Olhar Crítico

Sentimentos e emoções

Começo meus aforismas dominicais depois do Carnaval que não houve – mesmo que muitos incautos tentaram, a vida vem em primeiro lugar –, abordando um pequeno fragmento do romance que acabei de ler: O fazedor de velhos, publicado em 2019 pela Companhia das Letras e construído pelo escritor Rodrigo Lacerda. Num determinado trecho da enunciação, um dos protagonistas do enredo tasca-nos o seguinte olhar: “Vocês conhecem alguma coisa mais interessante do que as emoções humanas?” (SP: Cia das Letras, 2019, p. 137). Claro que a leitura, por ser algo individual e um diálogo entre a enunciação e o leitor, a pergunta pode ser enquadrada no campo do indivíduo individualizado, mas eu aqui, posso torná-la algo coletivo a ponto de buscar compreender o meu eu que se desloca do texto para o meu leitor dominical.

 

Pandemia

Por exemplo, na semana que se passou muitas coisas foram tematizadas na cidade, principalmente a questão pandêmica. Sendo assim, eu vos pergunto meus caros leitores, qual é a emoção que um cidadão é portador quando entra num estabelecimento comercial e há uma indicação que não pode permanecer em seu interior sem máscaras. Mas ele finge que não tem nada e que o mundo é belo e maravilhoso. Creio que só pode ser o desejo de transgredir as regras, normas de convivência em sociedade. No momento em que vidas são levadas de roldão pelo vírus, não é concebível o desenvolvimento de sentimentos movidos pelo ego e pela ideia de que se é superior aos demais ou pensa-se ser o Super-homem. Lamentável porque a ciência apresenta dados e faz recomendações e o cemitério está ficando abarrotado de corpos, além das várias criptas. Muitos desses cadáveres foram, em vida, vítimas da insensatez de muitos outros. Pensemos!

 

Lotação

Também é significativo o meu leitor analisar a problemática que a Santa Casa de Penápolis vem enfrentando por conta do estrangulamento no seu sistema de internação. Conforme matéria divulgada por este jornal, num determinado momento da semana que terminou ontem, o hospital estava com 100% de seus leitos para internação ocupados. O que isso significa? Que se a coisa piorar e os casos de Covid-19 aumentassem assustadoramente, a situação colapsaria, a exemplo do que aconteceu em Araraquara. Então, entendo que não adianta cobrar das autoridades, se cada um não fizer a sua parte. A situação dessa pandemia me faz reportar às questões políticas. O brasileiro escolheu quem para ser o seu governante máximo e por que o fez?

 

Progresso

Posto isto, e voltando às temáticas trabalhadas nos aforismas anteriores aos postados hoje, é que fico com a sensação de que ainda temos que melhorar muito enquanto espécie humana para entendermos o que de fato significa a frase inicial desta coluna de hoje. Do meu lado de cá da escrita, fico lutando para digerir as violências simbólicas praticadas cotidianamente com muitas das pessoas que lutam diariamente para sobreviver. Sim. Sobreviver, pois vende o almoço para comprar o jantar. Mas isso não está sendo possível por conta da postura de muitos em não seguir o que os cientistas dizem o que deve ser feito. A ciência não faz milagres, ela apenas, depois de muito trabalho, consegue proporcionar condições para que a qualidade de vida melhore. Desta forma, como dizem os historiadores, se a peste negra foi transportada nos lombos dos ratos por pulgas que se abrigavam na sujeira daquele período, como o traslado é realizado no presente?

 

Exemplos

Durante o momento em que eu escrevia essas linhas as informações que circulavam pela cidade davam conta de que em 24 horas, ou seja, num dia, 13 novos casos do covid-19 surgiram em Penápolis. Como isso é possível? Circulação simples de pessoas, ou falta de conscientização e prevenção? Ou consequência da síndrome de super-heróis que muitos carregam, achando que com eles não vai acontecer? Entendo que as perguntas acima são significativas para todos nós, pensarmos. As aulas estão sendo retomadas paulatinamente, mas não adianta fazer o estudante e a equipe técnico-pedagógica seguir todos os protocolos se o maior exemplo deve vir de casa e lá, todos se acham acima dos preceitos definidos pela ciência e os cientistas.

 

Prioridade

Outro dia uma de minhas leitoras me disse que a prioridade no presente é a saúde. Tendo a concordar com ela, contudo, é preciso saber primeiro como seria essa priorização: no combate, na medicalização, na remediação ou tudo junto como consequência duma prevenção? Está última é uma forte intervenção para conter a problemática pandêmica? Há quem desacredite no poder letal do vírus porque não conhece ninguém que foi a óbito ou conhece alguém que ficou doente. Penso que, “não é porque ainda não morreu ninguém de minha família que a morte não existe”, então prevenção desde o princípio. Tem que ser bem objetivo nesse ponto para fazer o cidadão entender a gravidade do momento em que vivemos. É necessário para de crer em verborragias toscas e eleitoreiras e colocar mais atenção ao que diz a ciência.

 

Trânsito

Se a cidade tem aproximadamente 53 mil veículos trafegando em suas cercanias, significa quase um automóvel por habitante, levando em conta que a Princesa da Noroeste tem cerca de 67 mil habitantes. Se dividirmos o número de carros por 5 saberemos que há uma superpopulação de carros. Será esse o motivo pelo qual nenhum governante penapolense, nos últimos 16 anos, não se dignou em municipalizar o nosso trânsito? Explico. Quando se torna o município responsável por administrar o seu trânsito, inclusive aplicação de multas de solo e aérea, o valor inclusive do IPVA vem 100% para os cofres da Prefeitura, todavia, são valores carimbados, ou seja, somente podem ser alocados para o setor. Daí a criação da Guarda Municipal que, falou-se muito isso aqui e ali, mas tudo não passou de verborragia para palanque e “inglês ver”. Confesso-te meu caro leitor, que não sei se essa é política do novo prefeito que já se envolveu em polêmicas desnecessárias. Preferiria seguir uma boa gestão, mas até agora só estou vendo madeiras para féretros. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Por hoje penso que é só, meus caros leitores dominicais. Já que comecei meus aforismas com uma obra literária, entendo ser de bom alvitre terminar com outra. “No meio do inverno aprendi, finalmente, que havia em mim um verão invencível” [Albert Camus, Retour à tipasa]. Esta é a epigrafe do romance Muito além do inverno, da escritora chilena Isabel Allende. A obra me acompanha desde as minhas primeiras linhas destes olhares deste domingo. A semana que vem posso dialogar com vocês, meus caros leitores, sobre o conteúdo. Por hora, máscara no rosto que cubra a boca, nariz e cuidado com os olhos, mãos e álcool gel. gilcriticapontual@gmail.com, d.gilberto20@yahoo.com,   www.criticapontual.com.br.

 

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