica termina de colocar os brincos, pergunta a ele se está bem com aquela roupa. Márcio dá uma fitada e diz: “- Se não estivéssemos em cima da hora, tu irias trocar de roupa. Está muito chique para uma reunião de negócios”.

– Eu sempre fui assim para esses encontros.

– Mas isso é passado! Pense em começar a mudar. Seja simples e não precisará convencer ninguém de nada. Apresente o seu trabalho e pronto.

– Está bem, mas agora não dá para fazer isso. Anotei o seu pedido e da próxima vez será atendido, meu amor. Agora vamos.

Saíram meio às pressas e entraram no carro. Chegaram a padaria, fizeram uma importante refeição, com Angélica falando sem parar sobre o trabalho que ia apresentar e que se fosse aprovado colocaria seu escritório de arquitetura e projetos urbanísticos como um dos melhores do estado.

– Ai amor! Desculpe-me por estar falando somente de minha pessoa e de meu lado profissional. Assim que passar tudo, conversaremos mais sereno hoje à noite.

– Sem problemas. No campo jornalístico, os entrevistados são os que falam e nós apenas anotamos para depois montar a matéria. Então, é hábito de minha profissão mais escutar do que dizer.

Enquanto Angélica falava de si, não percebeu o quanto Márcio estava distante de tudo aquilo. Ainda tinha aquela história da recusa dela fazer uma pequena coisa que ele pediu. Estava começando a compreender o quanto a irmã de Amadeu ainda precisava melhorar para sair do centro do próprio ego. “É! O caminho vai ser longo se eu realmente pretender ficar com ela”, pensou o repórter tomando cuidado para não deixar escapar nada através da voz.

– Vamos querido. Te deixo em casa e vou ao escritório. Novamente, não se desligue de mim e deixe o celular ligado. Você sabe como eu fico!

O trajeto do caminho da padaria ao apartamento de Márcio foi feito do mesmo jeito do que acontecia no café: Angélica falando, ele ouvindo com o corpo, mas a cabeça em outro lugar. Quando desceu, deu um beijo na arquiteta que já estava com a mente na reunião e o corpo dentro do carro.

O repórter subiu. Desligou-se de tudo e dela também. A primeira coisa foi desligar o telefone. Não queria falar com ela em hipótese alguma. “Acho que vai ser bom um dia só para mim. Desde que essa mulher entrou na minha vida, não consigo um dia exclusivamente meu”, pensou Márcio, se jogando na cama e desligando-se. Dormiu a manhã inteira. Ligou para Roberto e combinaram de almoçar juntos. Desligou o aparelho novamente. Indo ao banheiro, tomou outro banho, escolheu uma das roupas que Angélica havia enviando no dia anterior, saindo para encontrar o amigo.

Quando chegou ao restaurante, Roberto já estava. Queria saber das novidades. Fernanda tinha contada da cena na loja. “- Meu amigo! Anda sumido! A burguesa tem consumido seu tempo. E aí como é ela? Mandona como é gostosona?”.

Márcio optou pelo silêncio. Era a maneira de dizer que o assunto não lhe interessava. “- E como vai você, Danisa? Já tem bebê a caminho”, perguntou o repórter ao seu editor.

– Rapaz a coisa está horrível. Ela está ficando a cada dia que passa mais intratável, implicante. Não sei o que fazer. Estou com medo que meu casamento vá para o ralo.

– Eu já te falei. Arruma um trabalho para ela e tudo fica resolvido. Ela chegará em casa tão cansada que não terá tempo de ficar de azucrinando com coisas sem importância.

– Sim, meu amigo. Mas trabalho onde?

– Sei lá em qualquer lugar! Mas vamos fazer assim. Eu ainda tenho umas coisas para resolver nos próximos dias e, assim que estiver equacionado, quem sabe eu não posso ajudá-lo. Preciso retribuir o que fez por mim há cinco anos.

– Eu sei que tu não gostas de falar de sua vida pessoal, mas sei que o sumiço da redação está ligado a essa dona Angélica. Como foi que te achou lá no Pontal? Ela foi falar comigo querendo saber onde tu estava. Eu disse que não sabia. A doida chegou a me ameaçar, inclusive com o meu emprego se eu não falasse do seu paradeiro. Disse que não sabia e que não tinha me dito justamente por saber que ela ia fazer isso: querer saber onde tu estavas.

– Ela me achou porque cai na besteira de deixar o meu nome e RG quando comprei a passagem de ônibus e você sabe, né, todo homem tem seu preço.

Assim que Marcio terminou de falar, Fernanda aparece para almoçar com os amigos. Roberto havia tomado a liberdade de chamá-la como nos velhos tempos. A comerciária chegou e já ficou olhando para todos os lados. Os dois desejaram saber qual era o motivo de toda aquela preocupação. A amiga respondeu de chofre olhando ao repórter: “- A sua patroa! Estou com um medo danado dela. Aquela mulher é osso duro de roer”, e cai na gargalhada.

“- Como é que é isso, Fê? Me explique. Quem é a patroa do Márcio?”, questiona o editor como um típico jornalista.

Márcio faz aquela cara de emburrado, mas já que ela tinha começado agora ia até o final. “- É meu caro Rô! Esse cidadão aí apareceu um dia desses lá na loja com uma loura de provocar inveja até nas mais belas atrizes de televisão. Ele queria comprar umas roupas, mas essa mulher tomou a frente, dizendo que precisava verificar as roupas de seus diretores, porque o nosso amigo aqui ia assumir o cargo de diretor internacional de comunicação e marketing do grupo dela. Obviamente que era tudo mentira. Imagina se o Márcio viraria executivo de uma multinacional e não falaria para nós”.

Roberto olhou para ele e caiu na gargalhada. “- Quer dizer que o nosso amigo aqui de jornalista especial virou capacho de madame?”.

– Roberto, vai to… mar no seu cu. Por… ra Fê. Vo…cê tinha que falar es… sa história. E…e … não sou capacho de madame porra nenhuma. Ela só quis ser gentil comigo.

“- Eu sei que gentileza ela quer de você”, disse Fernanda, percebendo que o amigo saiu dos trilhos. “-Ela só quer o tens no meio das pernas”, completou Fernanda rindo aos borbotões.

Márcio bateu na mesa dizendo: “-A…a … agora chega!”.

A amiga sabia irritá-lo. Ele era muito certinho. O homem ideal, mas não servia para ela. “- Só para fechar a história. Do nada, ela apareceu na loja um dia a tarde e começou a falar um monte porque o dondoca aí almoçou comigo. Não sei como ela soube, mas tinha a informação e eu fiquei lá com aquela cara de tacho sem entender nada. Vai por mim, querido. Ela está apaixonada por ti e de olho nesse chouriço que tu tens aí no meio das pernas”.

Roberto sabendo que quando Márcio começa a gaguejar é porque a coisa está ficando feia, mudou de assunto e foram falar da mulher presa acusada de tráfico internacional de drogas e do cara que estava com ela. “- A mulher, por sinal, Márcio era a sua ex, a Márcia. Agora o cara eu já vi ele em algum lugar, mas eu não me lembro. Mas enfim, não foi preso. Foi encontrado morto dentro de um canavial. A polícia chegou até o cadáver por meio de uma denúncia anônima”. O jornalista fez de conta que não tinha nenhum interesse na história, mas deduziu que a família de Angélica estava por trás daquilo tudo.

O trio terminou o almoço, e na saída Márcio pegou Fernanda pelo braço e falou firme com ela. “- Esquece essa história com a Angélica. Não existe nada entre eu e ela. Apenas está sendo solícita comigo porque eu prestei-lhe um favor. Só isso”.

– Querido! Conta essa história para outro. O que aquela mulher fez e do jeito que ela te olhava, indica que tem por ti muito mais do que gratidão. Está louco por ti e se tu não a agarrar, ela vai dar para outro e esfregar na tua cara, como a Márcia fez. A propósito, acho que armaram para ela nesse lance do tráfico de drogas. Ela é doida, tentou saber de coisas sobre você e eu despistei, mas traficante ela não era. E você e a ricaça? Como estão? Se realmente não existe nada entre vocês dois, vamos sair hoje. Estou com saudades dos velhos tempos.

– Está certo! Vais ver que não há nada entre eu e ela. No mesmo lugar, ao lado da lagoa às sete e meia!

– Combinado querido. Agora deixe-me ir. Estou em cima da hora.

Quando Fernanda saiu, Márcio perguntou para o Roberto se ele conhecia algum hacker. Queria desfazer um troço que tinha no celular. O amigo indicou um cara que fazia grampo para a polícia. Márcio teria que ser discreto. O repórter se despediu do chefe dizendo que ainda ia na empresa rescindir o contrato.

Ao chegar na loja, o repórter falou a senha e entrou. Sem dizer muita coisa, pois Roberto já tinha ligado para ele. Pegou a aparelho, olhou e falou ao repórter, serviço de profissional, muito difícil de se desfazer. O que farei é bloquear o sinal por uns tempos, cerca de oito, no máximo dez horas. Se eu voltar a mexer o pessoal que implantou isso aqui vai saber, inclusive o local em que o indivíduo está tentando apagar esse rastreador”, explicou o hacker.

– Tudo bem meu caro, é o tempo que preciso.

Márcio saiu da loja, se sentindo livre. Angélica ia ficar o dia todo ocupado e não poderia enchê-lo, caso ele mantivesse o telefone desligado. Passou no Bar da Net, tomou algumas cervejas. Marcos se manteve em silêncio, ficou sabendo o que aconteceu com Rodolfo por tentar se meter com o protegido da patroa. Então a melhor coisa a fazer era nem dirigir a palavra ao “moçoilo”, pensou o balconista.

O jornalista ficou um bom tempo ali largado. Depois foi para casa. Dormiu até perto das 19h. Levantou, se higienizou e chegou um pouco antes do combinado com Fernanda. Ela já sabia desse jeito de ser dele. Ficou de longe olhando, pensando: “Quando esse homem vai deixar de ser assim tão metódico. Cumprir tudo certinho. Por que não me deixou esperando. É! Meu amigo! Não tem como deixarmos o campo da amizade. Tu és muito regulado”.

Quando deu o horário marcado, Márcio olhou para o relógio, vendo quando Fernanda entrava pela porta da lanchonete. Deu três beijos na face dela que não deixou de notar a mudança nas roupas. “- Ué! Onde estão as camisas ensebadas e os sapatos que pedem graça há séculos?”

– Não brinca Fernanda. Você tinha que falar aquilo para o Roberto?

– Achei que não tivesse mal algum. Ele é seu amigo e soubesse que a louraça lá está taradona por você.

– Não temos nada. Já te disse.

– Querido! Você diz uma coisa e ela faz outra. Então, entre o dito e o feito, o que vale é o realizado. Meu amigo, se vocês não têm nada e ela age assim, imagina então se assumirem o relacionamento, ficarem noivos? Ah! Ela sabe que está aqui comigo? Não quero confusão para o meu lado. Não tenho dinheiro e o que eu ganho dá para manter e ainda fazer uma pequena economia mensal. Quero destrancar a matrícula e terminar minha faculdade.

– Não! Ela não sabe que eu estou aqui. Desliguei o celular.

– Faz quanto tempo que fez isso?

– Depois que eu combinei de almoçar com Roberto.

– Se ela está afim de você, como eu penso que sim, deve estar como uma maluca atrás de você.

– Fique de boa. Ela não costuma frequentar esses lugares.

O garçom chegou e Márcio pediu dois chopes. Assim que as bebidas chegaram os dois brindaram. Quando os copos foram colocados sobre a mesa, Angélica os vê dentro da lanchonete, conversando e rindo como se fossem namorados. A arquiteta estaciona o veículo. Desce, entra no estabelecimento completamente cega de ciúmes, pega o copo de chope que Márcio está tomando e joga em seu rosto e faz o mesmo com de Fernanda, atirando a bebida na face dela: “- Preciso falar com você agora!”

-Agora não dá! Eu e Fê estamos conversando, não está vendo? Quando eu chegar em casa te ligo.

– Você vem ou não? Estou lhe esperando!

A empresária deixa a lanchonete, aguardando Márcio no carro. O repórter enxuga o próprio rosto e o de Fernanda que se levanta, silenciosamente, vai ao banheiro, lava o rosto e volta para junto do repórter.

O jornalista deixa Angélica esperando no carro, fingindo que não é com ele, pois havia lhe dito que assim que chegasse em casa ligaria para ela. Portanto, continuou conversando com Fernanda.

Angélica retorna mais possessa ainda e já vai perguntando a Fernanda: “-Qual é o seu lance com ele?”. A comerciária responde: “- Somos apenas excelentes amigos. Já até dormimos na mesma casa. Bunda com bunda, não é Marzinho?”

“-Mar, Marzinho?! Que porra de Mar é essa? Você quer me explicar!”

Fernanda olha para Angélica e percebe que a arquiteta tem um ciúme louco de Márcio e sapeca: “- É a primeira vez que vejo uma patroa ter tanto ciúmes assim de um funcionário!”

“- Acho melhor você ficar na sua, minha filha. A chapa pode esquentar para o seu lado”, responde Angélica, já perdendo o discernimento do certo e do errado.

Márcio olha para Fê como pedindo desculpas. Ela se levanta e se despede de Márcio dando um beijinho no canto da boca dele. Foi a mesma coisa que jogar querosene no incêndio numa tentativa de apagá-lo. Fernanda sai dando gargalhadas e muito feliz. Finalmente o amigo encontrou a mulher que o tirou do prumo.

– Posso pedir outro chope, o anterior você despejou na minha cara? Agora se sente aí e se acalme para podermos conversar com serenidade. Já te falei mais de mil vezes que detesto escândalos, mas você parece adorar chamar atenção.

– Então tem que parar de andar com essas putas que você chama de amigas!

– A Fê não é puta coisa nenhuma. É uma excelente mulher que ainda não achou a tampa certa.

– Ah, e acha que você é a tampa do balaio dela, ou melhor, da xereca dela?

Márcio fica em silêncio, apenas pedindo que o aguardar no carro enuanto termina a bebida. Ela o obedece e sai da lanchonete. Fernanda manda uma mensagem chamando Angélica de jararacona dos olhos esverdeados e dá uma senhora gargalhada. “querido… depois nos falamos”.

Quando Márcio vai pagar a conta, o garçom diz que a madame já zerado os valores. O repórter deixa o estabelecimento completamente transtornado. Detestava quando ela fazia isso.

Entrou no carro, pegando o telefone, disse firme para a arquiteta. “- Você vai pedir desculpas não é para mim e sim para Fernanda e agora!” Márcio liga para a amiga que atende rindo e pergunta se ele está vivo ainda. “- Fê! Um momentinho só”, diz apenas isso e passa o aparelho para Angélica.

– Fernanda, te peço mil desculpas por ter jogado chope em seu rosto. É que estava muito irritada com o seu amigo aqui. Ele consegue me tirar do sério.

– Sem problemas dona Angélica. Parabéns! A senhora está loucamente apaixonada pelo Marzinho, espero que seu ciúme não atrapalhe ele se tornar o Márcio que eu conheço. Mas de qualquer forma, parabéns por tirá-lo do prumo. Ele é muito certinho. Beijos e volto a te dizer: faça esse homem feliz… Ele precisa muito!

Angélica desliga o telefone completamente outra. Novamente Fernanda lhe ensinando a lidar com Márcio, inclusive tirando o da pasmaceira. “- O que foi que ela te disse?”, pergunta o repórter, que obtém como resposta um enorme beijo da arquiteta que sem dizer nada, coloca o carro em movimento.

Quando percebe o caminho que ela está fazendo, o carona diz que o caminho para o apartamento dele não é aquele. “- Mas quem disse que você vai para o seu apartamento. Eu sabia que essa história de não querer me deixar uma chave era história. E por que desligou o telefone? Tentei falar com você o dia todo. Onde esteve?”.

– O departamento que emite relatório com essas informações está fechando no momento. O expediente terminou eram cinco da tarde. Peço a madame que retorne amanhã após as nove quando estaremos atendendo novamente.

– Quero que você vai tomar no seu cu, mas antes quero saber tudo o que fez durante o dia!

– Não vou falar porra nenhuma. Estou cheio esse seu ciúme desmedido, dessa sua ideia de controlar tudo e todos. Da para entender porque Amadeu surtou com vocês. Rodolfo foi encontrado morto no meio de um canavial. Será que isso não tem dedo de alguém ligado a você?

– Não estou sabendo de nada.

– Claro que não! Você só quer saber de fazer as suas vontades. Tudo tem que ser do seu jeito. Se não te interessar, finge que não é contigo. Queria ver o nascer do sol contigo hoje, queria que você colocasse aquele camisão transparente e o que você fez? Me chamou para dormirmos. Então é assim. Tenho que fazer as suas vontades, as minhas, por mínimas que sejam, devem ser desconsideradas. Pare o carro que eu quero descer. Vou a pé até minha casa.

Ela parou o carro e gritou com ele. “- Se você descer, eu te atropelo!”

Márcio abriu a porta do carro e saiu andando. Angélica não se fez de rogada e jogou o carro em cima do jornalista que ficou prensado entre a parede e o automóvel. “- Volta aqui se não eu acelero. Eu vou para cadeia e você para o cemitério”.

– Meu deus do céu! Você está louca mulher? Não consigo me mexer. Quer afastar essa porra?

– Só se você voltar para dentro do carro.

– Está certo eu volto, mas é para terminarmos tudo.

– Eu sei. Você quer mesmo é ficar livre para ficar cantando as amiguinhas aqui e ali, com esse papo furado e depois comê-las. Eu conheço esse tipo de conversa mole.

Ao dizer isso, Angélica ligou o carro indicando que aceleraria. Márcio já estava ficando apavorado. Ela podia matá-lo e dizer que o atropelou porque perdeu o controle do automóvel.

– Tudo bem. Eu entre e a gente conversa.

Afastou o carro e o repórter saiu, mas ela estava com o pé no acelerador.

– Por que você está fazendo isso comigo? Eu já lhe disse que vou com você até o fim. Só tirei o dia para pensar em algumas coisas e projetos.

– E terminar a noite na cama com Fernanda. ‘Eu e o Marzinho dormimos na mesma cama, bunda com bunda, não é Marzinho?’ Ai que vontade de partir a cara dela em duas. Depois você vem com graça dizendo que eu te amo e é para eu fazer você feliz. Se afaste dela. Você é meu e pronto!

– E quem dúvida disso? Quando chegou lá estávamos começando a falar de ti, mas nem deu tempo. Você já foi atropelando tudo e todos.

– Vamos! Em casa a gente conversa.

– Olha só como você fala? Em casa, como se eu e você já morássemos juntos. Você não entendeu nada do que eu lhe disse.

– Entendi tudo! Você e esse seu pau são meus. Isso eu entendi bem. Outra coisa, minha mãe quer falar contigo amanhã sobre o passaporte. Então a tarde quando eu for para as empresas, te levo à mansão e tu fica lá a tarde. No final do dia passo lá para te pegar.

– Como é que é? A minha opinião não conta? Eu acho que essa viagem à Alemanha vai ser um erro.

– Isso já está tudo acertado. Inclusive hoje conseguimos dar entrada no seu pedido de visto. Só está faltando o número de seu passaporte.

– E o que vou farei a tarde inteira na casa de sua mãe?

– Sei lá! Você não ficou à toa hoje. Pode ficar também amanhã e aproveite para acertar os detalhas das tais cartas que meu irmão quer mandar para Tarsila.

Chegaram ao apartamento da arquiteta e ela empurrou Márcio para o sofá e pulou em cima dele. Se esfregando, se contorcendo sobre o corpo do repórter, dizendo entre os dentes: “- Eu vou me curar dessa frigidez e deixar esse seu pau esfolado de tanto me comer. Quem sabe assim, você para de ficar indo atrás dessas putas”. Dizia isso, beija Márcio, mordendo sua boca e rasgando sua camisa. Em seguida, começa a chupar todo o dorso do jornalista que ficou estático, sem reação só curtindo as loucuras dela.

Enquanto passava a boca pelo corpo de Márcio, Angélica arrancou-lhe as calças, pegando o membro do jornalista levando-o a boca começou a sugá-lo fazendo movimentos para cima e para baixo, apertando os testículos dele. Não demorou muito e Márcio urrou ao ejacular dentro da boca da arquiteta que em seguida despejou o sêmen na barriga do repórter, o lambuzando todo. Em seguida correu para o quarto e se trancou lá.

Márcio ficou ali na sala, com o pênis ainda ereto sem saber o que fazer. Passados uns dez minutos se levantou, indo ao quarto de hóspedes, tomou banho, deitou na cama, dormindo logo em seguida, tendo como parceiro as lágrimas que vertiam dos seus olhos, por ter certeza absoluta que dificilmente conseguiria manter uma relação harmônica com a arquiteta.

Passados três horas do início de seu sono, Márcio se mexe na cama e se depara com Angélica dormindo ao seu lado, completamente nua. Ele olha para os lados e vê escrito bem grande no espelho da cômoda do quarto. “Desculpe-me amor! Eu sei que estou te perdendo e não sei como evitar. Te amo!”

Ele volta o seu olhar para a mulher que dormia completamente nua na cama e começa a pensar. “O que o dinheiro mal direcionado pode fazer com as pessoas. Tem tudo, mas ao mesmo tempo, não têm absolutamente nada. São completamente solitárias. Estão enlouquecendo justamente quando encontram pessoas para quem dinheiro, posição social e até mesmo o sexo não é tão importante assim”.

Saiu do quarto, se dirigindo a sala. Ligou a música, pegou um uísque, ficou ali bebendo lentamente, se deixando levar pela melodia e pelos pensamentos sobre os últimos acontecimentos. Percebeu que havia uma mensagem de voz no celular. Era Fernanda.

“- E ai meu amigo! Como andam as coisas aí com a esmeraldina? Querido, à essa mulher falta uns pinos, mas se você souber ajustá-los, será feliz para sempre. Tenha paciência com ela. Para vivermos o verdadeiro amor é preciso muita paciência e sobretudo muito jogo de cintura. Não a julgue, ajude-a. Desculpe-me pela brincadeira, mas quero que seja feliz com ela. Oh! Não se esqueça! Quero participar da cerimônia de casamento. Eu sei que será simples, pois tu não gostas de rococó, mas os amigos que ficam na chuva, merecem ficar também na praia. Te amo negão e não deixe essa dona Angélica ir embora.”

Quando Márcio desliga a mensagem, observa que Angélica está ali de pé só de robe olhando para ele. “- Amor! O que eu faço. Não estou entendendo mais nada”, disse a arquiteta.

– Sente-se aqui. Amor, você precisa fazer uma coisa só: parar de querer me controlar. Olha só! Hoje eu desliguei tudo para ver se você entendesse como devemos fazer as coisas. Não preciso ficar com o celular desligado. Durante o seu trabalho, se concentre lá. Aquilo é importante para ti naquele momento. Depois quando tudo tiver terminado, aí sim pode pensar em outra coisa. Repare. Você só está pensando em você e no seu amor. Repare que não está pensando no que sinto por ti.

Angélica ficou em silêncio, enquanto o repórter continuava. “- O sexo não é a principal coisa na minha vida. Eu o vejo como elemento importante, mas não é o único e nem o primordial, tanto é que podemos nos masturbar e nos satisfazer, mesmo que de forma mecânica, ainda assim é apenas uma satisfação passageira. Eu busco mais. Eu quero outras coisas. Nenhum dinheiro no mundo compra a paz que podemos ter quando dormimos nos braços de quem amamos. Outro dia tivemos uma noite linda quando fomos fazer um programa fora da cidade. Deixa eu te amar. É possível?

– Então me ajude a não ter medo de te perder. Eu sei que a Fernanda é sua melhor amiga e quer te ver feliz. Mas eu fico sem chão quando vejo vocês dois juntos. Acabo achando que ela te faz mais feliz do que eu poderei fazer um dia.

– Será que não percebeu que está muito preocupada em me fazer feliz no futuro e não viu como estou feliz agora contigo? Eu gosto de te ver só de lingerie. Gosto das loucuras que fazes para não me deixar desaparecer. Mas deixa eu saborear isso um pouquinho. Pode ser?

– Pode amor! Não sei até quando você vai me aturar com esse meu comportamento infantil. Eu seu que pareço uma criança amedrontada diante do mundão que o amor me oferece. Não posso querer pegar tudo de uma vez. Eu tento, eu juro, eu tento, mas só de pensar em ficar longe de você eu me desespero.

– Calma! Pode entender isso. Eu sei que buscas em mim não só o amor, mas sobretudo a proteção que lhe foi negada durante a vida toda. Na conversa que tive com o seu irmão, compreendi isso. Olha só! Faz duas noites que tento dormir em minha casa, mas não estou conseguindo, por que será?

– Eu sei que transformei sua vida num imenso puteiro. Tirei-a do eixo e de suas certezas, mas não foi de caso pensado. Ou acha que escolhi me apaixonar por você estando casada com Rosângela? Desculpe-me pela maneira como te ataquei agora a pouco. Sei que foi pouco usual.

– Tudo bem, amor! Vamos tomar um banho e depois se quiser, vamos dormir ou podemos ficar aqui deixando o tempo passar. Amanhã eu vou lá na casa de sua mãe ver o lance do passaporte. Tenha uma coisa em mente: não vou a lugar nenhum sem você. Acho que assim que resolvermos essa situação com Rosângela e ficarmos noivos, muita coisa se acalmará aí dentro de ti. Não veja na Fernanda uma concorrente, pelo contrário, uma aliada. Ela já te deu provas disso.

Angélica anuiu com a cabeça e foram se banhar. Logo depois, ficaram deitados na cama em silencio. Um escutando o coração a respiração do outro.

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