Sobras de um amor…

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         A cidade amanheceu castigada por um forte temporal e Márcio, novamente abre os olhos depois de uma bebedeira de fazer inveja aos maiores alcoólatras da terra ou até mesmo daqueles jovens que vivem fazendo apostas idiotas em festas que, sem ter o que fazer ou coragem o suficiente para se declarar à garota amada, se colocam em disputas imbecis como a de ver quem bebe mais e fica em pé.

Dentro da cabeça de Márcio, o mundo girava, enquanto lá fora parecia que tudo acabaria em água. Lentamente o jornalista foi se lembrando do dia anterior em que emendou com a noite um copo atrás do outro, garrafa após garrafa, como fazia nos tempos da Universidade em que se sentava à mesa com um grupo de amigos e bebia até não aguentar mais. Aquele que ficasse bêbado primeiro pagava a conta e ia embora a pé. É claro que isso não acontecia. O pau d’água – como era chamado – limitava-se a apenas pagar a conta, pois não tinha a menor condição de ir para a república sozinho. Precisava ser conduzido pelos que estavam mais sóbrios.

Sentado no sofá de sua sala, enquanto as memórias do ontem povoavam seus neurônios, a vergonha tomava conta do seu ser. Para fugir dessas recentes recordações, correu para o chuveiro, como se a água e o banho lhe devolvessem a sanidade. Enquanto o barulho do chuveiro era confundido com a chuva torrencial, Márcio tentava entender o que vinha lhe acontecendo nos últimos dias: tentava escrever a história de um sujeito que mais se parecia a uma daquelas moscas que vivem varejando dentro dos botecos, sentando nos copos daqueles alcoólatras que não têm mais nada, exceto aquela dose de cachaça para esquecer as agruras da vida. Todavia, essa mesma fonte não lhe dera nada de concreto, apenas retalhos de algo que, até então, parecia sem pé nem cabeça. Ou seja, não tinha nada e já foram vários dias de trabalho, ou melhor, de porres homéricos.

Deixando o banheiro, meio seco, meio molhado, caminhando ressacado até o quarto, quando escutou o celular tocando. “-Alô”, disse o repórter, sentido a própria voz explodir dentro do cérebro atormentado pelo excesso alcóolico do dia anterior.

– Aqui é Roberto! Você precisa escrever algo dessa história para este domingo. Você disse que é sensacional. Publicamos apenas o que seria o embrião. Vou fechar as páginas frias hoje e quero esse texto aqui comigo até às 16h!

– Não dá Roberto! Não tenho nada de concreto! O cara não abre a boca, não fala nada que tenha conexão com o que possa ser publicado em nossa edição de domingo.

– Se vira, meu chapa! Faz duas semanas que tu estas nessa conversa e ainda não nos trouxe nada de concreto. Só conjecturas. Teu prazo é quatro da tarde! Do contrário, pode passar aqui segunda-feira para assinar sua demissão. Nunca vi repórter tão enrolado quanto você, meu caro!

Seu editor desligou e Márcio, ao invés de se sentir melhor com o banho, ficou pior. A cabeça lhe arrebentava e agora o fantasma da demissão começava a lhe assombrar. “O que fazer?”, perguntou-se a si mesmo. Só tinha uma saída: escrever algo a partir do que imaginava ser uma história e mandar para a redação e ver no que ia dar. Se não desse em nada, ou fosse reprovada pelo editor, pediria um prazo até sábado de manhã e reescreveria ou inventaria algo.

Antes de empreender nesta jornada enunciativa, já que seria um enredo baseado em impressões costuradas com a sua imaginação narrativa, pensou no que ia comer, mas o estômago avisou que não cabia nada lá dentro, pois o órgão estava recheado de álcool.

Pensou, pensou e decidiu por fazer um chá. Mas qual? “Acho que preciso de uma carqueja para desentupir tudo”, falou de si para si. Abriu o armário tirou pequena caixa contendo saquinhos com a erva. Colocou água para ferver e enquanto isso, criava mentalmente um título para a sua matéria. Podia ser qualquer um, já que era só para preencher espaço e ganhar uma sobrevida no jornal e mais uma semana para arrancar a história de Amadeu.

Márcio, pela experiência que tinha com a escrita, sabia que enquanto não escrevesse o título não sairia nada. Nesse intervalo, entre seu pensamento, a dor de cabeça e o chá, a chaleira apitou que a água estava pronta para a efusão das ervas. Pronta a bebida, levou-a para a sala, abrindo o notebook, tentando deixar as ideias se organizar, mas aquela maldita dor de cabeça não o deixava pensar. Olhou no relógio, 14h. Tinha exatos duas horas para escrever algo que ocupasse meia página do jornal e pela importância da matéria, a mesma seria publicada numa página par, ou seja, sem a menor visibilidade para os leitores. Então, não haveria nem chamada de capa, mas a enviaria com um pequeno texto sugestivo.

Ao voltar-se para a tela do computar, veio-lhe à mente: “Delírios duma mosca de boteco”. Já que era uma coisa que poderia ser verdade ou não, a exemplo dos mitos, então um título desse seria interessante. “E agora a linha fina? O que escrever?”, pensou o jornalista. “Conversas com um misto de mendigo e intelectual sobre suas aventuras amorosas na rede mundial de computadores”. Foi pensando e escrevendo um pequeno texto para chamar a atenção dos seus quase leitores.

Sorveu um gole do chá amargo, fez careta, mas assim que o líquido chegou ao estômago, correu para o banheiro se não vomitaria em cima do equipamento. Voltou com as têmporas saltitantes e uma dor dilacerante no alto da cabeça e a pele toda arrepiada. Olhou para a caneca e decidiu enfrentar mais um gole, mas ia esperar as sensações passarem. Voltou-se para o texto. Olhou para a tela do computador e achou melhor começar com uma pergunta que o seu interlocutor tinha lhe feito logo no primeiro gole de uísque.

“- Por que brigamos com que amamos?”, perguntou-lhe o seu amigo de copo e mesa.

“- Ora meu chapa, não posso lhe dizer. Não conheço esse bicho chamado amor. Dele só entendo que é um verbo que costuma complicar a vida das pessoas por ser intransitivo, contudo, transita pela vida da gente sem que lhe demos licença para tal. Por isso, corro dele até no conjugá-lo”, respondeu o parceiro de copo, levantando a garrafa de uísque fazendo menção a um brinde.

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