Sobras de um amor … parte II

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Como Márcio fez a maior parte do trajeto dormindo, a arquiteta, de propósito, mudou a rota sem que ele soubesse. Ao invés de deixá-lo em seu prédio, conduz o automóvel até o seu apartamento. O carona só percebeu onde estava quando acordou. Ao ver que não era defronte ao seu prédio e sim na garagem de Angélica, fica possesso. “- O que havíamos combinado? Que hoje eu não viria dormir aqui e isso é necessário, inclusive depois da briga no final do dia lá na casa de sua mãe. Você e esse seu doido ciúme pode arruinar nosso relacionamento antes que ele comece de forma oficial”.

A motorista fica toda encabulada, pois achou que o seu acompanhante gostaria da surpresa. “- Assim não tem como conseguirmos resolver nossos problemas e eu não quero mais sua mãe metido neles. Eleanora não tem nada a ver com isso, mas está coberta de razão. A cada briga nossa, você descarrega tudo em cima dela, como se fosse incapaz de equacioná-los”, despejou Márcio.

Angélica ficou em silêncio, depois disse: “- Anda vamos tomar a última dose só para relaxarmos. Eu te acompanho e em seguida te levo para casa. Prometo. Juro”!

– Promessa de coração apaixonado? Já vi essa história, mas vou confiar em você. Tomaremos o último drinque, depois quero dormir em minha cama hoje.

Antes mesmo de terminar de falar, Angélica pula no colo do repórter que observou que a empresária havia tirado a saída de piscina e estava só com o biquíni que usou a tarde toda. Ali ele percebeu que tudo foi feito de caso pensado. Deixou ele dormir, mudou o percurso. Ao perceber o volume entre as pernas dele, a irmão de Amadeu fitou-o bem no fundo dos olhos, lhe dizendo: “- A partir de agora não é mais a sua razão quem diz alguma, mas sua emoção e essa enorme pulsação aí no meio dessas lindas pernas que anseia por carinho”.

Não foi possível Márcio dizer alguma coisa, porque a arquiteta já o beijava, alisando seu pênis, enquanto o repórter se segurava para não atravessar o sinal com ela. “- Agora entendi o último drinque. De fato, você é a rainha diaba que seu irmão vive me dizendo”, afirmou o jornalista ousando nos carinhos à amada que correspondia. Quando tocou na vagina dela, foi como se um jato de água fria tivesse caído sobre ela.

Automaticamente ela voltou para o seu banco, deixando o jornalista na mão. “- Você acha justo fazer isso? Me deixar assim? Acho que precisamos nos afastar, até que saibamos direitinho o que queremos. Não acho correto me deixar nessa fogueira toda e depois recuar”.

Enquanto ele dizia tudo isso, a arquiteta olhava para repórter com os olhos marejados de lágrimas. Márcio completa usando um dito popular em francês: “Tout compreendre c’est tout pardonner”. “- O que foi que disse? É para me humilhar mais ainda? Seu esnobe do caralho”, grita a empresária.

– Não é nada disso! Apenas uma expressão que diz “tudo compreender é tudo perdoar”, ou seja, eu te compreendo e por isso me esforço para não te sentenciar, mas é foda! Não sou de ferro. Você está deliciosa nesse biquíni e a vontade que tenho é de tirá-lo com os dentes, mas preciso parar por conta de sua frigidez. Amor, coloque-se em meu lugar, por favor!

– Eu já me coloquei e vou te levar de volta para o seu apartamento. Desculpe-me pelo meu egoísmo.

– Espere um pouco. Vamos tomar aquele drinque. Eu não vou deixar você desse jeito, se achando a pior mulher do mundo. Entramos, tomas um banho e eu preparo duas bebidas para nós. Pode ser?

– Você tem certeza? Acho que já forcei a barra demais contigo hoje.

– Tenho sim, justamente por saber o que vai em meu coração em relação a você. Também não é fácil para ti. Prometi seguir essa viagem contigo e não é no primeiro grande obstáculo que desistirei da felicidade contigo.

– Márcio! Eu vou ficar boa só para você!

– Fique bem para ti. Descubra se esse bloqueio é por conta das sevicias que sofreu ou porque realmente não transa homens e está apenas encantada comigo, sei lá, com o meu jeito.

Desceram do automóvel, se abraçaram, fizeram o trajeto bem juntos dentro do elevador. A arquiteta pode sentir todo o tesão que o jornalista sentia por ela. Entraram no apartamento e Angélica foi fazer o sugerido por Márcio, enquanto ele prepararia as bebidas. Só que antes mesmo dele terminar de fazer os drinques, Angélica o chamou ao banheiro. Quando o jornalista vai até próximo ao box, enxerga a arquiteta completamente nua, tendo sobre o corpo toda a luz a iluminá-la. Puxa o para debaixo do chuveiro tirando-lhe o calção. Queria vê-lo nu e adorou o que viu.

Sem pensar, abraçou o amigo colocando o seu membro entre as suas pernas e falando baixinho: “- Preciso ficar boa logo para experimentar tudo isso que você disse ser meu”. Ficaram ali se beijando, depois ela vira de costas para ele, sente o falo bater em sua bunda. Vira-se novamente para ele, o beijando querendo lhe engolir a língua, de repente Márcio ejacula.

Angélica o olha firme e pergunta: “- O que é isso? É o que estou pensando?”. O repórter todo envergonhado responde: “- É! Não conseguir segurar. O tesão estava demais e agora abraçado contigo toda nua. Foi inevitável. Desculpe-me”, disse o jornalista.

– Por que me pedir desculpas? Por não conseguir segurar o tesão e gozar dessa maneira? De jeito nenhum. Sei o sacrifício que está fazendo por mim e é belíssimo. Obrigado por me amar”, disse Angélica abraçando-o e beijando, beijado e Márcio correspondendo.

O casal ficou se banhando, se amando, se prometendo até que Márcio se tocou de que o objetivo era tomar o último drinque e ir embora. “Mas quem conseguia deixar os braços daquela dona esmeraldina”, pensou o jornalista que sai às pressas do banho para acabar de preparar as bebidas. Ao olhar o relógio, percebeu que já passava da meia-noite e um novo dia começava e os dois sem conseguir concretizar o pacto firmado no apartamento dele antes do almoço em casa de Eleanora. Começou a gargalhar porque lembrou das observações de Amadeu e da mãe da empresária.

“- Posso saber do que o meu preto delicioso está gargalhando?”, pergunta Angélica que vinha do quarto vestida num roupão, enquanto Márcio estava completamente nu. “- Sabia que assim com o reflexo da luz em seu corpo, você fica uma tentação do cão, seu moço?”, indaga a arquiteta, indicando ao jornalista que estava sem roupa. Ela então vai até ele, o puxa pelo membro que ainda permanecia ereto, dando um tapa na bunda dele, exigindo que vá colocar uma roupa ou cobrir as “partes imaculadas”, como ela chamou a genitália do repórter.

– Só um momento, dona Rainha diaba.

Assim que terminou de preparar os drinques, Márcio correu até o quarto e vestiu o roupão que havia em cima da cama, deixado pela empresária. “- Pronto dona patroa, estou com tudo coberto, portanto, não será tentada pelo Rei de Ébano”.

– Claro que eu preferia você do jeito que estava, mas sei que seria pura tentação! Então fique assim, mas bem juntinho de mim.

Cada um pegou seu copo de uísque, beberam em seguida se beijaram como forma de sentir o sabor da boca do outro molhada pela bebida. “- Depois que terminarmos, você coloca uma roupa ou, se quiser, pode ir com um calção meu. Te levar embora”, informou Angélica.

– Você viu que horas são? Como vou ficar em casa sabendo que você ainda não chegou aqui. Acha que conseguirei dormir? Mas eu só vou se a madame quiser que eu a deixe aqui. Eu chamo um transporte e logo, logo estarei em casa.

– Assim quem vai ficar preocupadíssima sou eu. Então, pensando bem, já que está aqui, por que não fica? Amanhã tomaremos café juntos naquela padaria que acho que tem a nossa cara. Eu vou para o escritório e você para a sua casa e pensa naquele projeto que me falou estar idealizando. E a noite sairemos para jantar.

– Gostei de tudo, até a parte do “sairmos para jantar”. Será que não pode ficar para daqui uns dois dias?

– É! Eu sei porque não quer ficar comigo amanhã à noite. Com certeza tem um esqueminha com a Fê. Quem sabe ela não se convence e casa logo com você. Não é isso que vocês dois querem?

Márcio caiu na gargalhada, depois dizendo, de maneira séria: “- Dona Rainha Diaba. Quanto tempo eu e você nos conhecemos? Foi a amor à primeira vista ou implicância à primeira vista? Acho que está mais para a segunda. Então, se tu observares, estamos nessa de briga, estica e puxa faz um mês ou um pouco mais. Eu e Fernanda somos amigos há cinco anos. Foi uma das primeiras pessoas que conheci aqui. Então. Se fosse para rolar algo entre nós dois, já teria acontecido.

– Não sei! Tudo é possível. Ela pode nunca ter te visto do jeito que eu te enxergo, mas bastou eu olhá-lo para ela começar a te ver diferente. Vai por mim. Mulher tem dessas coisas. Quando tem à disposição, dispensa, mas quando outra pessoa pega, ai é um deus nos acuda.

– Ela me achava um tremendo pé no saco e ainda creio que pensa desta forma.

– Mas com um tremendo instrumento que pode fazer qualquer mulher entrar em órbita. Tudo bem. Se quer sair com ela, ir ao motel e saciar essa sua fome de macho predador, eu não ligo, e aproveita e apague o número do meu telefone e esqueça esse prédio e que esteve aqui um dia.

Ao dizer isso, Angélica saiu pisando duro, dizendo que perdeu a vontade de tomar o último drinque, afirmando que tinha sido uma péssima ideia, porque enquanto estava com ela, a cabeça dele pensava na Fernanda. A arquiteta entrou no quarto e trancou a porta.

O repórter meneou a cabeça, respirando fundo. “O que fazer agora? Ela se tranca no quarto. Eu não posso entrar. Ela quem libera a portaria. Não posso sair daqui da torre. O jeito é ficar por aqui e me ajeitar para dormir”, pensou o repórter enquanto virava a dose de uísque goela abaixo.

Levou a garrafa de uísque para a cozinha, pegando mais gelo, enchendo o copo em seguida. Ficou ali pensando na própria vida. “Essa mulher é completamente doida. O irmão também. O que aqueles pais fizeram com a cabeça e o coração desses dois filhos? É do caralho! Para reverter vai levar tempo. Espero que Tarsila tenha paciência com o Amadeu: coração de ouro, mas um cérebro totalmente desarranjado”, pensou o repórter enchendo o copo novamente.

Em seguida se dirigiu à janela do apartamento e ficou observando a noite daquela cidade. Olhando cada foco de luz, tentava adivinhar onde ficava, se já havia passado por lá. Virou-se em direção à praça onde foi encontrado por Angélica no meio daquela tempestade. Recordou que ela ficou sem a parte de cima da roupa, só de sutiã para forrar o banco e ele se sentar.

Voltou a cozinha, encheu o copo novamente e retornou à janela, gostava do que estava vendo. As luzes da cidade o encantava. Ali recuperou as tentativas de Roberto lhe arrumar mulheres, apresentava todas para ele, menos aquela que era a sua paixão e acabou se casando com ela. Aliás, o editor não a conhecia, ficava curtindo ela de longe. Foi Fernanda com a sua espontaneidade que a aproximou de nós dois. “-Nem vem Márcio. Fique na sua. Essa aqui é a minha paixão. Olha o sorriso dela. Encantador. Tomara que a Fê consiga trazê-la aqui’.

– Ou gente, essa aqui é a Danisa. Acabei de conhecê-la. Disse a ela que você Márcio estava querendo conversar com ela.

Os dois a cumprimentaram e Danisa se sentou ao lado de Márcio, mas não tirava os olhos de Roberto. Fernanda observando a cena, chamou o repórter para ir ao American-bar pegar uns drinques para os quatros. No caminho, levou uma dura do amigo. “- Caralho Fê, que história é essa deu querer conhecê-la? Quem está louco por ela é o Roberto. Eu estou de boa. Acho que depois da experiência com Márcia, nenhuma mulher me pega mais”, afirmou com convicção.

Recordando aqueles momentos, pensou em Angélica no seu ciúme de Fernanda. “Se não fosse a Fê, teria de outra mulher. Acho que só vai se tranquilizar quando resolvermos tudo isso. Não vai ter jeito. Terei que saber contornar a situação como naquela noite em que Fê para deixar Roberto mais à vontade me usou para atrair Danisa e os dois pudessem conversar, sem se denunciarem”.

Naquela noite, quando Márcio e Fernanda voltaram com as bebidas, os lugares à mesa tinham sido alterados e a nova amiga do trio conversava animadamente com o editor que parecia tê-la encantado. “- Márcio, vamos dançar. Eu adoro essa música”, convidou Fernanda.

Enquanto dançavam feito casal, Fê disse ao jornalista. “-Ih acho que terás que procurar outro lugar para dormir. Olha lá como os dois estão?”

– Como foi você que armou tudo isso, me hospedará em sua casa hoje. Não tenho grana para um hotel e não estou disposto a ficar ouvido gemidos vindos do quarto ao lado. Já passei da idade. Ouvia muito isso nos tempos de graduação. Agora não dá mais.

– Está certo carolão! Eu te abrigo em casa, mas sem essa de achar que vai enfiar essa rola em mim. Você não faz o meu tipo. Adoro você, mas não para ser o meu macho.

Ambos caíram na gargalhada e ficaram a noite toda bebendo e dançando. Voltaram para a casa e Fernanda tinha um colchão extra e colocou no chão do quarto. “-Ué! Pensei que eu dormiria na sala, Fê?”

– Você viu a cara do tempo? Deve cair água logo. Tenho medo de trovões e raios. Quando Joana está aqui, ela vem ficar comigo, mas hoje o escolhido foi você.

Lembrando disso tudo, começou a rir, inclusive porque o ciúme da arquiteta não deixava ela enxergar o obvio: que não tinha liga entre ele e Fernanda. “Se eu contar que já dormimos no mesmo quarto e não aconteceu nada, o mundo acaba. Melhor ficar quieto”, pensando isso, voltou a rir baixinho. Terminou o uísque. Quando se virou para pegar mais, levou um susto. Angélica estava ali parada e pelo jeito fazia um tempinho.

Estava com o olho todo vermelho de tanto chorar. Se jogou nos braços dele, ainda chorando e soluçando, perguntou ao jornalista: “- O que eu vou fazer, amor? Não consigo ter um prazer completo contigo. Não controlo meu ciúme. Só de pensar em você com outra, fico alucinada, perco a razão. Então me diga, o que eu faço?”

Marcio colocou o copo em cima da mesa e respondeu de maneira bem simples e objetiva: “- Case-se comigo! Só tem essa saída! Não há outra. Aí você saberá que estou falando a verdade quando digo que caminharei contigo até o fim. Eu descobri isso naquela noite que você me resgatou daquele banco da praça quando estava encharcado de lágrimas e todo molhado da chuva”.

Ela o beijou ternamente e ele continuou. “- Ali, o meu passado foi embora com a água da chuva. Aquela noite maldita deixou de me enlouquecer e abri espaço aqui dentro de minha caixa cardíaca para uma trintona com os olhos mais tentadores que já vi. Embora eles possam iluminar meu caminho, a dona deles ainda está meio perdida, mas sei que se achará quando estiver com uma aliança na mão esquerda com o meu nome gravado nela”.

– Por que você não bateu na porta do quarto para entrar?

– Por que é você quem te que abrir. Não a porta do seu quarto, mas sim a do seu coração. Tem que deixá-la aberta para que eu entre, sem precisar forçar a fechadura. E transar contigo? Enquanto continuar vendo e sentindo o pênis do seu pai te invadindo cruelmente, será complicado. Não tem ninguém mais que eu quero ter em meus braços que seja você, mas é preciso tempo para que isso ocorra.

– Estou oscilando muito e isso me assusta. Sempre acho que vai embora e não voltará mais.

– E pata onde eu iria? Minha cabeça pode estar na Lua, mas se meu coração estiver aqui contigo, não haverá estrela que abrigará a minha solidão. Não quero mais ficar sozinho. O escuro do passado não me assusta mais. Quero alcançar aquele brilho que o seu amor me apresenta. Também não sei como fazer para estares inteira aqui, sem esse ciúme, esse medo de transar comigo. Eu não tenho a chave do nosso paraíso, mas estou disposto a construir uma. Foi por isso que não bati na sua porta. Quero paz para poder te amar. Acho que isso podes me dar. Ou não? Se não puderes, me diga agora e deixo a sua vida, assim como entrei: sem saber como.

– Amor, foi a melhor coisa que eu podia ouvir de sua boca depois desse dia conturbado, mais por conta de minha infantilidade, meus medos bobos e achar que tenho que te segurar pelo sexo.

– O sexo é um importante ingrediente, mas sem a sexualidade, sem o amor, sem o companheirismo e sem a amizade, o respeito e admiração, não passa de um jogo de entra e sai. Uma competição entre duas pessoas para ver quem come quem. Acho que já passei desta disputa. Hoje quero outra coisa mais sólida, mais sutil, sublime que possa ser transformado no belo. Se para te ter, precisarei me modificar, me anabolizar, então, esse não sou eu. Não poderei ser a pessoa que esperas que eu seja, pois eu mesmo não me aceito do jeito que sou. Não preciso de sexo e nem de dinheiro para dizer quem sou. Se necessitar de dinheiro para ter uma pessoa, serei mais vazio do que aquela que estou comprando. Se depositar toda a minha expectativa num gozo, minha vida não passa de uma punheta mal batida. Este sou eu e não sei ser diferente. Se não me quiser assim, é só me dizer que sigo o meu caminho.

– Eu sei que você é assim, o que tende a aumentar a minha admiração e o meu amor por ti. Mas tenho medo que essa pessoa linda aí dentro do teu ser se canse das minhas chatices, imaturidades, criancices, medos, ciúmes, brochadas e frigidez. Vejo a mulherada te olhando, tenho vontade de lhes quebrar a cara. E eu sei que saca essas olhadas. Por isso tenho medo que esteja correspondendo sem que eu perceba.

– Tive uma conversa com Amadeu. Ele espera que eu te faça tão feliz quanto Tarsila o deixa em paz e feliz.

– Meu irmão resolveu ir para as nuvens quando Tarsila sumiu. Quando penso que você pode desaparecer como ela, fico agressiva, violenta. Tenho claro isso comigo, mas sei lá, não consigo me controlar. É foda amor!

– Eu sei paixão! Fiquei cinco anos como bate-bate de parque de diversões até ser resgatado naquela noite chuvosa no banco da praça, depois que sua mãe me expulsou daqui e você não falou nada para me defender. Então percebi que o meu maior adversário estava sendo eu mesmo. Se não tivesses aparecido, teria ficado lá até o dia amanhecer, mas daria um rumo na minha vida. Ali percebi que tinha chegado ao fundo do poço. Cabia-me cavar mais ou tentar sair. Mas havia uma mulher para ser amada pelo meu “eu” mais profundo.

– Não sei nem o que dizer.

– Que tal dizer que aceita se casar comigo?

– Claro que aceito. Mas me queres do jeito que sou? Toda atrapalhada, sem conseguir se quer ter uma noite de amor contigo? Tenho que resolver minha vida com a minha esposa que está na Alemanha e ainda esse ciúme que me cega.

– Eu diria a ti que tu tens coisas que são passiveis de mudança, como por exemplo o seu estado civil. Deixe Rosângela e venha viver comigo e do meu jeito. Creio que essa ciumeira não passará com o casamento, mas te dará mais segurança. A sua frigidez comigo temos que compreendê-la e penso que aí é que estará o nosso futuro: como esposos ou amigos.

– Posso te confessar uma coisa?

– Pode!

– Eu não esperava que me pedisse em casamento. Eu achava que aconteceria tudo, menos isso. Pensava que se encheria de minha pessoa, daria um jeito de ficar lá pela Alemanha, ou sei lá, tu sabes várias línguas e isso facilitaria sua tramitação pela Europa. Passou tanto coisa pela minha cabeça que não estava enxergando, escutando o seu coração pulsar pelo meu.

– Deixa eu te amar. Só isso. Ame-me por você. Deixe eu me amar por ti. Não é possível só um amar. O amor, apesar de ser um verbo, pode ser conjugado a dois. Se não for assim, é platônico, idealizado. Você idealizou encontrar alguém como eu? Eu idealizei encontrar alguém como você?

– Não tive tempo de pensar nisso.

– Sim! Por que começou a ver fantasma em cada esquina e eles se vestiam de mulher. Eu não sei que olhar é esse que tanto diz que eu tenho, mas se sou possuidor só aconteceu contigo e mais ninguém.

– Minha mãe falou isso hoje à tarde, quando eu passei de biquíni por ti, que você me tirou a roupa toda.

– Talvez eu tenha tirado a roupa física a partir de sua alma, numa espécie de nudez de dentro para fora. Ai o globo ocular não vê, mas sim o olhar d’alma que indica. Sei lá. Acho que pode ser isso, mas também se não for, não importa. Eu só sei o que te pedi e aí tu pensas.

Quando Márcio olha para o relógio, indicando quase três horas, chama a atenção de Angélica para o fato de que se perderam no horário. Ela podia ir dormir porque tinha trabalho de manhã e ele não. Só tinha que ver como criar o jogo de encontrar os textos do Amadeu.

“- Que história é essa”, pergunta a arquiteta.

– Eu combinei com ele ontem para depois tentarmos publicar. Mas é aí que entra o projeto que quero lhe apresentar. Agora vai lá. Eu vou ficar mais um tempinho aqui. Pensando numas coisas.

“- O senhor me pede em casamento, mas não quer dormir comigo na mesma cama? Estranho. Nada disso. Se vais ficar aqui, fico contigo. Quero tentar adivinhar o que se passa dentro dessa cabeça”, argumenta Angélica.

– Pode ir amor. Eu estou indo. Só vou tomar mais uma dose e já estou lá para cobri-la de beijos.

– Olha hein! Vou te esperar. Se demorar muito a rainha diaba vai abrir essa sua cabeça para ver o que tanto te apoquenta.

Márcio disse isso de propósito. Não tinha intenção nenhuma em ir dormir. Ia ficar ali bebendo, bebendo até ver o sol nascer. Se tudo desse certo, a convidaria para essa loucura. Ver o sol nascer e depois outras coisas mais. Poderiam enforcar o dia.

Ele foi a cozinha, pegou mais gelo e outra garrafa de uísque. E se deixou ficar lá. Até que a dona do apartamento apareceu furiosa. “- Caralho você disse que viria dormir comigo e já são quatro horas e ainda está aí bebendo e o que tem para pensar tanto?”

Márcio olhou para ela, ficando em silêncio. Angélica possessa querendo partir para a briga. Quando ela chegou perto, ele falou baixinho no ouvido dela. “Fique nua, coloque aquele camisão e venha ver o nascer do sol comigo”.

– Como é que é?

– Isso mesmo que ouviu! Coloque aquele camisão em que pude te ver completamente nua pelas transparências. Fiquei com o pau a pino aquele dia. Perturbadíssimo.

Márcio disse isso e caiu na gargalhada. Angélica foi para cima dele, pedindo para parar de rir daquele jeito. “- Você sabe como eu fico toda melada com esse seu sorrio”.

– Está bem! Volte para o quarto. Eu vou terminar essa dose e já estou indo.

– Deixe essa fantasia para depois. Outro dia faremos isso. Agora estou com sono e terei um dia cheio. Preciso organizar as coisas nas empresas e, se eu não estiver inteira, não darei conta.

– Está certo patroa. Me espere que já vou.

Enquanto Angélica ia para o quarto, Márcio foi para a cozinha pensando na proposta que fez e a arquiteta não embarcou. “Ela só quer que eu faça as coisas dela. Quando lhe solicito uma coisa legal dessas, diz não! Vai aprendendo sobre o que te espera, meu caro Márcio”, disse o repórter sem perceber que era observado por Angélica.

– O que é isso de ir aprendendo sobre o que te espera, Márcio?

– Não é nada amor!

– Vai me falar ou terei que te ameaçar com uma faca?

– Já te disse que não é nada.

– Vai me falar ou não?

– Só pensei alto. Só isso! Agora vamos dormir nesse resto que sobra de noite.

Foram para a cama e a empresária pegou no sono rapidamente e o repórter ficou ali ainda pensando uns minutos sobre o seu pedido e a desconsideração dela. Poderia ter falado, mas ela o faria porque ele insistiu e se rolasse deixaria de ser espontâneo.

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