Sobras de um amor …

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“Pra variar, o cara está atrasado, como sempre”, Márcio exclamou em pensamento, indicando que seu editor tinha por hábito nunca chegar no horário. Então enquanto esperava, o repórter foi até a tevê, acessou seu canal fechado sintonizando um dos dedicados à música que tinha à disposição. A primeira canção, cujos acordes encheu a sala, levou-o há algum lugar que não gostaria de ter estado, mas se sentou na poltrona, deixando a mente vagar a esmo, mas ela foi preenchida pela face de uma mulher que levou o jornalista a fechar o cenho como se estivesse experimentado algo muito amargo.

Meneou a cabeça para todos os lados, tentando tirar aquela imagem de memória, indicando que travava uma árdua batalha com um mundo que só ele conhecia e vivia fugindo dele. Como as lembranças não lhe abandonava, jogou o corpo para trás, deixando a cabeça repousar na poltrona e quando estava começando a pegar no sono, foi despertado pelo barulho do celular, e, meio trôpego atendeu à ligação.

– Alô Marcio, estou aqui na porta do seu prédio te esperando. Desce logo, antes que o tempo desabe novamente e ai a nossa foto ficará sabe-se lá para quando!

– Já estou descendo! Um minutinho só!

Quando estava dentro do elevador, o celular tocou novamente. Márcio foi conferir o número que estava chamando e observou ser de alguém desconhecido, pois não havia nenhum registro anterior. Ao dizer alô, o repórter ouviu a seguinte mensagem: – “Saudades dos tempos em que escutava as sinfonias musicais propostas pelas claves sonoras apresentadas pelas estrelas”.

Assim que a mensagem terminou a ligação caiu e Márcio tentou entrar em contato com o seu interlocutor, mas uma voz mecânica lhe dizia: “o número chamado não existe”. Antes de chegar ao saguão do prédio, fez mais três tentativas e todas elas diziam a mesma coisa. Desistiu, mas ficou com aquela voz na cabeça como se fosse uma melodia fantasmagórica.

Ao chegar ao térreo, se deparou com o seu chefe, com um olho na portaria e outro no relógio, como se estivessem muito atrasados para um compromisso importante. “- Porra Márcio! Tu tá atrasado, meu amigo”, disse o editor numa mistura de raiva, ironia e impaciência.

– Olha quem fala em atraso. Estou aqui faz um tempão te esperando e quando chega quer me dar uma dura, como se ainda estivéssemos na redação. Cai na real cara! Aqui fora não sou seu subordinado e posso te dar um chute nessa sua bunda esquelética!

Disse ao chefe em meio a sonoras gargalhadas, pois antes da relação funcional no jornal, eram amigos, mas não aqueles que segredam tudo, falam da mulher alheia, dizem com que estiveram na noite anterior e como foi a foda com aquela “deusa” espetacular. Márcio era mais reservado, falava pouco sobre essas coisas. Tinha uma certa desconfiança de tudo e de todos, além de não gostar de se ufanar de sua intimidade ou da ausência dela.

Abraçou o amigo-chefe e abriu a porta do carro quando as primeiras pancadas de chuva desabaram dum céu turvo e rasgado por rajadas de raios que iluminavam tudo. “- Bom! Para onde vamos com essa chuva do caralho? Não vamos encontrar uma viva alma nessa cidade atrofiada pela ignorância!”.

– Pare de reclamar da cidade! É aqui que você mora. É dela que você tira a sua alimentação. Se quer mais, então faça e deixe de reclamações. E a propósito, gostei do artigo que escreveu sobre aquele maluco que você vive perseguindo para que tenha uma excelente reportagem. Se eu fosse ele, te mandava tomar no cu com muita força, além de te esmurrar por ficar bisbilhotando a vida alheia.

– Jornalista existe não para dizer o que está às claras, mas para informar o leitor sobre aquilo que as pessoas, seja lá por qual razão for, quer encobrir, principalmente os políticos. Essa raça maldita que vive como parasitas de nossa sociedade, sem que o povo consiga expurgá-la. Mas um dia, um dia, ainda vou ver gente honesta ocupando o poder.

– Aí não será mais nesse mundo! Talvez dentro da sua cabeça, pois a política é isso! Ela está em todos os lugares e funciona como a arte das possibilidades. Você já viu casamento harmônico sem a tal da política? Você acha que a mulher não sonha com outro homem quando o seu marido chega em casa cheirando a cerveja e a barriguinha começa a cair sobre o cós da calça? Quando o namoro começa, a moçoila fica toda perfumada e o moço todo cuidadoso, cheiroso. Quando se encontram, mil promessas são feitas. Um tempo depois do casamento, só com muita política para continuarem dividindo a mesma casa e cama. Se fizeres uma pesquisa e os consultados forem sinceros consigo mesmos, saberá que tem muitos casais que dividem o mesmo leito nupcial, porém, está mais longe um do outro do que duas pessoas que se comunicam a distância, contudo, estão mais afinados do que muitos casais que conhecemos. Vai por mim, Márcio. E deixe de lamúrias.

Depois dessa conversa, falaram sobre os locais possíveis e tiraram no par ou ímpar e foram para um barzinho em que haviam vários ambientes, com estacionamento coberto, portanto, a chuva não incomodaria seus frequentadores.

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