Sobras de um amor…

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         Márcio acordou com o barulho do celular chamando. Era Dalva, a empregada de Angélica que foi fazer a limpeza do seu apartamento. Ela pediu desculpas por estar ligando para o celular dele. Angélica tinha passado instruções que para usar o interfone, caso não atendesse não era para ingressar antes de falar com Márcio que poderia estar ou no apartamento. Por isso deveria ligar-lhe primeiro. Subiu e conversou rapidamente com o repórter, explicando que levaria até o começo da tarde para deixar o local higienizado. Este lhe informou onde tinha que colocar as coisas e roupas sujas.

– Dona Angélica pediu para mandar sua roupa suja para a lavanderia dela. E informar que a roupa ter que estar de volta antes deu sair.

Márcio pensou em contestar, mas resolveu ficar em silêncio. Melhor não dizer nada, mas sabia que Angélica levaria muito tempo para diminuir esse ímpeto de mandar, ordenar e querer tudo do jeito dela. “Deve ser virginiana. Gosta de um mando!”, pensou o repórter, dando risadas sozinho.

“O que fazer enquanto essa mulher está aqui em minha cara”, pensou o jornalista que de chofre lhe respondeu em voz alta: “vou a redação do jornal e começar a tratar de minha demissão. Não fico mais um mês nessa cidade”. Depois se dirigiu à faxineira, informando que estava saindo e era para ligar quando estivesse perto de ir embora. Precisava pagar pelo serviço. “– O senhor não tem que pagar nada! Eu sou funcionária da empresa de dona Angélica. Já recebo meu salário mensal”.

– Tudo bem então. Mas aceitei isso aqui.

Quando ela olhou para as mãos do jornalista e viu o valor da nota que este lhe entregava, arregalou os olhos. A gorjeta era muito grande e se Angélica ficasse sabendo, poderia mandá-la embora. Não podia aceitar.

– Pegue. Estou lhe dando. Deixe que com dona Angélica eu me entendo. Isso é aqui é para você. Use-o como quiser.

Dalva, pegou rapidamente a nota de R$ 200 e a colocou no bolso, agradecendo ao jornalista lhe dizendo: “Obrigado. Somente pessoas que já passaram pelo que passamos entendem o que significa dinheiro no bolso”.

Márcio, antes de deixar o apartamento, pediu um transporte. Dalva estranhou a ação dele, e perguntou: “O senhor não tem carro?”. O repórter estranhou o questionamento e educadamente disse: “-Tenho outras prioridades na vida e hoje com esse sistema de transporte que temos, não preciso gastar dinheiro com manutenção de um automóvel e ainda faço o dinheiro circular. Em minha opinião, dinheiro parado é como água, apodrece. Por que a senhora acha que estamos vivendo nesse mundo maluco. É muita grana parada nas mãos de poucas pessoas que a utiliza para comprar outros seres humanos. Bom dia. Deixe-me ir até a redação do jornal. Qualquer coisa a senhora me liga ou sei lá como combinou com dona Angélica”.

Quando chegou à redação do jornal, Márcio já tinha todo o discurso pronto para falar com o diretor-proprietário, inclusive devolveria a humilhação sofrida na frene de Angélica. Enquanto terminava de finalizar o discurso mentalmente, Márcio recebeu uma mensagem de Angélica lhe ordenando para tomar atitude alguma em relação à matéria sem falar com ela.

“- Puta que pariu! Essa mulher não deixa de querer mandar em tudo e em todos!”, disse Márcio em tom o suficiente para que a secretária ouvisse e o encarasse, com olhar estranho. Ele apenas deu um sorriso de volta.

Ao entrar na sala de João Marcelo, antes mesmo de dizer alguma coisa, o proprietário, de chofre já falou: “- Se veio aqui falar de demissão, esquece. Já terminou o trabalho para o qual estão lhe pagando? Quando vai mandar o texto para nós? Se não fez nada disso, pode voltar de onde veio. Só vou conversar sobre isso depois de a matéria estar estampada no meu jornal ou se o liberarem do trabalho. Tenha um bom dia!”

Ao sair da sala do diretor-presidente, Márcio encontrou com o amigo-chefe da redação.

– E ai, como anda a matéria lá com a madame? Você tá diferente! Não estou sentindo o cheiro de sua manguaça de todos os dias. O que aconteceu?

– Aquele povo é do caralho. Você sabe que descobriram aquele meu lance dos infernos com a Márcia. A traição dela e a surra que levei, sendo praticamente enxotado da cidade.

– Estou sabendo, mas já lhe adianto que eu não disse nada. Desconfio que foi a própria Márcia quem falou tudo. Soube que ela está numa pior. Aquele escândalo não afetou só você, mas sobretudo a família dela. O pai teve um problema e ficou muito tempo doente, consumindo boa parte do dinheiro da família e todos a culpavam por isso. Depois do velório do pai, foi expulsa de casa e sabe-se lá o que fez depois. Então creio que deve ter vendido a história para o pessoal do Amadeu que quer sempre ter todo mundo nas mãos. Mas, e o restante? Concluiu a matéria? O que veio fazer aqui?

– Eu vim pedir demissão, mas o João Marcelo não quer conversar sobre isso. Parece que a mão invisível não deixa.

– Não esquenta a cabeça. Termine tudo e depois nos falamos. Não pense em fazer nada antes de falar comigo. Sabe o quanto te adoro, meu amigo!

– Tudo bem, Roberto! Já está quase na hora do almoço. Você me faz companhia?

– Claro. Vai indo na frente e me espere em nosso restaurante. Não vá beber, hein meu caro.

Márcio e Roberto almoçaram e o repórter tomou apenas uma cerveja. Não queria chegar zoado no compromisso da noite. Quando estavam saindo do restaurante, o jornalista recebeu mensagem da faxineira dizendo que o aguardava para ir embora.

– Você está de carro aí Roberto? Pode me dar uma carona até em casa. A faxineira está lá me esperando para ir embora.

– Faxineira?! Que história é essa?! Você nunca foi de ter essas frescurites. Está mudando, hein amigo! Claro! Eu te levo.

Assim que chegou em casa, Márcio dispensou a empregada de Angélica. Ela lhe entregou o livro informando que havia esquecido dentro da bolsa, mas a arquiteta havia pedido a ela para lhe entregar. O objeto estava embrulhado num papel simples mas exalava um perfume que não lhe era estranho. Ao sentir o aroma, Márcio ameaçou um riso que foi contido. Estava na presença de gente estranha.

Assim que a mulher foi embora do apartamento, Márcio se deixou ficar no sofá. Todas as janelas do imóvel estavam abertas e aquele cheiro de limpeza era muito bom. Parecia até que respirava outro ar, estando em outra casa em algum lugar distante escondido no mais secreto de suas memórias. Começou a cochilar e a se encontrar com os vaga-lumes da infância na casa rural dos avós. Voltou rapidamente para o presente. Alguém lhe chamava pelo telefone.

Ao olhar o número viu que era de Angélica. “Caralho! Essa mulher não dá folga!”, pensou o repórter.

– Alô, dona Angélica! O que a senhora deseja?

– Vamos deixar a senhora de lado. Quero falar com você. Desça aqui. Estou na frente do seu prédio.

– Suba aqui. Só vou falar em meu território. Chega de apanhar por entrar em casa alheia.

-Porra! Que saco! Está bem!

Assim que estava dentro do apartamento de Márcio, a arquiteta foi conferir o serviço feito pela faxineira.

– O que é isso que você está fazendo! Aqui é minha casa!

– Mas quem pagou a faxineiro fui eu. Então tenho direito de fiscalizar se o meu dinheiro foi bem empregado.

– Vai tomar no seu cu Angélica. Que porra doida é essa? Eu não pedi para você mandar ninguém e nem gastar o seu rico dinheiro.

Ao dizer isso, Márcio se lembrou do que Tarsila havia lhe dito na noite anterior e entendeu que na verdade, a arquiteta foi verificar se havia alguma coisa de errado.

– Pode ficar tranquila dona Angélica. Não tem nenhum vestígio da senhora aqui dentro, exceto esse que acabou de deixar. Se quiser, eu limpo tudo e mando as fotos para o seu deleite e suas manias.

– Quer ficar quieto e parar de dizer besteiras.

– Afinal o que a madame quer comigo? Pensei que fôssemos nos ver somente a noite!

– Estou sabendo que você foi pedir demissão hoje. O que você tem nessa sua cabeça? Minhocas?

– Eu achava que tinha algum juízo até que entrei na porra daquele bar para afogar as magoas, conversar com um copo e acabei aqui, tendo que ouvir uma dondoca que tem mania de mandonismo. Acha que pode tudo só porque tem dinheiro.

– Quer o meu dinheiro enquanto eu fico com a sua vida? Vamos ver quem é mais feliz?

– Deixa para lá. Diga-me o que foi desta vez.

– Você já recebeu as fotos da mulher misteriosa?

– Ainda não!

– Eu sei quem estava naquele carro de ontem à noite. O automóvel eu dei de presente para Rosângela quando nos casamos. Reconheci o carro e a letra do bilhete. Foi ela quem escreveu. Resta saber quem estava com ela dentro do carro ou se estava sozinha.

– Perguntasse-lhe. E a propósito ela já embarcou?

– Já! Optei por não falar nada! Não ia adiantar criar mais uma briga. Ela negaria, tergiversaria. Enfim, o tempo era pouco para muita discussão. Optei por dar uma resposta silenciosa. Nos falamos muito pouco desde ontem à noite. Só lhe repassei tudo o que já tinha feito para a estadia dela na Alemanha.    Resolvi deixar a coisa esfriar. Falar de cabeça quente só pioraria aquilo que já está ruim. Aprendi que não se deve reagir, mas agir e quando o sangue está quente a reação normalmente é prejudicial a todos.

– Muito bem, minha cara madame endinheirada.

– Vai tomar no seu cu, Márcio!

O repórter olhou para a arquiteta e começou a rir. Em seguida, lhe disse: -Sabia que é feio meninas de família falar palavrão”. E deu gargalhadas que foi acompanhada pela arquiteta.

– Aqui não precisa mandar o tempo todo. Desça do salto para ser feliz e as coisas ficarão bem melhor para você e para o seu irmão. Comigo não tem essa de status, posição social. Não coloco dinheiro em primeiro lugar e sim pessoas, mesmo que elas não observem da mesma forma que eu. Mas aí é com elas. Não posso esperar o outro para girar a chave que pode iniciar uma transformação significativa em nossa sociedade.

– Ajude-me por favor, Márcio!

– Antes vamos resgatar o seu irmão. Talvez ele possa te dizer muito mais coisas do que eu. Quem sabe ele lhe apresente o mundo dele, como Tarsila mesma disse. Um universo poético. Para contemplar as estrelas, não precisamos abandonar a vida na terra. Basta termos olhos para elas, conversar diariamente e deixarmos de ficar com rosto enfiado no chão, no caminhar, no saldo da conta bancária. Para ser feliz, você não precisa abrir mão do seu dinheiro. Só não pode deixar que ele engula a sua humanidade.

– Está certo então! Você me envia a foto dela? Estarei por perto do bar. Sabe aquele outro local em que me procurou? Aguardarei lá.

– Olha lá em Angélica. Não vai fazer nada que possa fazer o plano dar errado. Caso algo saia do controle, esqueça o Amadeu.

– Tudo bem. Tenha uma ótima tarde.

Angélica disse isso, estendendo-lhe a mão para um aperto, como quem quer manter certa distância do corpo do outro.

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